As Minas de Prata/I/X

Wikisource, a biblioteca livre
< As Minas de Prata
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Minas de Prata por José de Alencar
De como se correu segunda lança


Volvam-se os olhos a outro ponto da cena.

Sobre o telhado de uma casa térrea próxima à liça, estava desde cedo trepada uma súcia de galopins de todas as cores, começando no mais retinto focinho africano ou no vermelho acobreado do caboclo, e acabando no branco ruivo do pequeno ilhéu do Faial.

O princípio da obediência é uma lei essencial de toda a associação, ainda mesmo efêmera. Reuni duas criaturas; uma obedece infalivelmente à outra; senão, brigam ambas para saber qual terá a primazia. A república dos galopins, que se estabelecera provisoriamente com território no telhado da casa, não podia eximir-se à regra constitucional da sociedade: tinha um chefe, a quem obedecia.

Era este um caboclinho de doze a treze anos, a quem seus camaradas chamavam Martim. Não tinha ele coisa alguma saliente, que não fosse sua excessiva fealdade. Era realmente seu rosto o cunho de um desconcerto completo da fisionomia humana; o nariz usurpara o molde do queixo; a testa era cabeluda; o pescoço começava na boca; as orelhas comiam as bochechas; os olhos, como os do caranguejo, projetavam-se fora das órbitas, ou recolhiam-se dentro.

Qual fosse o título a que devia Martim o mando sobre seus camaradas, será difícil atinar. Não era ele o mais esperto, embora não lhe faltasse certa agudeza; não era o mais forte também; muitos dos que ali estavam obedecendo a seu aceno, tinham mais coragem e dupla robustez. Quanto à posição, a do bicho da taberna de mestre Brás era somenos à do estúpido moleque ou do galeguinho mais imundo da ribeira.

Essa grande questão social, do direito e razão dos que sobem e paciência dos que descem, é um problema que por muitos séculos há de esperar solução. Acaso e felicidade — responde a voz geral quando interrogada a respeito de semelhante anomalia. Penso eu porém que é isso um sintoma da degradação da consciência pública. Só a ignorância aceita, e o indiferentismo tolera o reinado das mediocridades.

Aquelas crianças ali estavam no Terreiro do Colégio, desde o começo da festa; submergidas na multidão, privadas absolutamente de ver o que passava na liça, agitavam-se insôfregas de um para outro lado. A necessidade as reuniu em frente de uma casa térrea, cujo telhado as estava do alto convidando a verem a gosto os folguedos e jogos. Difícil, mas não impossível, era a escalada; e qualquer da roda já a teria praticado, se não fosse o receio de que o dono da casa, um velho remendão, levando a coisa a mal, aplicasse algumas lambadas de tirapé ao intrometido.

Neste comenos, Martim escapo das garras do taberneiro, chegou e foi logo metendo-se na súcia. Ninguém lhe deu atenção; continuaram os outros a mirar o telhado com olhos compridos e a tentarem uma investida, de que recuavam logo pela razão sabida do tirapé. O caboclinho tinha já perdido o pudor do castigo; acostumado ao regime do bodegueiro que diariamente o moía de pancadas à vista da gente toda que enchia a taberna, era coisa de pouca monta para ele uma lambada de mais ou de menos. Arrostou pois impávido o tirapé do remendão; e em dois saltos encarapitou-se na beira do telhado. Cessou a indecisão; todos os outros, com exceção de alguns medrosos, o imitaram.

Eis por que se achou Martim feito chefe da súcia. Quanta gente deve como ele a posição elevada que alcança, a ter perdido o pudor do castigo que inflige a opinião pública?

Subido ao seu improvisado palanque, avistou o caboclinho na teia os pajens que circulavam a liça, prontos a acudir ao sinal dos vários cavaleiros a quem serviam. Entre esses chamou especialmente a atenção de Martim um rapazito pouco mais velho que ele, trajado em corpo, com pelote de belbute cor-de-rosa. Apenas o lobrigou, entregou-se a um trabalho tal de gesticulação que parecia um telégrafo em caso de perigo. Afinal como de nada lhe valessem os respectivos sinais, levou as mãos à boca em forma de buzina e gritou:

— Gil!...

O coro respondeu:

—...il, il, il!...

O pajenzito voltou-se para o telhado, e dando com o caboclinho, levou a mão aberta à boca: com o dedo anular fez o gesto de silêncio e com a palma o de espera. Tudo isto com certo empertigamento casquilho, que bem mostrava quanto o pajenzito tomava ao sério suas funções.

— Bico! disse Martim para os outros. Não me piem!

— Nada de barulho!... acudiram alguns.

O resto calou-se; e arregalou os olhos porque a corrida estava próxima.

O sinal da investida soou na liça.

As duas quadrilhas, de lança em reste, arremeteram à desfilada uma contra a outra, e esbarraram no meio da estacada, como as trombas d’água que embatem no oceano pulverizando-se. Os cavalos, de chofre estacados no ardor da carreira, empinaram, topando peito com peito; as lanças romperam nos escudos, que retiniram ferindo-se; os justadores, com o ímpeto da peleja, dobrando sobre os contos, se enovelaram no turbilhão.

Um instante foi impossível distinguir entre os vórtices daquele torvelinho de homens o que passara; os espectadores mudos e suspensos esperavam cheios de curiosidade; Inesita pálida e sem respiração sentia paralisadas no seio as pulsações que há pouco o faziam intumescer-se brandamente; o próprio D. Diogo, em quem revivera a imagem, desmaiada já, das esperanças e glórias da mocidade, reanimou-se com o choque dos cavaleiros.

Rápido e fugace passou esse momento de ansiedade: foi como pausa imperceptível no meio da lufa-lufa do combate.

Os cavalos arcando, arrancaram afinal em nova desfilada, nitrindo, aspirando o ar pelas narinas dilatadas, atirando ao vento as crinas esparsas. As duas quadrilhas, deslaçando-se como fios de uma meada, atravessaram a arena e foram de novo alinhar-se na extremidade oposta àquela de onde tinham partido.

Então pôde-se apreciar o resultado da justa, e ver os destroços que a onda de cavaleiros em seu furor havia deixado sobre o campo; ginetes estropiados, campeões desarmados, lanças rompidas, capacetes e jaezes rolando pelo chão, e um justador desmontado, tendo a seus pés o escudo que lhe saltara do braço.

Inesita conseguiu abafar o grito de prazer, que expirou nos lábios e perdeu-se na ruidosa aclamação do povo saudando o vencedor.

O cavaleiro desmontado era D. Fernando de Ataíde; de cabeça baixa e desfigurado, o moço corria-se de vergonha diante dos olhares da multidão; a custo ergueu o escudo que deixara cair, cavalgou de novo, e foi colocar-se à direita de sua quadrilha.

Uma tremenda surriada o acompanhou durante o curto trajeto.

O pajenzito vendo por terra D. Fernando, voltara-se para o telhado, e sem que o percebessem, introduzira na boca dois dedos, fazendo o gesto de assobiar. Martim compreendeu e transmitiu a senha aos sócios; imediatamente a vaia estrugiu pelos ares.

— Caiu!...

— Fiau, fiau, fiau!

Do outro lado da liça Estácio apertava sorrindo a mão de Cristóvão; laivos do nobre orgulho, que é reflexo das almas superiores, brilhavam no semblante do moço, a quem o fervor da peleja avivara o cunho de energia, que a natureza lhe imprimira na feição.

Entre todos os espectadores Inesita unicamente viu e compreendeu o aperto de mão dos dois amigos; para os outros não passaria de uma felicitação; para ela a quem nada escapara, era um agradecimento.

Só o olhar da mulher que ama, olhar que vê com coração e adivinha com os pressentimentos, podia acompanhar no meio do turbilhão da investida daqueles cavaleiros, e reconhecê-lo entre tantos outros ataviados com as mesmas cores.

Ainda com o ânimo partilhado entre os dois sentimentos que a dominavam, Inesita ouvira o sinal; mas quando os cavaleiros chegaram as esporas aos flancos dos fogosos animais que saltaram com o ímpeto da dor, o grito do coração, mais forte, sopitou a voz do sangue.

Durante um segundo a menina só viveu naquele olhar que protegia seu amante.

Viu Estácio, que estava à esquerda de Cristóvão, tomar rapidamente a destra na ocasião da partida. Seguira o moço por entre a lufa-lufa, até que a sua lança batendo em cheio no escudo de D. Fernando, saltou em estilhaços. Vira o negro corcel retrair-se de um salto, devorar a terra e estacar na teia, onde chegavam ao mesmo tempo os outros cavaleiros.

O que porém a menina não tinha visto, porque seu olhar se condensara todo para envolver Estácio, fora que a lança impelida com a força da carreira obrigara D. Fernando de Ataíde a vergar sobre as ancas da cavalgadura, perdendo a sela e caindo por terra desmontado.

Quando pois as duas quadrilhas separando-se deixaram a descoberto o centro da estacada, ela soltara aquele grito de triunfo e gratidão ao mesmo tempo; meneou a cabeça altiva com o orgulho sublime da mulher que se enobrece pela glória do homem amado, e agradeceu a Estácio do fundo do coração a delicadeza de respeitá-la na pessoa do irmão.

Seu olhar encontrou o olhar do moço e estremeceu; mas não fugiu sem vazar n'alma de Estácio um raio de luz, desses que ficam eternamente, e douram os sonhos azuis do amor puro e as ilusões diáfanas que alvorecem na manhã da vida.

Entretanto os espectadores admiravam Cristóvão, a quem naturalmente atribuíam a façanha; alguns, é verdade, que julgavam ter visto na confusão da peleja justar com D. Fernando de Ataíde um campeão que montava ginete preto; mas não deram a isso grande atenção.

Ao passo que os juízes consultavam, Inesita curiosa e inquieta não se podia conter.

— A quem caberá o preço? disse ela como falando consigo, mas bastante alto para ser ouvida pelo governador.

— Sem dúvida que a D. Cristóvão de Ávila, que bem o mereceu, disse D. Diogo. Melhor lança não a tem El-Rei em seus Estados do Brasil.

— Que fez ele? perguntou a menina surpresa.

— Não vistes? Desmontou o mais brilhante cavaleiro da quadrilha escarlate, D. Fernando de Ataíde, que lá está cobrando novos brios para tomar sua desforra.

— Cuida o senhor governador que fosse ele?

— Tenho como certo, menina. Era o primeiro.

— Antes de partir, disse Inesita com vivacidade.

— E no recontro ainda o era, como agora.

— Não! Eu bem vi!...

— O quê? perguntou D. Diogo.

Inesita balbuciou; ia trair-se, mas dissimulou a tempo.

— O cavaleiro que correu com D. Fernando não montava um cavalo preto?

— Com efeito, quer-me parecer que assim era! acudiu D. Diogo pondo os olhos no tordilho de Cristóvão. Mas seguramente que foi engano...

— Tão verdade como ser azul meu cinto! disse a donzela em tom de profunda convicção.

— Pode ser... Mas eis o que vai tirar-nos da dúvida, respondeu o governador mostrando com um aceno a mesa onde se sentavam os três juízes.

O arauto fazendo uma profunda cortesia aos três cavalheiros, chegou-se à beira da rampa. Aí desempenando o corpo e correndo um olhar pela multidão, soltou a voz sonora e enfática no meio de profundo silêncio:

— Em nome de Sua Senhoria, o Senhor D. Diogo de Menezes e Siqueira, fidalgo de Foro Grande, governador e Capitão-general deste Estado do Brasil por Sua Majestade D. Filipe III, que Deus guarde...

Aqui mestre Bartolomeu inclinou-se; temperou a garganta, e tomando a respiração, continuou:

— Os Cavalheiros Álvaro de Carvalho, alcaide-mor da Bahia, Baltasar Ferraz, provedor da Fazenda, e D. Francisco de Aguilar, Senhor de Paripe, juízes nomeados pelo mesmo senhor governador para decidirem dos jogos e torneios dados em honra sua e satisfação de sua chegada pelos homens bons desta cidade, nobres e mercadores; mandam proclamar em praça, por arauto e passavante, ao som e toque de caixa, o nome do campeão que por suas boas partes e gentilezas houve o preço da justa; e outrossim ordenam que o mesmo se afixe por edital na entrada da liça.

Houve uma curta pausa, durante a qual mestre Bartolomeu gozou da sofreguidão geral. Os espectadores suspensos esperavam de sua boca a aclamação do vencedor, a quem aliás todos já conheciam; o nome soou por fim na estacada.

— O Cavalheiro D. Cristóvão de Garcia de Ávila!

O despeito que sentiu Inesita foi tal, que uma lágrima borbulhou em seus límpidos olhos e empanou-os. Doeu-lhe aquela injustiça, e doeu-lhe sobretudo que o voto de seu pai a tivesse confirmado; nesse momento quis mal a Cristóvão, a quem ela estimava por ser amigo de Estácio, e a Elvira, porque o amava.

— Bem vedes que foi engano vosso, menina, disse o governador recostando-se na poltrona de veludo.

— Sou capaz de jurá-lo ainda sobre a cruz, senhor governador; foram eles que se enganaram.

Cristóvão, mal o arauto pronunciou seu nome disparou o animal apesar do movimento que fez Estácio para retê-lo; esbarrando em frente ao pavilhão, levantou o capacete com um movimento gracioso:

— Por desleal e cobarde me haveria eu, e daria a todos direito para como tal me tratarem, se recebesse por prêmio de valor o que a outrem pertence. O preço desta justa, se alguém o houve, foi decerto o cavaleiro que de um bote da sua lança atirou por terra o contrário, e o desarmou.

— E não sois vós esse cavaleiro? perguntou Álvaro de Carvalho.

— Não, senhores! E o declaro alto e bom som: foi Estácio Correia!

O povo, que simpatiza com tudo que é grande e nobre, admirou a ação dos dois amigos: a modéstia e heroísmo de um, a franqueza e lealdade do outro; nos seus aplausos e vivas entusiásticos ligou os nomes de ambos, como se foram ambos vencedores.

Martim encolheu-se todo para expelir do franzino corpo o grito estridente, como se espreme e escorropicha de um odre todo o vinho que ele contém. Apertando os joelhos contra o ventre, gania que era um desespero:

— Vi... i... i... i... va!...

As damas agitavam os lenços, e sentiam lá no fundo do coração uma voz doce a dizer-lhes baixinho que elas amariam qualquer um daqueles dois moços, ou mesmo ambos, se fosse possível, somente por prêmio e honra de tão bela ação.

As mulheres naquele tempo tinham dessas nobres inspirações; não sabiam tanto calcular com os sentimentos; conheciam a santidade de sua missão neste mundo, e não havia glória ou virtude que elas não dourassem com um raio de amor.

A alegria de Inesita foi imensa; sua alma expandiu-se; o olhar úmido e fagueiro agradecia a Cristóvão, às damas, ao povo, ao último dos galopins trepados nas esquinas das ruas, a glória de Estácio; essa glória lhe pertencia também pela santa comunhão que o amor cria logo entre duas almas.

Quanto a D. Diogo, habituado a estudar os homens, tinha conhecido por aquele traço o caráter dos dois amigos; eram valentes espadas e braços leais com quem a todo o tempo poderia contar.

No meio dos generosos sentimentos que despertara a imprevista declaração de Cristóvão, havia três homens que se conservavam frios e impassíveis: eram os juízes. Compenetrados dos deveres de sua posição, tão severos e rigorosos em pontos de honra, como se tratassem de decidir da vida e fazenda alheia, consultavam sobre o caso; uma decisão injusta nesse objeto os infamaria tanto, como a suspeita de suborno em uma causa importante.

Os jogos militares daquele tempo tinham no meio da aparente futilidade um pensamento sério e de longo alcance; serviam de exemplo e escola à mocidade, que se amestrava para as verdadeiras lutas, e bem cedo adquiria esforço e brios. Eram estímulo para nutrir na população o espírito guerreiro necessário em épocas de conquista. Por isso os reis e governadores os tinham em tanto apreço.

Explicada a troca que se dera entre os combatentes, os três juízes dividiram-se nas opiniões: Álvaro de Carvalho entendeu que o prêmio era de Estácio, pois o caso nada influía na decisão; Baltasar Ferraz porém foi de voto que o fato da troca do lugar, sendo uma irregularidade, anulava o ato posterior; e citou imediatamente boa cópia de textos latinos para confirmar seu parecer.

— Não se trata agora de decidir pleitos, nem demandas, senhor desembargador, replicou Álvaro de Carvalho com firmeza. Em negócios de armas tenho por melhor lição a minha velha experiência do que todos os textos e alfarrábios da vossa livraria.

— Ninguém vos tolhe o alvitre; dei o meu voto e disse.

— Voto de togado! murmurou o velho alcaide. E vós, Senhor D. Francisco de Aguilar, como vos parece?

— Estou com o Senhor Baltasar Ferraz; o preço não foi ganho.

— Pois então fazei o que vos aprouver, exclamou Álvaro de Carvalho batendo com o punho fechado sobre a mesa; mas declarai que tal decisão não teve o meu conselho.

Soltando estas palavras arrebatadas, o velho, forte e vigoroso apesar dos seus setenta anos, subiu os degraus do pavilhão; os olhos brilhavam com fogo juvenil, e a mão trêmula de cólera repuxava com impaciência as pontas retorcidas do longo bigode branco.

— Onde ides tão açodado, Álvaro? Que vespa vos mordeu? perguntou sorrindo o governador, que conhecia o gênio do soldado.

— Vou em busca de um homem, que tenha o arrojo de dizer-me, a mim, Álvaro de Carvalho, que minto, quando afirmo que gente de beca e traficantes de açúcar entendem tanto de justas, como eu de trapaças e rabulices.

— Que sucedeu?

— Não acabam eles de decidir que aquele valente mancebo, Estácio Correia, não deve ganhar o preço, porque fez virar de cambalhotas a D. Fernando, em vez do vosso alferes?

— E agora o que contam fazer?

— Não o sei eu; eles que a desatem.

O arauto publicou então a decisão dos juízes, que mandavam Estácio correr nova lança com o seu contrário, D. José de Aguilar, a fim de que o preço fosse conferido em regra.

— Está vendo, Sua Senhoria! exclamou Álvaro de Carvalho. Tem isso algum jeito? É ou não rabulice?

— Sossegai, Álvaro, não desarrazoeis por nonadas. Respeitai a opinião dos outros, para que respeitem a vossa.

— Porém, se é uma injustiça! acudiu Inesita inquieta. O senhor governador não devia consentir.

— Que posso eu, menina? perguntou D. Diogo.

— Não fostes vós que os nomeastes? Tendes direito de ordenar-lhes que emendem seu erro!...

— Reparai, D. Inês, disse o fidalgo sorrindo, que censurais gravemente vosso pai!

A menina caiu em si:

— Não podia ter tal pensamento; mas ele foi severo demais, não é verdade?

— Foi injusto! exclamou o alcaide. E Deus queira, não se arrependa ele! Estácio é capaz de fazer a vosso irmão pior do que a D. Fernando. Eu conheço aquele rapaz!...

— Vamos, Álvaro, não desamparai o vosso posto, disse D. Diogo. Ide e sede menos arrebatado, meu velho soldado; nem tudo se leva à ponta de espada.

O alcaide desceu lentamente a escadaria.

— Oh! impedi este combate, senhor governador, disse Inesita inquieta.

— Por que vos assustais? perguntou D. Diogo com bondade.

— Tenho medo! murmurou a menina.

— Mas não passa de um jogo! Deixai que brilhe vosso irmão!

As caixas rufaram anunciando o combate; os dois cavaleiros tomaram praça, e esperaram o sinal da partida.