As Minas de Prata/II/VIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Onde se prova a virtude das alféloas de Joaninha


Quem seguisse a margem exterior do largo fosso, que nessa época cercava a área da cidade e o arrabalde do Carmo, ao chegar à altura do Convento dos Franciscanos, dava com um pequeno casebre que aí havia. Encostado aos panos de muro, restos dos bastiões em ruínas, o exíguo albergue ameaçava de um dia ser esmagado pelo descalabro das antigas e aluídas construções.

Na nesga do campo, que mediava entre as linhas de fortificações e a margem do fosso, não havia outra habitação; e como a vereda que serpejava entre o matagal até o arrabalde do Carmo era rodeio e não atalho, raros passantes atravessavam aquele ermo; o que sucedia de ordinário entre uma e quatro horas, quando era o caminho protegido do sol pela sombra da montanha.

Sexta-feira, seriam oito horas da manhã, andava no terreiro da casa a feiticeira Joaninha. Trocadas as vestes de princesa pelos trajes de rapariga do povo, já pela manhã voltara ao mister cotidiano. Volvia de um a outro lado, entrando ou saindo, com a graça e a sutileza de uma perdiz que fabrica o ninho. Fabricava ela também os confeitos e alcorças, donde tirava o pão de cada dia e a escassa reserva para os tempos difíceis.

Aqui estendia à seca em tabuleiro os doces já feitos, ou esfriava as fôrmas em vaso d’água; lá recortava flores na pasta de açúcar estendida sobre a mesa, ou batia o mel para dar-lhe a alvura deslumbrante do alfenim e dele esculpir figurinhas de frutos, árvores e animais. Enquanto porém os sentidos estavam todos à ocupação, parece que o pensamento andava longe, a julgar pelo tom submisso com que estava a cantarolar, tanto havia, a mesma letra de uma quadra, sempre e sempre repetida:


“Ele vai, ele vem,
Inda cá não chegou!...
Mal sabe onde seu bem,
Seu benzinho ficou.”


Entanto, um rapazito desembocando da Rua de São Francisco, galgou de um salto o lombo da muralha em ruínas, e seguiu rápido com tanta segurança, como se andara sobre chão aberto; e estava ele ainda tonto do sono, e esfregava os olhos encandeados com a claridade do dia. Vinha apressado; de instante a instante sem parar enfiava pelas frestas dos dedos uma vista ao céu, para ver a altura em que andava o sol.

Chegando a cavaleiro da casa, avistou ele à rótula do sótão uma velha gorda, de cabelos brancos, que recortava à tesoura umas estrelinhas de pão de ouro e prata, naturalmente destinadas a enfeitar os confeitos da alfeloeira.

— Sua bênção, tia Brites!... disse o menino.

A velha levantou um pouco os grandes óculos de tartaruga que lhe armavam o nariz, e encarou com a pessoinha que falara.

— Deus vos abençoe, filho!... Ah! sois vós, Gil? Em casa estão todos em santa paz?

— Vai-se vivendo, assim como Deus manda. A Joaninha?

— Há de estar lá no terreiro às voltas com sua lida.

Gil prosseguiu pelo caminho aéreo até o outro lado da casa, onde ficava o terreiro. Aí como visse a Joaninha mui apurada nos doces, logo deixou-se escorregar mansinho pelo muro abaixo. Aproximou-se sutilmente da mesa, quando a alfeloeira recolhendo as aparas de açúcar, as deitava descuidosamente no tacho posto ao lado. Estender a mão ligeira, arrebatar dos dedos da rapariga um torrão, acompanhando o gesto com um miau perfeitamente imitado, foi para o rapaz coisa de um instante.

— Ai!... Gil!... Que tamanho susto me pregaste!...

E a mulatinha mostrava ainda no tremor da voz e desmaio das cores o soçobro que tivera.

— Pois estavas tão apurada!...

Ou desfalência das forças por causa do susto, ou languidez natural à sua índole crioula, a rapariga reclinando apoiou-se docemente sobre o ombro do pajem e tomou-lhe a mão que apertou de encontro ao seio.

— Vê como ainda me bate o coração!

Sobre o mimoso seio que pulsava estofando o corpinho do vestido, a mão do pajem pousou inerte e fria; nenhuma chispa do intenso fogo que ardia ali, propagou-se por aquele sangue infantil.

— Bebe água, que isso passa. É santa coisa!... para susto e queda não há outra!...

— É a mezinha que tu me dás, Gil?...

— Essa não mata como a dos boticários.

— Oh! se mata! murmurou a mulatinha com um suspiro que lhe afogou o coração.

Gil não lhe deu atenção, ocupado como estava a raspar com a ponta da faca as pastas de açúcar estendidas sobre a tábua. Nesse movimento, que era distração apenas, a alfeloeira viu uma gulodice, e lembrou-se do que na véspera prometera a Gil.

— Ainda não perguntaste pelo que te guardei?

— Que foi?

— Adivinha!

— Que há de ser?... Por força um doce!

— Um doce, sim; mas que doce?

— Ora, dos que sabes fazer.

— Olha!... disse a rapariga tirando um objeto do avental.

Era um coração de alfenim, colocado no centro de um fartem apetitoso.

Gil arremessou-se a ele.

— Bravo!...

A mulatinha porém retirara a mão a tempo, e levantando o braço, e suspensa nas pontas dos pés ou girando sobre si, apresentava a Gil a gulosina que logo furtava para de novo oferecer-lhe. O apetite excitado, e também a contrariedade e a travessura, faziam o esperto pajem saltar de uma à outra banda para arrebatar o doce.

— Já agora não o pilhas, Gil!

— Assim não vale! exclamava o menino. Se foges...

— Não fujo, não; mas juro que o não hás de ter.

— Pois juro-te eu que o hei de tomar, custe o que custar.

Nesses movimentos desencontrados, nesses ímpetos infantis, quantas vezes o corpo gentil da mulatinha foi enlaçado pelos braços do pajem, quantas suas mãos se tocaram e suas faces roçaram uma na outra! Afinal desfalecida com a fadiga, Joaninha deixou-se cair sobre o banco, escondendo no seio o coração. Gil não hesitou; meteu a mão no talho do vestido e tirou o presente que agitou no ar em sinal de triunfo:

— Não te disse eu, que o havia de tomar?

— Se era teu já... Tanto há que to dei!... Esse que aí está, Gil, é o meu coração.

— Quantos tens então, Joaninha! Com este, andam pela dúzia os que já tenho manjado; nenhum, é certo, tão gostoso como este!...

— Sabe-te ele bem?... Pois o mais gostoso, ainda tu não provaste.

— Qual ele é? Dá-mo cá!

— Dar-te, dava-te mesmo, se já não to dei; mas tu não gostarias dele!

Joaninha suspirou outra vez; e Gil, que depois de devorar o doce, lambia os beiços, ouvindo tanger o sino de São Francisco, estremeceu e demudou-se:

— Queres tu que te diga eu, Joaninha, uma coisa?... Teu doce embora feito por tuas bentas mãos, não me tirou o amargo da boca!

— Qual amargo, Gil!... Estarás tu mofino?

— Estou enquijilado de minha vida, Joaninha! Já me deu gana de chegar ao terreiro da Sé e deixar-me cair de lá, cabeça a baixo.

— Jesus! Cala essa boca, Gil! Não ofendas a Deus, que te ouve!

A mulatinha cingiu o menino ao colo como se o quisesse proteger contra o perigo.

— Que te traz assim tão azoado, pois transtornou-te o juízo?

— Em vindo tinha mesmo na tenção dizer-te a ti, que só és quem pode remediar tudo.

— Eu!... Joaninha? exclamou ela no alegre alvoroço de uma esperança a luzir.

— Tu mesma, em pessoa!

— Ora fala!... Depressa, Gil!...

— Acaso sabes o que sejam amores, Joaninha?

— Se o sei eu, Gil?... exclamou a mulatinha estremecida; levando a mão ao coração que afogava em um delíquio suave, prosseguiu:

— Se o sei eu, Gil?... Eu, que tenho deles crivado este coração, não saber o que sejam amores!...

— Roga a Deus então que te proteja, rapariga, para que não proves das angústias, em que ontem vi o Senhor Estácio!... Hás de crer, Joaninha... Mas olha lá, não passes a ninguém!... Hás de crer que ele se quis matar!

— Quem, o Senhor Estácio?

— Se não fora certa coisa, que não te posso referir, ninguém sabe a esta hora o que seria dele!... É o que te digo, rapariga! E tudo, adivinhas por quem?

— Pois não adivinhara!... Nem que o não visse andar tanto lá para as bandas de Nazaré!...

— E ontem à tarde no terreiro do Colégio?... Mas a coisa foi no sarau, donde saiu tão avesso do que lá entrou! O que houve, sabe Deus! Mas aí andou volta daquele bruxo, do tal que ele virou ontem de cambotas, o Fernando! Só se eu não crescer um dia, ele deixará de pagar-me!... Com que então, o Senhor Estácio teve um desafio com o irmão... Sabes?... o alferes. E que havia de fazer?... Queria jogar de si a espada, para que o outro o trespassasse!... E foi ele mesmo que mo disse com estas próprias palavras: — “ Que no seu peito trespassado havia de achar um lenço cortado do ferro e tinto do seu sangue para o entregar a ela, a D. Inês, ajuntando que lhe tornava quanto era seu, pois o mais ficava na terra fria”.

O menino enxugou as lágrimas, que borbulhavam, e continuou com a voz sufocada:

— Quando penso que isto possa acontecer, Joaninha, sinto em mim uma gana de morder o nariz ao excomungado do alferes, para que me ele mate a mim primeiro. Foi nesta aflição, que me lembrei de ti, para dar uma volta ao caso. Ninguém me tira, que uma palavra da doninha ao Senhor Estácio mudava tudo do preto para o branco!

Joaninha, que de princípio escutara o pajem no doce assomo da esperança, fora depois a pouco e pouco retraindo-se, até que afinal recolhidos inteiramente os espíritos, languesceu, frouxo o talhe esbelto, pendida a fronte e inertes os braços caídos. Melancólico abatimento oprimia agora a natureza vivace e travessa da rapariga.

— Eram pois os amores do Senhor Estácio que trazias na tenção, Gil? Só eles?

— Que mais querias que trouxesse, Joaninha?

A mulatinha hesitou antes de suspirar estas palavras:

— Os teus, Gil!

— Sai-te daí. Cuidas que estou para chascos hoje! Bem te enganas.

— Também eu não estou para palras e contos, que tenho mais em que cuidar! respondeu a mulatinha despeitada.

Nesse tempo soou perto um passo lento e pesado como bater de pilão. Joaninha estremeceu, e correndo ao pajem de um ímpeto, o empurrou até à cozinha.

— Não te mexas daí, Gil!

— Por que então?

Apenas teve ela tempo de fechar a porta, que do lado oposto, à boca da vereda cortada no matagal, apareceu o vulto de Tiburcino, o carniceiro. Vinha, como na véspera o deixara a alfeloeira, sinistro e carregado; mas a grande fúria estava agora como abafada por uma crosta espessa de tristura, que afulava a fisionomia taurina. Achegou-se do terreiro, volvendo a um e outro lado esgares torvos; e foi parar em face da rapariga, cravando nela os dois olhos de crocodilo.

Esta voltara à sua lida e continuava como se ninguém ali estivera, mas sem deixar de olho a porta, que fechara sobre o pajem. O magarefe depois de a estar encarando algum tempo, arrancou da larga peitada estas palavras receosas:

— O que vos disse ontem, Joaninha,... sobre o cavalheiro...

E concluiu com esforço:

— Dizei que não é verdade!... Dizei-o por vida vossa e minha, Joaninha, se não quereis ver-me endemoniado e às tontas aí pelas ruas. Pois dês aquele instante, tenho como um mourão a bater-me aqui no toutiço!

Joaninha que nesse dia não estava em seu costumado bom humor, voltou-se arrebatada, faiscando iras:

— Arre, que já perdi a paciência! Culpa tive eu de vos dar confiança; mas é preciso pôr cobro a isso!... Já daqui fora!... Deixai-me de uma vez e para sempre em paz... Segui vosso caminho!...

O magarefe curvou a cabeça ao peso daquela ira e murmurou timidamente:

— Misericórdia, Joaninha!...

— Ide-vos, com Deus!... E não me retorqui...

— Vou-me, vou-me, Joaninha, bem castigado... Mas, melhor merecia...

Tartamudeando estas palavras, Tiburcino sob a influência do olhar de Joaninha e do gesto imperativo que lhe mostrava o caminho, arrastou os passos vacilantes, volvendo o rosto a cada instante e cruzando ao peito as mãos súplices; afinal desapareceu entre os arbustos, e por muito tempo ouviu-se ressoar o chão com o eco de sua passada. Quando a mulatinha reconheceu que já ia longe, abriu a porta da varanda ao pajem e achou-o adormecido sobre a rede.

Sobressaltou-se e teve uma ideia que a fez sorrir; por duas ou três vezes aproximou seu rosto do pajem, talvez para examinar se realmente dormia; mas ao chegar perto, levantava rapidamente a cabeça com um susto, que a fazia de mil cores. O que isso vinha a ser, não sei eu; mas a verdade era que os lábios que desciam apinhados em botão de rosa, na volta se desfolhavam em desconsolado riso; perdiam a cor e a graça. A graciosa pantomima durara, se num dos movimentos ela não embalançara a rede, o que despertou o pajem.

Gil saltou sobre os pés, esfregando os olhos:

— Que vergonha!... Dormir com o sol nestas alturas! exclamou Joaninha meio alegre, meio sentida.

— Pegou-me outra vez, o maldito sono... Já esta manhã, antes de vir... Por isso cheguei tão tarde. Mas, Joaninha, todo o tempo é pouco. Sabes já a que vim. Não tens mais que ir a Nazaré e falar com a doninha. De caminho eu te contarei o resto.

— Que tenho eu com os amores alheios?... respondeu Joaninha tornando-se outra vez melancólica.

— Mas são do Senhor Estácio! Pois não te alegras de servir a um cavalheiro como aquele?

— E quem me servirá a mim, e aos meus amores, Gil?

— Eu, Joaninha. Em tudo que for, palavra de pajem.

— Isso dizes tu agora; mas em chegando a ocasião... Porque, olha, Gil, para servir e ajudar amores, é preciso tê-los sentido já por sua conta; sem o que o mesmo é falar deles que nada.

— Se assim é, já não te posso valer, rapariga, mas querendo tu, servirei para levar-te algum mimo ou recado!

— Não careço. Para curtir desenganos eu mesma me ajudarei da minha resignação!

— Mas afinal fazes o que te disse?

— Em negócios de senhores e gente fidalga não me meto, que já bastam cuidados meus, para ainda acrescentar outros por conta alheia.

— Nem por to pedir eu?

— Nem que mo pedissem os santos.

Gil enfiou de raiva:

— Também não se precisa de gente da tua laia!...

De um soco enterrou o barrete na cabeça, e caminhou terreiro fora; logo adiante, encontrando um tabuleiro de doces que estavam a secar, virou-o de trambolhão com um pontapé. Ao passar pela alfeloeira, olhou-a de través, e lançou-lhe como um dardo esta palavra:

— Gasguita!...

Joaninha soltou uma risada gostosa, e arremessou-se a ele, cingindo-o ao seio.

— Pois não vês tu que são brincos?... Queria meter-te figas!...

— Bem verdade?

— Vou-me já deste passo a Nazaré. Fazer o que, não sei ainda; mas como é para bem, o Espírito Santo me mandará alguma boa lembrança!

— Oh! se mandará, Joaninha! E então a ti, que nunca faltam! Vai a Nazaré, vai; que eu prometo beijar-te os pés quando voltares.

— Os pés, não quero eu!

— Pois a terra que eles pisarem.

— Também, não. Beijarás... beijarás...

— O que, dize?

— Adivinha!

— Que sei eu! Fala logo de uma feita!

— Pensa, enquanto torno. Se não acertares, te direi então.

— Pois sim. E onde te encontrarei para saber o que houver? Virei por ti?...

— Não! Quando for por meio-dia, esperar-me-ás na fonte do Gravatá, mais para cima, onde estão os cajueiros.

Joaninha fechou a porta por dentro, e chegando ao topo da escadinha do sótão, gritou:

— Madrinha, cá me vou! Olhai a rótula!

— Ide, filha, ide com Deus e a Virgem Maria.

— Amém, madrinha!

Com o balainho de doces na cabeça, outro de confeitos no braço, um maço de abanos já feitos e um molho de palha de vários matizes, a alfeloeira seguiu pela vereda que serpejava na margem do fosso. Gil a acompanhava, e de caminho contoulhe mais de miúdo, o que na véspera ouvira de seu amo. No canto da Cadeia separaram-se, renovando o emprazamento para meio-dia.

Prosseguindo sozinha para Nazaré, a esperta mulatinha ia com o sentido todo empregado em seus cuidados, para poder pensar nos amores de Estácio. De vez em quando sorria-se, e sua alma como que batia asas; então apressava o passo gracioso e dava umas carreirinhas feiticeiras, como de lundu; depois corava, empalidecia, e alguma coisa lhe pesava a ponto de entorpecer a marcha viva e o gesto alerta. Assim, nessas vicissitudes, chegou a Nazaré.

Quando pisou a soleira da porta de D. Francisco, foi que lhe acudiu à mente o objeto que a trazia ali; repassou no espírito um momento as circunstâncias referidas por Gil e outras por ela dantes conhecidas. Joaninha sabia que Estácio gostava de Inesita, por ter muitas vezes encontrado o moço daquelas bandas, e algumas com os olhos pregados na janela do torreão. Suspeitava que Inesita não era de todo indiferente àquele afeto, pelo que vira nos jogos.

Quanto ao mais, não fora difícil atinar com as causas. O desafio com o alferes era o resultado de ter este surpreendido o segredo do amor de sua irmã. A tristeza de Estácio era a dúvida de ser amado e o receio de que fosse D. Fernando o preferido; era enfim o pânico do coração aterrado ante a perda da felicidade sonhada.

Até aí o ocorrido; faltava o mais difícil, o que devia ela fazer para sossego do desconsolado amante. Cheia da mesma confiança com que partira, entregou-se ao azar e à sua natural malícia. Tirando da bolsa uma moeda, com ela bateu à porta.

Eram dez horas passadas.

Na casa de jantar estava àquela hora D. Ismênia de Aguilar, mãe de Inesita, cercada de muitas escravas, que bordavam e faziam rendas e costuras sobre um estrado coberto de rás. A senhora, tomada de uma paralisia, estava sentada em poltrona de couro à guisa de palanquim, com braços que serviam para transportá-la. Sua fisionomia, que era naturalmente risonha apesar da moléstia, estava nesse dia sisuda e desprazível.

Junto dela, sua formosa filha bordava em um pequeno tear de marfim uma faixa de seda azul; no modo por que o fazia, e no semblante que tinha, dava mostras bem claras do pesar profundo que a oprimia. Para ela igualmente as festas tinham vindo em má hora.

Ao entrar, Joaninha parafusou com um rápido olhar todos os cantos da sala, e logo conheceu que também na casa havia novidade. Começou então a recear que as coisas não estivessem mais embrulhadas do que a princípio supusera; e desde esse instante, sentindo-se abalada com a lembrança das penas de Estácio, não pensou mais senão em servir aos seus desventurados amores.

Avançou na sala, parando três vezes, para fazer a mesura graciosa, e foi ajoelhar junto à cadeira da dona. Beijou-lhe a mão, apresentando depois o balainho dos confeitos, com uns modos mui galantes ao passo que discretos. O semblante de D. Ismênia desanuviou-se.

— Então, moça, disse a senhora sorrindo, que tais foram as festas para ti? Gostaste de fazer figura de princesa?

— Ai, dona, que mal-agouradas festas! A quantos não trouxeram elas tristezas e cuidados.

— Não a mim, que as não gozei, nem sou já deste mundo, se não é para penar e nada mais!...

— Em hora má parece que veio este ano novo! Muitos ouvi eu se queixarem. Também para a dona foi mal estreado?

— Há seis, que todos o são; mas esse promete ser o pior.

— Espero em Deus que ele se troque ainda em ano de venturas para toda esta casa; e os anjos digam amém.

Durante estas palavras, Inesita nem tirara os olhos do bordado, nem mostrava ter-se apercebido da chegada de Joaninha. Quem observasse com atenção a atitude e o aspecto da gentil menina, conheceria que a mágoa havia chegado ao estado de plenitude; bastaria uma gota para fazê-la transbordar em soluço e pranto daquele seio intumescido e daqueles olhos upados. Joaninha tanto conheceu, que mudou logo de tom:

— A dona não tira mais confeitos?... E a doninha, não me compra nada?

— Estou hoje mofina, Joaninha. Nada me apraz.

— Ai, que acertei!... Trouxe hoje uns confeitos milagrosos, que têm a virtude de curar toda pena, assim do corpo que d'alma. Amargores de boca ou de coração, mal de saudades ou displicências, tudo saram estes confeitos, que é uma coisa nunca vista, nem falada. Porém outra maior excelência têm eles, que já passa à maravilha, e é, como se derretem na boca, logo naquele instantinho, pelos efeitos da cor mui alva fazem que a vista de quem os manja se aclare por forma que tudo vê, ainda o que está longe e fora dos olhos; e pelos efeitos da grande doçura tornam a voz tão suave, que muito espaço depois ainda se ouve o canto dela. Sem falar de outras virtudes, por menos celebradas, como um só confeito pequenino matar a fome por um dia inteiro, remoçar a gente, apagar os vapores que sobem à cabeça, e tirar ou dar sono conforme se quiser!...

A garridice e gentileza com que a feiticeira mulatinha tagarelava, acompanhando cada frase de um gesto brejeiro, já haviam ganho de todo as boas disposições de D. Ismênia, que a escutava sorrindo:

— Também fazem os teus confeitos a língua palreita, não é, moça?

— Lembra bem a dona. Esquecia-me essa virtude, que é a ponto de obrigar os mudos a falar. Estes confeitos chamam-se confeitos da fada, porque foi ela que ensinou a receita a uma velha, mui velhinha, da qual passou a outra, e a outra, e a outra, até que a soube minha avó torta, donde me chegou a mim. E o como a fada inventou o confeito encantado, é uma história mui primorosa, que me ensinaram. Quer a dona que lha conte, tal como ma contaram?

— Conta, moça, conta; mas vê que se não for bonita, como dizes, não te comprarei os confeitos.

— Oh! fique a dona descansada. Verá se a engano.

Joaninha de joelhos como estava, sentou-se sobre os pés, deitando o balaio de doces e os abanos em cima da banca posta entre D. Ismênia e a filha. Inesita continuava no fundo recolho; todos os requebros e caídos da mulatinha para excitar-lhe a atenção eram baldados. Seu espírito andava tão absorto e soldado no íntimo, que era difícil trazê-lo aos sentidos.

A menina estava ainda no atordoamento do mesmo golpe, que na véspera esmagara Estácio. Ao recolher do sarau seu pai lhe anunciara que a havia destinado para esposa de D. Fernando de Ataíde, coisa em que nunca ela sonhara. Foi como se lhe espremessem o coração, cheio das primícias de um puro amor, para enchê-lo de amargores cruéis. Passara, ela também, aquela noite aziaga, em angústias. O sono lhe desertara dos olhos, como o sossego d'alma.

Inesita amava Estácio; amava-o desde o dia em que no fulgor da tempestade que desabara sobre a cidade, ela se mostrara um instante, da gelosia, aos olhos do moço. Até então, e desde o primeiro dia em que o vira de relance na baía, esse menino orgulhoso, tanto como arrojado, apenas lhe causava terror, um terror travado de admiração. Lembrava-se do modo por que três vezes o vira, e na ingenuidade dos verdes anos talvez acreditava que lhe houvessem lançado algum quebranto, para mal dela e dele. Quando o estudante postou-se em frente à sua casa resolvido a não arredar pé sem vê-la, logo que o descobriu foi refugiar-se perto da mãe. Voltou, e achando-o no mesmo lugar, correu ao oratório e implorou à Virgem. Da terceira vez não saiu da porta da recâmera. Por último encostou-se no alizar da gelosia, e seu olhar coando entre as grades, rendeu-se cativo à contemplação do bem querido.

A primeira audácia desse amor foi aquele abrir instantâneo da gelosia. A menina teve dó de Estácio; compreendeu sua insistência, e adivinhou que o único meio de o obrigar a recolher do temporal, era satisfazer-lhe o desejo. Esse arrojo primeiro foi depois resgatado por perto de um ano de timidez, de recato e silêncio. O amor de Inesita cresceu isolado, mas teve um abrigo doce no seio de Elvira, sua amiga e confidente.

Agora que esse coração floria com os raios de sua manhã, era quando sopro mau o vinha murchar de repente, e talvez para sempre finá-lo! A gentil donzela recolhia pois dentro dele e encerrava-se na chaga que lhe haviam aberto.

Como podia ela escutar a garrulice da alfeloeira?