As Minas de Prata/I/XI

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As Minas de Prata por José de Alencar
O que tem de ser sempre é


A curiosidade pública estava excitada ao último ponto.

Todas as simpatias eram por Estácio, privado injustamente do preço que havia ganho com a tão brilhante mostra de seu esforço e perícia; assim a esperança de vê-lo sair vencedor da segunda prova a que o submetiam, trazia suspensa a máxima parte dos espectadores.

Entretanto Inesita, que instantes havia, saudara com tamanha efusão a vitória do moço e sentira orgulho em amar o homem que todos admiravam, agora tinha medo só de pensar que ele podia humilhar seu irmão, e expô-lo à irrisão pública.

Mas desejaria que D. José de Aguilar derrotasse o galhardo cavaleiro há pouco aplaudido com entusiasmo? Não; dentro de sua alma pedia a Deus que tal não sucedesse; queria o impossível, que ambos vencessem, e nenhum fosse vencido.

Mil vezes arrependida de ter vindo a essa festa que devia causar-lhe tantas e tão cruéis emoções, a donzela invejava a solidão de Elvira que a essa hora acompanhava de longe e com o pensamento a seu amante, sem curtir as aflições por que ela estava agora passando.

Nisso encontrou os olhos de Estácio e sem compreender por que sentiu renascer-lhe no seio a esperança; mais corajosa, porém inquieta sempre e palpitando, pôde contemplar a cena que ia começar.

Os dois cavaleiros partiram ao sinal; levavam ambos após si as vistas ardentes e curiosas da multidão; mas todos os votos e desejos acompanhavam Estácio unicamente.

Vencendo rápidos a distância que os separava, os dois campeões toparam no meio da arena. O choque foi tão violento que os animais abriram; mas, com admiração geral, só um escudo feriu-se, só uma lança rompeu-se.

Estácio, resolvido a não se medir com o irmão de Inesita, em vez de levar a lança no reste, terçava-a na destra; na ocasião do encontro, fincando-a no chão, recebeu sem vergar o arremesso do adversário.

O povo cheio de pasmo viu tudo isto, a princípio sem compreender; depois por uma rápida intuição conheceu que o mancebo não tinha querido de propósito bater o contrário; mas a razão ninguém a podia adivinhar; geralmente atribuíram ao orgulho ofendido pelo voto dos juízes. O povo deu-lhe razão.

Até D. Diogo de Menezes voltou-se para Inesita e disse:

— Vosso irmão teve a melhor; porém juro-vos que antes me queria vencido com o feito de Estácio, do que vencedor como D. José.

— Por que então? perguntou a donzela ainda branca e desmaiada como a espiguilha de seu lenço de Valência.

— Não podeis compreender isto, menina; só quem está habituado a jogar uma lança, sabe quanto esforço é preciso para receber em cheio e sem toscanejar o arremesso de um cavaleiro à disparada.

— Entretanto o preço será de outrem? disse Inesita esquecendo no entusiasmo do amor que se tratava de seu irmão.

— É a regra da cavalaria: houve-se como herói, mas herói vencido.

De feito, o colar de ouro, preço da justa, foi conferido a D. José de Aguilar, o qual brindou com ele a primeira dama que avistou na galeria.

Entretanto o alferes não estava satisfeito com sua vitória; o ato de Estácio revelava desdém que o ofendia. Se ele houvesse adivinhado a verdadeira causa, ainda mais ofendido se julgara em seu orgulho, com o amor da irmã pelo filho de Robério Dias, réu de traição, que era, diz a Ordenação, “o mais grave e feio caso que um homem pode cometer”.

Quanto a Inesita, corou vendo seu irmão aceitar prêmio que lhe não pertencia. Um assomo de cólera fez borbulhar o puro sangue andaluz que lhe circulava nas veias. Nesse instante a menina jurou em sua alma, que vingaria Estácio da injustiça dos mais.

Há quem entenda esse composto inexprimível de fraqueza e força, de susto e heroísmo que forma o caráter da mulher?

Tímida em face da sociedade, corando com um olhar, estremecendo com a farfalha da seda de suas próprias vestes, desmaiando ao menor choque, de repente essa criatura frágil e nervosa tira de seu coração a energia necessária para lutar com o mundo, e defender contra todos e contra tudo o homem a quem ama.

A menina esquiva, que não tem a coragem sequer de sorrir a seu amante, receando mostrar nos lábios o segredo de sua alma, breve, já é capaz de todos os sacrifícios para proteger na desgraça o escolhido de seu coração.

No entanto os cavaleiros tinham atirado os troços das lanças quebradas, e recebido dos pajens umas hásteas longas e delgadas, cobertas de seda de vários matizes.

Terçando-as como piques, atacaram-se com evoluções rápidas, caprichando cada um em mostrar mais destreza e agilidade.

Era a isso que então chamavam jogo das canas.

Estácio, fiel à sua palavra, apenas defendia-se, e como só ele podia disputar a primazia a Cristóvão, cujos volteios graciosos eram de todos admirados, coube o preço a esse último; o moço o escondeu no peito da véstia com bastante pesar de algumas damas que julgavam-se com direito à prenda.

Seguiu-se o jogo das argolinhas.

Tinham passado um torçal de seda, que prendendo-se ao teto agudo das tendas, dividia a meio a estacada; no centro, presos por um fio de retrós, pendiam vinte anéis de ouro, que balouçavam com o sopro da aragem; os raios do sol no ocaso, tremulando sobre as argolinhas, ainda as tornavam mais vacilantes ao olhar.

As duas alas de cavaleiros, empunhando lanças muito mais longas e maneiras que as de combate, alinharam-se em suas primeiras posições, uma à direita, outra à esquerda: ao som da música deviam partir ambas à rédea solta, e dando meia volta à teia, unirem-se na entrada da liça, a fim de correrem direito à argolinha contra o pavilhão do governador.

Assim tinham os cavaleiros de passar sucessivamente dois a dois, um da ala azul, outro da ala escarlate; afastando-se depois, circulariam de novo a teia continuando sem interrupção o jogo, que só terminaria tirado o último anel.

De todos os jogos era talvez o mais apreciado dos mancebos gentis e namorados; porque além do preço de ligeireza e agilidade, tinham direito de oferecer as argolinhas que enfiassem com a ponta da lança, a qualquer das damas presentes, que em retribuição da galanteria os prendavam com dixes e mimos.

A música tocou uma marcha rápida; a cavalhada partiu.

Os primeiros cavaleiros eram Cristóvão de Ávila e Fernando de Ataíde par a par; seguiam-se logo Estácio e D. José de Aguilar; vinha após o resto dos campeões.

Cristóvão enfiou a primeira argolinha, e passou; mas em vez de oferecê-la, guardou, como já tinha feito com o bracelete que recebera em preço; Fernando de Ataíde e D. José nem roçaram os anéis; Estácio atirou a lança por cima do cordel, e foi apanhá-la no ar muitos passos além.

— É altivo aquele mancebo! disse o governador. Como lhe negaram o primeiro preço, desdenha os mais.

— E no seu caso, o senhor governador não faria o mesmo? replicou Inesita.

— Talvez! respondeu o fidalgo sorrindo.

A corrida continuara; só restava uma argolinha; as outras tinham sido tiradas, muitas por Cristóvão, algumas por D. José e outros cavaleiros; Fernando não conseguira enfiar uma só.

Estácio estava satisfeito e contente, como se tivera ganho todos os prêmios; para ele a grande recompensa não eram nem as joias dadas pelos juízes, nem os aplausos do povo; era a humilhação de seu rival diante de Inesita; essa tinha-a já conseguido de uma maneira estrondosa.

Restava porém uma argolinha; Cristóvão falhou-a; e Fernando, que moderara o galope do cavalo, ia com a lança direita enfiá-la; percebendo isto, o sangue afluiu ao coração de Estácio; pareceu-lhe que via já o cavaleiro oferecendo o anel a Inesita e recebendo em troca uma prenda.

O moço fincou as esporas nos flancos do nobre corcel que saltou, e alongando-se como uma flecha, devorou o espaço. No momento em que Ataíde ia tocar a argolinha, o cavaleiro passou envolto em uma nuvem de poeira. Foi como uma águia que voasse, arrebatando a presa no bico adunco.

A celeuma do povo saudou esse admirável esforço de agilidade. Inesita não pôde conter-se, e bateu as palmas das mãos com o prazer infantil das crianças; as damas agitaram os lenços; Álvaro de Carvalho, esquecendo sua imparcialidade de juiz, soltou uma exclamação entusiasta.

Estácio, ao ver a argolinha de ouro tremular na ponta de sua lança, sorrira; mas foi logo tomado de um receio; parou indeciso. Afinal vencendo a timidez e o acanhamento, chegou defronte do pavilhão, e apresentou corando o troféu de sua vitória a Inesita.

O cavaleiro tinha os olhos baixos; o coração saltava-lhe aos ímpetos; a mão tão firme no combate, tão segura e certeira no golpe, tremia como a de um velho já inválido, ou de uma criança débil.

A menina também corou, mas impelida pela coragem que despertara a luta por que passara, tomou na ponta dos dedos rosados o fino aro de ouro; e reparando que a lança de Estácio perdera na corrida a manga de seda, por um movimento rápido atou na hástea seu lencinho de renda.

Quando Estácio no retirar da lança viu flutuar a alva e fina tela, que durante toda a festa se perfumara ao contato das mãos da menina e aquecera-se com o seu hálito, a felicidade inundou-lhe os seios d'alma; tomou o lenço, como se fora relíquia, e beijou-o à face de todos.

Estas cenas de galanteria eram usuais nos jogos e festas do tempo; a ninguém pois causavam estranheza; as damas pensavam que o mesmo fariam por seu cavaleiro; os moços invejavam a fortuna de Estácio; quanto ao povo, esse achava a coisa mais natural que um garção tão guapo e uma cachopa tão airosa se amassem com extremos.

D. Diogo de Menezes acompanhou os movimentos de Inesita com o ar de bondade paternal, que adoçava a seriedade habitual de sua nobre fisionomia.

— Por isso dizem que não há homem atilado a quem a menina mais simples não cegue com seu ar de santinha!

— Ainda está para ser o primeiro que eu cegasse, tornou-lhe Inesita maliciosamente.

— Já me não admira, continuou o fidalgo levantando-se, das gentilezas de certo cavaleiro. Quem tinha para animá-lo tão feiticeiro sorriso, se não fizesse proezas, nunca mais devera cingir uma espada.

— Os governadores também fazem madrigais? perguntou a donzela faceirando.

— Não; mas fazem traduções, respondeu o governador amimando-lhe a face.

Houve um intervalo no divertimento.

Os cavaleiros apeando foram cortejar as damas, e depois, mudar de roupas e armas para as novas justas; formaram-se os círculos de conversação, onde se discutiam os feitos dos diversos campeões, a graça com que uns meneavam seu ginete, o garbo com que outros traziam a lança.

Duas pessoas, porém, havia ali para quem a cena muda entre Estácio e Inesita não passara despercebida; não a tinham essas visto com os mesmos olhos complacentes.

Uma era Fernando de Ataíde que duas vezes batido por Estácio e conhecendo agora a causa, ardia em desejos de vingança; a outra era D. José que também adivinhara o motivo por que o moço se esquivara de medir-se com ele; ambos estavam ofendidos em seu orgulho, e numa esperança que partilhavam.

O alferes protegia a afeição de seu amigo por Inesita; embora sua irmã mostrasse completa esquivança a D. Fernando, atribuía isso à timidez da menina, e acreditava que afinal o amor conseguiria vencer o recato.

Conhecendo porém que se iludira, e suspeitando agora que sua irmã amava outro homem, sentira despeito profundo; sobretudo sendo esse um moço obscuro e pobre, como Estácio, o qual embora nobre, tinha em seu nome a nódoa, que deixara a condenação do pai.

Orgulhoso e de gênio arrebatado, D. José não podia sofrer semelhante afronta. Resolveu imediatamente castigá-la, antes mesmo que Fernando de Ataíde pedisse ao moço satisfação pelo modo descortês por que se houvera.

Enquanto os dois amigos passeavam na volta da teia conversando sobre o que passara, Álvaro de Carvalho indo ao encontro de Estácio, o abraçou com efusão e guiou ao pavilhão para apresentá-lo ao governador.

— Aqui trago a Sua Senhoria o nosso herói! Poucos anos, porém muitos brios.

— Isso mostra que na escola de um velho lidador de vossa têmpera, Álvaro de Carvalho, a experiência vem mais depressa que a idade! respondeu o governador unindo em um só elogio a perícia do mestre e o valor do discípulo.

— Sua Senhoria engana-se! retrucou o alcaide com a habitual rudez e batendo familiarmente no ombro do moço. Homens desta estofa, não se fazem aqui embaixo, vêm já feitos.

— Não creia, Sua Senhoria, atalhou Estácio corando; o pouco que sou, devo-o a dois homens que Deus me deu em troca da família que levou-me bem cedo: o Senhor Álvaro de Carvalho que me ensinou a trazer esta espada para um dia servir ao meu rei; e um santo homem que preso e estimo como meu pai, porque dele recebi tanto ou mais que daquele que me deu o ser.

— Pois trataremos de acabar a obra de ambos dando-vos campo mais vasto do que esta liça, disse D. Diogo. Não é justo que tão valente lança se embote em folguedos, quando o serviço de El-Rei e a causa da religião tanto carecem de bons defensores.

O governador afastou-se com o velho alcaide, e Estácio voltando-se viu de longe Inesita.

Estava recostada a um dos arcos do pavilhão e procurava o amante com os olhos por entre a multidão: mal sabia que o moço estava tão perto dela.

Mas de repente o seu coração, palpitando com violência, anunciou-lhe a aproximação de Estácio: por súbita e instantânea revelação, que não se explica, ela sentiu a força de um ímã que atraía toda sua alma.

Volveu os olhos e deu com o mancebo.

Violenta comoção abalou o corpo delicado, que estremeceu como se o envolveram ondas de fluido magnético; o sangue fugiu-lhe das faces, queimando o coração. Murchara nos lábios a flor do sorriso. Assim uma planta delicada, oculta na sombra, enlanguesce quando um raio ardente do sol vem súbito aquecê-la. As folhas desmaiam, inclina-se a haste, as flores abrocham; até que a luz filtra nos poros, e a seiva, correndo pelas fibras, reanima a vegetação e a expande mais brilhante.

Passado aquele deslumbramento, a menina surgiu dentre a esplêndida auréola de sua beleza. No sorriso, aveludado pela inefável doçura do coração feliz, a alma exalava perfume suave de rosa mística, voando para o céu azul dos castos amores.

Também Estácio sentia o doce enlevo do coração, ainda não desflorado de esperança: bebia vida e eternidade no sorrir de Inesita.

Depois de um instante de muda contemplação, em que essas duas almas vazando uma na outra, desviveram em si para renascerem anjos no puro e santo afeto que as unia, Estácio quis falar: a voz evaporou-se em tênue suspiro:

— D. Inês!...

A doçura do seu nome, balbuciado pelos lábios do mancebo, afagou-a, como a melodia de um canto celeste; igual só houvera na terra uma harmonia: era a do nome de Estácio, que lhe adejava no sorriso, e já ressoava intimamente nas cordas d'alma.

Mas foi um grito de espanto que lhe escapou.

A menina vira D. José, parado diante dela, lívido de cólera, mordendo o beiço e cobrindo Estácio com a vista odienta.

Este, no encantamento da presença de Inesita, não o percebera.

— Não parece bem que uma moça se desacompanhe das outras damas, minha irmã. Tomai o vosso lugar, disse o alferes com um modo brusco e descortês.

Estácio voltou-se friamente para D. José.

O alferes acompanhou a irmã até que a viu sentar-se trêmula e pálida no coxim; então dirigiu a palavra ao mancebo.

— Só agora posso agradecer ao senhor estudante a generosidade que há pouco houve para comigo, e o preço de que me fez mercê! disse o alferes com um tom de chasco bem visível.

— Nada tendes que me agradecer, senhor alferes, nada me deveis, respondeu o moço com uma polidez glacial.

— Oh! que vos devo! Mais do que pensais, porém conto breve pagar e com usura. Não pretendeis tomar parte no torneio?

— A pergunta é escusada.

— Não tanto como parece; porque careço de avisar o senhor estudante de uma coisa, continuou o fidalgo com o mesmo ar de ironia. Não trago roupeta, sigo a milícia: quando tiro a minha espada, ou se trate de jogos ou de combates, tenho sempre que é negócio a valer. Será um defeito; mas já não estou em idade de aprender.

Estácio não respondeu.

— Assim trate cada um de defender-se às veras, continuou D. José. Bem pode suceder que brincando mesmo, tenha o profundo desgosto de passar a minha espada pelo corpo de alguém.

— É tudo quanto me tínheis a dizer, senhor alferes? perguntou Estácio com a maior calma e dignidade.

— Tudo; e agora que está de aviso o senhor estudante, se por acaso escolhesse outro campeão, seriam capazes de dizer que tinha medo!

— E não errariam, Senhor D. José, realmente tenho medo.

— Ah! exclamou o alferes.

— Tenho medo de matar-vos; porém por felicidade vossa e minha, sei me dominar.

Estácio voltou as costas ao alferes, e encontrou fito nele o olhar de Inesita. Esse olhar era uma interrogação e uma súplica.

A menina de longe não escutara as palavras, mas vira a expressão de D. José, e presa de cruéis pressentimentos procurava ler no semblante do moço a confirmação dos seus receios, pedindo-lhe ao mesmo tempo indulgência para seu irmão.

Estácio sorriu-lhe; sorriso triste, acerbo e pungente, úlcera d'alma cicatrizando nos lábios.