As Minas de Prata/II/VII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Um amor que nasceu mal-agourado


Vaz Caminha já refeito com a boa sonada recebeu o afilhado cheio de contentamento.

— O vosso cedo, filho, o é menos que o meu tarde. Desde as sete que vos espero; mas sem dúvida pegou-vos o sono, que é valente nos moços.

— Parece-vos que estes olhos estejam inflamados de dormir, mestre?

O advogado já tinha reparado no aspecto decomposto do estudante, mas conheceu que era debalde querer arrancá-lo à oculta mágoa; e teve por mais acertado sondar logo a profundeza do golpe:

— Estácio, filho, não vos deslembreis que já não sois a esta hora o moço estudante sem cuidado e futuro que ontem éreis. A memória de vosso pai, primeiro, e vossa honra depois, sem contar com o que deveis à pátria, esperam de vós uma ser resgatada, e a outra mantida. Para tamanha empresa careceis de todas as vossas forças de espírito e corpo, e guarde Deus que todas elas acrescidas pelo brio que vos conheço, não bastem! Se tendes pois coisa que vos aflige, e tolhe o ânimo resoluto, dizei-o, filho, por que eu vos limpe dessa ferrugem da tristura, que rói mais o coração, que a outra o aço.

Sentiu Estácio alguma coisa que o impelia aos braços do velho, e abria o seu coração para vazá-lo naquele tão amigo seu, e mais de pai; porém quase logo outro movimento estranho refrangeu-lhe os folhos d'alma magoada, e os lábios emudeceram. Nada escapou a Vaz Caminha:

— Peja-vos de conversar amores com vosso velho mestre, ou temeis que estas cãs e rugas agourem mal vossos afetos, se os deixardes roçar por elas?

— Oh! não, mestre; tal pensamento nunca me entrara, bem o sabeis. Tanto vos estimo quanto vos respeito; e eis por que me falta o ânimo.

— Vinde cá! disse o velho tomando a mão do moço. A quem respeitamos mais que a Deus, Senhor nosso e Criador, e não é a ele que despimos todos os dias nossa alma e a pomos nua a seus pés, com as chagas dos pecados todas à mostra? Além de que resto pouco podeis acrescentar ao que estou lendo nesse semblante desfeito e nesses olhos fundos não dormidos e escaldados de lágrimas. Vosso coração espertou, filho, cedo demais para o vosso sossego; mas assim devera de ser com o fruto, pois a árvore foi precoce. Homem já pelas qualidades, não podíeis deixar de sê-lo para as paixões. Subistes vossos amores alto demais para vossa fortuna presente, não para o vosso merecimento; daí vos vem decerto a pena que sofreis neste momento. Vede, a suma é esta: o nome das pessoas, o lugar e as circunstâncias, sabem-no todos os curiosos e enredeiros da cidade, a quem nada escapa; eu os ignoro, porque não fazeis confiança em vosso velho mestre, que vos ficou neste mundo em lugar de pai e mãe.

Estácio não hesitou mais.

— Perdoai, mestre, perdoai se vos magoei. Tudo já vos digo.

O moço começou, enrubescendo, uma simples narrativa, a história de seus estranhos amores.

— Sem dúvida conheceis D. Francisco de Aguilar?

— De fama, muito; pouco, de trato.

Estácio balbuciou:

— É sua filha, D. Inês.

Como se o nome da moça fosse o único e mágico fecho que encerrava os ímpetos de seu afeto, e uma vez quebrado sua alma jorrasse em borbotões dos lábios, ele prosseguiu com desafogo e veemência:

— A vez que primeiro a vi foi há cerca de três anos, e em todo este tempo, mestre, não a tornei a ver mais que três sem contar o dia de ontem.

— Referi como isso aconteceu.

— Não imaginais quanto me deleita o mar. Houve tempo em que foi meu passatempo sulcar a baía na canoa de um rapaz da ribeira, que me conheceu de muito criança. Fazia-o às ocultas vossas e de minha boa mãe, pelo susto que vos poderia causar a ambos, do que agora me escusareis.

— Deus escreve direito por linhas tortas! interrompeu o advogado a meia voz e sorrindo.

— Dizeis?

— Prossegui, filho.

— Foi em dias de setembro, sobre tarde. Ventava rijo; as ondas andavam altas e cruzadas; a travessia inchando o seio à vela; e o barquinho a pular sobre o grosso marulho, como passarinho de ramo em ramo. Tudo isso era festa para mim, festa da natureza mais fermosa e gentil do que a fazem os homens.

“O canoeiro tinha a escota, eu o governo. Íamos fronteiros com a Graça, rumo da barra; eis que uma galeota apavesada de sedas luzidas, a todo o pano e voga arrancada, fez-se na volta da Escada e veio sobre nós fendendo as ondas galhardamente. Trazia suspensa a ponta do reposte de damasco azul; e ali, como em um canto do céu, estava, de menos as asas e de mais a gentileza, uma figura de anjo. O mesmo foi verem-na os olhos meus que cegarem logo. O realce da celeste visão enlevou-me em um só e rápido instante o espírito e a vontade; mas tanto bastou para que o mar nos arremessasse contra a soberba galeota. O frágil esquife espedaçou-se. Esteves cortou direito à praia; eu não sei por que fui-me no seguimento do barco que singrava os mares alterosos. Um cavalheiro, que soube depois ser D. José, irmão seu, saíra da tolda ao rumor produzido pelo soçobro da canoa. Descobrindo-me que nadava a poucas braças, voltou-se para os escravos da voga e intimou-lhes uma ordem em tom iroso e assoberbado:

“— Leva remos!... Um calabre àquele mariola!... Outro merecia ele para se não atravessar ao caminho da gente.

“Ainda agora, mestre, repetindo-vos esta palavra, sinto que ela me escalda o sangue; imaginai o que seria naquele instante. Minha vontade era poder ali mesmo desafrontar-me. Quanto a aceitar um socorro que me era atirado de envolta com o ultraje, se em tal pensasse, me teria por indigno e vil. Arrojei de mim com desprezo e mofa o cabo que me lançaram. Ainda que me considerei perdido havendo por impossível ganhar a praia tão distante, segui na esteira da galeota, onde o surco cavado na onda me ajudava.

“O anjo, que eu vira de relance para minha desventura, surgiu outro instante de longe, reclinado sobre a onda, olhando-me entre sentida e admirada. Encomendei a ele minha alma, por que a levasse ao céu, quando deste mundo se partisse; e bem próximo estava, que as forças me faleciam, e o corpo hirto não respondia já ao aflito ânimo. Então lembrei-me de vós, mestre, e sepultei-me no fundo do mar. Entre o rumor das vagas que se abriram para tragar-me, ouvi como uma voz suave que já me acolhia na bem-aventurança:

“— Jesus!...

“Voltando à tona d’água, minha mão alcançou por proteção de Deus a corda de uma boia. O desespero restituiu-me alguma parte das forças, e com estas me volveram os espíritos. Bem recobrado da extrema fadiga, e livrando-me das roupas, ganhei a terra. Pisei-a com um grande contentamento, não só porque pensava não mais senti-la sob os meus pés, como porque a minha salvação, a devia a Deus unicamente.”

— Bem, filho! exclamou o velho. Razão tive eu de inquirir o vosso coração, para ainda mais louvar-me da nobreza dele!...

Estácio continuou:

— Meses decorridos, deu-me o acaso, que a visse outro breve instante. Foi em Nazaré, na casa que aí tem seu pai. Acertei de passar por lá em ocasião de estar ela regando seus craveiros na janela mais alta do torreão. Vinha meu caminho, sem me aperceber de nada, quando as gotas d’água que me borrifaram o chapéu, fizeram que desviasse para o meio da estrada e erguesse a vista. As gelosias estavam entreabertas; e seu rosto me apareceu entre os dois vasos de porcelana da Índia postos sobre o balcão. Também ela reclinara para ver; mas dando com os olhos em mim, teve um forte sobressalto, talvez porque me julgava morto e pensou naquele instante ver meu vulto apenas. Com o movimento do susto, o braço dera em um dos vasos, que arremessado de toda a altura do balcão veio espedaçar-se a meus pés: uma linha mais e esmagado ali ficava eu. A morte roçara por mim tão perto, que eu sentira o seu calafrio.

— Depois?... perguntou o velho.

— As gelosias cerraram-se; e ninguém mais apareceu.

“Correu muito tempo. Já eu tivera tempo de esquecê-la: uma grande dor, vós sabeis, a perda de minha mãe, sepultara cedo a minha infância, e com essa toda lembrança do passado. Mas a imagem dela, de Inês, de novo presente a meus olhos, volveu a tomar posse de mim, e dessa vez creio eu, que para sempre.

“Vinha ela do engenho; e caçava eu por aquelas bandas. Vendo a comitiva que se aproximava, deixei-me ficar escondido na ramada espessa, onde estava espreitando uma codorna. O cavalo refugou, os pajens gritaram, e não lhes respondendo eu, talvez iludidos da cor das minhas roupas, me tomaram por um selvagem; um desfechoume a carabina; a bala zuniu-me ao ouvido, chamuscando o pelo da lã do meu gibão. Com o estrondo do tiro e o voo sussurrante da ave, o cavalo disparou como um raio. Felizmente passou ao alcance de mim, que pude de um salto travar-lhe da brida e sofreá-lo.

“Seu pai chegava então, e já sabedor do que era passado, atirou-me a bolsa fornida de moedas. Rápido a apartei de mim com o pé, e voltando-lhe costas, sumi-me pelo mato. Em me lembrando disso, penso que me fiz mal a mim mesmo de ser tão altivo e ríspido na recusa; mas quando o quisesse, não acabaria comigo proceder de teor diverso. Essa esmola do pai tinha-me doído, ainda mais do que o insulto do irmão.

“Só então refleti na estranheza das minhas aventuras. Três vezes que a vira de relance, três a minha vida correra por ela iminente perigo. Significavam esses casos que sua influência me havia de ser fatal, e eram avisos do céu para que a fugisse? Outro bem diverso foi o pensamento que me acordou no íntimo, e tão poderoso que não havia resistir-lhe. Até ali não era eu que a tinha buscado, mas o acaso que ma trouxera: daquela hora em diante fui eu que a busquei debalde e o acaso que a furtou ao meu desejo e incessante esforço.

“Longo trato de dias e semanas corri após essa ardente esperança de encontrá-la. Quantas vezes cruzei os mares onde ela me aparecera primeiro, e quantas o caminho onde último a admirara de perto. Passei e repassei por baixo da janela, em que lograra um rápido instante a sua vista. Mas tudo debalde. Tanta decepção afinal irritou meu brio, mestre; jurei em minha alma que a havia de ver um olhar sequer, ainda quando esse olhar devesse custar-me a vida, três vezes já sobejo da morte.

“À hora dessa jura, que foi a da alvorada, tomei caminho de sua casa de Nazaré. Fronteiro ao balcão da janela há um coqueiro; encostei-me aí com os olhos pregados nas gelosias douradas, e o pensamento enleado nos modos de a ver. Batia-me o coração que ela estava ali naquela recâmera, onde me mostrara antes regando suas flores; e de a sentir tão perto d'alma, quanto mais longe dos olhos, o desejo se acendia em mim.

“As horas vieram umas após outras, trazendo-me o desânimo, pelas esperanças que me arrebatavam aos molhos. Era dia de fevereiro; o sol abrasava, e eu o curti ali todo; mas que muito, se não deixava sentir-lhe a calma o fogo que ardia dentro. Sobre tarde o tempo desconcertou-se; uma grande borrasca armou-se, que o vento rijo impelia sobre a cidade. Parte do céu ainda estava límpido e azul, que a outra era estofada de grossas nuvens. No bojo verde-negro os relâmpagos incendiavam-se a miúdo, e o trovão reboava com um estampido surdo.

“Haveis de lembrar-vos, mestre, desse medonho temporal do ano passado...”

— Que tantos estragos causou no mar, bem como em terra!

— Sabeis pois a parte que tive nele. Enquanto se formava a borrasca, o dia ia-se finando, já com a sombra da noite próxima, já com a escuridade das nuvens. Houve um momento em que tudo foi silêncio e placidez no céu e terra; a natureza com a respiração tomada, sufocava: mas logo, como se recobrara as forças ingentes, acrescidas pela angústia, desfechou o temporal horrível.

“Foi nesse instante, que o céu fez solene. Uma banda da gelosia abriu-se de repente e fechouse. Entre a luz dos relâmpagos vi deslumbrado a imagem de Inês. Pareceu que o céu se fendera para mostrar-me o seu anjo mais puro no seio da glória, nadando em luz. Fora acaso essa aparição, ou propósito, não o podia eu saber. Acreditei que Deus a enviava a mim, e desta vez para salvar-me, como vereis.

“Voltava já, mas com um andar lento, que me não roubasse de repente a janela da vista, quando a nuvem rasgou-se, e um raio listrando fogo, correu pelo tronco do coqueiro e embebeu-se na terra, que ainda conservava os vestígios de meus passos. Uma grande alegria se derramou dentro em mim com a luz desse raio. A fatalidade fora vencida. Inês já não podia ser funesta ao meu destino, pois era ela quem acabava de salvar-me, aparecendo ao balcão, para que eu me partisse.

“Desde então nunca mais a vi, senão foi ontem, embora, sempre que passava por sua casa e olhava as gelosias, era como se a tivera ali própria e viva diante de meus olhos. Minha alma sentia-se perto dela; e sabia, por um estremecimento íntimo, quando comunicava com a sua por um olhar invisível coado entre as frestas da gelosia. Até que um dia a casa apareceu deserta; tinham partido para o engenho.

“Quando ontem a encontrei na missa, por um olhar dela, mestre, acreditei que não me malqueria; à tarde nos jogos, pensei que viesse a merecer um dia o seu agrado. Mas o sarau tudo esvaneceu; é noiva de D. Fernando de Ataíde. Seu pai o publicou a todos em palácio; e antes disso, o conheci eu no modo por que dançavam ambos no baile.”

O moço proferira essas últimas palavras açodado e com extrema aflição. Percebia-se que ele, ao tocar nas últimas recordações de seu afeto, doía-se como se estivessem ainda em carne viva; e por isso perpassava por elas rapidamente.

— Por que esta desventura, que tudo levou, ainda me deixou coração para amá-la, mestre?... Sinto que teria um grande consolo em aborrecê-la!...

Vaz Caminha saiu do recolho de espírito em que estivera escutando o afilhado, desde a sua última interrupção; erguendo-se com uns ares vivos e animados, bateu no ombro do moço:

— Ora vos desconheço, Estácio!... E não vos vejo o mesmo homem que fostes e deveis ser para as contrariedades!... Porque a sorte, a princípio avessa, vos faz negaças, parecendo roubar-vos a escolhida de vosso coração, já desanimais e vos rendeis aos pesares e desventuras?

— Que posso eu, mestre, contra a fatalidade?

— Tudo, ajudando o Senhor. Compenetrai-vos disto, Estácio, que um querer firme e constante, dirigido para o bem, praz sempre ao Criador, que fez o homem à sua imagem, inda que imperfeito.

Como se essa ideia esticasse fortemente em sua alma uma corda então flácida, restituindo-lhe o antigo vigor e vibrando-a sonora, Estácio ergueu-se de um ímpeto, transfigurado inteiramente do aspecto sombrio e desânimo que tinha há instantes. Agora a força inata de sua organização difundia-se no olhar resoluto, no gesto sóbrio e pronto, na atitude calma, porém firme e enérgica.

— Falastes à minha alma, mestre, pois ela vos responde! Oh! que sim; abristes uns olhos cegos; sanastes este espírito enfermo. Lutarei!...

O licenciado sorriu de satisfeito.

— Tudo me diz que vosso afeto é recebido por aquela a quem o oferecestes. Na idade de Inês, os olhos são espelhos d'alma, e o recato a mais eloquente fala do coração. Embora seu pai a tenha destinado para outro, desde que vos apresentardes nobre e rico, podereis disputar com vantagem sua mão.

— Nobre e rico!... murmurou Estácio.

— Esquecestes acaso o roteiro?...

— Não o esqueci, não, mestre: aqui trago a carta. Mas quanto tempo não passará antes que me seja entregue esse depósito? E até lá não será tarde? Não estará Inês esposa já de outro e para sempre perdida de mim?

— Conforme a resolução e presteza com que vos houverdes na empresa. Podeis ir a São Sebastião e estar aqui de volta em dois meses. Ora, um casamento, e casamento de fidalgo, é negócio para três dobres.

— Quem sabe?... A pressa com que o anunciaram...

— Crede no que vos digo!... Seis meses, nunca menos! De mais, para tranquilizar-vos, fico-vos de fiador que Fernando de Ataíde não se casará com D. Inês de Aguilar, nem mesmo em um ano... e talvez nunca!

— Donde provém tamanha segurança?

— Depositai fé neste velho amigo, Estácio, e crede que bem longe de tratar de resto vossos amores, tem-nos como coisa sua do peito, porque são parte vossa. Quem melhor pode sentir vossas penas e tomar-lhes o peso que o amigo que vos traz, e a tudo que vos pertence, dentro do coração?

O mancebo estreitou o velho em seus braços.

— Assim, sede prestes a partir domingo!

— Já domingo!

— Concertei o plano de vossa viagem ontem à noite; não vo-lo comunico já para não carregar-vos o espírito com objeto triste: nos poucos dias que restam entregue-se ele todo aos doces cuidados. Na véspera sabereis: somente estai prestes e compenetrai-vos bem disto, que ides em busca de mui precioso tesouro, Estácio, pois ele representa a reabilitação de vosso pai, a honra de vosso nome, e a felicidade de vosso amor.

— Três coisas santas, por uma só das quais dera minha vida.

Momentos depois, Estácio deixava a casa de Vaz Caminha, e se encaminhava pensativo à Ribeira, onde morava em companhia de D. Mência, sua velha tia. Na altura da Sé, atravessou-lhe pelos raios do olhar empanado, um vulto de mulher que teve o poder de evocar seu espírito.

Era nada mais que a figura insignificante da comadre Brásia, embrulhada em sua mantilha rapada de serafina e saracoteando o corpo com o trote miúdo de uma cadela que anda ao faro de algum osso para roer. Sua vista lembrou ao mancebo o emprazamento da véspera no adro de Santa Luzia, com a misteriosa dama que lhe trocara a bolsa. As faces arderam de rubor, com a lembrança dessa humilhação; deitou-se pois com veemência à covilheira, a qual já o tinha percebido, e disfarçada moderara o passo para ser alcançada.

Afinal Estácio, obrigando-a a parar, tirou dos golpes do saio a bolsa e esvaziou as moedas:

— Mulher, levai este ouro àquela que vos mandou e que eu não conheço. Dir-lhe-eis que em troca do serviço que de mim espera, a sua paga é generosa demais para um aventureiro, e vilíssima para um cavalheiro!

— Por Cupido vos juro, senhor cavalheiro, que minha formosa dona não teve intenção de ofender-vos!

— Tanto disso estou convencido, que lhe restituo o ouro, mas guardo a bolsa como a única recompensa que desejo!...

— Mas sempre ouvi que não era desar receber um cavalheiro mimos de sua dama!... Nos tempos da cavalaria assim se usava!...

— Ah! esquecia-me advertir-vos; falta aí uma moeda. Dei-a ontem de esmola e não tenho outra para repor!...

— Pelo amor de Deus, cavalheiro!

— Vamos, tomai!

— Isso não! Sem ordem da dama!... Para que se amofine comigo e ralhe?... Desse cavalinho não caio eu!

— Pois não quereis a aprazimento, será a contragosto! Aí estão em vosso poder; fazei delas agora o que vos aprouver!

Dizendo o que, travara Estácio de uma ponta da mantilha da covilheira, e atando destramente as moedas em nó, afastou-se antes que a mulher caísse em si da surpresa.

Com uma cara de desconsolo, tornou a Brásia mais que depressa a casa para dar conta à dama do acontecido.