Aventuras de Diófanes/III

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{{d|Sumário

Continuando Hemirena como Belino a caminhar para Argos, fugindo das povoações, entrou em uma brenha para descansar, e achou nela a Climinéia, que não conheceu; e tendo-a por Delmetra, a persuadiu a deixar tão áspera vida. Foram dar a uma Aldeia, onde se conservaram quatro anos, servindo aos Pastores. O disfarce de Hemirena deu causa ao rendimento de Atília, que procurandoa para seu esposo, as obrigou a deixarem as inocentes Pastoras, e continuarem a sua peregrinação.}}

Em uma fresca tarde, quando as aves cantando saudosas se despediam das luzes de Febo, saía de Belino Corinto, e entrava em Argos, onde determinava descansar dos trabalhos, com que havia caminhado desde que saíra de Atenas; e guardando a ordem de fugir ao porto, em que naquele Reino desembarcara cativo, por não ter conhecido, procurava ocultar a liberdade nas duras prisões do temor. Chegou à boca de uma brenha, que se compunha de grandíssimos penedos, pelo quê, fazendo-lhe horror a negra sombra, estava imóvel; e vendo que um vulto vinha de dentro como a buscá-lo, lembrando-lhe que podia ser alguma fera, o natural receio o inclinava a que temesse, e a recordação de sua pouca fortuna o aconselhava a que não fugisse. Quando ouviu uma voz, que dizia: Quem és, o que dúvidas entrar no frio centro deste rochedo, que eu habito? Não temas, nem fujas: se és racional, chega a consolar a quem nesta sepultura paga tributo à desgraça. Não seja maior em ti o efeito da covardia que o da compaixão, que merece uma infeliz.

A estas palavras entrou Belino naquela horrenda cova, e viu uma mulher, que mostrava no rosto quebrantado alguns vestígios de formosura, sumamente agradável, e parecia ter mais de setenta anos. Chegou a Belino; e apertando-o entre seus braços, lhe disse: Qual seria o astro benigno, que te conduziu à minha escura habitação? Talvez compadecendo-se já das minhas adversidades, encaminhasse para aqui os teus passos, porque nem sempre consentem que o fado triunfante dos mortais: aqui tenho vivido retirada das gentes, e só na sombra das pedras achei o melhor amparo. E ficando suspensa, e pensativa por algum tempo, lhe disse Belino; Confia-me o teu nome, continuando no desafogo dos teus pesares: porque quando se repartem comunicados, fazem menos violento o seu efeito: e porque a um infeliz, a quem atropela a desgraça, sempre servem se alívio os lastimosos ecos dos que também se queixam da fortuna. Bem quisera servir-me da ocasião para os desafogos (lhe respondeu); mas como poderei dizer-te quem sou, se da minha origem parece que nem as memórias conservo; que como apostou o destino a minha ruína, não me lembro da que sou, e me aborreço tanto, quanto da que fui vivo distante: mas eu te satisfaço, dizendo que me chamo Delmetra, a quem a desgraça roubou da pompa esclarecida, e arrojou a um abismo de misérias; e reduzindo-me ao mais vil estado, fui entregue a contínuos infortúnios. As gentes me aniquilaram, desprezaram-me os alívios, os descansos me desconheceram, e me desampararam as riquezas; mas como é mais poderoso o ânimo constante, que formidável todo o poder do fado, os trabalhos me vivificam, para resistir aos seus assaltos. Separei-me das gentes, e busquei entre as feras o amparo, que me negavam os racionais; e debaixo destes penedos tenho procurado com lágrimas contínuas abrandar a ira dos Céus. Nos primeiros dias parece que me alimentou o pranto; e nos horrores das noites o grande pavor, e inexplicáveis sustos me representavam todo o furor do inferno: nem sei dizer-te o medo, que me causavam os tigres, quando vinham abrigar-se dos rigores do Sol. Todo o cuidado era pouco para me fazer imóvel, temendo a sua ferocidade; quando os via junto a mim, em qualquer de seus movimentos se me figuravam os últimos instantes de minha vida; e ainda que de noite não assistiam aqui, não era menor o horror, que me causava o alarido de diversas vozes, e canto de aves noturnas; sem mais abrigo, consolação, luz, ou campainha que a das lágrimas, que produzia a minha desgraça. Assim me lembrava dos meus, e o estado, a que seriam reduzidos, e com vivíssima saudade tinha o desafogo de arrancar do peito magoadíssimos suspiros; e quando cansava o triste espírito, adormecia, ou vencida de cuidados, ou quebrantada de tristeza; quando as feras se recolhiam, saía eu com fome tão feia, que me serviam de alimento as frutas, e ervas amargosíssimas; e como pelo receio de que viesse alguém, me recolhia logo, não tinha sossego fora desta brenha, esperando dever mais compaixão aos brutos, que a habitavam, que os racionais, de quem eu fugia; e ainda que estou em sítio muito solitário, e distante de povoação, era tal o medo, que muitas vezes dei grandes carreiras fugindo, por se me representar que via ao longe algumas pessoas, que se encaminhavam para aquela parte. Passava todo o dia, e noite seguinte em contínuo susto; e quando chegava a sair com muito vagar, e temor, escondendo-me com as árvores, e com os montes, reparava para aquele lugar, e via que algumas pedras tinha dado alheio corpo a minha fantasia, e movimento o meu inexplicável medo: como aqueles culpados, que em parte nenhuma estão seguros, pois levam no delito o instrumento de seu castigo, porque se levantam as mesmas pedras a perseguí-los: assim me via eu atormentada; mas não era o remorso o que me condenava a tão contínuo desassossego; mas sim a crueldade dos bárbaros, a quem eu temia, sem haver cometido mais culpas para o seu ódio, que o entregar-me nas suas mãos o meu tirano destino. O decurso do tempo gastou em mim o horror da sepultura, em que vivo, o temor dos viventes, que me acompanham, e o receio dos que me perseguiam: a fome, o frio, a crueza dos alimentos, e a aspereza da cama, já tolero sem trabalho; porém nunca se diminuiu em mim a força da viva saudade, com que todos os dias lamento a ausência dos meus; e rompendo em tristes ais as entranhas deste rochedo, parece que o lastimoso som de meus inflamados suspiros brotam lágrimas cristalinas, que fugitivas correm murmurando de meus tristes desvarios.

Há seis anos que conservo aqui a vida para castigo de meus desacertos, que já a morte em tal estado fora mimo da fortuna: a rusticidade do país, e o estado brutal, em que me vês, já me não são violentos, porque o costume faz natureza; mas é sem igual o tormento, que me fabrica a memória; pois ainda o mesmo temor das gentes gastou o tempo, e não sei se a constância, com que sofri o rigor da tirania entre os homens, hoje degenera em obstinação entre os brutos; porque sendo já insensível para os males, e atormentando-se só a força de inocentes afeto, tenho feito tão domésticos os pesares, que nem me lembro de buscar alívios. Não me atemorizou tanto o ver-te, quanto me perturbaram as pedras, quando principiei a sair desta triste sepultura; e assim te digo, que se me buscas, eu já te peço a morte, pois me não lisonjeia a vida; se me és contrário, eu me não nego ao ódio, nem te resisto, pois que chego a apetecer os estragos; e se acaso te persegue a fortuna, conta-me qual foi a tempestade, que te arrojou a estas desertas brenhas, para que eu principie a louvar os justos Deuses, que te trouxeram para consolar-me.

Não venho a buscar-te, (lhe respondeu Belino) nem te sou contrário, mas antes sinto que o teu mal se me comunica; venho atropelado da fortuna, e buscava no seio destas brenhas um lugar, em que sem susto descansasse; e se fossem mais antigos os teus males, e talvez menos os teus anos, poderia suceder que dos teus trabalhos nascessem os meus; e como a jornada, que ultimamente fiz, me obriga a confessar-te o meu cansaço, dá-me licença, para que me encoste a descansar.

Delmetra o conduziu para a parte mais côncava da brenha; e logo lhe advertiu que, entrando as feras para aquele lugar, não falasse, nem se movesse, enquanto se não costumassem a vê-lo; e deixando-o acomodado como pôde, saiu a buscar algumas frutas silvestres, para ter mimoso o seu hóspede. Em despertando Belino, lhe apresentou aqueles asperíssimos regalos, que aceitou com mostras de verdadeiro agradecimento. Enquanto se recolheram os ferozes primeiros possuidores daquela agreste casa, esteve com atenção Delmetra reparando na agradável presença daquele mancebo; e o muito, que mudamente um olhava para o outro não lhes causava riso, como ordinariamente sucede, porque principiando Delmetra a banhar-se em lágrimas, Belino lhe correspondeu com outras tantas, e se explicavam assim os tristes olhos com as vozes mais claras, que podiam exprimir, o que um, e outro coração sentia. Belino pela grande novidade, que lhe fazia o ver-se tão perto daqueles animais, nem se resolvia a enxugar as lágrimas, que correndo por suas belas faces, paravam em seus lábios de nácar, e apostavam competir com seus claros, e bem organizados dentes. Quando de novo entrava mais alguma fera, ou davam aquelas alguns passos, era tal susto, que lhe parecia perder os sentidos; e quando principiaram a sair a pastar, respirou aquele oprimido coração; e escolhendo o continuar a sua derrota: E tempo, Senhora, (disse a Delmetra) para que me permitas continuar o meu caminho, tão admirado de ver-te, quanto agradecido à tua bondade; e ainda que te deixo, será inseparável da minha lembrança o teu agrado, pois na alma o levo impresso, e os prodigiosos efeitos da virtude, e temor do maus, pois fazes tão boa sociedade com as feras, que te respeitam, quando temes os racionais, em quem as iniqüidades agravam tanto os bons, quanto me confundem os sobrenaturais efeitos, que publicam nos desertos os prodígios dos Céus. Como tão apressadamente queres deixar-me (lhe respondeu Delmetra) sem que te mova a compaixão de uma triste, que debaixo destas pedras esconde a sua maldade? E como acompanhavam a estas palavras muitos milhares de lágrimas, não pôde Belino resistir à ternura, e determinou demorar-se ali mais alguns dias. No seguinte lhe pediu Delmetra quisesse comunicar-lhe seus infortúnios, ainda que mais lhe parecia transformação admirável ordenada pela sabedoria de Minerva, para a confortar, que criatura mortal; porque nas suas ações, e palavras admirava acertos superiores. Não é a minha lastimosa história para divertir-se, (lhe respondeu Belino) porque meus repetidos trabalhos só poderão aumentar tristezas; mas como queres ouví-los, direi parte deles para satisfazer-te.

Nasci em um país muito distante deste: fui socorrido de bens: bem visto entre as estimações, e assistido pelos melhores: mas como os justos Deuses não quiseram que eu colhesse os frutos dos regalos, porque quase sempre são venenosos, quando eu principiava a conhecê-los, fui reduzido a todo o gênero de trabalhos; e moderando-se o rigor deles, tomei força para as maiores fadigas. Os precipícios, a que me intentava encaminhar a violência de uma paixão, me obrigaram a fugir, vendo de longe os perigos; e como devo dirigir os meus passos a buscar a pátria, espero que não os queiras divertir, e se agrada ir correndo igual fortuna, deixa a sociedade das feras, e acompanha-me que ao rigor dos infortúnios só modera o achar neles companhia. Irás recomendada ao mesmo retiro, e segredo, de que pende a minha vida. Em acompanhar-te (respondeu Delmetra) buscarei o meu remédio, pois tu me hás renovado o mal, com que já não pode o ânimo enfraquecido; mas vou certa que pelos Deuses imortais juras acompanhar-me, como eu também a ti; e se na verdade tens humanos sentimentos, ou és aqui mandado por segredo da eterna sabedoria, espero que as tuas obras sejam iguais ao que influi o teu amável semblante. Nunca saberei deixar-te (lhe respondeu Belino), nem temas que perigue a fidelidade, atenção, e abrigo, que devem os bem nascidos às mulheres, a quem persegue a fortuna; porque consiste a maior honra em ser abrigo de honrados; e quando juras seres de mim inseparável, eu juntamente o servir-te; e se não há cousa alguma, que te embarace, é preciso que nos determinemos a deixar já estes rochedos, antes que minha vida experimente a ira das feras. Vamos (lhe respondeu Delmetra): e te agradeço, ó brenha compassiva, o amparo de tantos anos, de que saudosa me ausento, pois achei em ti o lugar, que me negaram os corações humanos: corram agora de ti, ó bela penha, os líquidos cristais, sem que os perturbe o ardor, que me refrigeram. De ti me aparto, ó bosque sombrio, pardo monte, e florescente prado. Aves inocentes, cantai sonoras, que já vos não interromperão meus tristes ais; e ficai ditosos brutinhos, que do ódio o mal; não conheceis, nem do amor o cruel efeito.

Saíram pouco antes de noite, sentindo uma tal consolação, que julgavam triunfarem dos passados trabalhos, com que ora caindo, ora tropeçando foram parte da noite; e ainda que algumas vezes iam com susto e cuidado, pelas vozes de estranhos brutos, que parecia pastavam por aqueles fragosos montes, contudo iam tão fortalecidos com a companhia, que tudo lhes era suave. Delmetra pelo costume de dar poucos passos, fazia o seu caminho com grande trabalho; assim forma sem mais guia que o conhecimento, que Belino tinha das estrelas; chegaram a uma Aldeia, onde as serranas eram formosas, e agradáveis; e como estavam fora de Argos, e já na campanha de Micena, se ofereceram ao serviço daqueles rústicos, e foram admitidos em casa de Leda, que vestindo a Delmetra, lhe encarregou a assistência de uma velha enferma, e entregou seus rebanhos a Belino; e suposto que da sua memória resultavam sempre saudosos efeitos, pois se lhe não separavam as causas, suspirando ausente da sua pátria, lembrando-lhe seus amados progenitores, e os últimos suspiros de Beraniza, entre a mágoa, e saudade lhe parecia não poder conseguir maior felicidade, que o sossego de ânimo, em que então se via. Quando apascentava o gado, cantava suavemente, fazendo que renascessem com a maior glória os antigos varões, de quem repetia os mais cadentes versos. A noite se recolhia o molhado a se reparar ao fogo, ou a descansar com Delmetra; e naquela tranqüilidade de espírito considerava mais rica, e suntuosa a choupana que os palácios, que havia deixado em Tebas; nem desejava mais que aquele maior bem de seus males, tendo por mui difícil chegar à suspirada pátria; que sempre os trabalhos fazem agigantando qualquer pequeno descanso. Delmetra, que era tida por mãe de Belino, consolando-se de tão boa companhia, e ignorando as obrigações, que lhe acresciam para esse fim, esperava acabar naquela Aldeia os poucos anos, que lhe restassem de vida. As Pastoras, querendo imitar o canto de Belino, se exercitavam em seus inocentes festejos. Delmetra juntamente animava aqueles divertimentos, tomando à sua conta o instruí-las; com o que viviam todos contentes, tornando-se os recreios em escolas de civilidade, economia e recato.

Celebravam-se as bodas de Learco, pastor velho, com a bela pastora Olímpia; e como havia causado a todos admiração a cega obediência, com que Olímpia se conformara com a vontade de seus pais, determinaram festejar três dias aos desposados. As pastoras vestidas de finíssima lã de seus cordeirinhos, levando-lhe nas inocentes ofertas os repetidos votos da mais pura amizade, a conduziram para uma fresca fonte, que guarnecida de arvoredo, convidava com a deliciosa sombra. Sobre a verde relva se assentaram, os homens a uma parte, e as mulheres a outra, menos os dous desposados, que no melhor lugar estavam juntos. Amartice, irmã de Learco, saiu do seu lugar, desafiando para o baile, depois do qual lhe cantaram galantíssimas canções, tudo sem mais arte, ou adorno, que o da agradável singeleza, e assim continuaram alternativamente; acabavam uns, recomendando aos Deuses o constante amor, e feliz conservação dos desposados; outros a pureza de suas obras, e aumento das virtudes; outros que se contemplassem, para que conservassem com alegria o gosto dos primeiros anos; e outros com muitas graças, elogiando a inocente beleza de Olímpia, e zombando das cãs de Learco, lhe diziam que servisse em boa paz a Olímpia para agradecer tão feliz consórcio.

Passadas estas primeiras disposições do festejo, quiseram ouvir a Belino, que lhe repetiu as cadências métricas, em que recomendava o esplendor dos noivo a Aglaia, o prazer a Tália, e a Eufrozine a formosura de Olímpia, para que a defendesse de desgraça, que ordinariamente se lhe atreve. Também quiseram que Delmetra concorresse para a função com alguma coisa útil, e lhes desse daquele novo gosto, que ali lhes havia levado; e assentaram proporem-lhe as dúvidas, e fazerem curiosas perguntas, ao que deu princípio Learco, pois era o mais ancião, e respeitado em tal dia; e erguendo-se, disse: Qual é a cousa, que o homem deve mais amar, e o que mais o aflige? Mais deve amar (lhe respondeu) a consorte bela, e virtuosa, que ele não merecia; e o que mais o aflige é a separação do que ama, e o perder por desgraça, o que adquiriu o desvelo. Com muito riso aplaudiram todos estas respostas, e lhe rogaram que não só respondesse, mas que continuasse a discorrer sobre as questões, ou perguntas, conforme lhe ocorresse. Em que consiste a verdadeira amizade (perguntou Pachina irmã de Olímpia)? Em sentirem dous sujeitos as adversidades um do outro (lhe respondeu), e se alegrarem igualmente com a prosperidades; e como é difícil achar-se uma com as qualidades de verdadeira, é preciso que a prudência faça a escolha para serem bem satisfeitos os preceitos da fidelidade. Não pode sempre desempenhar a boa amizade o sujeito, quer não for discreto, e entendido, pois se devem acompanhar com o conselho nas adversidades, e reparar dos golpes da inveja nas prosperidades; pelo que não há cousa, de que mais careça o coração humano, pois na presença adverte o afeto dos desacertos, e na ausência costuma a lealdade defender dos inimigos. Também a prudência, e segredo são condições precisas, em que deve satisfazer aos encargos da amizade: porque assim como o néscio não é capaz de aconselhar, também o falador arruína, quando menos o deseja. Há muitos, a quem se pode fiar a pessoa, a vida, e o dinheiro; mas o segredo só aos que com antiga experiência acreditam a amizade, a qual não só é obrigada a calar o que se lhe confia, mas guardar o que vir, e algumas vezes o que ouvir aos estranhos, pelo que só assenta bem nos sujeitos, que cuidam bem o que fazem, e sabem o que dizem. A pessoa, que mais ama, se conhece em ajudar com as forças, aconselhar com afeto, e estranhar com prudência, não esperando que a busquem para o socorro nos trabalhos, nem que as finezas se agradeçam; porque a amizade naturalmente é generosa, e não quer mais interesse que o prazer de cumprir com o que deve; e é sempre desaire da generosidade o esperar agradecimento.

Também reparai, ó serranos, que nem todos os conhecidos são capazes para amigos; porque os que não forem honestos, e benquistos, será melhor estimá-los, se em alguma cousa o merecem, que conservá-los particularmente; não só pelo mal, que podem obrar, mas também pelo que os maliciosos suspeitam dos maus; e porque vos não enganem os que adiantam muito os passos da amizade para chegarem à conversação particular, o que muitas vezes sucede com os moços mal precedidos, e ociosos. Esta cautela é muito mais precisa na Corte, onde há muitos, que merecem estimação, e muito poucos, que merecem estimação, e muito poucos, que mereçam se lhes confiem os sentimentos internos. Em toda a parte é o afeto da boa amizade mais permanente que o amor da sangüinidade: porque a cordialidade dos parentes poucas vezes dura, e o afeto da amizade rara vez acaba; as suas leis prometem muitos guardar, e as sabem guardar muito poucos, pois são indispensáveis os preceitos de prestar, defender, e acompanhar; pelo que é infelicidade o não ter uma, e grande o trabalho de ter muitas; e as que são verdadeiras, ou falsas, só se conhecem quando a fortuna se retira; porque a esta sempre seguem os mais, assim como à virtude os melhores. Conclui Delmetra este discurso, em que lhe deram os vivas com grande alegria. Qual é o pior trabalho das mulheres na Corte (perguntou Barnélia)? A eleição das cores, com que pintam a formosura (respondeu Delmetra), pois gastam a maior parte do dia em contínuas transformações, sem chegarem a conhecer que o natural lhes está melhor; e assim passam de desejo a desejo, querem, e não querem, mancham-se, e desmancham-se; fazendo-se aborrecer de perto, as que se fizeram amar de longe; e sem parecerem de manhã as que são à tarde, não têm mais constante estado que em conservarem aquela indiscreta opinião. Este mal inveterado se acha nas mulheres, que tomam contínuos os bailes, recreios, e conversações , em que na chusma desentoada falam muitas ao mesmo tempo; umas em dilatados cumprimentos, outras repetindo histórias mal aplicadas, com as sábias, falando nos Escritores, e dando a arte aos Poetas, e outras, que como estátuas da vaidade na contemplação da sua beleza, e bizarria, se estão revendo em si mesmas, e exercitando-se em visagens, e melindres; porque muitas ignoram que a formosura do rosto apenas nasce, tem mil contrários, que a arruínam, que só faz cara ao tempo, e aos trabalhos, a que consiste em um espírito aprazível, e modesto, que com suavidade as faz amáveis, e tão poderosas, que confundem a ousadia, tiram as armas ao atrevimento, e triunfam dos rendidos, sem mais trabalho que recomendarem-se ao silêncio, que costuma alegar a seu favor; e que em degenerado esta suavidade de espírito, perdem o preço para com os que lhe são superiores, se fazem enfadonhas aos iguais, insofríveis aos inferiores, e aborrecidas de todos; e quando preparam para outrem o veneno, bebem a maior parte.

Mais quisera que elas se divertissem na conversação do mesmo sexo, que admitirem os homens, porque são grandes os danos da ocasião; e ainda entre as mulheres se devem escolher as que forem graves, e comedidas; porque àquelas, que não têm estas circunstâncias, sucede algumas vezes serem mais prejudiciais que os homens, pois se não guardam dos inimigos domésticos. As casadas devem sempre acautelar-se na presença das donzelas, pelo que do exemplo se pode recear; assim como é em todas convenientes uma discreta elevação, com que não estimem uma as liberalidades, nem queiram mais grandezas que o desprezá-las; porque as que desejam mais que o que lhes permite a sua esfera, estado, e possibilidade, têm mais um inimigo para vencer o seu coração. O amor em algumas procede mais da vaidade do espírito que da fragilidade, porque se pagam do aplauso dos que só as estimam por seus interesses; sendo certo que as mais das vezes se não louvam aquelas formosuras com prodigalidade tão nobre, que não esperem o prêmio de tais louvores; a vaidade, e o amor-próprio, que concorrem para serem com muita leveza crédulas, também as obriga a trazerem na conversação os rendidos, que desprezaram, sendo isto grave descuido da modéstia, e desaire do próprio respeito; mas assim persuadem que são dignas de serem amadas: alegram-se de os verem prostrados, especialmente se têm qualidades para terem a estimação das gentes, recebem uma glória esquisita, em terem escravos, que mais estimam as prisões, que desejam a liberdade; e se por graça lhes principiam a aceitar os sacrifícios, as ofertas, as lisonjas, os protestos, e as finezas, muitos vezes deveras se acham vencidas; porque as discretas submissões, súplicas repetidas, e bem ornadas poesias costumam abalar os montes, pois se de assalto as não vencem, o recomendam a uma constância importuna; nem há muralha, que resista a esse fim, se não teme ao princípio. Há mulheres na Corte, que em oitenta anos, que viveram, nunca tiveram mais aplicação que a dos seus enfeites; e é cousa lastimosa que deixemos de enriquecer-nos dos conhecimentos necessários com a leitura de bons livros, que são companheiros sábios de honesta conversação. Nós não temos a profissão das ciências nem obrigação de sermos sábias; mas também não fizemos voto de sermos ignorante. Há mulheres, que em acabando os primeiros cumprimentos já não querem mais que dizer mal, e falar em enfeites, e outras semelhanças ninheiras; estas fora melhor que aprendessem a calar, se não sabem tratar conveniente; não digo que sejam sábias como as Musas e Sibilas; mas que conforme sua esfera, e possibilidade, se apliquem às ciências, e ao que sirva para a boa direção dos costumes, que como não são animais, que tirem das folhas, veneno, não podem abusar da celestial ambrósia, que nos livros se acha; porque o ignorar a gravidade da culpa, e os preceitos da modéstia, conduzem para o tropeço. Nem digo que seja útil o lerem toda a casta de livros, pois são perniciosos os que tratam das paixões, que insensivelmente costumam introduzir-se nos ânimos; porque ainda que se pintem com agradáveis cores, elevado estilo e invenções honestas, nem assim nos convém lê-los, e basta que nos apliquemos aos que nos enchem de documentos admiráveis fazem temer os efeitos do ócio. A paixão que se exercita em alguma boa obra diverte as mais, que podem inquietar o espírito, e na gostosa fadiga dos estudos tem a maior glória o entendimento, vendo pela memória desterradas as trevas da ociosidade, e ignorância, tirando os melhores exemplos de perfeição. Oh quanto será feliz a que guardar no coração estas ponderações! pois só as desprezam as que, como aves noturnas, não podem ver as luzes; estas são as que deixam o honesto, e generoso de nossos costumes, com o que nos tiram o crédito, pois vivem entre os deleites, e a inveja, que as negam às venerações, e lhes arruínam a alegria.

Vós, as serranas, que não podeis instruir as filhas nas ciências, basta que não as deixeis viver ociosas, pois é tão precioso o costumá-las com o trabalho cotidiano, como ao lavrador o arado, e ao militar as armas. A natureza dotou aos homens de mais forças e as mulheres de mais sutileza de espírito; e às que se servem dela entregues ao ócio incita paixões ardentes, que arruínam ao entendimento; que assim como não há cousa mais amável que a bondade, não a há tão segura como uma inocente, e dócil sinceridade, aplicando-se esta em repreender os Poetas, desmentir as fábulas, e vencer a ignorância, e a maldade, que nos tem por inimigas do sossego público; e persuadamo-nos de que é só bela, e admirável, a que se adorna de prudente moderação em todas as suas ações, e palavras, e só malquistas entre a gente civil, as que com a ociosidade, e aspereza de gênios a todos fazem horror, sem que jamais lhes lembre que o viver é trabalhar; nem que houveram povos, que puseram fora dos seus muros aos mesmos Deuses, que não assistiam ao trabalho, nem que não deixam de padecer ultrajes as mulheres, que só exercitam o inútil.

Assim concluiu Delmetra com inexplicável aplauso; e coube a Aminta o continuar o divertimento, que o fez perguntando com graça: Quantas são as qualidades, com que os homens dizem mal de nós? Ignorância, maldade, e loucura (lhe respondeu Delmetra). A primeira se acha em uma certa casta de néscios, que para se difamarem por novo estilo, dão a entender que têm grande experiência, e já crescido enfado; e como as frases dos satíricos sempre são aplaudidas (porque é grande o número dos ignorantes mal morigerados) fazem a conversação alegre, talvez porque nunca foram bem vistos; e gabando-se de favores, que eles dizem que receberam, fazem a vileza contagiosa, pois perdem as regalias de honrados os que ouvem, e celebram aquelas graças, indignas de que a sofram os bem-nascidos. E se os que tomam essa empresa, têm tintura de Filósofos, ou Poetas, são as sátiras tão feias, como os louvores suspeitos. A estes é o mais grave castigo o negar-lhes a atenção, porque as obras, que deixam ler no sobrescrito alguma desordem de paixões, é mais nobre a bizarria de as desprezar, que o empenho de lhes responder.

A Segunda qualidade se acha nos homens, que entregues aos vícios não podem digerir alguns trabalhos, que buscaram com a vaidade de queridos, ou com as diligências do atrevimento. Estes são como os cães, que mordidos por aqueles, com quem forma entender, correm morrendo a todos os que encontram; e como os que enganados de um pequeno alívio coçam a chaga, que acrescentam. Eu quero supor que alguma vez haja algum (se pode ser) a quem a dor tire com razão o sofrimento; mas nunca o poder ter em fazer geral o vitupério pelo erro particular.

A terceira ordem destes nossos inimigos são uns melancólicos furiosos, que têm pior afeto que a loucura, porque apenas declaram guerra a uma pessoa do nosso sexo, logo a intimam a toda a natureza, que nos defende no silêncio. Estes vendem a vingança como doutrina, e procuram persuadir a todos que o menor espírito de todos os homens, que há no Mundo, tem melhores qualidades que os das mulheres mais capazes de todo o Universo. Eu não intento louvá-las contra justiça, pois tem sido o meu empenho advertir-lhes os defeitos, que em muito poucas se acham; mas não haverá quem lhes negue a glória de que a mais rude está em mais alto grau que todos eles, só em conservar a sua moderação, e constância em desprezá-los. Para os desmentir basta saber-se que as suas presumidas quimeras têm a origem na loucura, e amor-próprio, como elementos proporcionados. Estes discursivos se não dizem que as almas têm sexo, para que forjam distinções, que não têm mais subsistência que na sua corrupta imaginação, pois foram igualmente criadas, e a disposição dos órgãos (de que me dizem provém a bondade do espírito) é tão vantajosa nas mulheres, como nos homens? Alguns há tão faltos de espírito, e capacidade, que se lhe tirassem um só grau, não lhes faltaria nada para brutas; assim como são inumeráveis as heroínas, que se têm visto inteligentes, que umas têm parecido milagre nas artes, e outras têm dado a entender que eles julgam ignorância, o que são efeitos da modéstia. Não resplandece em todas a luz brilhante das ciências; porque eles ocupam as aulas, em que não teriam lugar, se elas a freqüentassem, pois temos igualdade de almas, e o mesmo direito aos conhecimentos necessários; e o dizerem que as nossas potências são o refugo das suas, porque não sabemos entender, ajuizar, aprender, e queremos sempre pior, é sobra de maldade, e insofrível sem razão, quando há sempre neles mais que repreender, e nas mulheres muito que louvar, menos naquelas, que muito os atendem, porque eles a arruínam. Enfim digam o que quiserem, e fazei vós o que deveis; que as que souberdes encher as vossas obrigações, não achareis entre os bons algum, por mais insensato que seja, que vos negue a veneração; que eu só estou mal com as camponesas, que não cuidam mais que em comer, dormir, e falar, porque ainda às grandes senhoras não perdoa a nota, que façam vida de se não ocuparem em cousa alguma, porque são incuráveis os males, que produzem pensamentos levianos, e momentos ociosos.

Acabando este discurso, que foi igualmente aplaudido, disse Belino: Qual é a pena condigna à culpa dos que voluntários se metem pelas setas de Cupido? Os zelos, (lhe respondeu) voraz incêndio, que abrasa toda a região do peito: é uma ira furiosa, um penetrante punhal, que de toda a sorte corta nas entranhas: é uma dor insofrível, com que desmaia a mais acreditada prudência: é um furor incitado, que mata sem remédio; é um frenesi sem melhora, que tira de si aos mais sábios: é uma desesperação sem alívio, e é um inferno de penas, onde as suspeitas fabricam sempre os tomentos, onde as desconfianças, apreendendo evidências, alimentam as chamas de juízos temerários, onde se fabricam vinganças, e forjam mortes ímpias: é um mar perigo, inquietações, e naufrágios, em que a razão não governa, a amizade não consola, nem a experiência alivia, porque tudo é confusão, e pesares, com que os zelosos buscam o que não querem achar. Esta infelicíssima paixão, que forma a fantasia, veste-se de suspeitas, aviva-se com sombras, sustenta-se da curiosidade levada de enganos pela murmuração: delustra castas amizades, rompe alianças, engendra monstros, alimenta furores, comendo a si mesma depois de haver atormentado a todos. Se os vossos maridos caírem nesta perigosa doença, por compaixão deles lhes tirai toda a ocasião, que passa alterar as suas imaginações; porque quanto é mais ardente o amor, tanto é maior a dor, que conduz para os delírios. O recato é o remédio, que só pode moderar tanto mal, porque os indícios costumam perturbar a razão, ainda aos mais nobres sujeitos; e reparai que nem Júpiter roubara a Europa, se ela se negara aos seus olhos; e cuidai em não cair naquela enfermidade, em a qual vos achareis sem mais companhia que o verdugo formidável, que nas entranhas se emprega; e quando para tão grande mal tenhais causa conhecida, não vos queixeis com indiscretos excessos; porque o silêncio, a prudência, e o sofrimento costumam repreender severamente aos culpados, e a indústria, e discrição vos devem revestir de agrado; com o quê vereis ou animar-se o amor, ou infundirdes; porque o desafogo das palavras não é mais que fartar de água na força da sezão, que não só não a cura, mas a aumenta.

Assim determinava Delmetra acabar a tarde, mas com aplauso maior a obrigaram a continuar aquele saudável divertimento; e levando-se um célebre velho chamado Anduvino, o qual era prezado de mais sábio que os outros; e fazendo visagens, como que se preparava para propor questão embaraçada, disse: Qual é a cousa, que mais insensivelmente atormenta aos que vivem na Corte, e em que se conhece mais o Rei prudente? Atormenta insensivelmente (lhe respondeu) o que quererem imitar os grandes a magnificência do Soberano; aos grandes os que se lhe seguem, e todos os mais trabalharem para o mesmo fim, e para fazerem mais bulha do que podem. Os ricos se cansam para gozarem com demasiado fasto as suas riquezas; os que o não são, se envergonham de o não parecerem. Os prudentes não se animam a estranhar os excessos, deixando de seguí-los, porque se não acham com forças para destruírem os costumes bem aceitos, e introduzidos; ainda que bem conhecem que assim se arruínam as Repúblicas, e é mais conveniente o serem peritos nas artes hábeis para os empregos, e amantes das virtudes; e que as delicadezas são tão fúteis, quanto é digno de glória o que se habilita para ganhar batalhas, libertar a pátria, e fazer honrar aos Deuses; mas seguindo todos o mesmo erro, os pobres tratam-se como ricos; gastam os ricos mais do que têm, todos usam de artifícios, e enganos para sustentarem aquela vã ostentação; porque se costuma as cousas supérfulas. Todos os dias inventam novidades, com que fazem crescer as suas opressões, e àquele excesso chamam bom gosto, perfeição da arte, e polidez da nação; sendo este o mal, que chega a inficionar até os mais íntimos da plebe. E quem haverá, que possa emendar aqueles erros, se não for o exemplo de um Rei prudente, que com a sua moderação, e sabedoria reprenda as demasias, animando aos que desejam usar temperança?

Assim respondeu Delmetra; e continuando a receber iguais demonstrações de estimação, disse Olímpia: Qual é o maior trabalho das casadas? Os maridos impudentes (lhe respondeu); e é tão grande a infelicidade das mulheres, que se lhes é preciso todo o sofrimento para os ouvir, mas também muito para os ver; advertindo que se entristecem com todas as sem-razões, ou os querem satisfazer em todas as queixas, para tão grande trabalho não bastam em uma todas as forças, que a natureza pelas outras repartiu, porque se são néscios, não os convencem ajustadas razões, antes os põem em pior estado. Se são coléricos, e os não emenda a discrição, com que os sofrem, nunca se emendam do que se lhes diz. Se são zelosos, ainda que conheçam que pelo caminho de as guardar, as levam a desesperar, correm com a sua tormenta, sem que se lembrem de que o melhor modo de as ensinar a serem honestas é fazendo delas inteira confiança.

Também eles aqui se queixam de trabalhos menores, dizendo de algumas que são preguiçosas, desgovernadas, pouco limpas, desconfiadas, faladoras a bravas; e ouço a algumas que os maridos são tão arrebatados, que nem vizinhos podem sofrê-los; porque de coléricos passam a furiosos, que quando vêm para casa dão nos filhos, gritam com as mulheres, descompondo-as de feias, e mal procedidas; outros, que vizinhas buscam alegres, servem cuidadosos, e festejam com gosto, e se aproveitam das mulheres próprias para lhes fazerem comer, criar filhos, e guardar a casa. Destas, e outras muitas coisas os casados se queixam nesta aldeia, e quisera saber qual foi o remédio, que deram a estes trabalhos as vizinhas, com quem se não fala em outra cousa; pois é grande leveza de juízo comunicá-los a quem os não pode remediar. Sofram-se os casados alternativamente, que se o silêncio não curar moléstias interiores, só a morte acaba porque assim como só ao coração toca o sentir os defeitos do que devemos amar também a ele pertence o ocultá-los; e só aqueles àqueles, que nos têm verdadeiro afeto se podem confiar interioridades; porque remedeiam o que podem, e nos ajudam a chorar, e a acertar; advertindo que entre os casados alcança os maiores créditos, o que em silêncio mais sofre. As mulheres se fazem conhecer faladoras, com que o confiam a um descuido da prudência, a que chamam desafogo, e os homens dão lugar aos confiados, para que se atrevam a falar-lhes mal de suas mulheres, devendo severamente repreender (senão castigar) aos que a isso se atrevem; porque quase todos anima o interesse de se introduzirem com o simples, que os ouve. Também há alguns tão indignos maridos, que mais as querem ver brincando que fiando, por se livrarem de lhes darem o preciso; mas nunca a pobreza deve fazer tão violento efeito no sofrimento das mulheres, que hajam de obrar ação indigna; porque o mal da pobreza remedeiam os bons; e o descrédito nem a emenda o cura; a mulher discreta não deve querer mais que o permitirem as posses do marido, ensiná-lo a ser moderado, sofrendo com galantarias as suas incivilidades, calar o que suspeitar, e dissimular o que souber; eles vieram primeiro ao Mundo, fizeram as leis, e tomaram para si as regalias; e já que são mais velhos, não há mais remédios que fazer gala da sujeição, viver com eles, e ter paciência; porque se advertirem que não são isentos de naufragarem na Estígia, ordenarão bem as suas ações; e as mulheres, que desempenharem as obrigações de seu estado, irão a descansar nas odoríferas sombras dos Elísios.

Acabando este discurso com muitos vivas, tornou a dizer Olímpia: (pela obrigarem a acabar o divertimento com outras perguntas suas, pois era seu aquele dia) Qual é a ciência, que exercitam os serranos? Qual é o homem mais néscio? e a perfeição dos casados? A ciência, que exercitam os serranos (respondeu Delmetra) é a experiência; porque a experimental faz inteira demonstração de todas as cousas e desterra a ignorância, que impede os êxitos favoráveis, ensina a verdade, e acautela erros futuros, porque é mãe dos acertos.

O homem mais néscio é o que mais cansado vive com o próprio juízo; pois quando intenta sustentar o que uma vez disse, querendo desmentir-se de ignorante, acrescenta os delírios por capricho, e vive com aquela sombra, que lhe impede o mais reto conhecimento; e se aprende que o Sol não é o maior astro, e tem limitadíssima circunferência, o sustenta com teimas, e futilidades, em que não diz cousa alguma, e cuida que deu a entender que sabia muito.

A perfeição dos casados consiste naquela generosa paixão de amor decente, que com sua boa ordem esmalta as virtudes, e alegremente conserva a felicidade dos matrimônios, porque os gosto dá sempre asas ao amor.

Disto se não lembram os pais, que cegos pela avareza, e encantados pela suavidade de seus interesses, casam as filhas dotadas de vivacidade, e mais graças do Céu, com maridos cheios de vícios, e achaques. Estas merecem que o aplauso universal lhes laureie o sofrimento, pois desde sua tenra idade se reservaram para amar um monstro; quando a lei da natureza permite desejarem bons maridos, e as do matrimônio exortam a sofrê-los: se os amam pelos Deuses, que determinaram facilmente o conseguem; mas se por si mesmas querem amá-lo, parece moralmente impossível. Têm-se visto donzelas inconsideradamente entregues pelos seus maiores a maridos tão asquerosos, que fora melhor conduzi-los ao leito, que encaminhá-los ao tálamo; porque em seus muitos anos, e mal ordenados costumes só se exercitaram em tudo o que destrói a saúde; mas nem assim deixam as prudentes consortes de lhes assistir, amá-los, e curá-los, sendo este um dos milagres do nosso sexo; e para evitar o trabalho da desunião, que entre estes é mais ordinária, não há remédio melhor que o de abraçarem os gênios dos maridos, que em lhes ganhando uma vez os corações, não se verá que resistam às vontades das mulheres; e com esta indústria haverá entre eles aquela obediência, que é como a liga admirável, que enlaça tão estreitamente, que há trabalho em discernir o que obedece, ou o que manda.

A esta palavras se ergueram todos, vendo que Delmetra concluía o seu último discurso: e é inexplicável a atenção, e gosto, com que a tinham ouvido pois lhes havia mesclado as veras com as graças; e dando-lhes as serranas mil agradecimentos, a tomavam entre os braços, parecendo que assim a queriam conduzir a casa. Atília, Pastora bela, inclinada ao gentil Belino, toda aquela tarde insensivelmente não podia apartar dele os seus olhos; e esperando-o no dia seguinte na mesma fonte dos festejos, lhe disse: sabe, amado Belino, que desde o primeiro dia que te vi, não sei quando sou triste, ou contente, porque na tua ausência sinto um não sei quê, que me aflige; e quando te vejo, o mesmo excesso de prazer me consome. Perdi o gosto de meus lindos cordeirinhos: as flores já não me alegram, nem folgo de ouvir as aves, porque choro, quando as ouço. Se em o teu nome se fala, eu sinto repetir em o meu peito o eco. Alegro-me quando te vejo, mas o coração sempre palpita, esse mal que eu padeço, é o bem de que falam todos quem pudera não o ter, pois é mal que tanto atormenta! Quando deixo de te ver, muito me lembra para dizer-te; mas parece que querem as Fadas más que em te vendo, tudo me esquece, e passa o tempo tão depressa que nunca tenho lugar, nem para dizer o que sinto, e fico tão doente, como antes. Oh desgraçadas Pastoras, se a este mal são arriscadas! Quem pudera dizer a todos o tormento, que eu padeço, para que se acautelem antes de cair doentes! que isto é morte, que dura sempre; agonia, que não acaba; dor, que de cada vez mais cresce, e a desgraça maior que todas. Onde irei, que não leve comigo a pena, que me acompanha? Pelo que eu me resolvo a dar-te a mão de esposa, a ver se me farto de estar contigo. Belíssima Atília, (lhe respondeu Belino) eu vos amo com tal extremo, que já de antemão tenho pago o vosso afeto; mas não é para mim a ventura, para que me destinais, porque não só fora erro mui grosseiro, porém execranda culpa o servir-me do que a vossa bondade me oferece, porque sempre é réu infame o criado, que nas ações do rendimento se acusa de atrevido. Em me escusar e tanta felicidade sabei que mais nobremente vos sou agradecido; porque tão altos favores mais me advertem o respeitar-vos; e assim perderei as maiores fortunas, para que não decline a vossa estimação. Bem sei que o afeto, que me tendes, é filho de uma inocente simpatia; mas quem a este dá entrada com excessos poderá passar a extremos viciosos. E certo que naturalmente nos amamos, e desejamos ser amados; mas é tão delicada a boa reputação das mulheres, que para se conservar o culto, que merece a sua estimável modéstia, não só devem ocultar bem nascidos pensamentos, mas nem confiá-los aos mesmos, que muito estimam. Ah ingrato! (lhe respondeu Atília). A quem senão a ti devia eu confiar o que sinto? Descansa-me ao menos, tirando-me a vida. Oh tristes mulheres, que se vos representam amáveis aos homens, cheios de misérias, e ingratidões para ser o remédio a morte! Acaba já de matar-me; porque me estará mais mal o teu desprezo, que o afeto inocente, que te confesso; que nas rústicas choupanas o ser amo, ou ser criado, é mais fortuna que nobreza. Adverti, senhora, lhe disse Belino, que é sempre o maior delustre do decoro o deixar ver as chamas daquele incêndio, em que é melhor reduzir as cinzas que mostrar as faíscas; porque se o confessais no peito, acometeu os sentidos, e sujeitou o entendimento; e assim se perde o rumo da razão, e a remora da modéstia, pelo que a amizade não se estima, nem se agradece o conselho. Se eu insensivelmente fui infeliz de amar-te, (lhe respondeu Atília) só é remédio o descanso de ser tua esposa, e não temas que Leda o embarace; porque ainda que sua vontade só devo sujeitar a minha, ela conhece o teu raro merecimento, e suspeita o que eu padeço; e como agora vem gente, amanhã tornarei aqui para falar-te.

A este tempo chegaram duas Pastoras, e se retirou Atília; e Belino mais aflito foi comunicar a Delmetra aquele impensado trabalho, e sem lhe descobrir o segredo de seu traje, determinaram retirar-se, antes que a tirania do amor fizesse maiores progressos; e não esperando a manhã, sairam a continuar a sua peregrinação.

Com muito vagar, e trabalhos descansavam uma tarde em o alto de um monte, donde descobriram uma grande povoação. No dia seguinte se determinaram a ir vê-la; e entrando nela, souberam que estavam em a nobilíssima Esparta. Andaram como renascidos em um Novo Mundo, por haver muito tempo que se negavam aos seus olhos os danosos estrondos da opulência, e os perniciosos luzimentos da ostentação, que mais folgam de ver os estrangeiros. Foram a uns passeios, e deliciosos jardins; e como ali era estilo prender-se a gente ordinária, que entrava em um deles, e alistar-se para servir nas campanhas, porque a multidão de povo, que a ele concorria, o tinha destruído, e sempre embaraçado, sendo o que estava em melhor situação, e mais abundante de água, Belino que o ignorava, ao sair dele foi preso pelos guardas, que não davam ouvidos a dizerem-lhes, que não sabia aquele costume; ao que só respondiam, que só respondiam, que para exemplo, e boa execução da lei não havia caso algum executado. Delmetra com mil lágrimas lhes dizia não ter mais abrigo, e companhia, que seu filho Belino: ao que não davam atenção; e como pelo socorro, que dali se mandava para Corinto, sucedesse no dia seguinte embarcar soldadesca, em a qual foi também Belino, ficou Delmetra em casa de um Cabo, que fazia aquelas expedições, onde fora a ver se com seus rogos o livrava de experimentar também os trabalhos da guerra; e como via mal sucedidas as suas súplicas, dando tristes suspiros, se queixava da desgraça; pelo que lhe mandou dizer Almerina, dona de casa, que se não desconsolasse, e que enquanto quisesse ali estar, lhe não faltaria cousa alguma.

Reparavam aqueles domésticos, que as palavras de Delmetra eram brandas, e acertadas; e que suavemente chega a si os meninos, que a ouviam com gosto, e atenção. Assim se foi justificado tanto a sua capacidade, que Almerina lhe encarregou a educação de três filhos, que tinha, e lhe disse: Vós sabeis, ó Delmetra, o cuidado, que deve dar a boa educação dos filhos, porque nos meninos, como cera branda, tudo se lhes imprime; e que se os maus costumes têm as raízes na educação, raríssima vez deixavam de ser os frutos monstruosos. A má criação, e o mau exemplo apostam entre si fazerem-se conhecer toda a vida. Bem sei que este cuidado só deve tocar aos pais; mas quando o estilo disfarçado em fantástica decência os retira de seus olhos a maior parte do dia, devem ter bem examinado o sujeito, a quem os encarregam, porque dos maus costumes dos servos insensivelmente se revestem; e como sei que é difícil achar tantas, e tão precisas circunstâncias em uns sujeitos, que eu me contentava de que tivessem bastante prudência para se acautelarem, ocultando para se acautelarem, ocultando aos meninos as suas paixões dominantes, reconhecendo em vós a mais própria capacidade para tão importante emprego, pelas virtudes, que em vós tenho observado, quero aproveitar-me do acaso, que para aqui vos conduziu, e colher este especialíssimo fruto de vos haver amparado sem interesse, só lembrando-me de que a compaixão com os perseguidos é indispensável obrigação do racional; mas agora vejo que o tempo afiança a fortuna dos que valem, porque vale muito a seu tempo.

Eu vos entrego nos filhos o tesouro, que mais desejo guardar e defender dos que intentam roubar-lhes a candidez, e inocência. Bem sei que quando é má a inclinação, não a vence a educação; mas é certo que se de todo não a destrói, sempre a modera; e quando não a vença, nem modere, eu satisfaço como devo, em buscar-lhes os meios úteis, e não consentir-lhes o pernicioso; quanto mais que o tempo, que se gasta em mortificar-lhes o espírito, bem paga o trabalho, não os deixando perder o equilíbrio, para que não caiam no abismo de vícios, em que se habituam os que correm com a liberdade, e má inclinação. O amor próprio, que quase sempre senhoreia os ânimos das mães, não é bastante, para que eu desconheça as vossas singularidades, as mais próprias para tal emprego, pois sei quanto é pesada esta obrigação, e que não consentir no que convém para a boa educação dos filhos é nascido de um aparente amor, que produz efeitos de ódio; e juntamente não quererem modificar-se, vendo com inteireza, e aparente sossego castigar os filhos.

Como tendes tão claro conhecimento, (lhe respondeu Delmetra) e seguis tão sólidas doutrinas, parece que onde estai, sou inútil para esse fim: e bem haveis de saber que melhor efeito faz do ânimo de um filho o severo olhar de seus pais, que muitas advertências de um bom criado. Bem reconheço (lhe respondeu Almerina) que em parte é assim o que dizeis; porém não me deveis negar, que há gênios, em que faz melhor impressão o conselho do bom criado, que muitas advertências dos pais; porque se as palavras do criado, que tem crédito, se ouvem com efeito, são mais bem sucedidas que as dos pais, que se ouvem com tédio, e horror. A maior parte destes vemos sempre entre dous extremos, de carinho indiscreto, ou rigor demasiado: o muito carinho foi sempre a ruína do respeito: e do rigor demasiado nasce horror, cresce aborrecimento, e quase sempre acaba em pouco caso, ou com os delírios da exasperação. E certo, Senhora (lhe respondeu Delmetra), que é difícil a arte da boa educação; porque por essas razões se não permite aprender errando.

Os tenros sentimentos da mãe os não devem conhecer os filhos, e convém não brincar com eles desde muito pequeninos, porque desde então principia a obrar o respeito. Bem sabeis que o vosso maior cuidado se deve aplicar em que tremam, sendo ameaçados convosco, e que uma vossa palavras, ou olhar severo, sintam como o maior castigo; e como há ocasiões, que no falar pode ser grosseiro o cuidado, é preciso que o vosso enfado também dos olhos o entendam, e com a maior vigilância os ensinam a tremer a ira do Céu, a amar a honra, a verdade, a pobreza, as virtudes, e as letras. Não consistais que lhes façam medos, nem contem histórias ridículas; porque se pode aproveitar o tempo, contando as generosas ações de Alexandre; as que se fizeram de honra, e valor, quando os gregos foram contra os Troianos, aquela mais ilustre grandeza, com que alguns Soberanos têm perdoado as ofensas; os honradíssimos créditos, com que acaba o vassalo, que expôs a vida, defendendo a do seu Rei; o rigor, com que a justiça costuma castigar os delitos, a nobreza, com que os ofendidos procuram fazer bem a seus inimigos, e quais são as felicidades, para que as boas obras conduzem, etc. Este é o melhor modo de se lhes fazerem amar, e decorar as ações mais nobres, porque as ouvem com gosto, e assim conservam na memória as melhores instruções, e máximas convenientes. Bem sei que de ordinário não sabem de tais histórias as pessoas, que lhe costumam contar as inúteis, de que toda a vida se lembram; mas assim como os servos, que entram de novo em uma casa, conforme a variedade, que há entre elas, aprendem os costumes, aprendam os costumes, aprendam também algumas histórias próprias para as repetirem aos meninos, como repetem as outras.

Pelo que toca aos danos do mau exemplo, bastantemente discorrestes, e com o costumado acerto. Ah que se muitos pais soubessem conhecer quanto são prejudiciais as más companhias , e o mau exemplo, não haveria famílias destruídas pelos vícios, que herdam uns dos outros! E não acabam de conhecer que o verdadeiro amor para com os filhos deve consistir em os não inabilitar para os aumentos, persuadindo-os com o bom exemplo a que procedem bem, e amem os livros, dos quais se fazem os tesouros mais seguros; porque se a inveja os intenta roubar, só dura a mentira enquanto a verdade não chega; são bens livres das penas dos delitos, morgados, que se não empenham , e dinheiro, que se transporta sem fadiga, quando uma desgraça obriga a mudar de uma para outra terra. Onde irá um sábio, que se não faça preciso; e esta melhor riqueza falta muitas vezes aos filhos, porque nunca seus pais com o exemplo lhes ensinaram a procurá-la. Há uma nação, em que é costume repreender-se o filho-famílias pelo primeiro delito; pelo segundo castigar-se com brandura; e pelo terceiro ser morto, e o pai desterrado: e é certo que os que os consentem viciosos, criam assim os seus piores inimigos; porque estes em muito tempo não matam, e em poucos dias acaba o pai, a quem o filho com um desgosto matou. Quando chegam aos quatorze anos, se encarregam mais que ao cuidado da mãe, aos olhos do pai, que lhes deve mostrar agrado prudente, para se animarem a falar na sua presença, para observar se falam demasiado, se não os seus discursos acertados, se descompõem com ações, e outra semelhantes miudezas, para os advertirem a que se hajam com modéstia, e tenham civilidade; mas de modo tal, que não tomem medo de falar na presença dos que os devem advertir. Vós vos sabeis com eles, discreta, prudente, e varonil, e não carecei do que me tem ensinado a experiência, porém não entendais que eu me escuso de servir-vos, porque o farei todo o tempo, que me demorar ausente de Belino; pois já sabeis que tenho determinado ir vê-lo; porque a saudade, que o trato das pessoas deixa nos corações, não tem mais corretivo que usar como remédio da causa do mesmo mal. Como vejo (lhe respondeu) que é justa a vossa resolução, não posso deixar de consentir em algum tempo da vossa ausência, contanto que tornei à minha companhia; mas vede que os sucessos da guerra são duvidosos, e talvez que vos seria mais conveniente esperar em descanso cantar a vitória. Conheço, Senhora (lhe respondeu Delmetra), que ao melhor me aconselhais; mas como a nação é indiferente, e contínuo o meu cuidado, permite que eu seja a mesma, que castigue a minha impaciência, no caso que os meus olhos vão a ver o desengano da minha esperança. Sem em vosso filho (lhe disse Almerina) resplandecem as vossas doutrinas, ide vê-lo; pois sendo compêndio de virtudes, é digno acredor a tão grande saudade. Com esta última resolução ficou Delmetra consolada, e com forças para continuar na assistência dos meninos, o que exercitou enquanto não houve embarcação, que a transportasse. Dominava de cada vez mais no ânimo de Almerina, vendo esta quão docemente infundia nos poucos anos o gosto da aplicação, e o desejo de crescer em virtudes, e ciências, vindo a conhecer que não são os muitos castigos os que dão a melhor doutrina aos meninos, se falta quem com prudência no trato familiar lhes infunda suavemente o que lhes convém; e admirada do que em Delmetra observava, dizia: Como é possível que em uma mulher vil hajam tão iguais, como ilustres sentimentos! Quem lhe disse que se deviam haver em tudo os que nascem de mais antiga origem? Mas já que os Deuses poderosos quiseram confiar à minha admiração este prodígio das suas obras, não será razão que eu negue a Delmetra a assistência do filho; que como estas são as jóias mais importantes, que só se devem guardar nos olhos das prudentes mães, eu lha não fiei, porque nem das luzes da virtude me devo persuadir, enquanto não as acreditam larguíssimas experiências; e já as que me deixa querem segurar-me senão um inteiro descanso (pois o não devo ter em matéria tão importante) ao menos alívio de meu preciso cuidado, quando torne a servir-me. Delmetra de ausentou, deixando a todos saudosos, ainda que na esperança de que tornaria ao serviço de Almerina pelo muito, que interessava no seu agrado, para o qual concorria o admirar tantas virtudes, que eram filhas de tão ocultos, como preclaros princípios; pois se as ações a estes não correspondem, renunciam os bens nascidos em o próprio vitupério toda a glória de seus antigos.