As Minas de Prata/III/IX

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As Minas de Prata por José de Alencar
Avança o P. Molina a sua reserva


Ia em meio a noite.

Estava sereno o céu, plácido o mar. A treva, densa bastante, transudava a espaços umas tênues fosforescências, que mais cegavam. Pareciam as ondulações da escuridade.

Navegava o galeão Santo Inácio na altura dos Abrolhos, mas um tanto amarado.

A Companhia de Jesus sabia o valor do tempo. Antes que os ingleses inventassem o conhecido anexim industrial, tinham os padres descoberto e aplicado a equação desse precioso capital, que uma vez consumido, não mais se reproduz.

Mas era isso pelo século XVII; então ainda estava recôndita no futuro a famosa doutrina tão apregoada agora sobre a indolência da raça latina. Não andavam esquecidas já as gloriosas conquistas do povo, em número pequeno, que pelo esforço se fizera grande bastante para assim encher o maior império da terra. Ainda o reino português se dilatava tão vasto pela superfície da terra, que não havia noite completa para ele; o sol iluminava sempre alguma de suas extremas.

Esta admirável epopeia do esforço humano, cantada por Camões, foi trabalhada pela raça latina, como devia ser mais tarde a epopeia francesa da liberdade. Estava porém reservada ao século dezenove a triste missão de renegar sua estirpe. Não se lembra este século ingrato que ele veio, como toda a civilização moderna, do latinismo?

A Companhia de Jesus foi no século XVII o foco das forças vivas dessa raça ilustre; era natural que as dirigisse a despir o pensamento das duas grandes materialidades que o oprimem: o tempo e o espaço.

Tinham os jesuítas navios de superior construção e grande velocidade, como não os havia nas armadas reais. Dispunha El-Rei da autoridade, do erário, das recompensas, de grandes estaleiros e matas seculares; os frades possuíam parte, e mais que tudo isso, possuíam o gênio da ciência.

O galeão Santo Inácio era um primor de construção naval; partido muitas horas depois da frota do governador, ao cair da tarde estava fronteiro com ela. Ao lado do capitão e junto à bitácula, observava o P. Molina a posição das caravelas de El-Rei.

— Mais ao largo! recomendou ele.

A tenção do jesuíta era burlar a caça de D. Francisco de Sousa atraindo-o ao galeão.

Enquanto isto, o bergantim de Estácio se poria fora do alcance do governador.

Já ficou explicada essa ideia, que longe de ser insensatez do jesuíta, era filha de sua longa experiência. Com El-Rei e o governador a luta, sobre renhida, era de sucesso dúbio, senão contrário. Com Estácio o triunfo não inspirava receio. Graças à velocidade do galeão, talvez, depois de burlada a frota, pudesse o P. Molina alcançar o bergantim; no pior caso chegaria sobre ele à cidade do Salvador, e nesse pleno domínio da Companhia, Estácio não lhe escaparia.

Para realizar seu plano carecia o P. Molina da sombra; e a sombra aí vinha trazida pela noite. Às últimas réstias do crepúsculo, viu o visitador do mar largo a frota do governador já fronteira, o bergantim algumas milhas por davante, e os Abrolhos que destacavam no horizonte.

— Agora, disse para o capitão, podemos fazer-nos na volta da terra.

Enquanto se efetuou a manobra, subiu o jesuíta ao castelo de proa, e ali com os olhos dilatados pelos mares acompanhou a frota e o bergantim até que a escuridão se interpôs. Não podendo mais ver, o espírito impetuoso calculava; inquiria das estrelas o curso da noite, da singradura a velocidade da carreira; e sobre estas bases orçava o caminho feito e o que faltava para vencer a distância.

Meada era a noite.

O P. Molina outra vez perscrutava a treva na esperança de ver assomar o vulto escuro do bergantim a pequena distância. Se não lhe iludira o cálculo mental, devia lhe estar a meia milha apenas, deixando pela popa a pouco menos a frota do governador.

Neste momento ribombou o canhão. Era a armada que intimava o inimigo para render-se. O galeão levava os fogos acesos e fora pressentido de longe. Estava conseguido o intento do P. Molina.

— Ao mar! Ao mar!... ordenou ele.

Imediatamente o canhão retroou avante.

— Imbecil!... murmurou o frade. Foge e se denuncia!

Súbito abriu-se vasto e imenso clarão. O mar nadou em luz. No seio da esplêndida irradiação desenhou-se o bergantim com as brancas velas enfunadas pela viração. Mas foi no ápice de um instante. Apenas impelida essa grande espadana de chama, logo entrou no seio profundo da noite com horrível estampido.

Pela madrugada estavam galeão e flotilha junto ao teatro da catástrofe nos Abrolhos. Os sobejos da chama atestavam que o navio incendiado fora de feito o bergantim.

D. Francisco de Sousa tornou a São Sebastião. O P. Molina seguiu a rota da Bahia.

A morte de Estácio e o extermínio da tripulação eram coisa fora de toda a dúvida. Mas o jesuíta, que fazia da audácia e inteligência do mancebo alto conceito, não admitiu a ideia de seu passamento senão depois de madura reflexão.

Inquiriu se apesar da catástrofe não seria possível que ele escapasse. Para admitir esse ponto era preciso supor que a explosão fosse voluntária e não acidental. Nesse caso, como acreditar que tantas pessoas se sacrificassem pela salvação de um papel?

A conclusão de toda a sua lucubração foi a seguinte:

— Sem dúvida, morto é; mas partamos sempre da suposição de que ainda viva.

Abriu então o visitador seu breviário, e começou a ler a última folha, ocupação a que se dava constantemente desde a partida de São Sebastião. Nessa folha, cumpre não esquecer, tinha ele copiado um trecho da memória do insigne cronista da Companhia, o P. Manuel Soares.

É esta a ocasião de referir a pouca notícia que nos chegou a respeito de tão importante escrito, infelizmente perdido com dano do real erário, das letras pátrias, e da fama de seu autor, que ficou obscuro, podendo tornar-se ilustre com o lume de sua obra.

Do que disse o reverendo cronista na noite do capítulo, era sua memória dividida em duas partes; em uma se tratava de saber qual destino tivera o roteiro de Robério Dias; na outra se procurava determinar aproximativamente o lugar das minas de prata.

Sobre a primeira parte, o P. Molina estava muito mais adiantado do que o P. Manuel Soares, pois a versão deste não chegava senão até Fernão Aires; daí em diante perdia completamente o rastro do roteiro. Mas por isso se ocupara o laborioso investigador em suprir essa lacuna, buscando traçar o itinerário que havia seguido o Moribeca em sua jornada de descoberta.

O visitador, prevendo o caso possível de falhar o seu plano, e ver-se privado do roteiro, tinha, quando voltara furtivamente ao cartório, arrancado do ventre do alfarrábio a folha onde o Padre Manuel Soares resumira com muita clareza e concisão a linha de derrota que sem dúvida seguira o descobridor das minas de prata, e o meio conjeturado pelo qual se efetuara a descoberta.

Tinha de feito esse frade, encerrado em sua célula, muitos anos depois do acontecimento, reconstruído a verdade, dissipada pela sombra dos tempos? Ou seria quanto escrevera ele um tecido de fábulas para bordar essa misteriosa invenção das minas de prata, com que a par de outras, se embalava a imaginação popular?

A obra do P. Soares tinha o cunho da maior exatidão; ele a bebera na fonte da história, onda sonora que desliza mansamente através das idades; na voz dos séculos, que vulgarmente chamam tradição oral, não impura e toldada, como muitas vezes aparece à tona da publicidade, mas límpida e pura, filtrada pela consciência religiosa no confessionário.

O confessionário foi, como o púlpito, outro grande pedestal da influência dos jesuítas; de um moviam eles as massas do povo sob a invocação de Deus; do outro perscrutavam a consciência, o sacrário da família, e dirigiam as forças vivas da sociedade: o povo, a robustez física, o braço possante; a educação, o poder intelectual, a cabeça diretora; que mais lhes faltava para a teocracia, senão a consagração do nome?...

Foi no confessionário que o P. Soares, durante anos de inquérito, apanhou os fragmentos esparsos com que chegou laboriosamente a construir o seu edifício. Quase toda a gente contemporânea de Moribeca veio por sua vez dizer quanto sabia; e assim de elo em elo, por essa cadeia de indivíduos, atingira ele ao ponto a que visava: descobrira um dos acostados que haviam acompanhado Robério Dias na jornada de descoberta.

Era a declaração desse homem o trecho exarado na folha extraída do alfarrábio pelo P. Molina, e por ele reduzida a cinzas, depois de a haver copiado em cifra na capa do seu breviário. Aí a podemos nós ler agora, acompanhando o indicador do jesuíta, que vai designando as palavras à medida que as soletra e medita:


“Gonçalo Inhuma, homem pardo, forro, morador em Petinga, onde vivia de caieiro, de idade sessenta anos. Ouvi-o de confissão aos 20 de outubro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1603. Sobre o assunto proposto, disse ser verdade ter acompanhado Robério Dias, vulgo Moribeca, até além do Rio de Contas em uma serra bastante extensa, que tem em cima uma grande chapada, duas jornadas das cabeceiras do rio, direito para o nascente. Aí pousaram dias, a tiro de arcabuz de uma gruta profundíssima,

bem conhecida dos bandeiristas por cova do feiticeiro, que o gentio chama cova do pajé. Conta que viu Moribeca entrar uma tarde na cova, e pouco depois sair com um índio de grande idade, pois ia arcado a um bordão; e ambos sumiram-se no mato, onde ficaram até a outra noite em que foram de volta. E logo levantaram pouso, e tornaram a esta cidade do Salvador, onde tendo ouvido que o Moribeca descobrira muitas e ricas minas de prata, bateu-lhe a titela que fosse ensinada a paragem dela pelo dito índio, a qual pelos seus cálculos deve ficar ali perto, rumo do poente, em terreno alagado, porque o dito voltou molhado, não tendo chovido.”


À margem da folha, que essa declaração continha, lia-se em tinta vermelha uma nota: — Faleceu em fim de 1605.

Oito dias depois da explosão do bergantim dava fundo na Bahia de Salvador o galeão Santo Inácio; e antes de uma hora o visitador achava-se restituído à sua cela na Casa Provincial do Brasil, acompanhado do P. Domingos Rodrigues, a quem ao entrar fizera sinal para o seguir. Fechando a porta, mandou que chamassem ao Colégio, da parte do provincial, mestre Joaquim Brás, taberneiro na Travessa do Palácio.

O judengo vivia há um mês, desde a fatal noite da evasão dos flamengos, em contínuos sobressaltos; a cada instante julgava ele que lhe surgia pela frente alguma escolta incumbida de prendê-lo; e todas as manhãs admirava-se ingenuamente de achar-se deitado em seu catre, e não suspenso à corda entre três paus. Ao receber do recado que lhe trouxe o leigo do Colégio, sentiu o taberneiro um bate-bate de coração, que não pressagiava bem daquele chamado.

Entretanto praticavam juntos o visitador e o P. Rodrigues:

— Padre, cingi vossos rins, e ponde-vos a caminho para os Ilhéus, dissera o visitador.

— Neste mesmo instante, se Vossa Reverência o ordena.

— Tomai o tempo necessário para os aprestos indispensáveis. Em lá chegando levantai a tribo dos Aimorés, e vinde acampá-la nas imediações da cidade, de onde apenas chegado me enviareis aviso.

O P. Rodrigues curvou a fronte descontente.

— Acha V. Paternidade alguma dificuldade neste assunto?

— Nenhuma, senão que meus esforços de tantos anos vão ser aniquilados. Levantar de seu aldeamento aquele gentio feroz é atirá-lo de novo às brenhas!

— É um mal sem dúvida; mas é necessário, P. Rodrigues. Cumpra com o que lhe ordeno, e nos favoreça o Senhor que lhe darei mil tribos como a dos Aimorés a catequizar, sem receio de que ambiciosos colonos vão cativar os pobres neófitos, como agora sucede. Não vale esse grande benefício, e o maior poder da Companhia nesta e outras províncias, algum sacrifício?

— Sem dúvida, padre visitador; nem eu hesitei um instante na obediência. Só não pude fechar-me à tristeza que me penetrou, pensando que minha obra ia ser destruída; fraqueza minha, que V. Reverência escusará.

— Sentimento louvável, que testemunha do vosso zelo no serviço da religião e da ternura de vosso coração. Qual o pai que se não entristeça com a má sorte dos filhos, e não são vossos filhos espirituais essas míseras almas arrancadas à barbaria?

Arranharam à porta. O P. Rodrigues despediu-se do visitador; e saído ele, entrou o leigo a dar conta do recado que levara a mestre Brás. Ficava o taberneiro com o pé na soleira para obedecer às ordens do Reverendo P. Provincial.

Aproveitou o jesuíta esse instante vago para folhear na letra B o livro negro da irmandade da Companhia, onde encontrou, conforme esperava, o assento concebido nestes termos:


“Brás Joaquim, ilhéu, quarenta e oito anos, jurado aos 10 de setembro de 1593. Mau homem e perigoso; grandíssima astúcia, nenhuma fé. Dizem ter parte com os mercadores judeus, a quem ajuda no contrabando. Pôs agora taberna na Travessa de Palácio, e dá tavolagem nos fundos da casa.”


Chegou afinal o cujo; e entrou desfazendo-se em mesuras e rapapés.

— Folgo muito de tornar a ver-vos, mestre Brás. Quando nos separamos em Espanha, nenhum de nós pensava encontrar-se mais neste vale de lágrimas; porém tais voltas dá o mundo!

— Estou como conhecendo V. Paternidade; mas esta minha memória!... Os anos já não são poucos e a carga por demais pesada...

— Então já vos não lembrais de mim? replicou o jesuíta sorrindo.

— Tenho uma ideia longe... Mas em verdade!...

— Ora vou avivar-vos a memória. Quanto se muda em três anos!... Pois tínheis excelente reminiscência.

O taberneiro ouviu o rir zombeteiro do frade, e pareceu-lhe este som com o de uma serrilha que lhe passasse pelas longas orelhas.

— Já vos esqueceu o galeão Rosário?

— Sim; estou agora me lembrando!

— Ainda bem! E da ceata que fizestes a bordo com certo Capitão D. Aníbal e mais um rapaz por nome Anselmo, sem falar do mestre gajeiro?

— Disso não, e penso que V. Paternidade está enganado; mas bem me lembro de ter visto o padre-mestre a bordo e de havermos feito juntos um pedaço da jornada de Espanha!

— Justamente; e por sinal que antes da partida fostes aos paços de D. Francisco de Sousa!

— Eu, Brás Joaquim, padre-mestre? É falso testemunho de quem o disse.

— E uma vez lá, cometestes a imprudência de referir ao fidalgo tudo quanto tínheis ouvido a bordo; e o que é ainda mais grave, certas invenções a meu respeito!

— Pois eu era capaz de semelhante coisa, eu, um irmão da Companhia!

— Bom; eis vossa memória que se aviva! Lembrai-vos que sois irmão da Companhia! Mas é justamente isto que torna mais grave a culpa; pois ocultastes de um irmão tão importante segredo para ir vendê-lo a um fidalgo por ouro.

— Mas tal não há, P. Mestre. Eu vos juro pela cruz benta em como sou inocente.

— Jurai!... disse o frade.

Com gesto majestoso apresentou-lhe a cruz de prata que trazia suspensa ao rosário, e cravou nele os olhos fulminantes.

O taberneiro tremeu até as entranhas; os cabelos erriçaram-se sobre a fronte; ficou hirto e lívido, como galvanizado pelo terror.

— Não... Não posso!...

— Ah! pensaste que tua alma corrompida no vício havia de ficar impenetrável à luz do servo do Senhor?... Imbecil!... Vou confundir-te em tua aleivosia e maldade, repetindo palavra por palavra o que fizeste e disseste em casa do fidalgo.

O P. Molina referiu quanto ele havia tirado de suas lucubrações e dos fatos que haviam chegado ao seu conhecimento. A exatidão da narração era tal, que o taberneiro caiu de joelhos com as mãos nos peitos:

— D. Francisco me traiu!...

— D. Francisco a ninguém revelou o que passou convosco.

— E donde o sabeis vós então?...

O P. Molina ergueu o índex, como a haste da cruz:

— Do céu!...

E realmente era do céu que lhe vinha aquele raio capaz de devassar o arcano da alheia consciência, e a poderosa faculdade que de centelhas esparsas tirava a luz esplêndida da verdade.

O mísero ficou fulminado. O frade acabando de o esmagar com os olhos carregados de severidade, continuou:

— Eu vos tenho fechado em minha mão, e posso com um sopro desfazer-vos no ar, como esta poeira de que sois formado. Nenhum dos feios crimes de vossa vida me é desconhecido; traficais por contrabando, dais tavolagem à noite calada, e conspirais com os judeus contra El-Rei e seu governador.

— Compaixão, padre; misericórdia de um mísero pecador.

— Misericórdia, quero tê-la, em nome do Deus clemente, se arrependido romperdes com o passado ignominioso. Não mais contrabando, nem jogos, nem comércio com hereges; reduzireis vosso tráfego ao ganho lícito e honesto. Para remir as culpas antigas deitareis no tronco dos pobres uma esmola de quinhentos cruzados novos. Quanto à traição que praticastes com a Companhia acerca do segredo das minas de prata, a punição que vos dou é reparar o mal que fizestes.

O Brás soltou um gemido doloroso, e balbuciou compungido:

— Castigai-me, padre. Eu mereci por minha culpa e minha máxima culpa.

— Aquele a quem pretendestes roubar o roteiro entrou na posse dele.

— O filho de Robério Dias?

— O navio em que vinha de São Sebastião voou pelos ares com a pólvora na altura dos Abrolhos.

— Então perdeu-se?...

— O que está perdido pode ser achado. Talvez o corpo venha à costa e alguém encontre sobre ele o papel. Por que não sereis este alguém?

— Mas para isso é mister gente e dinheiro.

— Tendes uma e outra coisa; os contrabandistas, e o ouro judeu enterrado no canto de vossa adega em um ancorote!...

— Senhor Deus! Quem vo-lo disse, se eu a ninguém!...

O frade sorriu:

— Nada me é oculto, espírito incrédulo! Nada! Quando ao Todo-Poderoso apraz iluminar seu servo, ele vê através do tempo, como através da matéria!

Entretanto Molina não fizera mais do que uma suposição natural, que sucedeu coincidir com a verdade. Enterrar o dinheiro era costume daquele tempo; quanto à vasilha, um taberneiro devia escolher uma das com que frequentemente lidava.

O visitador ainda fez algumas recomendações ao Brás, e afinal o despediu com estas palavras:

— Ide na certeza de que à menor hesitação de vossa parte vos entregarei ao braço secular para castigar-vos a carne, porque a alma já não terá remédio neste, nem no outro mundo.

Apesar das contrariedades por que havia passado nos últimos dias, sendo-lhe arrebatado das mãos o roteiro de que já se julgava senhor, e destruída posteriormente com a explosão do bergantim a esperança de reavê-lo, o P. Molina estava essa manhã muito satisfeito. Além da confiança que ele nutria de chegar à descoberta das minas guiado pelas pesquisas do P. Manuel Soares, acrescia a satisfação de ter vingado seu amor-próprio humilhado pela hipocrisia do Brás; por fim o íntimo contentamento de haver podido fazer bem, castigando o vício e beneficiando os pobres.

Logo depois do segundo refeitório, o P. Figueira achegou-se ao visitador:

— Peço a V. Reverência a mercê de me ouvir sobre objeto de suma gravidade.

— Neste instante, P. Mestre!...

Iam os dois afastando-se, quando no corredor encontraram Vaz Caminha.

O bom velho estava acabado. A dor da perda de Estácio, que ele julgava certa, tinha assolado aquele corpo já gasto pelos anos, e mais ainda pelos estos da inteligência, cujo sopro é ardente como o simum do deserto africano. Na fronte rugosa e no rosto encovado trazia ele o luto d'alma por seu filho único.

O P. Molina sentiu o coração confranger-se diante daquelas ruínas deixadas pelo fogo de uma grande paixão. Fazendo ao companheiro um gesto para que o esperasse, foi saudar com bondade compassiva ao advogado, e o levou à biblioteca, onde o agasalhou como a hóspede bem-vindo. Vaz Caminha, embora cortês sempre, não podia contudo eximir-se a um certo desgosto na presença desse homem, a quem um instinto secreto de sua alma culpava indiretamente pelo mal sucedido a Estácio. Se o P. Molina não surgisse na Bahia, dando indícios de vir à busca das minas de prata, o mancebo não se apressaria em partir; e talvez a desgraça, que o perdera, fosse evitada.

Entretanto o advogado não tinha vindo ao convento, senão para ver o P. Molina, cuja chegada logo soubera, e dele colher alguma coisa a respeito de Estácio; aproveitou pois o ensejo que se apresentava tão favorável.

— Pena-me ver-vos neste estado, doutor, tão sucumbido. É a saúde do corpo ou do espírito que sofre?

— Ambas, P. Mestre; mas a maior enfermidade é a do coração. Desde que perdeu a esperança de tornar a ver mais neste mundo seu filho, minha alma vai-se desprendendo para ir vê-lo no céu, e pouco se demorará o instante.

— Foi uma grande catástrofe e uma grande perda para vós!...

— Que diz, padre!... Mas então sabe... viu?...

— De longe apenas, o grande clarão!...

— Clarão!... murmurou o advogado surpreso. Mas de que fala V. Paternidade, que não o entendo?...

— Da explosão do navio que matou vosso afilhado!...

Violenta comoção abalou o corpo emagrecido do advogado, que ergueu-se hirto, para logo cair inerte sobre a poltrona; então aquela face devastada, que parecia seca e estéril para a ternura, como os areais ardentes para a vegetação, orvalhou-se de lágrimas abundantes. Vaz Caminha julgava Estácio morto; mas não tinha a evidência do fato; no fundo de seu coração dormia a centelha de esperança que só tarde se esvai. As palavras do visitador, apagando de repente a centelha, o sepultaram na treva dolorosa.

— Ignorava o doutor?

— Nenhuma notícia tive dele depois da noite em que se foi desta cidade, respondeu o advogado com um soluço.

O jesuíta compungido por aquela grande dor exauriu sua eloquência para a consolar; mas não se quis o velho consolar, porque o filho já não existia: — et noluit consolari quia non sit.