As Minas de Prata/III/XXIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Em que Estácio prossegue na sua via dolorosa

__MATCH__:Página:As Minas de Prata (Volume VI).djvu/287[editar]

Separando-se de Estácio, pela manhã, Gil encetou ligeiramente a jornada; a tristeza da despedida logo foi espancada pela inesgotável alegria da idade feliz. Pouco depois galgava cantarolando o teso de uma colina, a cujas faldas passava o rio. Margeando-o, chegou à praia, onde encontrando uma canoa, fez-se de vela para a cidade. Aí chegara por volta da tarde.

A primeira casa, que buscou, foi a de Vaz Caminha. Subindo a ladeira em busca dela, viu o rapazinho pelotões de povo que iam e vinham do Largo do Rosário; teve curiosidade de saber o que era.

No meio do largo atopetado de gente erguia-se o pelourinho de cantaria, cercado por quadrilheiros. Estavam lá, jungidos ao poste, dois condenados, presos de uma e outra banda, dando-se as costas, com o rosto voltado para o povo. Eram homem e mulher; dois sócios e cúmplices, o Brás e a Eufrásia. A gente ria a chacoteava, cuspindo a zombaria à face dos réprobos, que ali estavam para vergonha e infâmia do crime.

Defronte da Eufrásia, Zana, a feiticeira, soltava estrepitosas gargalhadas e bailava um ril, estalando castanholas nas pontas dos dedos. A espaços parava para descansar o corpo, e então trabalhava a língua:

— Não te dizia eu, michela, que um dia te havia de ver empoleirada!... Ah! Ah! Ah! Dá cá a pata, coruja!...

Ao oposto lado defronte do Brás, um caboclinho lastimava-se e esmagava com os punhos fechados as lágrimas que rebentavam dos olhos. Às vezes, quando os quadrilheiros se descuidavam, esgueirava-se entre eles, buscando chegar ao pelourinho, donde o arrancavam à força.

Era Martim.

— Pelo amor de Deus! bradava ele.

Ali estava um contraste singular. A mulher exultava em sua vingança; o menino pranteava de compaixão. Assim devia ser; a carne magoada ainda da recente tortura perdoava; a alma ofendida, embora dez anos fossem passados, estava ainda na mocidade do seu ódio.

Gil mal deu com os olhos de longe no objeto que atraía a atenção, afastou-se ligeiro e arrependido de sua curiosidade. Esse espetáculo o contristou de novo:

— Mau agouro!... disse consigo.

Entrou a correr pela casa do licenciado. Vaz Caminha trabalhava; depois de certa época seu trabalho era quase incessante; pouco tempo dava ao repouso; o mais dele empregava-o na última correção de sua obra. Não se pode descrever a emoção que ele teve ao ver o pajem:

— Estácio é chegado?

— Aí vem; mandou-me adiante avisar-vos que amanhã será convosco.

— Ainda amanhã!... murmurou Vaz Caminha.

— Ao romper do dia. Deixei-o a coisa de dez léguas daqui. A esta hora estará próximo.

Gil explicou o motivo por que Estácio não chegara com ele; e depois de sossegar o velho a esse respeito, refez de forças com uma boa naca de carne que lhe deu a velha Euquéria, molhada com dois dedos de vinho. Assim confortado partiu-se em busca de Cristóvão; em casa não estava, e disse-lhe gente estranha de serviço que talvez o encontrasse para as bandas de Nazaré. Para lá botou-se sem demora.

Como ia perto de Santa Luzia, ouviu a modulação de uma voz bem conhecida sua, que descantava uns versos de improviso.

Gil sorriu com a ideia de uma travessura. Endireitou no rumo da voz e logo avistou adiante a feiticeira Joaninha, que arrastando levemente os pés, ondulava com uns decentes meneios desse requebro lascivo que denuncia a opulência de harmoniosos contornos. Ela ia descuidosa, soltando ao ar os seus trinos maviosos, como um passarinho que canta para o céu e a natureza; a mão afilada batia o compasso na cesta de confeitos.

Desabou o pajem o chapéu sobre a fronte, e apressando a marcha, ombreou com a mulatinha. Ela lançou um olhar de esguelha para o importuno, e tomou a dianteira; o sujeito apareceu-lhe pela esquerda. Recuou então para deixá-lo passar; o tal passou, é verdade, mas girou numa pirueta, e postou-se-lhe por diante, requebrando-se todo em uma graciosa mesura:

— Arrede lá, sr. pajem! Não gosto que me cerquem; enjoam-me zumbaias.

Gil com um revés de mão ergueu a aba do chapéu; e perfilando o corpo, apresentou aos olhos da mulatinha, e bem perto, o petulante e formoso rosto que ela tinha gravado em sua alma.

— Deus meu!... exclamou trêmula. Gil... Sr. Gil!...

O pajem não estava só crescido; aqueles meses de vida ativa tinham desenvolvido rapidamente seu organismo. As formas haviam ganho em robustez; o rosto queimado pelo sol, conservando sempre a petulância que lhe era própria, desvanecera a expressão infantil; já a sombra do buço azulava o lábio superior e cobria as faces rosadas do macio frouxel.

Joaninha palpitante contemplava com embevecimento a figura do pajem; seus olhos não se cansavam de admirá-lo, e abraçá-lo, porque eram realmente abraços, esses lânguidos olhares que cingiam o amigo, e o enleavam.

— Que me estás a olhar aí com estes olhos que querem comer a gente! dizia Gil a rir. Perdeste a fala, rapariga, que nada dizes!

E ela calava e admirava:

— Escuta, Joaninha! Agora chego; e trago um recado urgente do Sr. Estácio para D. Cristóvão. Espera aqui enquanto torno.

— Oh! não!... balbuciou a mulatinha. Ainda não me fartei de ver-vos!... Como voltastes crescido e gentil, Sr. Gil!

— Que é isto, Joaninha! Tratas-me por senhor!...

— Pois estais um homem!... Já trazeis espada! Agora as raparigas todas vão se requebrar!

— Ai! não te agonies com isto! Onde estiveres tu, não olharei nenhuma outra! disse Gil com recacho de galã.

— Falais de coração?

— Sabes que mais, rapariga? Até já!

— Um instantinho! disse Joaninha volvendo os olhos em torno.

Estavam justamente perto da frente de um prédio em construção. Joaninha travou da mão do pajem e levou-o até dentro do muro. Esse lado da rua dava sobre uma íngreme encosta de montanha, como é muito comum na Bahia; a muralha do fundo já estava erguida; a plataforma, que devia servir de assento ao edifício, beirava pois um precipício de extraordinária altura.

— Estou me demorando, Joaninha!

— É um nada!... Quero dizer-te uma coisa! replicou Joaninha, ficando trêmula e pálida.

Os olhares, que ela deitava ao pajem, eram como espinhos que se voltassem para lhe crivar a alma.

— Avia então!

— Sabes, Gil, eu sou rica!... Muito rica!...

— Hã!... As alféloas têm deixado!

— Qual! Uma história de herança! Nem eu sei bem o quê!... Sabes que sou enjeitada!

— Sei! o negócio da toalha!

— Há de ser isto! Ora eu rica, também o és tu!

— E o Sr. Estácio também!

— Pois que dúvida?

— Que fortuna! Porque olha, o tal tesouro, nicles!

— Mas tu rico, Gil, não careces mais de ser pajem ou servir a alguém.

— Que queres tu dizer?

— Hás de ter tua casa para mandar nela, com acostados e gente do serviço!

— Sai-te daí, Joaninha! Pois eu hei de nunca deixar o serviço do Sr. Estácio e sua companhia!... Guarda lá tua chelpa, que ninguém ta pediu!

— Não! não! ouve cá, Gil; troquei! Queria eu dizer coisa diversa. Sim!... Não vês!... O Sr. Estácio, em chegando, casa com D. Inês!

— É o certo!

— Ora assim como ele tem seu pajem de estimação, também ela deve ter sua aia para a compor e toucar.

— Essa serás tu! Bravo! Topo; assim ficaremos todos juntos!

— Bem juntos e para sempre, não é? Sr. Estácio e D. Inês, Gil e Joaninha! disse a rapariga abaixando os olhos.

Gil corou:

— Mas é que D. Inês será noiva do Sr. Estácio.

— E eu, Gil?

— E tu?...

— Também não podia?... Se tu quisesses...

Joaninha vacilou encostando-se ao ombro do pajem para não cair. Sentindo o contato destas formas voluptuosas, e embebendo os olhos no seio da vasquinha onde se debuxavam uns contornos rijos e harmoniosos, Gil estremeceu. A primeira centelha elétrica do amor acabava de comunicar-se ao coração do adolescente. Joaninha sentiu o braço do amigo que a cingia estreitamente ao peito; e ergueu a face onde os risos brincavam com os rubores.

Moveram-se balbuciantes os lábios de Gil, mas não soltaram uma palavra. A mulatinha precipitou-se, e embebeu na sua aquela boca tímida e palpitante. Ali ficou sugando amor e volúpia. Como um cabritinho que salta sobre o seio materno, e depois de apojá-lo, bebe sorvo a sorvo o leite da vida, até que afinal adormece saciado, assim reclinou ela.

Não viram os dois amantes, no seu enlevo, a face taurina de Tiburcino que surgiu na abertura do muro, e os espreitou um instante. O magarefe estava horrendo; nas arcas do peito reboava-lhe o rugido, como o som da borrasca nas profundezas de uma caverna; rangia-lhe os dentes um riso de fera.

De um salto aproximou-se dos dois amantes e ergueu o punho. Viu Joaninha de relance atravessar pelos arroubos lascivos do seu amor aquela figura sinistra; e recuou espavorida, conchegando a si o amante para o subtrair ao golpe.

Era tarde. O punho, acostumado a abater um touro no açougue, tombara sobre a cabeça do mísero pajem, que rolou sem sentidos. Estúpida um momento, Joaninha balouçou como uma vergôntea batida do vendaval; seus olhos iam da vítima ao assassino, e tornavam do assassino à vítima. Mas estalou no peito um uivo sinistro, que gelava a medula dos ossos; ela se aproximou do magarefe com um colear de serpe.

Tiburcino tremia, e lançava em torno a vista enraivada. A alguns passos estava a beira do respaldo, e abaixo o precipício; mas ele nada via senão a fúria da amante bramindo vingança. A mulatinha chegou, e estendendo os braços hirtos, apertou as goelas do carniceiro, como se o quisesse estrangular. Fincando os pés, forcejou por empurrá-lo, como se fosse uma pedra que arrastasse; o magarefe recuava, recuava, ante o ímpeto de Joaninha e fechava os olhos para não ver-lhe o semblante que a cólera desfigurava; ele não opunha outra resistência senão a de seu peso.

Afinal não houve entre os pés do magarefe e o despenhadeiro mais que algumas polegadas. Joaninha concentrou as forças e soltou um segundo uivo mais lúgubre que o primeiro. O corpo do magarefe, despenhando-se pelo desfiladeiro, foi de rebojo em rebojo sumir-se na vegetação que enchia o barranco da montanha.

Então Joaninha se abraçara com o corpo hirto e gelado do pajem, e cobriu-lhe o rosto de beijos entrecortados de soluços.

— Está alguém aí? perguntou uma voz aproximando-se.

— Senhor Estácio!... exclamou Joaninha cheia de esperança.

Era com efeito o mancebo.

Nunca vos sucedeu contemplar, nalgum instante de remanso de espírito, um remoinho d’água? O objeto qualquer, impelido pela corrente, aproxima-se; imediatamente atraído pelo torvelinho é submetido a constante e vertiginosa convulsão. Ora desce nos vórtices da onda até às profundezas do pego, ora remonta à tona para descer de novo, e de novo subir. Afinal pela mesma lei da rotação chega um instante em que é o objeto lançado fora do centro elíptico; basta porém um sopro para atirá-lo de novo ao turbilhão.

Estácio fora ludíbrio da dor, como a folha é ludíbrio do vento ou da onda. O pesar da perda de sua velha tia, que lhe servia de mãe, o arremessou outra vez e mais fundo no remoinho da grande desgraça. De novamente o passaram e repassaram os cruéis tormentos, que tinham crivado sua alma desde o momento em que vira Inesita ajoelhada aos pés do altar até aquele em que ouvira de sua boca perjura a fatal sentença!

Andou, andou, andou! Movia-se o corpo; a alma estava atada ao poste do suplício, flagelada pelo látego da dor; convulsava apenas e arquejava, não prosseguia.

Ressoaram perto ulos de angústia.

O mancebo estacou de repente; o eco repercutira dentro. Aquele grande e imenso infortúnio, que cerrara-se ao mundo, passaria por certo entre os burburinhos de festa e os clamores de alegria, mudo e isolado, sem aperceber-se do ruído; mas o eco débil de uma angústia reboava no tímpano desse coração ulcerado. Um infeliz é um irmão para quem sofre; uma desgraça é para outra bálsamo, senão remédio, porque o sofrimento alheio faz destilar à nossa alma as suaves gotas da caridade.

Como o prazer, também faz sócios a dor. Nós diluímos as nossas mágoas consolando as do próximo.

Estácio volveu olhos na direção do pranto. À esquerda erguia-se a fachada, em arcabouço, de um prédio mal começado. As portas estavam cheias com tijolos soltos e acamados, como é uso nas construções; em uma porém tinham praticado uma abertura, quanto bastava para entrar uma pessoa. É natural que fossem fâmulos da vizinhança para aí atirar o cisco das casas.

Era fácil de conhecer que os lamentos vinham dali. Estácio para lá encaminhou-se e da abertura procurou ver na escuridão. Havia quase a meio um vulto confuso pouco elevado do rés do chão.

Estácio viu que o vulto era de uma mulher sentada, a qual tinha no regaço um corpo inanimado ao qual se estreitava soluçando.

— Joaninha!

— Gil! Senhor Estácio!... Gil!... exclamou a mulatinha. E estendeu para ele o corpo suspenso em seus braços hirtos.

Estácio, ajoelhado, fora de si, depôs um beijo na fronte do pajem inanimado.

— Ainda respira! acudiu com alegria.

— Salvai-o, Senhor Estácio!... Eu darei minha vida se preciso for!...

— Carecemos de prestar-lhe já socorros. Onde o levaremos?... Vossa casa fica perto?...

— Oh! não! Bem longe!... Mas eu o carregarei!...

— Onde estamos?...

— Não sei!... Em Santa Luzia, creio!...

— Aquela igreja!... É Santa Luzia?...

— Deve ser!

— Vamos aqui perto!

Estácio tomou o corpo do pajem e seguiu adiante; Joaninha o acompanhava beijando a mão de Gil. O calor que o mancebo sentira ao beijar a face do pajem era realmente um resto de vida, ou seria apenas o reflexo do seio ardente de Joaninha, onde a cabeça do infeliz rapaz estava conchegada?

Essa dúvida assaltara o espírito do alferes, sentindo agora o gélido frio que lhe traspassava o corpo; ao ouvir de Joaninha a narração truncada do que passara, perdera a esperança, visto que já tinham decorrido cinco horas. Contudo bom era sempre tentar os esforços.

Estácio ia à casa de D. Dulce, que ele se recordara morar ali perto.

A cancela estava apenas encostada; entraram às apalpadelas; a escuridão da noite era ali mais densa por causa da folhagem embastida do arvoredo. O vento de instante a instante soltava ulos tristes e longos; ouvia-se o bater de uma porta rangendo sobre os gonzos. No telhado cacarejavam lúgubres duas corujas.

Apesar do sofrimento cruel que os pungia, não puderam as duas criaturas penetrar naquele sítio sem que se lhes arrepiassem as carnes. Deitando no colo de Joaninha o corpo do pajem, entrou Estácio a porta escâncara, e achou-se na cozinha. Fez de propósito rumor para ver se despertava alguém; chamou em voz soturna, depois mais alta, porém debalde. Avisou então passar além; na varanda o mesmo silêncio; a casa parecia abandonada e erma.

Chegando porém à sala principal, ouviu um débil grunhir; falou; ninguém lhe respondeu. Abriu a janela para que entrasse alguma luz das estrelas, e procurando, descobriu um objeto negro atirado contra a parede. Tocou-o do pé e lhe pareceu massa inerte e bruta; mas o grunhido, que primeiro ouvira, soou de novo.

— É algum cão que achou a porta aberta, pensou o mancebo.

Tomado de um pressentimento terrível, soltou um grito de desespero, que acordou os ecos adormecidos da casa:

— D. Dulce!...

À sua voz, aquela massa inerte desenvolveu-se lentamente em um vulto de homem, que se foi a custo levantando. Essa figura grande e fantástica deu alguns passos trêmulos e vacilantes, como se mal pudesse ter-se em pé; e estendendo o pescoço, à semelhança de um cavalo que fareja, espiou o rosto do mancebo. Parece que o reconheceu, pois lhe travou da mão vivamente e apontou para o lugar onde estivera acocorado:

— Está ali!... disse um sopro de voz.

— Dorme ela, Lucas?

— Quem sabe?... Até anoitecer, ainda eu ouvia gemer.

— Mas então acha-se enferma?... Levai-me onde está. Quero vê-la.

— Não. Ela não quer...

— Onde está?

— Ali, no oratório...

— A porta?

— Não tem mais.

Impossíveis eram de compreender as palavras do negro Lucas para quem, como Estácio, ignorava os sucessos ocorridos ultimamente.