Anexo:Imprimir/Ernesto de Tal
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ERNESTO DE TAL
Aquelle moço que alli está parado na rua Nova do Conde esquina do Campo da Acclamação, ás dez horas da noite, não é nenhum ladrão, não é sequer um philosopho. Tem um ar mysterioso, é verdade; de quando em quando leva a mão ao peito, bate uma palmada na coxa, ou atira fóra um charuto apenas encetado. Philosopho ja se ve que não era. Ratoneiro tambem não; se algum sujeito acerta de passar pelo mesmo lado, o vulto affasta-se cauteloso, como se tivesse medo de ser conhecido.
De dez em dez minutos, sobe a rua até o lugar em que ella faz angulo com a rua do Areal, torna a descer dez minutos depois, para de novo subir e descer, descer e subir, sem outro resultado mais que augmentar cinco por cento a colera que lhe murmura no coração.
Quem o visse fazer éstas subidas e descidas, bater na perna, accender e apagar charutos, e não tivesse outra explicação, supporia plausivelmente que o homem estava doudo ou perto d’isso. Não, senhor; Ernesto de tal (não estou autorisado para dizer o nome todo) anda simplesmente apaixonado por uma moça que mora n’aquella rua; está colerico porque ainda não conseguiu receber resposta da carta que lhe mandou n’essa manhã.
Convem dizer que dous dias antes tinha havido um pequeno arrufo. Ernesto quebrára o protesto de namorado que lhe fizera, de nunca mais escrever-lhe, mandando n’essa manhã uma epistola de quatro laudas incendiarias, com muitos signaes admirativos e varias liberdades de pontuação. A carta foi, mas a resposta não veiu.
De cada vez que o nosso namorado operava a descida ou subida da rua, parava defronte de uma casa assobradada, onde se dançava ao som de um piano. Era alli que morava a dama dos seus pensamentos. Mas parava debalde; nem ella apparecia á janella, nem a carta lhe chegava ás mãos.
Ernesto mordia então os beiços para não soltar um grito de desespêro e ia desafogar os seus furores na proxima esquina.
— Mas que explicação tem isto? dizia elle comsigo mesmo; porque razão não me atira ella o papel de cima da janella ? Não tem que ver; está toda entregue á dança, talvez ao namôro, não se lembra que eu estou aqui na rua, quando podia estar la…
N’este ponto calou-se o namorado, e em vez do gesto de desespêro que devia fazer, soltou apenas um longo e magoado suspiro. A explicação deste suspiro, inverosimil num homem que está rebentando de colera, é um tanto delicada para se dizer em letra redonda. Mas va la; ou não se ha de contar nada, ou se ha de dizer tudo.
Ernesto dava-se em casa do Sr. Vieira, tio de Rosina, que é o nome da namorada. La costumava ir com frequencia, e la mesmo é que se arrufou com ella dous dias antes d’este sabbado de outubro de 1850, em que se passa o acontecimento que estou narrando. Ora, porque razão não figura Ernesto entre os cavalheiros que estão dansando ou tomando cha? Na vespera de tarde o Sr. Vieira, encontrando-se com Ernesto, participou-lhe que dava no dia seguinte uma pequena partida para solemnisar não sei que acontecimento da familia.
— Resolvi isto hoje de manhã, concluiu elle; convidei pouca gente, mas espero que a festa esteja brilhante. Ta mandar-lhe agora um convite; mas creio que me dispensa ?…
— Sem dúvida, apressou-se a dizer Ernesto esfregando as mãos de contente.
— Não falte !
— Não senhor.
— Ah ! esquecia-me avisal-o de uma cousa, disse Vieira que ja havia dado alguns passos; como vae o subdelegado, que alêm d’isso é commendador, eu desejava que todos os meus convidados apparecessem de casaca. Sacrifique-se á casaca, sim ?
— Com muito gôsto, respondeu o outro ficando pallido como um defunto.
Pallido, porque ? Leitor, por mais ridicula e lastimosa que te pareça ésta declaração, não hesito de dizer-te que o nosso Ernesto não possuia uma so casaca nova nem velha. A exigencia de Vieira era absurda; mas não havia fugir-lhe: ou não ir, ou ir de casaca. Cumpria sahir a todo o custo desta gravissima situação. Tres alvitres se apresentaram ao espirito do atribulado moço: encommendar, por qualquer preço, uma casaca para a noite seguinte; compral-a a credito; pedil-a a um amigo.
Os dous primeiros alvitres foram despresados por impraticaveis; Ernesto não tinha dinheiro nem credito tão alto. Restava o terceiro. Fez Ernesto uma lista dos amigos e casacas provaveis, metteu-a na algibeira e sahiu em busca do vellocino.
A desgraça porêm que o perseguia fez com que o primeiro amigo tivesse de ir no dia seguinte a um casamento e o segundo a um baile; o terceiro tinha a casaca rôta, o quarto tinha a casaca emprestada, o quinto não emprestava a casaca, o sexto não tinha casaca. Recorreu ainda a mais dous amigos supplementares; mas um partíra na vespera para Iguassú e o outro estava destacado na fortaleza de S. João como alferes da guarda nacional.
Imagine-se o desespêro de Ernesto; mas admire-se tambem a requintada crueldade com que o destino tratava a este moço, que ao voltar para casa encontrou tres enterros, dous dos quaes com muitos carros, cujos occupantes iam todos de casaca. Era mister curvar a cabeça á fatalidade; Ernesto não insistiu. Mas como tomára a peito reconciliar-se com Rosina, escreveu-lhe a carta de que fallei acima e mandou-a levar pelo moleque da casa, dizendo-lhe que á noite lhe desse a resposta na esquina do Campo. Ja sabemos que tal resposta não veiu. Ernesto não comprehendia a causa do silêncio; muitos arrufos tivera com a moça, mas nenhum d’elles resistia á primeira carta nem durava mais de quarenta e oito horas.
Desenganado emfim de que a resposta viesse n’aquella noite, Ernesto dirigiu-se para casa com o desespêro no coração. Morava na rua da Misericordia. Quando la chegou estava cançado e abatido. Nem por isso dormiu logo. Despiu-se precipitadamente. Esteve a ponto de rasgar o collete, cuja fivella teimava em prender-se a um hotão da calça. Atirou com as botinas sôbre um aparador e quasi esmigalhou uma das jarras. Deu cêrca de sete ou oito murros na mesa; fumou dous charutos, descompoz o destino, a moça, a si mesmo, até que sôbre a madrugada pôde conciliar o somno.
Em quanto elle dorme indaguemos a causa do silêncio da namorada.
Veja o leitor aquella moça que alli está, sentada n’um sopha, entre duas damas da mesma edade, conversando baixinho com ellas, e requebrando de quando em quando os olhos. É Rosina. Os olhos de Rosina não enganam ninguem… excepto os namorados. Os olhos d’ella são espertinhos e caçadores, e com um certo movimento que ella lhes dá, ficam ainda mais caçadores e espertinhos. É galante e graciosa; se o não fôra, não se deixaria prender por ella o nosso infeliz Ernesto, que era rapaz de apurado gôsto. Alta não era, mas baixinha, viva, travêssa. Tinha bastante affectação nos modos e no fallar; mas Ernesto, a quem um amigo notara isso mesmo, declarou que não gostava de moscas mortas.
— Eu nem de moscas vivas, acudiu o amigo encantado por ter apanhado no ar este trocadilho.
Trocadilho de 1850.
Não veste com luxo porque o tio não é rico; mas ainda assim está garrida e elegante. Na cabeça tem por enfeite apenas dous laços de fita azul.
— Ah ! se aquellas fitas me quizessem enforcar ! dizia um gamenho de bigode preto e cabello partido ao meio.
— Se aquelas fitas me quizessem levar ao ceu ! dizia outro de suiças castanhas e orelhas pequeninas.
Desejos ambiciosos os d’estes dous rapazes, — ambiciosos e vãos, porque ella, se alguem lhe prende a attenção, é um moço de bigode louro e nariz comprido que está agora conversando com o subdelegado. Para elle é que Rosina dirige de quando em quando os olhos, com disfarce é verdade, não tanto porêm que o não percebam as duas moças que estão ao pe della.
— Namôro ferrado ! dizia uma d’ellas á outra fazendo um signal de cabeça para o lado do moço de nariz comprido.
— Ora, Justina !
— Calúmnias ! acudiu a outra moça.
— Cala-te, Amelia !
— Você quer enganar a gente ? insistia Justina. Tire o cavallo da chuva ! La está elle olhando… Parece que nem ouve o commendador. Pobre commendador ! para pau de cabelleira está grosso de mais.
— Olha, se você não se cala eu vou-me embora, disse Rosina fingindo-se enfadada.
— Pois va !
— Coitado do Ernesto ! suspirou Amelia do outro lado.
— Olhe que titia pode ouvir, observou Rosina olhando de esguelha para uma velha gorda, que assentada ao pe do sopha, referia a uma commadre as diversas peripecias da última molestia do marido.
— Mas porque não veiu o Ernesto ! perguntou Justina.
— Mandou dizer a papae que tinha um trabalho urgente.
— Quem sabe se algum namôro tambem ? insinuou Justina.
— Não é capaz ! acudiu Rosina.
— Bravo ! que confiança !
— Que amor !
— Que certeza !
— Que defensora !
— Não é capaz, repetiu a moça; o Ernesto não é capaz de namorar a outra; estou certa d’isso… O Ernesto é um…
Engoliu o resto.
— Um que ? perguntou Amelia.
— Um que ? perguntou Justina.
N’este momento tocou-se uma valsa, e o rapaz do nariz comprido, a quem o subdelegado deixára para ir conversar com Vieira, aproximou-se do sopha e pediu a Rosina a honra de lhe dar aquella valsa. A moça abaixou os olhos com singular modestia, murmurou algumas palavras que ninguem ouviu, levantou-se e foi valsar. Justina e Amelia chegaram-se então uma para a outra e commentaram o procedimento de Rosina e a sua maneira de valsar sem graça. Mas como ambas eram amigas de Rosina, não foram éstas censuras feitas em tom offensivo, mas com brandura, como os amigos devem censurar os amigos auzentes.
E não tinham muita razão as duas amigas. Rosina valsava com graça e podia pedir meças a quem soubesse aquelle genero de dança. Agora quanto ao namôro, póde ser que tivessem razão, e tinham effectivamente; a maneira porque ella olhava e fallava ao rapaz de nariz comprido despertava suspeitas no espirito mais desprevenido a seu respeito.
Acabada a valsa passearam um pouco e foram depois para o vão de uma janella. Era então uma hora, e ja o desgraçado Ernesto palmilhava na direcção da rua da Misericordia.
— Eu passarei amanhã as seis horas da tarde.
— Ás seis horas, não ! disse Rosina.
Era a hora em que Ernesto costumava ir la.
— Então ás cinco…
— Ás cinco ?… Sim, ás cinco, concordou a moça.
O rapaz de nariz comprido agradeceu com um sorriso ésta ratificação de seu tratado amoroso, e proferiu algumas palavras que a moça ouviu derretida e envergonhada, entre vaidosa e modesta. O que elle dizia era que Rosina não so era a flor do baile, mas tambem a flor da rua do Conde, e não so a flor da rua do Conde, mas tambem a flor da cidade inteira.
Isto era o que lhe dissera muitas vezes Ernesto; o rapaz de nariz comprido, entretanto, tinha uma maneira particular de elogiar uma moça. A graça, por exemplo, com que elle mettia o dedo polegar da mão esquerda no bolso esquerdo do collete, brincando depois com os outros dedos como se tocasse piano, era de todo ponto inimitavel; nem havia ninguem, pelo menos, n’aquellas immediações, que tivesse mais elegancia na maneira de arquear os braços, de concertar os cabellos, ou simplesmente de offerecer uma chicara de cha.
Taes foram os dotes que venceram o coração inconstante da graciosa Rosina. So esses ? Não. A simples circumstância de não ter Ernesto a interessante vestidura que ornava o corpo e realçava as graças do seu afortunado rival, pode ja dar algumas luzes ao leitor de boa fe. Rosina ignorava sem dúvida a situação precaria de Ernesto a respeito da casaca; mas sabía que elle occupava un emprêgo somenos no arsenal de guerra, ao passo que o rapaz de nariz comprido tinha um bom lugar n’uma casa comercial.
Uma moça que professasse ideias philosophicas a respeito do amor e do casamento diria que os impulsos do coração estavam antes de tudo. Rosina não era inteiramente avessa aos impulsos do coração e á philosophia do amor; mas tinha ambição de figurar alguma cousa, morria por vestidos novos e espectaculos frequentes, gostava emfim de viver á luz pública. Tudo isso podia dar-lhe, com o tempo, o rapaz de nariz comprido, que ella antevia ja na direcção da casa em que trabalhava; o Ernesto porêm era difficil que passasse do logar que tinha no arsenal, e em todo o caso não subiria muito nem depressa.
Pesados os merecimentos de um e de outro, quem perdia era o misero Ernesto.
Rosina conhecia o novo candidato desde algumas semanas; mas so naquella noite tivera occasião de o tratar de perto, de consolidar, digamos assim, a sua situação. As relações, até então puramente telegraphicas, passaram a ser verbaes; e se o leitor gosta de um estylo arrebicado e gongorico, dir-lhe-hei que tantos foram os telegrammas trocados durante a noite entre elles, que os Estados visinhos, receiosos de perder uma aliança provavel chamaram ás armas a milicia dos agrados, mandaram sahir a armada dos requebros, assestaram a artilharia dos olhos ternos, dos lenços na boca, e das expressões suavissimas ; mas toda essa leva de broqueis nenhum resultado deu porque a formosa Rosina, ao menos naquella noite, achava-se entregue a um so pensamento.
Quando acabou o baile, e Rosina entrou na sua alcova, viu um papelinho dobrado no toucador.
— Que é isto ? disse ella.
Abriu: era a resposta á carta de Ernesto que ella se esquecêra de mandar. Se alguem a tivesse lido ? Não; não era natural. Dobrou a cartinha com muito cuidado, fechou-a com obreia, guardou-a n’uma gavetinha, dizendo comsigo :
— É preciso mandal-a amanhã de manhã.
— Um palerma — é o que Rosina queria dizer quando defendeu a fidelidade de Ernesto, maliciosamente atacada pelas duas amigas.
Havia apenas tres mezes que Ernesto namorava a sobrinha de Vieira, que se carteava com ella, que protestavam um ao outro eterna fidelidade, e n’esse curto espaço de tempo tinha ja descoberto cinco ou seis mouros na costa. N’essas occasiões fervia-lhe a colera, e era capaz de deitar tudo abaixo. Mas a boa menina, com a sua varinha magica, trazia o rapaz a bom caminho, escrevendo-lhe duas linhas ou dizendo-lhe quatro palavras de fogo. Ernesto confessava que tinha visto mal, e que ella era excessivamente misericordiosa para com elle.
— Merecia bem que eu o não amasse mais, observava Rosina com gracioso enfado.
— Oh ! não !
— Para que ha de inventar essas cousas ?
— Eu não invento… disseram-me.
— Pois fez mal em acreditar.
— Fiz mal, sim… você é um anjo do ceu !
Rosina perdoava-lhe a calúmnia, e as cousas continuavam como d’antes.
Um amigo a quem Ernesto confiava todas as suas alegrias e maguas, a quem tomava por conselheiro e que era seu companheiro de casa, muitas vezes lhe dizia:
— Olha, Ernesto, eu creio que estás perdendo o teu trabalho.
— Como assim ?
— Ella não gosta de ti.
— Impossivel !
— Tu es apenas um passa-tempo.
— Enganas-te; ama-me.
— Mas ama tambem a outros muitos.
— Jorge !
— Em summa…
— Nem mais uma palavra !
— É uma namoradeira, concluia o amigo tranquillamente.
Ouvindo este peremptorio juizo do amigo, Ernesto despedia um olhar longo e profundo, capaz de paralysar todos os movimentos conhecidos da mecanica; como porêm o rosto do amigo não revelasse a menor impressão de temor ou arrependimento, Ernesto recolhia o olhar — mais cordato n’este ponto que o senador D. Manoel, a quem o visconde de Jequitinhonha dizia um dia no senado que recolhesse um riso, e continuava a rir, — e tudo acabava em boa e santa paz.
Tal era a confiança de Ernesto na flor da rua do Conde. Se ella lhe dissesse um dia que tinha na algibeira do vestido uma das torres da Candelaria, não é certo, mas é muito provavel que Ernesto lhe acceitasse a notícia.
Desta vez porêm o arrufo era serio. Ernesto vira positivamente a moça receber uma cartinha, ás furtadellas, da mão de uma especie de primo que frequentava a casa de Vieira. Seus olhos faiscaram de raiva quando viram alvejar a mysteriosa epistola nas mãos da moça. Fez um gesto de ameaça ao rapaz, lançou um olhar de desprêzo á moça, e sahiu. Depois escreveu a carta de que temos notícia, e foi esperar a resposta na esquina da rua. Que resposta, se elle víra o gesto de Rosina? Leitor ingenuo, elle queria uma resposta que lhe demonstrasse não ter visto cousa alguma, uma resposta que o fizesse olhar para si mesmo com desprêzo e nojo. Não achava possivel semelhante explicação; mas no fundo d’alma era isso o que elle queria.
A resposta veiu no dia seguinte. O rapaz que morava com elle foi accordal-o ás 8 horas da manhã, para lhe entregar uma cartinha de Rosina.
Ernesto deu um salto na cama, assentou-se, abriu a epistola, e leu-a rapidamente. Um ar de celeste bemaventurança revelou ao companheiro de Ernesto o conteudo da carta.
— Tudo está sanado, disse Ernesto fechando a carta e descendo da cama; ella explicou tudo; eu tinha visto mal.
— Ah! disse Jorge olhando com lastima para o amigo; então que diz ella ?
Ernesto não respondeu immediatamente; abriu a carta outra vez, leu-a para si, tornou a fechal-a, olhou para o tecto, para as chinellas, para o companheiro, e so depois desta serie de gestos indicativos da profunda abstracção do seu espirito, é que respondeu a Jorge, dizendo:
— Ella explica tudo; a carta que eu pensei ser de amores, era um bilhete do primo pedindo algum dinheiro ao tio. Diz que eu sou muito mau em obrigal-a a fallar n’estas fraquezas de familia, e conclue jurando que me ama como nunca sería capaz de amar ninguem. Lê.
Jorge recebeu a carta e leu, em quanto Ernesto passeava de um para outro lado, gesticulando e monosyllabando comsigo mesmo, como se redigisse mentalmente um acto de contricção.
— Então ? que tal ? disse elle quando Jorge lhe entregou a carta.
— Teus razão, tudo se explica, respondeu Jorge.
Ernesto foi n’essa mesma tarde á rua do Conde. Ella recebeu-o com um sorriso logo de longe. Na primeira occasião que tiveram, tudo ficou explicado, declarando-se Ernesto compungido por haver suspeitado de Rosina, e levando a moça a sua generosidade ao ponto de lhe ceder um beijo, ao lusco-fusco, antes que a criada viesse accender as vellas de spermacetti dos aparadores.
Agora tem a palavra o leitor para interpellar-me a respeito das intenções d’esta moça, que preferindo a posição do rapaz de nariz comprido, ainda se carteava com Ernesto, e lhe dava todas as demonstrações de uma preferencia que não existia.
As intenções de Rosina, leitor curioso, eram perfeitamente conjugaes. Queria casar, e casar o melhor que pudesse. Para este fim acceitava a homenagem de todos os seus pretendentes, escolhendo la comsigo o que melhor correspondesse aos seus desejos, mas ainda assim sem desanimar os outros, porque o melhor d’elles podia falhar, e havia para ella uma cousa peior que casar mal, que era não casar absolutamente.
Este era o programa da moça. Junte a isso que era naturalmente loureira, que gostava de trazer ao pe de si uma chusma de pretendentes, muitos dos quaes é preciso saber que não pretendiam casar, e namoravam por passatempo, o que revelava da parte d’esses cavalheiros uma incuravel vadiação de espirito.
Quem não tem cão, caça com o gato, diz o proverbio. Ernesto era pois, moral e conjugalmente fallando, o gato possivel de Rosina, una especie de pis-aller, — como dizem os francezes, — que convinha ter á mão.
O moço de nariz comprido não pertencia ao número de namorados de arribação; seus intentos eram estritamente conjugais. Tinha vinte e seis anos, era laborioso, benquisto, econômico, singelo e sincero, um verdadeiro filho de Minas. Podia fazer a felicidade de uma moça.
A moça, pela sua parte, soubera insinuar-se tanto no espírito dele, que por pouco lhe fez perder o emprego. Um dia, chegando-se o patrão à escrivaninha em que ele trabalhava, viu um papelinho debaixo do tinteiro, e leu a palavra amor, duas ou três vezes repetida. Uma que fosse bastava para fazê-lo subir às nuvens. O Sr. Gomes Arruda contraiu as sobrancelhas, concentrou as idéias, e improvisou uma alocução extensa e ameaçadora, em que o mísero guarda-livros só percebeu a expressão olho da rua.
Olho da rua é uma expressão grave. O guarda-livros meditou nela, reconheceu a justiça do patrão, e tratou de emendar-se dos descuidos, não do amor. O amor ia-se enraizando nele cada vez mais; era a primeira paixão séria que o rapaz sentia, acrescendo que ele acertara logo de dar com uma mestra no ofício.
Isto assim não pode continuar, pensava o rapaz de nariz comprido, coçando o queixo e caminhando uma noite para casa, o melhor é casar-me logo de uma vez. Com o que me dão lá em casa e o produto de alguma escrita por fora, creio que poderei ocorrer às despesas, o resto pertence a Deus.
Não tardou que Ernesto desconfiasse das intenções do rapaz de nariz comprido. Uma vez chegou a surpreender um olhar da moça e do rival. Enfadou-se, e na primeira ocasião que teve interpelou a namorada a respeito daquela circunstância equívoca.
— Confesse! dizia ele.
— Oh! meu Deus! exclamou a moça; você de tudo desconfia. Olhei para ele, sim, é verdade, mas olhei por sua causa.
— Por minha causa? perguntou Ernesto com um tom gelado de ironia.
— Sim, examinava-lhe a gravata, que é muito bonita, para dar uma a você no dia de ano-bom. Agora que me obrigou a descobrir tudo, veja se me lembra outro mimo, porque esse já não serve.
Ernesto caiu em si; recordou que efetivamente havia no olhar da moça uma tal ou qual intenção dadival, se me permitem este adjetivo obsoleto; toda a sua cólera converteu-se num sorriso amável e contrito, e o arrufo não foi adiante.
Dias depois, era um domingo, estando ele e ela na sala, e um filho de Vieira à janela, foram os dois namorados interrompidos pelo pequeno que descera, gritando:
— Aí vem ele! aí vem ele!
— Ele quem? disse Ernesto sentindo esmigalhar-se-lhe o coração.
Chegou à janela: era o rival.
Apareceu a tempo a tia de Rosina; uma tempestade iminente já pairava na fronte afogueada de Ernesto.
Pouco depois entrou na sala o rapaz de nariz comprido, que, ao ver Ernesto, pareceu sorrir maliciosamente. Ernesto encordoou-o. Seus olhares, se fossem punhais, teriam cometido dois assassinatos naquele instante. Conteve-se, porém, para melhor observar os dois. Rosina não parecia prestar ao outro atenção de caráter especial; tratava-o com polidez apenas. Isto aquietou um pouco o ânimo revolto do Ernesto, que ao cabo de uma hora estava restituído à sua usual bem-aventurança.
Não reparou porém nos olhares desconfiados que o rapaz de nariz comprido lhe lançava de quando em quando. O sorriso malicioso desaparecera dos lábios do guarda-livros. A suspeita entrara-lhe no espírito ao ver a maneira indiferente, ou quase, com que o tratava Rosina, posto tratasse de igual modo ao outro pretendente.
Será seriamente um rival? pensava o rapaz de nariz comprido.
Na primeira ocasião em que pôde trocar duas palavras com a namorada, sem testemunhas, o que foi logo no dia seguinte, manifestou a desconfiança que lhe escurecera o espírito até ali tão cor-de-rosa. Rosina soltou uma risada, — uma dessas risadas que levam a convicção ao fundo dalma — a tal ponto que o rapaz de nariz comprido julgou de sua dignidade não insistir na absurda suspeita.
— Já lhe disse: ele bem vontade tem de que eu o namore, mas perde o tempo: eu só tenho uma cara e um coração.
— Oh! Rosina, tu és um anjo!
— Quem dera!
— Um anjo, sim, insistiu o rapaz de nariz comprido; e creio que posso chamar-te brevemente minha esposa.
Os olhos da moça faiscaram de contentamento.
— Sim, continuou o namorado; daqui a dois meses estaremos casados...
— Ah!
— Se todavia...
Rosina empalideceu.
— Todavia? repetiu ela.
— Se todavia, o Sr. Vieira consentir...
— Por que não? disse a moça tranqüilizado-se do susto que tivera; ele deseja a minha felicidade; e o casamento contigo é a minha felicidade maior. Ainda quando porém se oponha aos impulsos do meu coração, basta que eu queira para que os nossos desejos se realizem. Mas descansa, meu tio não porá obstáculos.
O rapaz de nariz comprido ficou ainda a olhar para a moça alguns minutos sem dizer palavra; admirava duas coisas: a força dalma de Rosina e o amor que ela lhe dedicava. Quem rompeu o silêncio foi ela.
— Mas então daqui a dois meses?
— Só se a sorte me for adversa.
— E poderá sê-lo?
— Quem sabe? respondeu o rapaz de nariz comprido com um suspiro de dúvida.
Logo depois desta perspectiva de felicidade, a concha em que pesavam as esperanças de Ernesto começou a subir um pouco. Ele via que Rosina efetivamente parecia ir diminuindo as cartas, e nas poucas que já então recebia dela, a paixão era menos intensa, a frase estudada, acanhada e fria. Quando estavam juntos havia menos intimidade expansiva; a presença dele parecia constrangê-la. Ernesto entrou seriamente a crer que a batalha estava perdida.
Infelizmente a tática deste namorado era perguntar à própria moça se eram fundadas as suspeitas dele, ao que ela respondia vivamente que não, e isto bastava a restituir-lhe a paz do espírito. Não era longa nem profunda a quietação; o laconismo epistolar de Rosina, a frieza de seus modos, a presença do outro, tudo isso sombreava singularmente o espírito de Ernesto. Mas tão depressa caía no abismo do desespero, como ascendia às regiões da celeste bem-aventurança, — mostrando assim o que a natureza queria que ele fosse, — alma inconsistente e passiva — levada, como a folha, ao sabor de todos os ventos.
Entretanto, era difícil que a verdade não se lhe metesse pelos olhos. Um dia reparou que além da suspeitosa afetuosidade de Rosina, havia da parte do tio certas atenções características para com o rival. Não se enganava; conquanto o novo pretendente ainda não houvesse pedido formalmente a mão da moça, era quase certo para o Sr. Vieira que nele se preparava novo sobrinho, e acertando de ser este um homem do comércio, não podia haver, na opinião do tio, mais feliz escolha.
Desisto de pintar os desesperos, os terrores, as imprecações de Ernesto no dia em que a certeza da derrota mais funda e de raiz se lhe cravou no coração. Já então lhe não bastou a negativa de Rosina, que aliás lhe pareceu frouxa, e efetivamente o era. O triste moço chegou a desconfiar que a amada e o rival estariam de acordo para mofar dele.
Como por via de regra, é da nossa miserável condição que o amor-próprio domine o simples amor, apenas aquela suspeita lhe pareceu provável, apoderou-se dele uma feroz indignação, e duvido que nenhum quinto ato de melodrama ostente maior soma de sangue derramado do que ele verteu na fantasia. Na fantasia, apenas, compassiva leitora, não só porque ele era incapaz de fazer mal a um seu semelhante, mas sobretudo porque repugnava à sua natureza achar uma resolução qualquer. Por esse motivo, depois de muito e longo cogitar, confiou todos os seus pesares e suspeitas ao companheiro de casa e pediu-lhe um conselho; Jorge deu-lhe dois.
— Minha opinião, disse Jorge, é que não te importes com ela e vás trabalhar, que é coisa mais séria.
— Nunca!
— Nunca trabalhar?
— Não; nunca esquecê-la.
— Bem, disse Jorge descalçando a bota do pé esquerdo, nesse caso vai ter com esse sujeito de quem desconfias e entende-te com ele.
— Aceito! exclamou Ernesto; é o melhor. Mas, continuou ele depois de refletir um instante, e se ele não for meu rival, que hei de fazer? como descobrir se há outro?
— Nesse caso, disse Jorge, estendendo-se filosoficamente na marquesa, nesse caso o meu conselho é que tu, ele e ela vão todos para o diabo que os carregue.
Ernesto cerrou os ouvidos à blasfêmia, vestiu-se e saiu.
Apenas saiu à rua, embicou Ernesto para a casa em que trabalhava o rapaz de nariz comprido, resolvido a explicar-se de uma vez com ele. Hesitou alguma coisa, é verdade, e esteve a pique de arrepiar carreira; mas a crise era tão violenta que triunfou da frouxidão de ânimo, e vinte minutos depois chegava ele ao seu destino. Não entrou no escritório do rival: pôs-se a passear de um lado para outro, à espera que ele saísse, o que se verificou daí a três quartos de hora, três enfadonhos e mortais quartos de hora.
Ernesto aproximou-se casualmente do rival; cumprimentaram-se com um sorriso acanhado e amarelo, e ficaram alguns segundos a olhar um para o outro. Já o guarda-livros ia tirando o chapéu e despedindo-se, quando Ernesto lhe perguntou:
— Vai hoje à Rua do Conde?
— Talvez.
— A que horas?
— Não sei ainda. Por quê?
— Iríamos juntos. Eu vou às oito.
O rapaz de nariz comprido não respondeu.
— Para que lado vai agora? perguntou Ernesto depois de algum silêncio.
— Vou ao Passeio Público, se o senhor lá não for, respondeu resolutamente o rival.
Ernesto empalideceu.
— Quer assim fugir de mim?
— Sim, senhor.
— Pois eu não; desejo até que haja uma explicação entre nós. Espere... não me volte as costas. Saiba que eu também sou atrevido, menos de língua ainda que de mão. Vamos, dê-me o braço e caminhemos ao Passeio Público.
O rapaz de nariz comprido teve ímpetos de atracar-se com o rival e experimentar-lhe as forças; mas estavam numa rua comercial; todo o seu futuro voaria pelos ares. Preferiu dar-lhe as costas e seguir caminho. Executava já este plano, quando Ernesto lhe gritou:
— Venha cá, namorado sem-ventura!
O pobre rapaz voltou-se rapidamente.
— Que diz o senhor? perguntou ele.
— Namorado sem ventura, repetiu Ernesto cravando os olhos no rosto do rival a ver se lhe descobria uma confissão qualquer.
— É singular, replicou o rapaz de nariz comprido, é singular que o senhor me chame namorado sem-ventura, quando ninguém ignora a triste figura que tem feito para obter as boas graças de uma moça que é minha...
— Sua!
— Minha!
— Nossa, direi eu...
— Senhor!
O rapaz de nariz comprido engatilhou um soco; a segurança e tranqüilidade com que Ernesto olhava para ele mudaram-lhe o curso das idéias. Falaria ele verdade? Essa moça, que tanto amor lhe jurava, com quem meditava casar dentro de pouco tempo, mas de quem alguma vez desconfiara, teria dado efetivamente àquele homem o direito de a chamar sua? Esta simples interrogação perturbou o espírito do rapaz, que esteve cerca de dois minutos a olhar mudamente para Ernesto, e este a olhar mudamente para ele.
— O que o senhor disse agora é muito grave; preciso de uma explicação.
— Peço-lhe explicação igual, respondeu Ernesto.
— Vamos ao Passeio Público.
Seguiram caminho, a princípio silenciosos, não só porque a situação os acanhava naturalmente, mas também porque cada um deles receava ouvir uma cruel revelação. A conversa começou por monossílabos e frases truncadas, mas foi a pouco e pouco fazendo-se natural e correta. Tudo quanto os leitores sabem de um e outro foi ali exposto por ambos, e por ambos ouvido entre abatimento e cólera.
— Se tudo quanto o senhor diz é a expressão da verdade, observou o rapaz de nariz comprido descendo a Rua das Marrecas, a conclusão é que fomos enganados...
— Vilmente enganados, emendou Ernesto.
— Pela minha parte, tornou o primeiro, recebo com isto um grande golpe porque eu amava-a muito, e pretendia fazê-la minha esposa, o que sucederia breve. A minha boa fortuna fez com que o senhor me avisasse a tempo...
— Talvez me censurem o passo que dei; mas o resultado que vamos colher justifica tudo. Nem por isso creio que padeço menos... eu amava loucamente aquela moça!
Ernesto proferiu estas palavras tão de dentro, que elas repercutiram na coração do rival, e ambos ficaram algum tempo calados, a devorar consigo a dor e a humilhação. Ernesto rompeu o silêncio soltando um magoadíssimo suspiro, na ocasião em que entravam no Passeio. Só o guarda pôde ouvi-lo; o rapaz de nariz comprido ia revolvendo no espírito uma dúvida.
Devo eu condenar tão ligeiramente aquela moça? perguntou ele a si mesmo; e não será este sujeito um pretendente vencido que, por semelhante meio quer obter a minha neutralidade?
O rosto de Ernesto não parecia dar razão à conjetura do rival; todavia, como o lance era grave e cumpria não ir por aparências, o rapaz de nariz comprido abriu de novo o capítulo das revelações, no que foi acompanhado pelo rival. Todas elas iam concordando entre si; os incidentes e os gestos que um relembrava, tinham eco na memória do outro. O que porém decidiu tudo foi a apresentação de uma carta que cada um deles tinha casualmente no bolso. O texto de ambas mostrava que eram recentes; a expressão de ternura não era a mesma nas duas epístolas, porque Rosina, como sabemos, ia afrouxando o tom em relação a Ernesto; mas era quanto bastava para dar ao rapaz de nariz comprido o golpe de misericórdia.
— Desprezemo-la, disse este, quando acabou de ler a carta do rival.
— Só isso? perguntou Ernesto; o simples desprezo será bastante?
— Que vingança tiraríamos dela? objetou o rapaz de nariz comprido. Ainda que alguma fosse possível, não seria digna de nós...
Calou-se; mas tocado de uma súbita idéia exclamou:
— Ah! lembra-me um meio.
— Qual?
— Mandemos-lhe uma carta de rompimento, mas uma carta de igual teor.
A idéia sorriu logo ao espírito de Ernesto, que parecia ainda mais humilhado que o outro, e ambos foram dali redigir a carta fatal.
No dia seguinte, logo depois do almoço, estava Rosina em casa muito sossegada, longe de esperar o golpe, e até forjando planos de futuro, que assentavam todos no rapaz de nariz comprido, quando o moleque lhe apareceu com duas cartas.
— Nhanhã Rosina, disse ele, esta carta é de sinhô Ernesto, e esta...
— Que é isso? disse a moça; os dois...
— Não, explicou o moleque; um estava na esquina de cima, outro na esquina de baixo.
E fazendo tinir no bolso alguns cobres que os dois rivais lhe haviam dado, o moleque deixou a senhora moça ler à vontade as duas missivas. A primeira que abriu foi a de Ernesto. Dizia assim:
Senhora! Hoje que tenho certeza da sua perfídia, certeza que já nada me pode arrancar do espírito, tomo a liberdade de lhe dizer que está livre e eu reabilitado. Basta de humilhações! Pude dar-lhe crédito enquanto lhe era possível enganar-me. Agora... Adeus para sempre!
Rosina levantou os ombros ao ler esta carta. Abriu rapidamente a do rapaz de nariz comprido, e leu:
Senhora! Hoje que tenho certeza da sua perfídia, certeza que já nada me pode...
Daqui para diante foi crescendo a surpresa. Ambos se despediam; ambos por igual teor. Logo, tinham descoberto tudo um ao outro. Não havia meio de reparar nada; tudo estava perdido!
Rosina não costumava chorar. Esfregava às vezes os olhos, para os fazer vermelhos, quando havia necessidade de mostrar a um namorado que se ressentia de alguma coisa. Desta vez porém chorou deveras; não de mágoa, mas de raiva. Triunfavam ambos os rivais; ambos lhe fugiam, e lhe davam de comum acordo o último golpe. Não havia resistir; entrou-lhe na alma o desespero. Por desgraça não havia no horizonte a mais ligeira vela. O primo a quem aludimos num dos capítulos anteriores andava com idéias a respeito de outra moça, e idéias já conjugais. Ela mesma descuidara o seu sistema durante os últimos trinta dias deixando sem resposta alguns olhares interrogadores. Estava pois abandonada de Deus e dos homens.
Não; ainda lhe restava um recurso.
Um mês depois daquele fatal desastre, estando Ernesto em casa a conversar com o companheiro e mais dois amigos, um dos quais era o rapaz de nariz comprido, ouviu bater palmas. Foi à escada; era o moleque da Rua Nova do Conde.
— Que me queres? disse ele com ar severo, suspeitando que o moleque viesse pedir-lhe dinheiro.
— Venho trazer isto, disse o moleque baixinho.
E tirou do bolso uma carta que entregou a Ernesto.
A primeira idéia de Ernesto foi recusar a carta e pôr o moleque a pontapés pela escada abaixo; mas o coração disse-lhe uma coisa, como ele mesmo confessou. Estendeu a mão, recebeu a carta, abriu-a e leu.
Dizia assim:
Ainda uma vez curvo-me às tuas injustiças. Estou cansada de chorar. Não posso mais viver debaixo da ação de uma calúnia. Vem ou eu morro!
Ernesto esfregou os olhos; não podia crer no que acabava de ler. Seria um novo ardil, ou a expressão da verdade? Ardil podia ser; mas Ernesto atentou bem e pareceu-lhe ver o sinal de uma lágrima. Evidentemente a moça chorara. Mas se chorara é porque padecia; e nesse caso...
Nestas e noutras reflexões gastou Ernesto cerca de oito a dez minutos. Não sabia que resolvesse. Acudir ao chamado de Rosina era esquecer a perfídia com que ela se houve amando a outro em cujas mãos vira até uma carta sua. Mas, não ir podia ser contribuir para a morte de uma criatura que, ainda quando não tivesse sido amada por ele, merecia os seus sentimentos de humanidade.
— Diga que irei logo, respondeu enfim Ernesto.
Quando voltou para a sala trazia o rosto mudado. Os amigos repararam na mudança e procuraram descobrir-lhe a causa.
— Algum credor, dizia um.
— Não lhe trouxeram dinheiro, acrescentava outro.
— Namoro novo, opinava o companheiro de casa.
— É tudo isso talvez, respondeu Ernesto com um modo que queria ser alegre.
De tarde preparou-se Ernesto e dirigiu-se para a Rua Nova do Conde. Dez ou doze vezes parou resolvido a voltar; mas um minuto de reflexão tirava-lhe os escrúpulos e o rapaz prosseguia em seu caminho.
Há mistério nisto tudo, dizia ele consigo e relendo a carta de Rosina. É certo que ele me revelou tudo, e até me leu cartas; nisto não há que duvidar. Rosina é culpada; enganou-me; namorava a outro, dizendo-me que só me amava a mim. Mas por que esta carta? Se ela amava ao outro por que lhe não escreve? Investiguemos tudo isto.
A última hesitação do digno rapaz foi ao entrar na Rua Nova do Conde; seu espírito vacilou dessa vez mais que nunca. Dez minutos gastou em passinhos, ora para trás, ora para diante, sem assentar numa coisa definitiva. Afinal deitou o coração à larga e seguiu afoitamente a senda que o destino parecia indicar-lhe.
Quando chegou à casa de Vieira, estava Rosina na sala com a tia. A moça teve um movimento de alegria; mas, tanto quanto Ernesto pôde examinar-lhe as feições, a alegria não foi tal que pudesse disfarçar-lhe os sulcos das lágrimas. O que é certo é que um véu de melancolia parecia envolver os olhos travessos da bela Rosina. Nem já eram travessos; estavam desmaiados ou mortos.
Oh! ali está a inocência! disse Ernesto consigo.
Ao mesmo tempo, envergonhado por esta opinião tão benevolente, e lembrando-se das revelações do rapaz de nariz comprido, Ernesto assumiu um ar severo e grave, menos de namorado do que de juiz, menos de juiz que de algoz.
Rosina cravou os olhos no chão.
A tia da moça perguntou a Ernesto as causas da sua ausência tão prolongada. Ernesto alegou muito trabalho e alguma doença, as primeiras desculpas que ocorrem a todo o homem que não tem desculpa. Trocadas mais algumas palavras, saiu a tia da sala para ir dar umas ordens, tendo já ordenado disfarçadamente ao Juquinha que ficasse na sala. Juquinha porém trepou a uma cadeira e pôs-se à janela; os dois tiveram tempo para explicações.
A situação era esquerda; mas não se podia perder tempo. Bem o compreendeu Rosina, que rompeu logo estas palavras:
— Não tem remorsos?
— De quê? perguntou Ernesto espantado.
— Do que me fez?
— Eu?
— Sim, abandonando-me sem uma explicação. A causa adivinho eu qual é, alguma nova suspeita, ou antes alguma calúnia...
— Nem calúnia, nem suspeita, disse Ernesto depois de um momento de silêncio; mas só verdade.
Rosina sufocou um grito; seus lábios pálidos e trêmulos quiseram murmurar alguma coisa, mas não puderam; dos olhos arrebentaram-lhe duas grossas lágrimas. Ernesto não podia vê-la chorar; por mais cheio de razões que estivesse, em vendo lágrimas, curvava-se logo e pedia-lhe perdão. Desta vez porém era impossível que tão depressa voltasse ao antigo estado. As revelações do rival estavam ainda frescas na memória.
Curvou-se, entretanto, para a moça e pediu-lhe que não chorasse.
— Que não chore! disse ela com voz lacrimosa. Pede-me que não chore quando eu vejo fugir-me a felicidade das mãos, sem ao menos merecer a sua estima, porque o senhor despreza-me; sem ao menos saber o que é essa calúnia para desmenti-la ou desmascará-la...
— É capaz disso? perguntou Ernesto com fogo. É capaz de confundir a calúnia?
— Sou, disse ela com um magnífico gesto de dignidade.
Ernesto expôs em resumo a conversa que tivera com o rapaz de nariz comprido, e concluiu dizendo que vira uma carta dela. Rosina ouviu calada a narração: tinha o peito ofegante; sentia-se a comoção que a dominava. Quando ele acabou, soltou uma torrente de lágrimas.
— Meu Deus! disse baixinho Ernesto, podem ouvi-la.
— Não importa, exclamou a moça; estou disposta a tudo...
— Diga-me, pode negar o que lhe acabo de contar?
— Tudo, não; alguma coisa é verdade, respondeu ela com voz triste.
— Ah!
— A promessa de casamento é mentira; não houve mais que duas cartas, duas apenas, e isto... por sua culpa...
— Por minha culpa! exclamou Ernesto tão assombrado como se acabasse de ver um dos castiçais a dançar.
— Sim, repetiu ela, por sua culpa. Não se lembra? Tinha-se arrufado uma vez comigo, e eu... foi uma loucura... para metê-lo em brios, para vingar-me... que loucura!... correspondi ao namoro daquele indivíduo sem educação... foi demência minha, bem vejo... Mas que quer? eu estava despeitada...
A alma de Ernesto ficou fortemente abalada com esta exposição que a moça lhe fazia dos acontecimentos. Era claro para ele que Rosina negaria tudo, se o seu procedimento tivesse alguma intenção má; a carta, diria que era imitação da sua letra. Mas não; ela confessava tudo com a mais nobre e rude singeleza deste mundo; somente — e nisto estava a chave da situação, — a moça explicava a que impulsos de despeito cedera, mostrando assim, se podemos comparar o coração a um pastel, debaixo do invólucro da leviandade a nata do amor.
Decorreram alguns segundos de silêncio, em que a moça tinha os olhos pregados no chão, na mais triste e melancólica atitude que jamais teve uma donzela arrependida.
— Mas não viu que esse ato de loucura podia causar a minha morte? disse Ernesto.
Rosina estremeceu ouvindo estas palavras que Ernesto lhe disse com a voz mais doce dos seus antigos dias; levantou os olhos para ele e tornou a pousá-los no chão.
— Se eu tivesse refletido nisso, observou ela, não faria nada do que fiz.
— Tem razão, ia dizendo Ernesto, mas levado de um mau espírito de vingança entendeu que a leviandade da moça devia ser punida com alguns minutos mais de dúvida e recriminação.
A moça ouviu ainda muitas coisas que lhe disse Ernesto, e a todas respondeu com um ar tão contrito e palavras tão repassadas de amargura, que o nosso namorado sentia quase rebentarem-lhe as lágrimas dos olhos. Os de Rosina estavam já mais tranqüilos, e a limpidez começava a tomar o lugar da sombra melancólica. A situação era quase a mesma de algumas semanas antes; faltava só consolidá-la com o tempo. Entretanto, disse Rosina:
— Não pense que lhe peço mais do que me cumpre. Meu procedimento alguma punição há de ter, e eu estou perfeitamente resignada. Pedi-lhe que viesse aqui a fim de me explicar o seu silêncio; pela minha parte expliquei-lhe o meu desvario. Não posso ambicionar mais...
— Não pode?...
— Não. Meu fim era não desmerecer a sua estima.
— E por que não o meu amor? perguntou Ernesto. Parece-lhe que o coração possa apagar de repente, e por simples esforço de vontade, a chama de que viveu longos dias?
— Oh! isso é impossível! respondeu a moça; e pela minha parte sei o que vou padecer...
— Demais, disse Ernesto, o culpado de tudo fui eu, francamente o confesso. Ambos nós temos que perdoar um a outro; perdôo-lhe a leviandade; perdoa-me o fatal arrufo?
Rosina, a menos de ter um coração de bronze, não podia deixar de conceder o perdão que o namorado lhe pedia. Foi recíproca a generosidade. Como na volta do filho pródigo, as duas almas festejaram aquela renascença de felicidade, e amaram-se com mais força que nunca.
Três meses depois, dia por dia, foi celebrado na igreja de S. Ana, que era então no Campo dAclamação, o consórcio dos dois namorados. A noiva estava radiante de ventura; o noivo parecia respirar os ares do paraíso celeste. O tio de Rosina deu um sarau a que compareceram os amigos de Ernesto, exceto o rapaz de nariz comprido.
Não quer isto dizer que a amizade dos dois viesse a esfriar. Pelo contrário, o rival de Ernesto revelou certa magnanimidade, apertando ainda mais os laços que o prendiam desde a singular circunstância que os aproximou. Houve mais: dois anos depois do casamento de Ernesto, vemos os dois associados num armarinho, reinando entre ambos a mais serena intimidade. O rapaz de nariz comprido é padrinho de um filho de Ernesto.
— Por que não te casas? pergunta Ernesto às vezes ao seu sócio, amigo e compadre.
— Nada, meu amigo, responde o outro, eu já agora morro solteiro.