As Minas de Prata/I/XIX

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As Minas de Prata por José de Alencar
Quanto ingrato já era no século XVII o mister de escritor


O Padre Soares ergueu-se, foi ao canto, abriu uma arca de que tinha a chave, tirou um grosso in-fólio, que deitou sobre a mesa, a qual gemeu com o peso do respeitável bacamarte.

Os outros jesuítas, que partilhavam a incredulidade fingida ou sincera do assistente, estremeceram vendo-se ameaçados com a leitura de algum capítulo da obra, e trocaram um olhar de espanto e medo. Só o P. Inácio conservara-se indiferente a tudo; apenas algumas vezes seus lábios finos comprimiam-se como para reter uma palavra que iam pronunciar.

Enquanto o padre-mestre espanava o pó da capa de pergaminho do velho alfarrábio, o assistente fazendo uma cara de aborrecimento, parecia revestir-se de boa dose de paciência: preparava-se para cumprir dignamente o seu penoso encargo de superior, obrigado a ouvir todos os pareceres, e a não desprezar nenhuma informação que pudesse favorecer os interesses da Companhia.

Sacudido o pó, o P. Soares alisou os raros fios de cabelos da imensa calva, encheu as bochechas, afinou a garganta, e retraindo o corpo, levou a mão à capa do livro com a emoção do autor que revê depois de muito tempo o fruto de seu trabalho e o filho de suas elucubrações.

O conclave estremeceu de novo; pressentiu que a borrasca ia desabar na forma de algum prólogo monstruoso, recheado de textos e citações; e os há tão longos que usurpam o espaço necessário ao desenvolvimento da obra, e tão insulsos que fazem perder o gosto do livro antes de o ler.

Enganaram-se porém.

O autor no abrir a capa do alfarrábio, voltou atrás e deixou-a cair.

— V. Reverência talvez não saiba a história deste livro?

— Não, padre-mestre, não sei. Pois tem uma história? perguntou o assistente com resignação evangélica.

— Tem-na, como tudo neste mundo.

— Bem pensado, P. Soares!

Os jesuítas olharam-se com desespero mudo e concentrado; em vez do prólogo escrito, que talvez só fora adiado, tinham um proêmio oral.

O P. Soares começou:

— Quando chegou a Madrid em 1593 a notícia de ter Robério Dias morrido sem indicar o lugar onde jazem as minas de prata, levantaram-se diversos boatos. No dizer de uns, Robério despeitado porque El-Rei não lhe dera o título de marquês, vingara-se levando desta vida o segredo. Acreditavam outros que ele estava de boa-fé, e nada revelara por se ter desencaminhado um roteiro que seu pai fizera no descobrimento. Queriam muitos finalmente que tais minas só tinham existido na voz pública, in voce populi.

— E há de concordar que era essa a opinião mais acertada, disse o P. Molina bocejando.

— Foi a que mais correu entre a gente douta, replicou o imperturbável cronista. O sumo prelado da Companhia entendeu porém que não se devia desprezar, antes cumpria estudar o assunto com a necessária atenção. Procurou-se homem a quem encarregar de tão árdua tarefa; a escolha recaiu no menos digno. Fui mandado a esta província, e tirando forças dos bons desejos, cumpri a vontade soberana do Geral. Aqui tem V. Reverência a resulta de quatorze anos de pesquisas e trabalhos: creio eu que não foram perdidos.

— Descobriu V. Paternidade as minas pelo que vejo! acudiu o assistente com ar de mofa.

— Não, Reverendíssimo; mas achei o modo de descobri-las.

Voltando então a capa do alfarrábio, o P. Soares leu o gordo título da obra, escrito, com tinta vermelha, em bastardinho floreado.

O título rezava:


                                                Memória circunstanciada
                                                                

Que
                                   A respeito das famosas Minas de Prata
                                                        de Jacobina
                                    escreveu o Padre Manuel Soares,
                                da Companhia de Jesus, Religioso Professo,
                                         e Cronista da Província do
                                                            Brasil,
                             Seguida de notas críticas e explicativas para
                                      melhor inteligência do texto.
                                   Cidade do Salvador. — Ano MDCVI.


Não se achava muito desenvolvido naquela época o espírito de associação literária, nem se tinham inventado ainda institutos e academias de toda a espécie; pois é natural que o Reverendo P. Manuel Soares não se esquecesse de comemorar no frontispício do livro, à guisa de alguns autores modernos, os seus diplomas científicos.

Os olhos já apertados dos jesuítas começaram a toscanejar de uma maneira significativa.

— Tem esta memória duas partes. Na primeira trata-se de saber que destino teve o roteiro de Robério Dias. Na segunda procura-se conhecer aproximativamente o lugar onde existam as minas. Vou ler.

— Tudo isso, P. Soares? exclamou o assistente em cujo rosto pintou-se o pavor que lhe inspirava semelhante leitura.

O cronista sorriu:

— O texto é pequeno e escrito em bastardinho; o que avultam são as notas, e estas V. Reverência consultará depois.

— Contudo, não será melhor amanhã?

— Amanhã?... Ninguém sabe o que pode acontecer.

— Está bem, leia, P. Soares, disse o assistente recostando-se no espaldar da poltrona.

A imparcialidade de historiador nos põe o dever de protestar contra a injusta prevenção do respeitável capítulo sobre a prosa do Reverendo Manuel Soares.

O ilustre cronista da Província do Brasil, como Cervantes, havia pressentido já no século XVII a invenção da escola romântica, à qual deve a literatura moderna tantos primores e maiores extravagâncias literárias. A sua narrativa tinha a forma dramática do poema antigo e a simplicidade do conto da Média Idade. O estilo chão e fluente desmerecia talvez pela falta do nervo e concisão da frase, mas compensava este senão com a naturalidade e singeleza da expressão.

É pena que esse livro precioso se tenha perdido, pois sem contar a descoberta importante de que tratava, daria à história que ora escrevemos um testemunho irrecusável de sua veracidade.

O jesuíta abriu o alfarrábio com muita solenidade, e dispôs-se a começar a leitura no meio do mais profundo silêncio, pois era o silêncio da modorra. De feito o capítulo, com exceção do P. Inácio absorvido em suas meditações, sofria naquele momento a ação soporífera que sobre ele exercia a crônica das minas de prata; mas o autor, com a consciência do merecimento de sua obra, não via senão o recolho de quem se preparava à audição.

Não há notícia do que leu nessa noite o Reverendo Manuel Soares, cronista da Província do Brasil; porque ainda é duvidoso que algum dos respeitáveis conselheiros que compunham seu auditório o ouvisse. Antes que o leitor chegasse ao fim da primeira parte, a grande alâmpada, falta de óleo, crepitou e a luz extinguiu-se.

Esse caso imprevisto dissolveu o capítulo com verdadeira satisfação dos reverendos professos, que foram acabar no leito o primeiro sono interrompido. O último a retirar-se foi o provincial, que depois de fechar as arcas e armários com a costumada prudência, entregou a correia de chaves ao assistente, como superior da casa.

Já o silêncio se restabelecera nas vastas salas e corredores do convento; todo o claustro parecia entregue ao repouso, quando de novo a luz mortiça de uma lanterna alvejou nas trevas, e veio caminhando na direção do cartório.

A chave rangeu na fechadura, e o P. Gusmão de Molina, pois era ele, penetrou no gabinete e fechou-se por dentro. Aí demorou-se o resto da noite, lendo o grosso in-fólio do P. Manuel Soares com ardente curiosidade. Alguma vez parava para refletir, mas prosseguia logo com maior afã a interrompida leitura.

Afinal encontrou ele o que procurava. Leu e releu uma e muitas vezes a página; acabou arrancando-a sutilmente do ventre do alfarrábio. Dobrou-a e escondeu no bolso interno do hábito; restituindo o manuscrito à arca onde jazia, tornou com o mesmo mistério à cela que lhe haviam destinado.

O dúbio palor que precede a alvorada descorava o oriente, quando o visitador entrou na cela. Ainda uma vez absorveu-se na leitura da folha arrancada ao manuscrito, como se a quisesse decorar; depois abrindo o missal, copiou em cifra, de que só ele tinha a chave, o contexto da página.

Então a chama da luz que o esclarecia devorou lentamente a folha do manuscrito, cuja cinza pulverizou a mão prudente do jesuíta.

O P. Gusmão abriu o postigo da janela; a fresca brisa que impelia o pirajá da Ponta do Padrão refrescou-lhe a fronte abrasada pela vigília e por fundas meditações.

Longe recortavam no escuro do horizonte as colinas de Itaparica; sobre a polida face do mar passavam, como frouxos reflexos das estrelas, as velas dos barcos pescadores, que já se aproximavam de terra.

Nem mais burburinho de festa, nem mais rumores do mundo.

A cidade repousava fatigada das emoções da véspera, enquanto a natureza plácida se preparava para a festa serena do nascer do dia.

Interrompeu a meditação do visitador uma forte pancada vibrada na porta larga do convento por mão robusta e insôfrega. O jesuíta debruçando-se à janela viu parado no pórtico um vulto armado; poucos instantes passados ouviu o diálogo que trocava o irmão porteiro com o desconhecido.

— Quem vai lá por tais desoras?

— Um servo de Deus, Irmão Bernardo.

— Um servo de Deus! resmoneou o porteiro. Todos o são quando lhes faz conta.

— Pois não me conheceis? Manuel Batista, escudeiro da Senhora D. Luísa de Paiva?

— Bem me queria parecer que já vos tinha ouvido a voz algures... Com que então sois Manuel Batista?

— Sim, Manuel Batista.

— O escudeiro da Senhora D. Luísa de Paiva?

— O próprio sem tirar nem pôr.

— Da Senhora D. Luísa, viúva do mercador...

— Isso mesmo, Irmão Bernardo. Mas com o favor de Deus abri, que já me tendes aqui há bom credo!

— Lá se vai, lá se vai, irmão. Com que então sois o escudeiro da Senhora D. Luísa, daquela que mora além dos Padres Bentos? Estais bem certo disso?

O escudeiro mordeu nos beiços uma jura bem pouco cortês e desabafou abalando a portada com um murro furioso.

— Quereis fazer a mercê de abrir?

— Esperai com Deus, Irmão Batista. A impaciência é um pecado; e já agora fareis penitência dele.

— Irmão Bernardo, Irmão Bernardo! retrucou Batista: tendes muitas palavras para leigo, e pouca diligência para um porteiro. Queira Deus que a Senhora D. Luísa não faça disto sabedor o Reverendo P. Figueira, que certo o levará ao P. Provincial.

O argumento calou no ânimo do leigo, que resolveu enfim alumiar a candeia.

— Hum! Hum! hum!... Mas, enfim, dizei duma feita a que vindes.

— Venho procurar o Reverendo P. Figueira da parte da dona.

— E que tamanha estreita é esta? Já se acha ela in extremis?

A portada abriu-se; o escudeiro como quem era conhecedor da casa barafustou pela escadaria em direção aos dormitórios.

O P. Molina chegava à porta da cela para inquirir de Batista o motivo de tão pressuroso chamado que enviava D. Luísa ao seu confessor, quando encontrou-se face a face com o P. Inácio do Louriçal. Trocadas as saudações com a costumada humildade evangélica, o visitador esperou que o religioso lhe comunicasse o assunto de visita tão matutina.

— Venho pedir a V. Reverência uma graça.

— Diga, P. Inácio; e seja ela tal que eu possa satisfazer a V. Paternidade sem prejuízo do serviço de Deus.

— Não pode ser em prejuízo do serviço de Deus, pois é para seu maior serviço. Venho pedir a V. Reverência que me deixe ir apostolar no sertão, entre os selvagens que tanto carecem da palavra divina, da qual nunca seremos pródigos em demasia, nós, os ministros do Senhor.

— De quando é essa meritória inspiração?... Seria a nossa chegada a esta casa que tanto afervorou o zelo de V. Paternidade?

E como o jesuíta não respondesse, o visitador continuou em tom de severidade.

— P. Inácio, P. Inácio, o orgulho é mau conselheiro. Initium omnis peccati est superbia, disse o Eclesiástico. Ontem fui de contrário aviso ao seu, na maneira de entender o nosso santo ministério; e o fui por dever, que não por mundana vaidade de primar sobre o próximo. Doeulhe a contrariedade; por isso quer já evitar a nossa presença. Não pode ser bem aceita a Deus a oblação que vem do mau pensamento.

— Humilho-me diante de V. Reverência como um grande pecador que sou, mas de orgulho não me acusa a consciência, padre visitador. O apostolado foi sempre o meu constante desejo; agora mais do que nunca. Entre o gentio, um sacerdote ignorante e simples será sempre agradável ao Senhor ensinando o Evangelho; enquanto que nas cidades, as obras são de vulto e os casos difíceis. As forças me falecem para tamanha empresa.

— Recaiu em culpa e pena, P. Inácio; essa fingida humildade é soberba ainda. Amesquinha o apostolado; mas está se vendo que sua intenção foi exaltá-lo, desdenhando daqueles que se ocupam com outros deveres, também árduos, do nosso Santo Instituto. Parece que a obediência de V. Paternidade repugna com eles.

— A minha obediência é sem limites, padre visitador, mas a minha inteligência é acanhada. V. Reverência me ensinou ontem que há deveres que não sei compreender; confesso a minha fraqueza; temo que a minha rudez não me torne tíbio e irresoluto. É receio de pecar por ignorância, padre visitador; não falta de zelo, menos soberba.

— Bem; não comece pelo rigor o uso do pleno poder que o sumo prelado da Companhia nos confiou para governo desta Província: vá apostolar o P. Inácio. Quando V. Paternidade se achar só com a sua consciência, conhecerá que tínhamos razão; estou que nos virá então de ânimo contrito. Saiba porém que o maior martírio que levamos em oferenda ao Senhor não é o martírio da carne, que nos tinge de vermelho a túnica e macera este pó de que fomos amassados. Oh! que não! Há mais cru e de maior angústia. É o martírio d'alma, cheia de caridade e crivada das dores que afligem a pobre humanidade; é a coroa de espinhos do apóstolo mandado para resgatar o homem do pecado com as lágrimas e sofrimentos do próximo. Esse sim é martírio; não de sangue, mas do espírito.

Nesse momento o P. Figueira acompanhado do escudeiro de D. Luísa aparecia na extrema do corredor.

O escudeiro penetrando no convento, correra direito à cela do confessor de sua ama, e sem dar-lhe tempo de vestir a capa, anunciara a que vinha:

— Padre-mestre! Padre-mestre! Trago recado da dona para que sem perda de tempo a vá socorrer com seu adjutório.

— O que houve por lá?

— Saberá o Reverendíssimo que ignoro. A dona só me disse para trazer, que o caso era intrincado e ninguém mais lhe podia valer, senão o padre-mestre.

— Isto foi o que mandaram dizer; diga agora o que sabe, respondeu o jesuíta envergando o hábito.

— O que sei? Mas eu não sei nada, Reverendíssimo!

— Manuel Batista, você não está em estado de graça. Hoje é sexta-feira: vou ouvi-lo de confissão, antes de partirmos.

— Não é preciso, padre-mestre.

O escudeiro pôs-se na ponta dos pés e segredou no ouvido do religioso, em cujo rosto pintou-se o assombro do que ouvia.

— A filha!... A menina Elvira?... exclamou o frade.

— A menos que não sejam coisas do Tinhoso!... Vade Retro!

— Bom, bom! Vamo-nos sem detença. Remiu sua culpa, Manuel Batista. De caminho rezará em voz alta três credos; é a penitência que lhe dou. Para outra vez a terá anoveada.

Encontrando o visitador, o P. Figueira tomou-o de parte para comunicar-lhe o motivo de sua diligência. Pouco se demorou; logo descendo a larga escadaria de pedra, transpôs o limiar e cortou a passo miúdo, mas rápido, na direção dos beneditinos.

Seguia-o de perto o Manuel Batista, o qual em cumprimento da penitência, declamava no tom da verdadeira compunção o Creio em Deus Padre.

O sol já vinha despontando; seus primeiros raios douravam os cimos das verdes colinas grupadas em pedestal à cidade, e iam carminar as orlas das brancas nuvens esgarçadas pelo azul do céu.

O pirajá que durante a noite se desfizera sobre a cidade, umedecera o arvoredo, que ainda nesse tempo entrava pelo recente povoado, recortando as ruas e praças e dando à cidade uma feição campestre de amena singeleza. As aves silvestres atitavam na ponta dos telhados cobertos de parasitas; o gado mugindo alegremente retouçava à beira do caminho.

Era uma fresca manhã das que vigoram o corpo nos países tropicais, e lavam o peito com os acres perfumes das plantas; manhã que já não se pode hoje gozar senão longe da cidades, procul negotiis.