As Minas de Prata/III/XII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Esperança é flor que brota em toda a parte


Em mais lôbrega e medonha masmorra que a primeira jazia Estácio.

O alferes aí o encerrara por ordem do governador, e dele se despedira com palavras duras e ásperas:

— Aqui ficareis até a hora de serdes fuzilado como espião. Preparai-vos para morrer!

Estácio encarou-o com um sorriso de asco:

— Vireis assistir a este espetáculo, Sr. D. José de Aguilar?

— Sem dúvida.

— Estimo bem, replicou-lhe em voz surda, que só o ouvisse o alferes; porque na volta podereis dizer a D. Francisco de Aguilar que vos perdoe, pois foi em mim punido vosso crime infame.

D. José ficou lívido, e saiu do cárcere titubeando.

— É possível, exclamou o prisioneiro com as faces incendidas de rubor, que este miserável seja irmão de minha Inês!

Passado este assomo de indignação, veio a preocupação de sua posição:

— Antepus um instante o coração à pátria. Deus puniu-me. Se eu tivesse ido direito a D. Diogo de Menezes, estaria livre!

As palavras do alferes a princípio pareceram ao mancebo uma vã ameaça; mas refletindo agora que está só, reconhece que todas as aparências lhe são contrárias. De feito sua fuga da prisão ao mesmo tempo que a dos prisioneiros flamengos; a ignorância absoluta em que se achava o governador do que passara aquela noite e posteriormente; sua ausência durante tanto tempo; deviam gerar graves suspeitas a seu respeito. Felizmente ele tinha provas irrefragáveis não só de sua inocência, como dos importantes serviços prestados ao Estado; e pois aguardou com serenidade de espírito o momento de ser interrogado.

A posição do infeliz mancebo era porém mais crítica do que ele supunha.

Os contrabandistas, que tinham ficado na praia sob a guarda de Japi e foram pela manhã recolhidos ao Presídio de Santa Luzia, julgavam-se completamente perdidos; mas apenas levados à presença do governador, que os interrogou como quem ignorava completamente o acontecido e lhes pediu a explicação do estranho caso de serem achados estendidos sobre a areia, atados de pés e mãos, o instinto da conservação inspirou-lhes a defesa. Deram-se como inocentes pescadores chegados à noite, que estavam a dormir em um barco a pequena distância da praia, esperando o dia para fazerem suas avenças, quando foram assaltados por uns vultos, que os puseram naquele estado e se apoderaram da chalupa. Entre estes tinham eles reconhecido gente flamenga.

O conto era verossímil, e coincidia perfeitamente com a parte que chegava do Castelo de Santo Alberto. D. Diogo de Menezes não duvidou pois que Estácio, de concerto com os holandeses, tivesse perpetrado aquele feio crime de traição. Mandou contudo reter prisioneiros os pescadores até colher maior informação e tirar completamente a limpo a verdade do fato. Enquanto se procedia a indagações, D. José, que temia-se de ver descoberta sua infâmia, foi arrastado à mentira para desviar de si qualquer suspeita. Não duvidou assegurar ao governador que o plano da evasão dos flamengos fora concertado pelo judeu Samuel, a rogo e instâncias da filha Raquel, para salvar Estácio a quem amava. O desaparecimento do rabino dava a essa versão, já autorizada pela pessoa de quem vinha, cunho de verdade. O depoimento do Brás, arrancado pelo alferes, encheu a prova, tornando-a plena.

Tanto bastava para naquele tempo condenar-se um homem; sendo o crime, como o imputado a Estácio, dos chamados crimes de guerra, e o mais infame deles, a espionagem complicada de traição, as fórmulas já sumárias do julgamento eram dispensadas, e o réu fuzilado sem forma de processo nem detença, não se lhe deixando mais que o tempo de confessar-se.

D. Diogo de Menezes, investido na qualidade de capitão-general da autoridade suprema dos cabos de guerra em campanha, se preparava a exercer o triste e penoso dever que lhe impunha a confiança de El-Rei e o bem do Estado. Ordenara que se deixasse ao condenado vinte e quatro horas para preparar sua alma a comparecer perante o Criador; e recusando ver o mísero mancebo a quem de coração lamentava, desviou o espírito desse pungente assunto para empregá-lo em outros tão árduos.

De nada serviriam pois as provas em que Estácio confiava, tanto mais quando ele não as podia produzir imediatamente.

A sua gente estava àquela hora arranchada no mato sob as ordens do Antão, com as recomendações sabidas. Era portanto impossível fazê-la vir à cidade testemunhar sua inocência.

Por outro lado, quando escondera o roteiro das minas, ocorrera a Estácio um receio; que sendo preso antes de obter do Governador D. Diogo de Menezes o perdão do judeu, lhe apreenderiam a carta dirigida a Usselincx, e nesse caso perdida seria a esperança de cumprir a palavra dada a Raquel de salvar seu pai.

Para evitar a surpresa possível, senão provável, resolveu o mancebo ocultar com o roteiro a missiva lacrada dos rabinos.

Por este encadeamento de circunstâncias, as duas provas únicas, mas irrefragáveis de seu nobre proceder, estavam não só longe, como complicadas, de modo que só ele em pessoa as podia deslindar e trazê-las à sua defesa. Revelar o lugar onde estava a missiva dos judeus, era entregar o roteiro das minas; enviar alguém ao acampamento do Antão, seria afastá-lo da Bahia pelo sertão adentro.

Entretanto o mancebo dormia tranquilo à sombra da morte que já o bafejava.

Eram cinco horas da manhã. A chave do cárcere rangeu surdamente na fechadura. O carcereiro entrou de ponta de pé, e espreitou de longe o vulto adormecido do prisioneiro; refreando a respiração, achegou-se do canto onde ele jazia deitado, e com a mão sutil, começou de apalpar as roupas, sondando as algibeiras, bem como o peito do gibão. Não achando o que procurava, insistia na busca, quando Estácio ergueu-se de chofre e o pilhou em flagrante com a mão na ratoeira.

— Mestre carcereiro, é a segunda vez que me apalpais as algibeiras, estando eu a dormir. Dizei o que buscais, pois talvez vos forre ao trabalho e vergonha do mister a que vos entregastes.

— Não é a culpa, senhor cavalheiro, de quem obedece, senão de quem manda. Cumpro minha obrigação de revistar os presos, para entregar ao comandante quanto trazem consigo.

— Pois deveis fazê-lo às claras, e não com ares de espião. Vamos, acabai com isso para que doutra feita não me perturbeis o sono!

O carcereiro arrancou um suspiro do peito cavernoso e esgravatou alguma coisa no canto do olho, que talvez fosse lágrima:

— Não tenhais esse cuidado, senhor cavalheiro, não vos perturbarei eu mais o sono, porque acabastes de dormir o último sobre a terra!

O mancebo sentiu um ligeiro calafrio, como se a temperatura houvesse baixado repentinamente, e à primavera da vida sucedesse o inverno glacial. Foi tudo que essa rápida transição da esperança ao luto produziu em sua alma, já embotada ao sopro mortífero.

— Quando começarei então a dormir embaixo da terra? perguntou Estácio a sorrir.

— A hora está próxima; é para as nove. O oficial, que vem intimar-vos a sentença, não tarda aí.

— Quem é ele?

— O mesmo que vos trouxe, creio eu.

— D. José de Aguilar?... Melhor!... Morrerei em família!

E o mancebo erguendo-se em pé, agitou o corpo para expelir os últimos torpores do sono:

— Que horas são, mestre chaveiro?

— Cinco já passadas.

— Bem, restam-me quatro!... Quatro horas são duzentos e quarenta minutos, nos quais podem ter lugar mais de mil acontecimentos!... Uma hora me bastou para sair do Castelo de Santo Alberto!... Em duas ao mais tardar, mestre cérbero, eu vos convido a beber na taberna do Brás uma botelha à minha liberdade e boa saúde.

O carcereiro pensou que a fatal notícia tivesse transtornado o juízo ao mancebo:

“Pobre rapaz!...” murmurou consigo.

— Ide-vos e deixai-me tranquilo. Vossa cara afugenta-me as ideias!

— Senhor cavalheiro, replicou o chaveiro ressabiado, não cuidais já em vos pôr bem com Deus? Olhai que pouco tempo vos resta!... O padre confessor só espera que o chameis...

— O confessor?... É justamente de que eu preciso. Trazei-o aqui.

O carcereiro foi à porta, que abriu, e logo entrou um religioso, coberto com o grande sombreiro carregado sobre a fronte, de modo a deixar o rosto na penumbra.

— Nada, P. Mestre, segredou o carcereiro; não tem embrulho algum sobre o corpo; disto podeis estar certo.

— Bem: deixai-nos sós; e não esquecei o recomendado.

A porta do cárcere rolou pesadamente sobre os couces; o religioso avançou lentamente para o prisioneiro abatendo o sombreiro que rojou pelas lajes, e mostrou a fronte alta e inteligente do P. Molina.

— Eis-me, filho!...

Estácio não pôde reter a exclamação de sua surpresa:

— Ah!...

Que vinha fazer ali naquele cárcere, revestido do caráter sagrado de confessor, o incansável jesuíta?

Esta interrogação, que logo articulou-se no espírito de Estácio, se reflete naturalmente no pensamento de quem acompanhou o mancebo através das vicissitudes de sua vida agitada até àquele momento supremo.

Molina soubera da chegada de Estácio à Bahia, na mesma noite, mas infelizmente meia hora depois do combate do Largo da Sé, pelo Brás, que dele escapara-se a estirão das curtas pernas. O taberneiro julgara inútil prevenir antes o jesuíta, preferindo comunicar-lhe logo o feliz sucesso, com o qual contava. Desesperado com essa contrariedade, o visitador despachou em todas as direções esculcas que aventassem o rumo do mancebo; mas não foi possível achá-lo; o traço estava perdido, e só mais tarde devia ser achado.

— Ele há de reaparecer algures! pensou o frade.

Ao Brás assinou a casa do licenciado; ao Anselmo a de D. Mência; e a Tiburcino enviou em busca de Estácio. Ele próprio saiu depois a sondar os ânimos; foi à casa de Vaz Caminha, porém não o encontrou; D. Mência nada sabia; Cristóvão igualmente. Na sua visita ao amante de Elvira, não esqueceu o P. Molina a promessa que fizera à mísera enferma, e que lhe serviu de pretexto para apresentar-se em casa de Cristóvão. O mancebo fechou-se às primeiras palavras do frade; mas sabendo da gravidade da moléstia que assaltara a mísera donzela, saiu arrebatadamente e correu à casa de D. Luísa.

Recolhido ao Colégio, o visitador foi à cela do reitor:

— Padre-mestre, em que pé está o negócio que lhe deixei incumbido, quando há um mês me fui a São Sebastião?

— O negócio da filha de D. Francisco de Aguilar?... não vai mal encaminhado não, P. Visitador.

— O que há de feito e de esperar?...

— Logo depois que V. Reverência partiu, consegui eu pôr-me em comunicação com D. Ismênia, o que não deixava de ser difícil, pela enfermidade que a retém em casa, como pelas pessoas que a cercam.

— Como chegastes a esse resultado?...

— Pela escrava do quarto, que me mandava os recados por um pajem. A dama trabalha com todo o afinco para desmanchar o casamento, ao qual é extremamente avessa a filha. O pai e o filho sustentam D. Fernando um pouco por si e muito pelo beneditino confessor da casa, um tal Fr. Carlos da Luz; porém a fidalga tem esperança de vencer afinal a causa em favor do nosso protegido D. Lopo de Velasco.

— Bem; persevere na sua obra.

Nisto arranharam à porta. Era o leigo que acompanhava um pajem; este trazia ao padre reitor da parte de D. Ismênia a notícia que acabava de desfazer-se o casamento de Inesita com D. Fernando de Ataíde.

— Corra à quinta de D. Lopo, e obrigue-o sem detença a partir para a casa de D. Francisco a exigir a confirmação da promessa que lhe fez.

Acabava o visitador de fazer essa recomendação, quando soou no corredor o passo pesado de Tiburcino, que o buscava; o carniceiro farejara Joaninha; esta como mariposa esvoaçava em torno de Gil, que naquela mesma manhã levara à Rua de Santa Luzia o cavalo para Estácio. Seguindo de longe a mulatinha que vira Gil muito contente, e estava curiosa de saber o motivo da súbita alegria, o magarefe chegou a tempo de ver passar a galope o cavaleiro em direção a fora de portas.

Seguiu o rasto; chegou a Nazaré, onde pouco depois assistiu à prisão.

— Foi preso em Nazaré!... disse alegre.

— Preso! exclamou o frade. Outra vez preso! À ordem de quem? Não sabeis?...

— Do senhor governador.

— Para onde o conduziram?

— Para o Presídio de Santa Luzia.

O visitador não descansou enquanto não soube o motivo da prisão, e a sorte que aguardava a Estácio. O capelão da fortaleza era um padre secular, irmão dos jesuítas; por seu intermédio, e com seu disfarce introduziu-se o padre na fortaleza onde teve uma longa prática com o carcereiro. Foi em virtude dela, que o digno cérbero passou a apalpar os bolsos de Estácio, à busca do roteiro das minas de prata, e que levou ao comandante o suposto recado do prisioneiro, que pedia para seu confessor o P. Molina.

Na mesma manhã Vaz Caminha, chamado à pressa para negócio de sua profissão, foi levado a um lugar deserto e aí revistado por vultos desconhecidos e mascarados; ao mesmo tempo sua casa sofria igual devassa; todas as gavetas foram abertas com chaves falsas, explorados os escaninhos, sondado o quintal e as paredes, enfim interrogada a velha Euquéria.

— Sem dúvida sumiu ele o papel, quando saiu da casa do advogado e por conselho dele!... O tempo que o perdi de vista, ele o empregou bem. Ah! imbecil taberneiro!... Só teve engenho uma vez por milagre e essa contra mim. Deita a fugir e nem se lembra, como o cão, de seguir o faro da presa que lhe escapa!

O visitador proferiu estas palavras medindo a passos largos o soalho de sua cela:

— Mas a campanha não está perdida, não. A vida, a liberdade e o amor pugnam por mim naquele coração de mancebo!

Mandara o jesuíta chamar João Fogaça, carta maior que guardara para a última vasa. O capitão de mato, alguma coisa surpreso desse chamado, acudiu não obstante. Molina o recebeu com a cortesia devida a uma pessoa de tantos predicados:

— Tomei a liberdade de incomodar-vos, Senhor João Fogaça, para saber de vós se estais disposto a prestar um esforço em prol da Companhia, de que sois irmão?

— Irmão... eu?... Estou que vos enganais, P. Mestre!...

— Como é possível, se aqui tenho à mão o assento que vos diz respeito!... Jurado em 5 de abril de 1607.

— Ah! já sei!... Um dia no sertão encontrei um bom padre, que costumava viajar por aqueles desertos só com seu corpo, e um bordão por companheiro e uma sacola por comitiva; assim atravessava pelas tribos do gentio que não lhe fazia mal algum, antes o festejava com muitas alegrias. Quando o encontrei, o santo homem levava nos braços uma criancinha tapuia que achara abandonada, e tratava dela melhor que muitas mães o sabem.

— Como se chamava?

— P. Inácio do Louriçal. Então disse eu ao santo homem: padre, heis de fazer-me duas graças. A primeira é vossa bênção, que me há de trazer felicidade; a segunda é dizer-me em que convento ou lugar vos posso eu encontrar para quando precise da palavra de Deus. Ensinou-me ele esta casa onde o procurei algumas vezes; e de uma delas não o achando, um de vossos companheiros engrolou não sei que ladainha, e fez-me jurar sobre um livro.

— Foi a cerimônia de vossa profissão; por ela ficastes nosso irmão.

— Mas em suma que quereis de mim?

— Nada que não seja em serviço da religião; estais de ânimo a cumprir o vosso juramento?

— Sou bom cristão, padre-mestre; isto basta para que vos não recuse meu esforço.

O P. Molina expôs então em segredo o objeto, e João Fogaça retirou-se, tendo prometido toda a sua coadjuvação.

Estes incidentes acontecidos entre a prisão de Estácio e a entrada do P. Molina no cárcere, explicarão talvez o que ali ia buscar o jesuíta.

— Sois vós o confessor que me enviam? perguntou Estácio.

— Desagrada-vos a presença do mais humilde dos servos de Deus?

— Oh! não; a escolha não podia ser melhor. Vindes então preparar-me para morrer?...

O frade fitou nele olhos penetrantes:

— Venho arrancar-vos ao suplício, e trazer-vos a vida, a liberdade e a ventura, mancebo.

Ao brilho daquele olhar, e à entonação firme da voz magnética do jesuíta, Estácio estremeceu; um raio de esperança filtrara e aquecera seu coração.

— Que dizeis?...

Mas logo após a dúvida, que se derramou no seu espírito à lembrança do homem à quem falava, afogou a esperança:

— Não acredito em vossas palavras, padre! disse com asco.

— Me reputais capaz de vir escarnecer das últimas horas que vos restam de vida, desventurado mancebo?

— Profanastes o hábito sagrado que me habituei a respeitar desde a infância, cobrindo com ele um coração devorado pela cobiça infame; a mão que partiu a hóstia no altar, não vos pejastes de a estender para arrebatar o alheio com fraude e violência. Posso eu acreditar-vos?

— Isto significa, filho, que roubei o bem que vos pertencia, apoderando-me do roteiro das minas de prata! Não é assim?

— Evitei de dar o nome à vossa feia ação, pelo respeito ao caráter de que ainda estais revestido; mas vossa palavra o fez, vossa consciência que responda.

O jesuíta desdobrou sobre o mancebo um olhar sereno e majestoso, que vinha do fundo d'alma.

— Imaginais vós, filho, que este humilde sacerdote que não custa ao mundo mais que uma pouca de sombra, alguns côvados de lila e o magro jejum, precise de outra propriedade a não ser a de alguns palmos de terra, quantos bastem para reduzir a pó a argila de que é feito? Oh! como vos enganais!... Toda a minha cobiça cabe neste hábito. É em nome de Deus e para seus pobres que nós vamos mendigando e colhendo pela terra as sobras dos ricos e as esmolas dos desinteressados que servem ao esplendor da religião e às obras de caridade!

— Deu-vos a Igreja, padre, autoridade para extorquir à força as esmolas que não vos querem fazer de vontade?

— Ponhamos claramente a questão. Tinha eu autoridade e direito para me apoderar do roteiro que existia em poder de D. Diogo de Mariz, sem vosso consentimento? Vou responder-vos perante a lei e perante a religião. Sim, filho, eu tinha essa autoridade.

— É o que vos faltava, padre; a apologia do crime.

— Ouvi antes de condenar, Estácio Correia; sois noviço da Companhia de Jesus; quando entrastes para as aulas do Colégio, pôs vosso mestre e padrinho a condição de serdes admitido como simples estudante, sem compromisso religioso; simularam aceitar essa condição, e tanto vosso tutor como vós assinaram depois um assento, julgando-o sem importância; era o do vosso noviciado. Ora, desde esse instante ficastes sob a tutela da Companhia, que tinha direito de obrar em vosso nome. Esse ponto é incontestável; o Doutor Vaz Caminha, se aqui estivera, me daria razão.

— Mas desde que me despedi do Colégio, que ligação tinha eu mais com a Companhia?

— Oh! os laços que prendem uma vez alguém ao Instituto são difíceis de romper. Deixamos que saísseis por uma condescendência; mas podemos reclamar-vos no instante em que nos aprouver.

— Desafio-vos a que o tenteis!... Mais fácil é aluir-se aquela casa sobre vós, do que entrar eu nela.

— Tal não é nossa intenção; restituímos vossa liberdade, não vos privaremos dela. Mas tomei a peito provar-vos não só a justiça, como a generosidade com que procedi a respeito do roteiro, pois desejo acima de tudo a volta da vossa estima e confiança.

O frade recolheu-se.

— Sois moço, Estácio, e não conheceis mais que um canto do mundo e uma nesga de tempo. Embalai-vos em esperanças falazes. O segredo das minas de prata, que trazeis convosco, não é a fonte de venturas que imaginais, mas um veneno mortal, um raio, que de um instante para outro vos há de fulminar. Antes de chegardes a El-Rei, encontrareis, como vosso pai, o roubo, talvez o homicídio; nos pés do trono achareis, em vez de prêmio, decepções. Apenas no começo de vossa empresa, podeis já avaliar do que vos espera, quando fermentarem as paixões que ides semeando em vosso caminho. Apossando pois a Companhia desse precioso segredo, eu vos garantia os benefícios sem trabalho, ao passo que prestava à religião importante serviço. A Companhia tomava sobre si a pesada tarefa da exploração das minas, mas vos assegurava um futuro grande, enchendo-vos de riquezas imensas, de honras principais; e completando a vossa ventura com a aliança que sonhais!

— Vós o sabeis, padre?...

— Sei tudo: que amais D. Inês de Aguilar, que ela vos retribui com igual extremo; mas que entre vós ambos se levanta um obstáculo insuperável. D. Francisco de Aguilar jamais consentirá em vosso casamento!

Estácio abaixou a cabeça:

— Salvo, continuou o jesuíta, se eu o quiser.

— O que é necessário para o quererdes?

— Que me entregueis o roteiro, e me deixeis trabalhar em vossa felicidade.

O P. Molina, soltando as asas à sua eloquência, desenhou o quadro fascinador do futuro que esperava o mancebo; esboçou a traços largos e magistrais a carreira brilhante que ele tinha a percorrer; apreciou na devida altura os benefícios que prestava à religião, armando a Ordem de Jesus daquela arma poderosa, e habilitando-a engrandecer a pátria, de que seria benfeitor; ergueu o pedestal onde a posteridade reconhecida havia de colocar a sua estátua ilustre.

Depois de fascinar a ambição do mancebo com estes fogos que se propagam em toda a imaginação moça e ardente, como a chama no algodão, o visitador abriu aquele coração imensamente dilatado por um amor sedento, e vazou nele quanto néctar e quanta delícia podem transudar das ternas esperanças e das suaves reminiscências. A cena das justas e torneios foi de repente armada na memória de Estácio, qual ele a tinha visto na tarde de Ano-Bom, como uma brilhante decoração à beleza esplêndida de Inesita. Ele viu, como se a tivesse presente, irradiar aos seus olhos a imagem encantadora da donzela a sorrir-lhe.

Durante todo esse sonho o mancebo só tivera uma leve hesitação:

— E a honra de meu pai? perguntou ele. Se vos entrego o roteiro, continuarão a crer que ele traiu El-Rei.

— As grandezas, que vos esperam, apagarão esse triste passado.

— Sim! Cobrirei a chaga com a púrpura! exclamou o mancebo indignado. Serei ilustre, mas deixarei desonrado aquele de quem descendo!

— O que desonra é o crime, não a pena. Tendes a certeza de que vosso pai não cometeu traição; a sentença que o condenou será revogada. Que mais pode exigir a vossa nímia severidade?

Então o mancebo entregou-se sem reserva ao embevecimento daquela palavra sedutora. Seus lábios já descerrados pelo sorriso moviam-se para revelar o lugar onde se achava o roteiro, quando soou fora um grande rumor de armas, tambores e atabales.

Eram os pelotões, destinados à execução militar, que começavam de formar-se no grande pátio do forte. Este som de morte, caindo de repente sobre o enxame de sonhos dourados que esvoaçavam na mente do mancebo, confrangeu-lhe o coração que passava assim de repente do almo calor ao gelo.

A desconfiança adormecida espertou:

“O astuto frade, depois de arrancar-me o segredo, mais depressa me deixaria morrer! Não há de ser assim!... Não!...”

O frade percebeu o que passava no espírito do mancebo, embora parecesse completamente absorvido a escutar os rumores de fora.

— Sabeis que movimento é este? perguntou ao mancebo.

— Preparam-se a fazer as honras que me prometestes, padre!... disse Estácio com um sorriso de escárnio.

— Só vos restam horas. Resolvei, filho; aceitais a vida que vos trouxe, e com ela a liberdade e a ventura?

— Não! Não! Não!...

O mancebo escandiu estes três monossílabos com uma lentidão calculada, para indicar o peso de vontade que carregava cada uma de suas negativas.

— Retirai-vos, para que eu morra em paz.

Molina envolveu-se no hábito, carregou o sombreiro, e chegando à porta, bateu para chamar o carcereiro.