A temerosa Olinda é quem me escreve

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Cartas de Olinda a Alzira por Bocage
Epistola 6
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas. Ver Notas às cartas de Olinda e Alzira.
ALZIRA A OLINDA


A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua innocencia?
Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,
Dão-me a vêr que a discipula inexperta
Ha de em breve ensinar a propria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos.
Que tanto a angustiavam... Não sabia
Qual d′extranha mudanças em suas fórmas.
Em seus membros gentis a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais activo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolphar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero successo
Pretendes tu, querida, dar-me a gloria?
Não, não fui eu: sómente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida suggeriu remedio activo!

Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!

A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em letras,
Vejo, que annunciar-me antes procura
Após do que se ha feito o que se pensa,
Do que por gradações d′acção o int′resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a vêr todo.

Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando innocente
Menos recato n′ellas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a affectavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingenua confissão d′esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolphas.
Quero saber porque impensados lances
D′um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando abrazada em férvidos desejos
Misturados com dôr indefinivel.

De amor colhestes attonita as primicias,
E provaste entre gostos e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Elle te dá prazer, d′ella o confia:
Gasta os momentos, que gozar não podes,
Do goso em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sel-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d′escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo.
Saiba eu teus momentos deleitosos.

Mas vê que o sacrificio, que te peço,
Eu propria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh′alma!
Como só elle faz meus gostos todos!
Chamem embora apathicos estóicos
Ardores sensuaes os que me inflammam:
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Taes vilipendios valem o que eu góso:
Venha a rançosa, vã theologia

Crimes fingir, crear eternos fogos,
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que elles trovejam!...
Nos mais puros deleites embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não, amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuisos,
Quaes cabeças fataes d′hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não ha para os christãos um Deus differente
Do que os gentios teem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da oppressora politica productos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o offerece:
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu throno assenta em bases
Que firmam a Razão, e a Natureza.

Outra vez eu farei que estes dictames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando illusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões e Larvas,
Para os gostos da vida atassalhar-te.
Para a remorsos vis dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam

As emoções da propria Natureza:
Sê religiosa e Qi-me em pratical-as.

O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N′um momento desfez o que em tres lustros
Nescios pães procuraram suggerir-me.
Por habito adoptei de uns a doutrina,
Por gosto d′outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quão perplexa
Minha alma balançava entre os combates:
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma oppunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.

Foi n′este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: occulta força
Me impellia a adoral-o: não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o apparato
Olhava como um sonho!... É impossível
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d′ Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n′alta noute
Ao throno nupcial foi conduzir-me.
Ficamos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba.
Que ao tiro assustador vôa e revôa.
Aqui, e alli mal pousa, se levanta

Sem guarida encontrar, que ao p′rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inexpontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrazava.
Não sei que meigos termos n′este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, supplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso, sobre o leito
Me foi em fim lançar. Quando eu ardia
Em chammas de pudor, o mesmo incendio
Davam a Alcino soffregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciaes ornatos, e seus beijos
Convulsivos esforços, que lhe oppunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando affouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha accezo, então tomando
Mais activo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: Eu languida fitando
N′elle amorosas vistas, reclinei-me

Sem resistir-Ihe mais, sobre o seu collo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflammados beiços de tocarem
Occullos attractivos... longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr′ora passavamos unidas
Em innocentes brincos... feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubis, patentes foram.
Ao voluptuoso tacto palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nus, meu collo, eu toda estava
Coberta de signaes de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava.
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d′Hercules as forças
Alli vencêra... As minhas que fariam?
Co′as forças o pudor desfallecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!... Que divinaes fórmas!...
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!... Oh céo!... que encantos!...
Que graças apparecem espalhadas!
Que thesouros de amor sobre estas bases!...
Oh que prazer! que vistas deleitosas!...
Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
Deixa imprimir meus osculos aonde
Entre fios subtis se esconde o nacar!...
Deixa esgotar a fonte das delicias!...

Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!...
Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!...»

Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolphadas
Todas as sensações luctavam junctas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Communicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva acção, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu propria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebo impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emanação de intimos membros,
Que electrisavam fogos insoffriveis.
Inundou o instrumento das delicias.
Como se ao crime seu vibrassem pena.
Ou antes dessem premio: affadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veio ao meu unir seu rosto.

N′este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de suffocar activas chammas,
Scentelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.

A ardencia dos desejos combatia
Receio occulto, sem nascer do pejo.

N′um volver d′olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a vêr quam bem talhado
D′hombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pelle; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados.
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obeso.
Igual nas proporções... Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se.
Não tendo de um a rude valentia.
Nem tendo d′outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa ávidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao vêr do sexo as distinctivas fórmas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre as quaes, de chofre,
Asseslou o canhão, que me assustava.
Ao medo succedeu uma dôr viva,
Como se agudo ferro me cravassem...
Alcino impetuoso ia rompendo
A ténue fenda... Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia

Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lagrimas bebendo,
Respirando com ancia, e furibundo,
Com a bocca colada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagellavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros soffrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d′Alcino, a afflicção minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus esforços crueis para romper-me:
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpòr, carece de abater-lhe
Antes d′entrar, humbraes a que se encosta.
A violenta fricção traiu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me.
Da propria sanha aos impetos rendido,
Succumbiu, espumando horrendamente.
Da electrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda,
O insoffrivel ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Taes estragos causou, que mais valêra

A entrada franquear ao sitiante.
Já dôr não conhecia: chammejava
Meu proprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as veias parecia.

Na estancia do prazer lançara Alcino
Do Mont gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expôr-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a victoria, de triumphos cheia.
Tardava a meus desejos vêr completa
D′Alcino a empreza; eu mesma o provocára,
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse affouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dôr, bem que me espedaçasse.

Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edifício tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)
O muro se escallou!... Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei: em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reducto de amor o intimo accesso

Penetra entre meus ais, e os meus gemidos.
Outra vez attingiu supremo goso,
Goso celestial, cujos effluvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Qne socegou a dôr, chamando a vida,
Lethargicos alentos me abysmaram
N′um pélago de gostos indizíveis;
Elevaram-me a um céo d′immensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com phrenetico ardor, com ancia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma e vida;
Vozes, suspiros confundindo... tanto,
Tanto emfim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n′um momento
Ineffaveis delicias distillando
Alcino em mim, e eu n′elle ao mesmo tempo.
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades...

Minha Olinda, que instantes!... Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!...
Amarga, acerba dor succumbe ao goso
Da ventura sem par...Vitaes alentos.
Saborear não podem tantos gostos...
É preciso morrer entre deleites,
E fôra melhor não tornar á vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.

Sete vezes Amor chamando ás armas

Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Victoria!»
Da indefensa coragem conduzido
Morpheu veio c′roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D′Amor com as lições sublime vôo
Erguer affouta sobre o nescio vulgo!
Este odeia o prazer por vã modestia,
E as pudicas vestaes, escravas do erro,
Não cessam d′embair-nos, affectando
D′uma virtude vã mimicas fórmas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Victorias, que do erro heroes alcançam.

Toma das minhas mãos amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triumphos a ganhar cheios de gloria:
Docil tua alma a improbos dictames,
Docil será tambem de mais bom grado.
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tacteando abysmos;
Desapprende a fingir; só quadra ao vicio

Acoberta-se com mendaces roupas.
A modestia o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n′uma alma vil póde arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d′em torno a si, ver quão distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita
Eu não córo de dar-me toda a Alcino,
Nem eu córo tambem de confessal-o:
Instinctos naturaes se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?...
Se é innocente a acção, a voz não pecca;
D′est′arte saboreia o que estudaste,
E d′est′arte fallar, ah! não vacilles!...

Não te escuse o pensar que egual pintura
Objecto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre ha mudança.
Amor sempre varia os seus deleites,
Eu mostrei-te o modelo; em mim o encontras:
Usa da singeleza que te é propria
E abre o teu coração, cheio de goso,
Qual, antes de o provar, ingenua abriste.
Se expor da sorte infensa a crueldade

Dá lenitivo ao mal, que ss exp′rimenta,
Sobre-eleva o prazer á extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! annue aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.