A alma do outro mundo/V

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A alma do outro mundo por Guimarães Júnior
Capítulo V

A milionária não pôde suportar por muito tempo a ausência da afilhada. Grande amor que lhe tinha? Sinceros desejos de fazer venturosa aquela gentil menina, tão digna de pisar as sodas da opulência e sentar-se aos fartos banquetes da felicidade?

Não sei, nem é da minha competência entrar nesses labirintos femininos de onde raramente consegue o curioso salvar-se com munições e bagagens. A alma humana é enigmática, e a alma da mulher é incompreensível. Um capricho, um simples capricho, às vezes, decide do futuro dessas criaturas adoráveis e adoradas, a cujos pés espalhamos com o mesmo sorriso, a mesma crença, as mesmas aspirações, as flores da mocidade e os tesouros da velhice.

A comadre de José Paz já não pertencia à elegante falange das rainhas da sociedade, cujo leque tem mais força e soberania do que os cetros reais.

Ela ia declinando como um belo dia de verão, e por seu rosto, outrora encantador, estendiam-se lugubremente as névoas do crepúsculo e o frio da noite.

Passara essa senhora a sua mocidade derramando com prodigalidade espantosa pelos salões e pelas festas inebriantes todos os momos da faceirice e todas as gentilezas da mais tentadora filha de Eva.

No Recife era altamente considerada, e o seu nome ocupava um dos primeiros lugares nos arquivos da sociedade do fino tom.

Ninguém melhor do que ela passeava sobre o tapete das salas as deslumbrantes toaletes, e Celimena invejar-lhe-ia o manejo do leque palpitante.

Foi a dama, a princesa. a leoa dos bailes pernambucanos. Reservo o seu nome na mais secreta página da minha carteira, por não me ser dado estampá-lo em um escrito que será lido com certeza por... 15 a 16 pessoas!

A milionária amava Rosinha. Por impulso espontâneo de coração, por originalidade, por excentricidade, por extravagância mesmo, se admitirmos a palavra, mas amava sobejamente a formosa filha de José Paz.

Rosinha fazia-lhe o efeito das flores franzinas e débeis que crescem à sombra da árvore protetora.

Ela sentia um certo orgulho, uma louvável vaidade em amparar aquele meigo fruto do mato, que veio por acaso medrar à sombra de sua fortuna. Não era unicamente a amizade que a impelia aos braços de Rosinha; era, mais do que tudo, o desvanecimento, o entusiasmo promovido pela prática das ações generosas.

Este é o segredo da alma da mulher; a mulher ama ou odeia; não há meio termo. Dentro desses dois sentimentos transparece por vezes a vaidade, espécie da meia tinta, meio clarão e meia sombra para a harmonia do quadro.

Rosinha tornou-se necessária à existência da milionária, como o cold-cream, o pó de arroz à la maréchale, a pedra transparente e o perfume do frangipane e do feno.

Era um fragmento de sua vida, de seus gozos, de seus devaneios, de sua personalidade até. Se lhe faltasse, a ela, à opulenta dama, aquele meio de expandir os seus recursos morais e monetários, morreria decerto.

Contam por aí as crônicas galantes a delirante afeição de senhoras de elevado merecimento social por coisas de pouco apreço. Uma expira vendo agonizar o seu king-charles predileto; outra encerra-se na mais profunda hipocondria pelo simples fato de ter o seu namorado extraído do rosto um par de suíças flamejantes; outra perde-se, porque através de sua vida futura distinguiu as fímbrias felpudas de um xale de casimira inglesa; outra, finalmente, engole duas colheradas de arsênico porque, no último baile a que esteve presente, sua rival granjeou maiores ovações do que ela, e foi geralmente considerada senhora de mais apurado gosto na toalete.

Era naturalíssimo, portanto, o amor da milionária pela afilhada; pelo menos mais simpático e honesto aos olhos do mundo superior.

Depois da soirée, várias amigas da ricaça perguntaram-lhe pela menina do Jordão.

— É bem bonita! — dizia uma.

— Não parece do mato! Tem um dégagé!

— Ela aproveitou-se um pouco das minhas lições — acudia a milionária orgulhosamente. — O que lhe posso garantir é que Rosinha é um anjo!

— Ou um demônio!

— Que diz?

— E então, minha amiga? As mulheres formosas são em geral a tentação da humanidade. Não me consta que os serafins tentem ninguém!

— Deixe-se de graças!

— Onde mora ela, mesmo? Em um arrabalde, não?

— Meia hora de viagem pela estrada de ferro. Sabe onde é os Prazeres?

— Seja onde for. É perto daí a casa de sua afilhada?

— É. Mora no Jordão.

— Bonito lugar?

— Qual! Uma miséria! Lugar de pobres!

— Logo, a sua Rosinha é a feiticeira do Jordão?

— Justamente, é uma feiticeira virtuosa, o que vem a ser raro. A senhora nunca foi por aqueles lados?

— Nunca. De Pernambuco só conheço o Recife, Olinda, e um ou outro arrabalde!

— Para uma elegante é quanto basta.

— Quando veremos de novo a sua afilhada?

— A todo momento. O pai é uma onça. Espuma de cólera quando lhe roubo por algumas horas a menina. Mas jurei aos meus santos fazer de Rosinha uma perfeita moça!

— Com tal mestra, nada é impossível.

— Ao menos no futuro dirão que eu servi para alguma coisa!

E a milionária sorriu com os seus 32 dentes cintilantes.

Era, pois, Rosinha, tema de diálogos espirituosos em plena capital. Ela, a flor do mato, o lírio escuso e recatado, a branda açucena do sertão, sujeita às analises picantes de um mundo artificial e hipócrita! Mas, desde a hora em que o pé da moça calca o tapete de um baile e volteia aos pérfidos afagos da orquestra, a sociedade apodera-se dela como a multidão de um livro impresso, que, embora traçado entre lágrimas, serve de tema, tanto ao estudo dos sábios como ao idiotismo dos imbecis.

Às nove e meia horas da manhã, a milionária chegava à porta da casa de José Paz. O matuto estava fora; Rosinha, que nessas ocasiões ficava sempre em companhia de uma velha mulher da vizinhança, correu a abrir a porta, conhecendo as pancadas, como o maçom as simbólicas palmas do templo.

A ricaça, rubra e abrasada, gotejava por todos os poros. A seda roçagante do seu vestido amoldava-se ao corpo em vastas nódoas, produzidas pelo suor e pelo cansaço.

Atravessou como uma avalancha o limiar da casa da afilhada, e caiu, antes deitada que sentada, em uma espécie de sofá ou jirau que havia na saleta.

— Minha madrinha!

— Ah! minha filha! Ah! minha filha! Que sacrifício! Que horror! Que calor desesperado! Eu morro!

— Venha para o meu quarto.

— Não; espera um pouco. Deixa-me respirar o ar fresco. Decididamente, se eu andasse um quarto de hora mais, morria!

— Que prazer me deu em vir cá! Tenho estado tão aborrecida!

— Vamos para o Recife. Queres?

Rosinha sorriu com ternura:

— Se eu pudesse!

— Ora essa! Quem te proíbe?

— Papai!

— Sempre queria ver isso!

— Olhe, minha madrinha — replicou Rosinha abaixando a voz -, há coisas que a gente custa a acreditar, mas... acontecem.

— Por exemplo?

— Meu pai ficou furioso desde o dia em que eu vim do Recife.

— Hei de perguntar-lhe! Deixa estar!

— Pelo amor de Deus, nada lhe diga. Aí está dindinha Paula que é capaz de contar tudo, quando ele chegar. Fale baixo!

— Vamos ao teu quarto então. Sinto-me mais aliviada. Safa! Que calor!

A distância da estação da Boa-Viagem ao Jordão é sofrível; uns 20 minutos de passo regular.

Habitualmente a milionária tomava um cavalo na estação, ou fazia o itinerário a pé com a fresca da tarde.

Naquele dia o ar abrasado acometera-a com toda a arrogância, e ela por infelicidade não pôde encontrar condução possível até a casa de José Paz. Por um capricho naturalíssimo afrontando o sol, a poeira e a fadiga, a milionária atravessara o espaço que a separava do Jordão, como se estivesse na Boa-Vista saboreando o panorama que da rua da Aurora se desenrola sobre o rio e sobre o mar.

Rosinha conduziu-a ao seu quarto, nu dos ornatos e galanterias, que formam o bem-estar das alcovas das moças em geral. Apenas na parede, mal caiada, viam-se duas imagens emolduradas toscamente: Maria Madalena e o Nascimento de Jesus.

Os lençóis da cama da menina é que luziam como corolas de lírio ou pendões de jasmins.

Um brando aroma de inocência, de malvas e de boninas enchia o compartimento. Sobre o lustroso tijolo do assoalho espalhavam-se pétalas de uma flor dourada.

— Andaste despencando flores, menina?

Rosinha sorriu docemente, cobrindo-se de um rubor ideal.

— Foi uma malmequer — disse ela, desviando os olhos. — Eu quis saber se seria feliz neste mundo!

— E então? — continuou a milionária excitando com delícias o enleio da gentil criança.

— Não hei de ser, não, minha madrinha. A última folha disse que não.

— Vem cá. Abraça-me. Quero-te cada vez mais e, com toda a certeza, hás de ser alguma coisa para o futuro!

Rosinha beijou a mão da milionária, e pendeu o ouvido para a janela escancarada do quarto. Chorava sobre uma pitombeira um sabiá da serra.

A menina pôs o dedo sobre o lábio, reclamando silêncio. Depois, cravou os risonhos olhos nos olhos da madrinha, e:

— Aquele sabiá — disse ela — cantava esta manhã quando eu desfolhei o malmequer, pensando em minha vida.

— Bom agouro então! Repara como ele dobra O canto! Olha! Olha! Bravo! Parece que estão derramando moedas de ouro dentro de um prato!

O sabiá terminou o melodioso gorjeio por uns trilos penosos e ternos.

— E agora! Veja, minha madrinha, veja agora! Este choro tão triste não será a imagem do meu futuro?

O sabiá abriu as asas e perdeu-se entre os galhos da mata obscura.

A milionária falou em teatros, bailes, toucados, e outras banalidades graciosas de seu mundo oficial. Rosinha escutava-a como um pássaro escuta as variações do Carnaval de Veneza em uma flauta saltitante. Eram harmonias novas para o seu coração ainda puro e ignorante; segredos e mistérios encantadores que a assaltavam, sem turbarem sequer o remanso angélico de sua alma peregrina!

O nome de Adriano Carvalhal entrou no diálogo.

— Ele fala-me de ti 24 vezes por dia.

— É um moço simpático — disse Rosinha, corando de leve -, o único — prosseguiu ela, para disfarçar o seu enleio — que eu conheci naquela noite.

— Posso-te garantir que é um rapaz distinto na extensão da palavra — volveu a milionária. — A propósito: o que dirá teu pai se ele cá vier?

— Aqui, ao Jordão?

— Sim.

— Oh! Minha madrinha, não caçoe!

— Por quê? Achas que isto é pior que a fortaleza das Cinco Pontas?

— Não, mas um moço do Recife pisar a cabana de um pobre! Nossa Senhora nos defenda!

— Pois ele pediu-me que eu o trouxesse. Até quis vir hoje mesmo!

— Oh!

— Pareces-me tola, Rosinha! Deixa as outras serem matutas; faz-te uma moça da cidade, que para isso te eduquei eu! Ora, não se viram! Esta senhora com vergonha de receber em sua casa um moço com quem dançou toda a noite! É falta de delicadeza, minha filha.

— Minha madrinha está me experimentando!

— Estou sim! Tens razão, estou te experimentando. Preciso indagar do que se passa por aqui, e eis o motivo por que falei em Adriano. Nem ele me disse nada!

Rosinha mordeu levemente o lábio.

— Ah! Não disse nada?

— Nada.

— Melhor. Que vergonha, meu Deus! Se seu sobrinho entrasse nesta casa!

— As melhores flores, meu bem, nascem nos mais rudes canteiros. Tu, Rosinha, és o bogarim do mato!

— Pobre de mim!

— Hei de trazer o Adriano um dia, ao Jordão!

— Pelo amor de Deus, minha madrinha!

— Ele é poeta e gosta dessas paisagens agrestes! Tu lhe aparecerás tal qual como estás agora; de cabelo solto e vestidinho de chita azul! A propósito: e o vestido que te dei?

Rosinha perturbou-se e volveu os olhos em redor de si. Tinha medo de mentir, a pobre rapariga! E ao mesmo tempo medo de denunciar as horrorosas sanhas de seu pai.

— Dei, minha madrinha.

— Hein?!

— Perdoa-me, sim? — acrescentou a menina beijando as duas mãos da velha elegante. — Foi um caso de esmola!

— De esmola!

— Uma menina dos Duros com quem me dou muito casou-se antes de ontem, e não tinha enxoval... A senhora não faria o mesmo?

— Tu és um anjo, mas um anjo que não deve viver no meio deste horroroso mato... Eu não dormiria descansada uma noite aqui!

— Com efeito!

Ouviram-se vozes na estrada. Rosinha reconheceu a de José Paz.

— Aí vem papai. Trate-o bem, sim, minha madrinha?

— Por que me pedes isso? Há alguma coisa contra mim?

— Esquisitices dele! Diz que minha madrinha só quer tirar-me de sua companhia!

— Toleirão!

— Quem lhe pede sou eu!

— Está bem. Não há remédio! O teu sorriso e os teus olhos, feiticeira, conquistam tudo!

José Paz não sentiu grande entusiasmo com a presença da comadre. Quando soube que ela viera apenas vê-lo e não roubar-lhe a filha, o matuto desenrugou a testa e desfranziu o sobrolho.

À tarde a milionária despediu-se, e foi, acompanhada por José Paz, esperar na estação a passagem do trem.

— Só muito amor por sua filha, compadre, me faz dar estes passeios!

— Eu sou um homem arreconhecido, comadre.

Chegando a casa, o matuto perguntou ansiosamente à filha se se tratara do vestido, do leque, e dos livros queimados.

— Eu disse — respondeu Rosinha, com certa impaciência — que tinha dado o vestido a uma noiva da minha amizade.

— Fizeste bem, filhinha. Dá cá um abraço!

As impertinências do matuto já atormentavam a menina. Mais de uma vez ela recebera o grunhido paterno com uma espécie de aborrecimento visível. Olhava para o céu e perguntava a Deus o motivo por que ele havia semeado tanta formosura e tanta pobreza, tanta falsidade e tanta fortuna no mundo.

Um dia recebeu Rosinha das mãos do criado da madrinha uma carta, em cujo sobrescrito lera o seu nome traçado por pena desconhecida.

O crioulo retirou-se, anunciando-lhe que viria buscar a resposta meia hora depois.

José Paz não estava em casa, e a velha companheira, a dindinha Paula, aproximou-se cambaleando.

— É uma carta de minha madrinha. Quer que eu vá ao Recife, mas vou responder-lhe que não posso!

Ela mentia a si própria, e o coração acusava-a pela primeira vez na sua vida, pulsando vivamente, a ponto de atordoá-la. Correu ao quarto; fechou a porta e abriu com as mãos vacilantes e geladas a carta misteriosa. Assinava-a o nome de Adriano Carvalhal.

“Tremo, escrevendo-lhe esta carta. Desde aquela noite da soirée, Rosinha (perdoe-me tratá-la assim), sua imagem me segue como a luz, como o ar, como o sangue, como a existência. Amo-a de toda minha alma; idolatro-a com todas as minhas crenças de mocidade.
Nunca mais se lembrou, não é verdade? Nunca mais se lembrou daqueles momentos venturosos que o céu me concedeu com uma prodigalidade indigna de mim.
As minhas palavras, o meu sentimento, as minhas aspirações, doce criança, correram sobre o seu coração límpido como as asas negras de um agouro, ou as negras asas de um crime.
Recorda-se da música, recorda-se dos vestidos, dos perfumes, das estrelas daquela noite, mas de mim? De mim é impossível que conserve uma lembrança, anjo da beleza e da virtude!
Mas eu adoro-te, Rosinha! Rosinha, eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!
Rosinha! Desfolho o teu nome na minha boca, e, sílaba por sílaba, o decoro como o faminto ou o sequioso de morte.
Quero ir lá vê-la um momento, um minuto, um segundo, um pensamento.
Responda-me uma palavra: diga-me: 'sim' e far-me-á feliz como se pode ser debaixo da misericórdia de Deus. Se não me escrever pronuncie a palavra, faça um simples aceno ao portador, e isso me bastará.
Creia que eu a amo, amo! Nem sei o que escrevo! Onde está a eloquência do amor, senão no fogo dos seus olhos, Rosinha, e na perturbação invencível de meu espírito?
Responda-me, alivie-me, salve-me! Eu aqui fico, trêmulo e assustado, como um malfeitor que espera a sua condenação ou a sua liberdade. Seja boa, tanto quanto é formosa.
De joelhos lhe peço: ampare-me e creia no meu amor.

Adriano Carvalhal.

”

O portador veio pedir a resposta. A menina lutou por alguns momentos, mas, enchendo-se de uma força heróica, exclamou:

— Resposta! Não tem resposta esta carta!

E; fechando-se no seu quarto, desatou em prantos e soluços com o rosto afogado nos travesseiros.