Aventuras de Diófanes/IV

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Aventuras de Diófanes por Teresa Margarida da Silva e Orta
Livro IV
Sumário Chegando Climinéia a Micenas, chorou a falsa notícia da morte de Hemirena, ou Belino; e sendo obrigada a continuar a viagem, chegou a Corinto, onde achou Diófanes, que com o suposto nome de Antionor se lhe ocultou, não obstante o conhecê-la, pelo que lhe conta seus trabalhos.

Embarcou Delmetra em Esparta com tão excessivo prazer, que este parecia querer descobrir-lhe o segredo pelo que amava a Belino; e como quando o afeto suborna com a esperança de alívio, não se temem os naufrágios, não a embarçaram distâncias, nem a demora, que aquela nau poderia ter em Micenas, onde ia incorporar-se com outras, que também transportavam aprestos de guerra para Corinto. Chegando a Micenas, onde não teve mais demora que dous dias, ouviu uma notícia, que pelos sinais a persuadiu que Belino havia acabado em um encontro, em que diziam foram mortos cinqüenta soldados. Triste, e magoada chorava de contínuo aquela funesta novidade, já sentindo haver deixado a brenha, as feras e os montes. Chegaram com boa viagem a Corinto; e quando desejava não fazer desembarque, esperando voltar para Esparta na mesma embarcação, foi obrigada a saltar em terra, onde nem se animava a perguntar por Belino, tendo por certo que era morto.

Um venerando ancião, que sobre a areia estava como observando o que se passava naquele porto, vendo as contínuas lágrimas de Delmetra, chegou a perguntar-lhe a causa de seu pranto, e a consolou, segurando-lhe ser falsa a notícia que chorava, porque tal encontro não tinha havido; e a encaminhou a uma camponesas, onde lhe dariam agasalho; e que ele mandaria fazer diligência por Belino, e avisá-lo, para que fosse falar-lhe. As camponesas a receberam com agrado, e repartiam com ela do pouco que tinham para se manterem.

Passados cinco dias, foi Belino falar-lhe, a quem com grandíssimo alvoroço disse: Não é crível, amado Belino, a consolação, que recebo em ver-te; como é possível que aos meus olhos se restitua com vida, o que eles tão deveras choravam morto? E são tão novos os meus pesares, que ainda que te estou vendo, tenho na alma impressa a mágoa da tua morte. E se as más notícias ordinariamente são certas, ainda não creio que estou contigo. Belino, que já não podia reprimir os impulsos de sua alegria, lhe respondeu com mostras de imenso prazer, afeto, e agradecimento, sendo o seu gosto, e alvoroço as testemunhas do quanto é ardente a saudade que justamente se imprime nos corações humanos; e imaginando que algum novo trabalho a encaminhasse para ali, lhe pediu o tirasse daquele susto. Já sabes, lhe responde Delmetra que fiquei na grande casa de Almerina, que com muita bondade me amparou, quando eu só a havia buscado, para que te livrasse daquele impensado trabalho o que segundo o estilo era impraticável. Passado algum tempo, tivemos um larguíssimo discurso sobre a boa educação dos filhos, e me entregou três, que tinha, determinado descansar no meu cuidado. Eu lhe não resisti àquele emprego; porque ainda que me falta a prudência aos pais, é de nenhum, ou mui pouco efeito a diligência, e vigilante cuidado dos bons servos, Almerina desejava acertar, e sabia sujeitar a vontade às resoluções do entendimento. Com grande repugnância ouvia falar no alívio da minha saudade, até que venceram as minhas instância, e embarquei sem companhia conhecida, valendo-me do privilégio dos meus anos; porque ainda que estes não dispensam a modéstia das mulheres, é certo que os mordazes não as consideram arriscadas, quando o respeito da ancianidade as defende. Chegamos a Micenas; e ouvindo contar de um encontro, que diziam ter havido, ou me persuadi por alguns indícios que tu havias ficado morto; e lamentando novamente o meu desamparo, e tua felicidade, rompia os delírios, pedindo aos Céus que me dispensassem de padecer, e com magoadas vozes dizia: O brenha compassiva, que me escondias a este novo gênero de penas: ó feras cruéis, para isto me respeitou a vossa ferocidade? Aves inocentes, fontes cristalinas, quem pudera trocar o triste estado, assim porque cantais no ameno prado, festejando o caçador, que vos dá a morte, como porque alimentais, e refrigerais aos que gozam a tranqüilidade soledade dos montes; e logo vencendo aquele primeiro assalto, dizia: Mas que indiscreto sentimento é esse, que me usurpa a liberdade? O afeto, que em mim produziram as virtudes de Belino, não é possível que me arraste a tanto excesso de pesar; a sua vida não foi estrago das feras, e acabou como os que renascem de ações de honra, e valor, aos quais a posteridade resguarda as glórias de seus nomes; nem devem ser bastante aquela morte para enfraquecer a minha constância. Foi à guerra, não viu o triunfo, mas deu por ele a vida, que os que morrem na batalha sempre vencem, como vítimas da vitória; e poderá ser que fosse melhor acabar a vida; porque para os homens, que respiram com o alento, que lhes infunde o ilustre ardor de seus honrados créditos, é glória o acabarem no combate, em que os seus ficam vencidos. Mas ai, tornava a dizer aflita, que pouco me confortam as razões do meu alívio! Como é possível que o amor Platônico livre de interesse, e cheio de benevolência, me arraste a um sentimento invencível? Se eu amava as virtudes de Belino, como me não alegram as notícias, de que posso inferir o seu eterno descanso?

Assim triste, e confusa passei os dias de minha viagem; e sentindo havê-la intentado, já se me representava agradável a brenha, que eu havia regado com lágrimas, conhecendo o bem, que de todo o mal se pode tirar, e mais vivamente recordava os primeiros infortúnios, como origem de tão repetidos contratempos, vendo se podia assim divertir o rigor da minha mágoa; mas eram inúteis as reflexões, porque sempre sentia mais viva a minha dor, e saudade. Cheguei a desembarcar com igual desconsolação; um venerado velho, reparando minhas lágrimas, me perguntou a causa delas, e me segurou ser falsa aquela notícia, porque não houvera encontro algum. Ele me conduziu a esta casa, onde muito me obriga a bondade, com que me favorecem. Agora dize-me, como tens vivido em terra estranha, e com gentes de diversos gênios, e costumes, porque em tais circunstâncias se exercita a prudência, se acrisola a virtude, e acredita o entendimento. Desde o primeiro dia, (lhe respondeu Belino) que nos separou o acaso, e a tirania do meu cruel destino, assistindote o meu cuidado, quis a providência que se me tirasse da memória tudo o mais, que podia afligir-me, por que um corpo não tivesse duas penas. O tempo não dá lugar a que eu conte meus primeiros cuidados, e as aflições, que nos primeiros dias me negaram toda a alegria, e esperança de alívio. O nosso exército se acha acampado não muito longe daqui, e não tem havido encontros, ou avançadas, porque antes de fazermos algum movimento, propôs o inimigo a paz. Ontem se falou na tenda do Generalíssimo, que destacaria um grande corpo de tropas para as fronteiras, onde se acha o Rei: e que a paz, que se propunha, era injuriosa. Não sei se eu serei mandado; e como a ocasião me não dá tempo para demorar-me contigo, é preciso (já que os Céus assim o querem) que eu vá acudir à obrigação, para que me destinou a minha cruel tortura: e roga aos Deuses, que antes me entreguem ao rigor das lanças, que me falte o valor, em que influi a honra: e tornarei a ver-te, quando tiver licença para demorar-me algum tempo mais em tua companhia.

Com estas apressadas palavras se retirou Belino, deixando a Delmetra em tanto sossego, como se fosse restituída a seu primeiro estado.

Passados alguns dias, veio o venerando velho a visitá-la; e festejando-se reciprocamente, perguntou Delmetra, se ajustaria a paz; e lhe respondeu que não; e entendia que com dissimulação se fazia novo esforço para irem de assalto sobre o inimigo. Reparava Delmetra na afabilidade, e grato estilo, com que explicava; e estando-lhe obrigada pela compaixão, que lhe deveram as suas lágrimas, lhe disse, desejava saber a quem devia tão repetidas atenções. Não duvidara dizer-vos quem sou (lhe respondeu), se não estribara a minha consolação em que me desconheçam as gentes. Eu vos conheço; e que são ilustres... Aqui se adiantou Delmetra assustada, dizendo: Vós conheço, e que são ilustres... Aqui se adiantou Delmetra assustada, dizendo: Vós não podeis conhecer-me, e alguma equivocação vos engana. Não vos perturbe (tornou a dizer-lhe) que eu saiba a vossa origem, pois só digo que conheço ser ilustre o vosso agradecido ânimo, que este sempre ostenta o mais nobre coração, assim como as ações, e o semblante contém a mais bem acreditada genealogia. Os Príncipes em toda parte se distinguem, não em a formatura do corpo, nem na especial imortalidade da alma; porque a natureza os organiza, e anima iguais aos outros homens, mas sim nas ações generosas, nas empresas de glória, em honrarem as gentes, no desejo de mostrarem o poder, em amarem a justiça, ampararem os pobre, e serem exemplo de virtudes; e quando se encontra sujeito, em que são as boas qualidades independentes da sua origem, pela raridade, se lhes multiplicam os quilates da estimação. Eu observo em vós o respeitável semblante, e palavras de brio igual ao mais bem nascido agrado; e como vejo que são poucas as mulheres, que cabem nas choupanas, sabendo guardar a boa ordem de seus costumes, creio que sois ilustrada pela alta sabedoria dos Deuses. Não quero ainda assim dizer-vos nisto, que por estas vizinhanças costumem todas desprezar o decoro, pois este devem zelar tanto as ilustres, como as Pastoras. Não sigo o vosso parecer, (lhe respondeu Delmetra) porque as que nascem em superior hierarquia, devem também nos créditos especificamente distinguir-se das de inferior nascimento; porque os encargos da nobreza mais gravemente lhes recomendam a honra, docilidade, e moderação, com o que se fazem distintas, e pelo que só lhes é permitida a vanglória de darem exemplos, às inferiores; pois pela decência senhoril, com que mais se negam aos olhos dos homens, as advertem de que o veneno, ainda que se disfarce em açúcar, sempre mata, se a quantidade não é pouca. Se a culpa, a natureza, e as paixões são iguais, (lhe respondeu) também deve ser igual a glória do recato, e a pena da indecência; porque a murmuração pública não considera que haja quem possa dispensar os preceitos da modéstia a nenhuma casta de mulheres; ainda que nas bem-nascidas um descuido é culpa grave, e nas humildes uma culpa é só descuido, porque a boa educação das senhoras tira o lugar à ignorância, que às outras desculpa: e é tão sublime o decoro, que as humildes com eles se enobrecem; e as distintas se fazem vis, quando o desprezam; e assim umas o devem conservar pelo que arriscam, e outras igualmente pelo que alcançam. Oh quanto são inadvertidas as que perdem o algarismo do preço inestimável da modéstia! que não só têm no ódio das gentes o seu castigo, mas o tempo lhes mostra, que os mesmos, que causaram a sua abominável ruína, as escarnecem, vituperam, e desprezam; e quando se demoram em não conhecer o seu enfado, se explicam com demonstrações de inteiro aborrecimento, e ódio.

Algumas mulheres encontro, que, vendo-se adiantadas em anos, deixam de ser comedidas nas palavras; o que será por entenderem que o riso dos ouvintes é efeito da sua graça; ou porque se persuadem que a soltura é privilégio da ancianidade, sem que advirtam que enquanto os delírios da velhice não as desobriga de comedidas, se lhes multiplicam as causas para a prudência; pois não têm a desculpa dos poucos anos, que conduz para errar os termos; ainda que estudar os acertos em tenra idade é merecer cultos, e adiantar estimações; assim como o respeito, que se deve aos velhos, é dívida contraída entre a falta de experiência, e o bom exemplo, e documentos, que devem dar aos moços.

Também vejo que as moças ou conversam demasiadamente, ou em vendo gente, fogem, como se fossem animais de outra espécie, sem que haja quem lhes diga, que o fugir ou é incivil grosseria, ou é tentar a curiosidade; e que a muita demora em tais conversações ou as faz ter por levianas, ou ociosas: e que em deixarem de responde a quanto se lhes diz, cabe o melhor conceito da discrição; porque o muito falar ou descobre toda a capacidade, ou publica a indiscrição, que estava oculta; e que o estranharem os próprios elogios, e lisonjas com a mudança de cor, é avisar os merecimentos da formosura: e que o abaixarem gravemente os olhos, negando-se à atenção dos rendimentos, é conquistar os ânimos, e vencer impérios na veneração das gentes. Estas, e muitas outras obrigações, que nas donzelas resplandecem tanto, quanto as deslustra qualquer pequeno descuido, vós melhor que eu as sabereis, e tereis ouvido que muitas aqui esquecem. Delmetra admirada de ouvir palavras tão cheias de acerto, e desejando que continuasse o discurso, lhe disse: São tão infelizes as mulheres, que bastando que os homens sejam bons, elas não basta que o sejam, porque é preciso que também o pareçam. Não devem aceitar, por não agradecerem; nem muito falar, por se não exporem a errar, e porque não digam, que a que folga de ouvir, dizer, e se deixar servir, não teme, ou não conhece o perigo, porque a algumas graças costumam os vizinhos chamar desgraça; e como a malícia humana já se adianta a adivinhar pensamentos, nem na conversação, e carinho de tratar os parentes deve deixar de haver cautela. Oh quanto é feliz a que melhor conhece o muito, que arrisca, e o pouco, que eles perdem!

Muitas vezes sucede que os pais têm toda a culpa nas inadvertências da filhas, pela muita delicadeza, e descuido, com que as criam; e são as duas deidades, em cujos semblantes vem a sua tormenta, ou bonança. A esta criação se segue o multiplicarem-se as loucuras, com o que se prende a razão, as paixões tomam forças, os desejos não têm medida, nem a vontade tem freio; e como um raio despedido vão do pátrio poder para a companhia dos maridos; e se alguma vez concordam com as suas vontades, é apoucando-lhes a autoridade, pois se não assemelham as qualidades do Sol com as da Lua, senão quando o tem eclipsado: pelo que vos ouço estranhar estes costumes, creio não será esta a vossa pátria, e talvez que (como eu) vos trouxessem aqui alguns contratempos. A minha pátria (lhe respondeu) é esse excelso Olimpo: não há dúvida que eu deixei o meu país constrangido, sendo recomendado aos mais duros grilhões, nos quais trabalhava de dia, e suspirava de noite pelos que de mim separou o fado adverso. Os anos, que assim passei, não bastaram para se moderar o pranto, que todos os dias consagrava às suas memórias, que as grandezas, fasto, e estimações, insensivelmente perde quem sabe conhecer o pouco que duram; e me consolava a consideração de ser menor o trabalho do pobre em buscar de que viva, que o do rico em reparar o que lhe sobra; porque é só um o que cuida em guardar, e são muitos os que pensam em o roubar; e também vendo que a riqueza, e autoridade quebrantam o juízo; pelo que é maior o trabalho de sustentar a loucura nas demasias do luzimento, poder, e respeito, que o que tenho em haver perdido tudo; pois as sobras do dinheiro, e o poder convidam para os vícios; mas os vínculos, que uniram à alma os preceitos do consórcio, se nem os pôde aniquilar a Parca, não haverá quem os extingua da lembrança.

Delmetra lhe rogou quisesse continuar em contar-lhes seus infortúnios; e vendo semelhantes aos seus as disposições daqueles trabalhos, lhe perguntou como se chamava Antinor (lhe respondeu); e não tenho dificuldade em dizer-vos os passos, que me encaminharam a este lugar.

Depois de haver sofrido impensados contratempos, guardava nos campos os rebanhos do Rei Aganimedes, a quem por sábio me havia oferecido Pafo, que se não animou a tirar-me a vida, conforme havia ajustado com o primeiro, que me vendeu, o qual por certas razões lhe oferecia grande some de dinheiro para executar aquela tirana. Ali gozava eu da saudável tranqüilidade, que ensinou aos Pastores o que guardou os rebanhos de Admeto; quando tendo notícia de uns escravos desconhecidos, que se achavam naquela vizinhança, lembrado-me que podiam ser alguns dos meus patrícios, para os ir ver, pedi licença a Aldino, que tinha a incumbência de administrar aquela Aldeia, o qual me concedeu acompanhada de cavilosos conselhos. Quando à noite me recolhi, me puseram em uma escura masmorra com ordem sua para se me não dar alimento algum, dizendo que fora avisado de que eu procurava ajustar com os meus compatriotas a sua, e minha fuga. Mas não consentindo os Numes nesta falsidade, quiseram que fosse o Rei àquela casa de campo por ocasião de montaria, e se lhe lembrasse que o escravo, que por Filósofo lhe ofereceram, ali vivia: pelo que ordenou que eu fosse à sua presença. Disseram-lhe aquele delito, que se me havia imputado; estranhou que se procedesse com tanto rigor, sem ser a prova suficiente. Logo fui solto; mas como fosse achado nos braços da morte, não tive alento para falar-lhe. Pouco a pouco fui restituindo-me, porque para lances mais trabalhosos me resguardavam os Céus. Assim passava sofrendo ultrajes e tiranias. Uma noite, em que a recordação da minha infelicidade reforçava o meu tormento, vi que a casa se ia enchendo de fumo. Temendo algum incêndio, saí daquele pobre aposento; e reparando que de outro, que estava místico, saíam horrendas labaredas, chamei gente, para que se apagasse; e ouvindo que todos se magoavam por Aldino, por ser o fogo no seu quarto, lembrandome do quanto é horrorosa a vingança, e que podia haver quem se persuadisse que eu lhe aplicara o fogo, pois ele cruelmente me quisera castigar da culpa, que eu não tinha, sem temer mais a morte que os juízos temerários das gentes, entrei atrevidamente, rompendo pelas chamas, a buscar Aldino: e quiseram os Deuses, (que sempre costumam amparar os acertos) que tomando-o às costas, tirando-o de entre as chamas, se ouvisse o estrondo da ruína apenas saí do perigo. Toda aquela família, que julgava obrar em mim a exasperação , vendo que eu trazia Aldino, com incrível alegria uns me apertavam nos braços, outros se me lançavam aos pés, outros intentavam beijar-me as mãos, e outros balbuciantes com lágrimas de gosto não podiam formar palavras. Eu em aplicava em usar de alguns segredos, para o tirar do letargo, em que estava: o que consegui logo, porque se lhe restituíram os sentidos; e contou que acordara ao primeiro rumor, que eu fizera; e que de uma luz, que deixara junto à porta, pegara o fogo, e se achara sem mais remédio que esperar a morte, pois já não podia respirar, nem tinha mais saída, que a que via embaraçada com as chamas. Voltando para o Rei que ali se achava, disse:

Agora sou constrangido a confessar-vos, Senhor, o que pode a minha maldade. Antionor vosso escravo me tirou das mãos da morte, rompendo pelas chamas, por valer-me a nobreza de seu ânimo para maior confusão da minha vileza; e como o remorso, a dívida, e a razão sempre obrigam, não posso deixar em silêncio o meu delito: não me negue ao castigo a vossa justiça; que quando a culpa é conhecida, deve ser tão abominável aos estranhos, quanto horrorosa aos que a comete; e se os Céus, e a vossa clemência me conservarem este alento, que respiro, e a distância do perigo ou me afaste dos bons propósitos, ou em retire de ser grato ao benefício, vos peço, Senhor, que a vossa grandeza me sepulte nesse abismo de penas. Aganimedes, desejando saber o fim daquele estranho caso, lhe ordenou acabasse de dizê-lo, o que todos com a maior admiração esperavam. Esperei, Senhor, (lhe respondeu) que é tão agigantada a minha maldade, quanto são sublimes as virtudes de Antionor, porque é sábio, é prudente , e é elevada a generosidade de seu nobre peito. Eu sem causa o fiz reduzir a masmarro, onde viu de perto os seus últimos dias, sendo falso o delito, que lhe imputou a minha cavilosa indústria; porque pedindo-me licença para ir ver os seus compatriotas, eu lhe aconselhei com a mais vil maldade, que se fosse, e não tornasse ao vosso serviço, pois era a fuga o único remédio de sua triste servidão. A esta proposta me respondeu, que nunca saberia fugir quem havia sustentado os brasões de tantos vencedores. Quando se persuadia que os Céus o não ordenavam. Tornei a instar, que como devemos morrer pela liberdade, aquele fugir era vencer. Respondeu com mais severo semblante, que os que temem os Deuses, não fogem aos trabalhos, porque se a eles o destinaram, também ordenariam o seu descanso. Perguntei como não amava a vida? e me respondeu: Os homens, como eu, mais devem conservar a honra, que resguardar a vida. A estes exemplos da mais rara constância instei, dizendo: Pois como a compaixão me obrigou a aconselhar-te, e a tua ingratidão despreza o que te ofereço, não será justo que venhas causar a minha ruína, comunicando a outros o que te aconselhei: assim te advirto que não tornes a voltar, ou te há de custar a vida. A isto mais sábio me respondeu: Eu não devo obrar mal, porque tu não obres pior, pois nem é bastante a tua sagacidade para diminuir a minha obrigação: quanto mais, que o que é verdadeiramente bom, tarde, ou nunca é infamado: e assim como regularmente a má fama é companheira da má consciência, sendo tu aqui também acreditado, ninguém culpará a tua fidelidade, pois são incontrastáveis as forças da virtude, e as da boa opinião; e como justamente nos não devemos fiar de quem não defender a própria honra, e eu resguardo-a mais que a mesma vida, não temas que te destrua, pelo que me confiaste. Assim me deixou trançando a sua ruína. Esta é a culpa, de que me está acusando Antionor na vida, que me deu: e com que chego a pedir que me seja perdoado o escândalo; que aos que conhecem a fealdade do próprio delito é mais horrorosa a vida, que os rigores do castigo.

Aquelas, e outras muitas palavras, que se haviam dito, ele as repetiu puramente, e eu não as digo por me faltar o tempo. Todos ouviam com grande admiração o acordo, e lembrança de Aldino, em quem os Deuses (parece que para culto da verdade) inspiraram todas as minhas palavras, se acaso o remorso lhas não tinham presentes na lembrança. O Rei, votando para mim, disse: É verdade o que diz Aldino? Não tenho mais que dizer-vos, lhe respondi. Pois como (me disse) arriscaste a vida por quem te havia prometido a morte, e te fazia suspeito contra a boa fé? Não sabes que não se deve conservar a vida do que é prejudicial ao público? e que sempre o é o mal intencionado? e que a própria vida devias resguardar ainda a pesar da do contrário? e que a ruína do crédito é mais sensível que os golpes da morte? Não receia o poder dos homens (lhe respondi) o homem, que só teme os Deuses; nem obrigam os resguardos da própria vida, quando as manchas do sangue do contrário tomam as cores da vingança: e ao que prejudica o público só pode castigar o que tem a incumbência de administrar a justiça. As suas maldades não me desobrigam de valer-lhe, pela mesma compaixão, a que me deve mover, quando determina vilmente a minha ruína. O crédito, que me quis abater a sua falsidade, assaz restituído fica pela ocasião de receber a vida daquele, a quem havia prometido a morte. Quanto mais, Senhor, que o primeiro conselho de Aldino parece filho de um coração sincero; e o desacerto nasceu do muito, que teme a vossa ira. Aqui furioso Aldino em mais alta voz disse: Não é assim o que diz, Senhor, porque sabe que os monstruosos partos da inveja me arrebataram àquela abominável esfera de desacertos: e para ser, ó Antinor, maior a tua vitória, e bem vista a minha confusão, será a minha morte o instrumento do teu triunfo. Oh, quem rendera já o espírito nos braços do arrependimento! E como o pálido semblante se lhe fazia cadavérico e os olhos se lhe cobriam de sangue, a voz trêmula, e rouca, não quis responder-lhe, e pedi ao Rei o mandasse a descansar; o que logo se fez. A este tempo já a gente do campo, e parte da família haviam apagado o incêndio, que não ateou mais que naquele quarto: nem se falava no que havia padecido aquela parte do palácio, porque a novidade do que se havia descoberto em Aldino, ocupava a admiração de todos, pois não só era servo antigo, mas tido pelo mais verdadeiro, e zeloso; sendo que estes os Deuses os conhecem, e os mostra o tempo. O que lhe causou tanto dano, foi o receio de que chegasse aos ouvidos do Rei, que os companheiros lhes entranhavam não ser eu posto em melhor ocupação, pois dava mostras de ser na verdade sábio, pelo bem que instruía os filhos daqueles rústicos; e que sendo oferecido por Filósofo, era odioso o emprego de guardar rebanhos: estas poderações lhe introduziam o veneno nas entranhas.

No dia seguinte fui à presença da Majestade, que me disse: Agora sei as virtudes, de que és ornado; e se queres a liberdade, confia-me verdadeiramente quem és, na certeza de que te saberei tanto estimar, como guardar os teus segredos. Não queiras saber quem sou, (lhe respondi) pois jurei não revelar jamais; mas sabei que vos sirvo, Senhor, obediente ao meu destino, que temo aos Deuses, e que amo as letras. Eu igualmente me obrigo ao teu juramento; (me replicou) e como igualmente me obrigo ao teu juramento; (me replicou) e como também me deves ser obediente, não é razão que não respondas ao que te pergunto; e vendo-me com mostras de aflito, mudando de parecer, disse: Mas não o digas, que é vil maldade empreender que se ofendem os Deuses, sem mais causa que uma curiosidade inútil. Quero que te exercite em dar escola a estes, a quem principiastes a instruir; e que o castigo de Aldino seja ao teu arbítrio. Que maior castigo (lhe respondi), quereis que se dê a um triste, que correr com a tormenta da sua culpa, entregue ao conhecimento das gentes, passando de estimações a vitupérios? Pois sabe, (me respondeu) que para se conservar como troféu da tua vitória, já eu lhe havia perdoado; e agora só quis tirar mais uma prova da nobreza de teu coração e ultimamente te digo que te não dou liberdade, por não tentar o teu retiro, mas que consideres tê-la em os meus Domínios, onde te não faltará cousa alguma.

Com estas palavras me deixou contente, e descontente, pois os descansos de bem visto me tiravam a esperança aos meus desejos. Quando quis recolher-me, conforme o costume, fui conduzido a umas casas da vizinhança, que achei bem ornadas, e com criados, que me servissem. A este tempo Delmetra estava ouvindo com grande alegria aquela repentina mudança da fortuna; e como quase era chegada a noite, Antionor, fazendo aqui ponto, se despediu; e Delmetra lhe rogou quisesse no dia seguinte continuar a sua história, já que a havia principiado; pois como ferida de trabalhos se consolava em ouvi-lo. Antionor se retirou, prometendo satisfazê-la. Delmetra toda aquela noite vacilava entre mil considerações, lembrando-lhe quanto aquele grato modo de falar era semelhante ao de seu querido Diófanes, que havia quatorze anos perdera. Também lhe corria o ver-lhe um sinal pardo na barba semelhante a um, que tinha o suspirado consorte; mas estas considerações despersuadia o reparar que tinha a cabeça, e o rosto cheio de cicatrizes, era totalmente falto de dentes, e tinha muito avermelhada a cor, e diversa da de Diófanes; e não se persuadia que tanta mudança, e estrago pudessem obrar os trabalhos, e o tempo. No dia seguinte saiu a esperá-lo antes de manhã, gastando aquelas horas nas mesmas considerações, em que havia passado a noite; e ainda que a fontezinha com seus risos cristalinos, e aquelas agradáveis representações a convidavam para alegrar-se, como desconfiava da fortuna, se persuadia que tudo era alívio imaginado, para sentir novamente os rigores da saudade: e assim tudo, quando havia reparado, lhe tornava a parecer pelo contrário; e cheia de nova tristeza adormeceu encostada sobre uma pedra da mesma fonte.

Chegando Antionor, e vendo que descansava, não a quis despertar para com mais individuação examinar o que lhe havia parecido em Delmetra; e conhecendo ser sua querida Climinéia, com imensas lágrimas de prazer explicava mudamente seu desmedido contentamento, como frase mais discreta dos que na verdade se amam; e assim imóvel, por lhe não usurpar o descanso, parecia dizer-lhe: Adorada consorte, se os Deuses benignos me confiam a incomparável consolação de ver-te, como prêmio da veneração, que consagro às tuas virtudes, permita-me o teu amor que eu me negue ao teu conhecimento, porque não vejam os teus olhos os golpes, a que está aqui exposta a minha vida, se acaso as ruínas, que tem obrado em mim o tempo, te não têm deixado ver quem sou: e já para acabar consolado, não me falta mais, que ver uma só parte da minha pena em a filha, que em ti adoro; e como a diminuição, que tinha na vista, o obrigou a ajoelhar para melhor a ver, quando foi a erguer-se, tocando na pedra, a que estava encostada, a despertou; e cheia de alegria, depois de agradecer-lhe a atenção, e repetido alívio, lhe pediu quisesse continuar a contar a sua história, pois desejava com ânsia saber se continuara a experimentar prosperidades, quem tanto as havia merecido nas adversidades; e tronando-se-lhe a excitar as espécies da semelhança: Não sei, (disse) ó sábio Antionor, que oculto destino, ou simpatia me influi o amar-te, e me não ocorre mais causa, que as semelhanças, que em ti observo, pois são de sujeito, que possui o meu coração. E como vos afastaste de quem tanto amáveis? (lhe perguntou Antionor) Porque da minha cruel sorte (lhe respondeu) fez entre nós o fado igual partilha; pois o laço, que só podia desatar a fria mão de Atropos, quebrou a tirania dos homens. Ah monstros de crueldade, que não sabem que é a morte menos dura, que separar a uma infeliz daquele, que lhe destinou a sorte! A estas palavras acompanhavam correntes de lágrimas, que eram novas prisões para o coração de Antionor, com as quais se sentia desfalecido, para se lhe não dar a conhecer; e quando ia quase a declarar-se, se reprimia, dizendo: Se eu, Senhor, não tenho palavras para conciliara a vossa alegria, ao menos mereça a vossa conformidade, e consolação a semelhança, que em mim achastes; e supondo que sou o mesmo, que o que a origem de tanta lágrimas, em desejar que se modere o rigor da vossa pena para glória dos Deuses, merecimento vosso, e justa vaidade minha. Ouvi meus trabalhos, porque os alheios conciliam forças para tolerar os próprios.

Já ontem ouvistes, como de servir passei a ser servido, e que com aqueles camponeses estive cinco anos bem assistido, e estimado; e lembrando-me daquela sabedoria, que ensinaram aos rústicos a terem cuidado na agricultura, que desprezavam por preguiça, e ignorância; e que Apolo instruía outros a gozarem mais docemente do sossego, e fertilidade de seus campos; eu os fazia colher os frutos, com que a terra enxuga suor dos lavradores, e aproveitar as flores da melhor Primavera nos anos, que nos ajudam para recolherem com que passem no Inverno de suas velhices; e como no mesmo trabalho guardavam a boa ordem, e proporções, eram estas agradáveis à vista, servindo-se dos deliciosos rios, e fontes, com o que parecia haver ali acabado o rústico, e que aquela montanha se transformava em deliciosos jardins. Os lavradores, vendo-se abundantes, esperavam no campo que os alegrasse a Aurora, prometendo-lhes o dia: assim cantavam alegres no trabalho, que os descansava, e cobriam os montes com seus rebanhos.

Também os admita a fazerem ofertas aos Deuses, e lhes protestarem nas vítimas a candez de seus corações. Ordenei que em dias determinados tivessem seus jogos, e danças pastoris; porque o moderado, e público divertimento faz que se não aborreça a fadiga quotidiana; pois se aos moços aplicados não se permitirem divertimentos públicos, os buscarão particulares, talvez com o escândalo; porque não é possível que todo o tempo se gaste em estudos, e ações heróicas: quanto mais que estas mesmas se aprendem nas ilustres que se representam. E vão tem o perigo (lhe perguntou Delmetra) de também aprenderem o pernicioso nesses divertimentos? Não, (lhe respondeu Antionor) porque os lances de amor a natureza os ensina; e os de fidelidade, constância de ânimo, honra, valor, e temor dos Deuses assim se infundem no ânimo da plebe, como me mostrou a experiência, pois não haviam ódios, murmurações, nem ociosos, porque suavemente os havia feito aplicar a exercícios de que se utilizavam; e lhes consentia divertimentos, em que também se instruíam no que lhe convinham; e assim faltava tampo aos mordazes e não haviam ociosos, que estabelecessem a escola dos vícios.

Os meninos, em que eu observava habilidade, também se aplicavam a estudos, tirando uma grande parte do tempo às suas travessuras; e os outros iam com seus pais dar princípio a desconhecer a preguiça. Assim me conservava sem mais trabalho, que as penosas recordações de meus primeiros infortúnios, quando me chegou um aviso para ir à presença de Anfiarau, que me ordenou o acompanhasse para a Corte, que muito resisti, mas sem efeito, e não tive mais remédio, que deixar a flauta aos Pastores; e depois de dispor a alguns, chamei a todos, e lhes disse: Já sabeis, ó mil vezes ditosos, que estais gozando as flores, e colhendo os frutos desta amável soledade, que sois mimosos dos Deuses, pois vos livram dos tumultos das Cortes, onde uns se alimentam do mal de outros, e que eu vivia em sossego, e vós experimentáveis a fertilidade, com que as terras, sem descansarem todo o ano, repartiam convosco todo os seus deliciosos frutos, que trabalháveis para lhos mereceres. Já tem sido tão grande o meu descanso, que sou obrigado a deixar-vos, ó ditosos Pastores, que em paz, e alegria ouvis repetir ao eco as vossas sonoras vozes: Oh quanto é feliz o povo, que é sujeito a Senhor sábio, pois busca todos os meios para lhes conservar a sua felicidade, e amando a causa do bem, que logra, come desoprimido o fruto de seus trabalhos, assim, como o Rei, que despreza o amor dos vassalos, tem mais que temer na falta deste, que os súditos no poder; e lembrando-me daqueles vínculos da natureza, que intentara destruir a crueldade das gentes, dizia mais tristes: Ai de mim, que nem cheguei a lograr inteiramente este amável sossego, pois já entro a pensar em máximas de governo; mas se nos trabalhos nasce da conformidade o merecimento, os Deuses sempre justos me hão de restituir a minha primeira felicidade. Bem vedes como entre vós acabou o rústico, e estais costumados a obedecer, a trabalhar, e a amar a aplicação: conservai-vos com fidelidade, desinteresse, desejo de honra, e temor dos Numes: diverti-vos inocentemente sobre a verde relva à sombra dos deliciosos arvoredos; e quando coroados de flores festejares a Ceres, e a Diana, lhes farei a melhor oferenda, em lhes levares os corações despidos de afetos nocivos, e conhecereis quão doces, e suaves são estes inocentes prazeres: não canseis de cultivar as terras e conservai a singeleza, para gozares felizmente a formosura de que estão adornados estes campos. Com recíprocas lágrimas me apartei triste, aflito, e saudoso. Tanto que cheguei à Corte, fui levado à presença de Anfiarau, que com demonstrações de urbanidades me recebeu.

São estimáveis, ó sábio Antionor (me disse), as tuas prendas, e direções, que experimentando-se nos bem morigerados costumes dos rústicos, e nos campos fertilizados com a tua assistência, e prudentes reflexões, foi justo que se pusesse de parte a conveniência daqueles, a quem com mais vontade acompanhavas: porque é razão, que prevaleçam dos interesses do público aos do particular, e aos do particular também os do Soberano; já as camponesas sabem como devem fazer sacrifícios ao decoro, já a agricultura experimenta os benefícios da natural Filosofia, ficam remediados os produtos da ociosidade, e entre aqueles camponeses bem estabelecidas as tuas doutrinas; que os documentos, que se ouvem com afeto, são leis, que jamais se viram quebrantar: é tempo, para que as tuas máximas, que estiveram tão desconhecidas, venham a ter exercício entre a estimação das gentes. Bem sabes que as ciências são o prêmio de si mesmas, como bens, que o tempo respeita: mas eu me lembrarei sempre, que os merecimentos só os exalta quem vê bem as suas luzes, aos quais tanto ama a virtude, como teme a maldade. Sinto, Senhor (lhe respondi), que vos dessem de mim uma idéia, que eu não saberei desempenhar; e como seja tão arriscado o perto do Soberano, quanto desconhecida a felicidade do rústico sossego, sem que seja o meu intento negar-me ao vosso serviço, vos peço que me escuseis às estimações da Corte. Não dando ouvidos a isto, principiou a fazer-me muitas perguntas com sutileza e engenho.

Em gostosos discursos se passaram os primeiros dias, e entre outras muitas perguntas, me disse, queria saber qual fora o primeiro Rei. E depois de lhe haver respondido, continuei, dizendo: Conforme a variedade de nações, costumavam nomear os povos aos seus Príncipes, os Argivos lhes chamavam Reis, os Bythinios Ptolomeus, os Egípcios Faraós, e os Sículos Tiranos, e assim as mais nações; mas é certo serem mortos os que foram, e que morrerão os que vierem, porque a morte tanto respeita o arado no campo, como o trono em Palácio. No princípio do Mundo ao mau Governador chamavam tirano, e ao bom chamavam Rei: daqui vereis, Senhor, como este homem de Reis está consagrado a pessoas, que são úteis ao bem público; os Romanos, que trabalham para senhorearem o Mundo, fazem Reis para os regerem, e Capitães para os defenderem. Entre os Gregos, Persas, Assírios, Medos, Troianos, palestinos, Parthos, e Egípcios houveram Príncipes muito ilustres; e estes não punham a sua glória em títulos, mas sim nas ações heróicas. Já que me tens dito o princípio dos Reis, (me disse) quero ouvir-te, como devem conservar, e reger o seu Reino, o qual é mais gloriosos Império? O mais glorioso (lhe respondi) é o que os Príncipes alcançaram, conquistando justamente; e contra o Real decoro o que com sem razões possuem, assim como lhes é injurioso largar a pacífica posse, quando as razões não são convincentes; pelo que é muito preciso fazer aplicação na arte de reinar, por não dilatar com os domínios o peso dos encargos, ou os não aumentar, largando com descuido o abrigo dos vassalos; porque se os Principados tirânicos se alcançam por força, e com as armas se sustentam; os que são bem possuídos com a razão se sustentam, e com os povos se defendem. São tão pesadas as obrigações dos Soberanos, que ainda que tenham o valor de Aquiles, a riqueza de Creso a prudência de Platão, e a constância de Catão, se a estas virtudes faltarem outras de que também se alimenta o bom nome entre seus súditos, lhes fará mais guerra a inveja, que se não descuida em procurar os descuidos dos que têm virtudes.

Não repugna a prudência, mas a acredita a bondade do Rei, que comunica as cousas árduas a seus fiéis, e sábios familiares; porque de sorte, que sabendo-se que os ouve, não se entenda que o governam: assim como é preciso ouvir aos vassalos, e não os tratar com desabrimento; porque não consiste a Majestade na aspereza de tratar as gentes, pois em quanto não são despachados, não é justo que vivam queixosos, e por que o Soberano se faz amável pela bondade, e não pela autoridade. Também é preciso refletir que a demasiada soltura tem arruinado muitas Repúblicas; pois nunca os Gregos, os Epirotas, e outras nações puderam sujeitar as que assolou, e perdeu a muita liberdade, porque esta não carece de menos prudência para conservar-se, que de valor para se ganhar. Nas Repúblicas mais bons infamam, e mais furtos fazem dous homens livres, que duzentos sujeitados. Não há riqueza na vida humana, que se iguale à liberdade; nem há também cousa mais perigosa, se não a sabem mediar. Esta sim se deve ganhar, comprar, procurar, amparar e defender; mas é preciso que só se consista usar dela, não como convida a vontade, sim como permite a razão, porque se não perca em poucos dias pelo muito uso, podendo conservá-la a moderação em toda a vida. A liberdade de Falaris perturbou os Gregos, e a de Catilina escandalizou os Romanos. Muitos são os que deixam de fazer mal, porque não podem, e poucos porque não querem. Com estas, e outras semelhantes ponderações determinava acabar o meu discurso; mas como Anfiarau me ouvia gostoso, ordenou que continuasse a discorrer sobre como se devia haver o Rei amável, e os costumes, que mais prejuízo fazem às Repúblicas. As despesas demasiadas (lhe respondi), e as praças guarnecidas de vagabundos. O que não devem consentir os Soberanos, porque hão de dar conta aos Deuses imortais dos costumes, e bens das suas Repúblicas, não como senhores, mas como tutores: e assim devem castigar aos que mal obram, e premiar aos que bem servem; porque ainda que não foram companheiros dos vassalos nas culpas, o serão nas penas. A perpétua estabilidade de um Reino só costuma conservar a reta distributiva de prêmios, e de castigos; porque assim como estes são remoras da maldade, costumam aqueles obrigar as vontades, e conciliar amor, animando para as heroicidades; e em se premiarem os merecimentos, se publicam leis para criar beneméritos; e castigando um réu, se põe o mais forte padrão, para que ninguém o seja; assim como ao Soberano tanto devem amar os bons, como temer os maus, fazendo que se não persiga a humildade, e que a ambição, e vingança acabem logo no suplício, com que os favorecidos da fortuna conhecerão que esta não é segura, não a afiançando boas obras; e aos que injustamente perseguir a desgraça, animará alguma justa esperança; e como é preciso mais ânimo para vencer os vícios, que valer para acometer os exércitos, o Rei que não for casto, é preciso que seja cauto, para não dar escândalo aos vassalos, com o que aumentaram as glórias de seus nomes Alexandre, Marco Aurélio, Cipião, e outros varões admiráveis. Também me lembro, que aconselhava Platão aos Atenienses, que elegessem Governadores, que fossem justos, constantes, verdadeiros, prudentes, e generosos, porque os grandes Senhores são temidos pelo poder, e amados pelo dar: pois é certo que os não seguem tantos pelo que devem, quantos pelo que esperam, assim como o bom exemplo, e as grandezas igualmente recomendaram aos vassalos, que os sirvam de boa vontade.

Um dos trabalhos dos que governam a República é o ajuizarem-lhes o que pensam, e repararem-lhes em tudo o que fazem: os Atenienses reparavam em Simonides, que falava muito alto, e não se lembravam, que vencera a batalha Maratônica: os Lacedemônios, que Licurgo não andava direito, e lhes esquecia que formara o seu Reino: os Romanos, que Cipião dormia roncando, e não faziam memória de que vencera Catargo; porque os homens, que vivem sem emprego, nem ocupação, não sabem conhecer o que os seus Soberanos heroicamente empreendem, porque só os descuidos conhecem. Vós bem sabeis, Senhor, que deveis eleger vassalos, para os empregos conforme seus talentos, porque o supremo governo só consiste em governar os que governam, e escolher os que tenham verdadeira idéia de governo, que sejam sábios, e bem morigerados, porque tenhais neles instrumentos hábeis para efetuarem os vossos desígnios, recomendando-lhes sempre que reparem, que dos pequenos receios alguma vez nascem os maiores acertos; e como sabeis o referido, parece escusado que eu o repita, sabendo que nem sempre é a verdade bem aceita. A isto me respondeu com enfado: Para usares da licença, que te dou, e obedeceres ao que ordeno, não é preciso que apures o meu sofrimento. Continuarei, Senhor, em dizer-vos a verdade do que alcanço, (lhe respondi) porque nos vassalos de honra ainda depois de mortos devem as memórias de seus nomes responder sempre as verdades.

Os melhores Reis não são os que melhor discorrem, mas sim os que trazem no coração escrita a Lei, sendo as suas obras a melhor prática da mesma Lei; assim como não devem permitir as regalias de valido aos sujeitos, a quem inabilitou o nascimento, se este se não enobreceu com as ciências, porque ordinariamente não são criados com horror à mentira, e estando fora dos encargos da nobreza mentem sem receio, e assim destróem os honrados, e de toda a sorte que podem, fazem mal aos bons; e porque poucas vezes deixa de ser soberbo o que chega a um auge de fortuna, que não espera, nem merece; estes por mais incapazes dão idéias de governo, como as podem dar os que ignoram as Leis, que são as que costumam governar; e como precisamente vos haveis de servir de homens, não vos esqueça que estes quase senore são enganosos: e vede, Senhor, que os Deuses vos não fizeram Rei com outro fim mais, que para serdes pai deste povo, a quem deveis dar o tempo com amor; que o que mais sacrifica o seu gosto ao bem público, é o que é mais digno de reinar, tendo mais confiança nas suas obras, que nas suas palavras, porque estas assustam, e as obras anima, pois é o bom exemplo o que melhor excita o exercício das virtudes, e mais severamente repreende os vícios; o que com inteireza só pode fazer quem não dá causa aos reparos. Oh quanto é feliz o Rei, que triunfa dos vícios, para que convidam os descansos, porque todos o ama, e servem de boa vontade! e se alguma vez erra, não o estranham, como culpa, porque o vêem, como descuido. Já mais se viu acertar (disse Anfiarau) quem se não aconselha com a suma razão, que nos inspira os acertos, e nos ensina a usar do entendimento; eu não tinha refletido em seus admiráveis efeitos, agora o conheço, vendo resplandecer a verdade no que me hás dito; e ordeno que te informes do que há no meu Reino, porque só quero que se conserve no antigo estado o que for conveniente.

Com estas palavras me deixou cheio de susto pelo que me encarregava; e como para dúvidas, os recursos assim me negou todos os meios, me recolhi ao meu aposento triste, aflito, e perturbado, pois devia condescender com a sua vontade em uma empresa tão árdua, como digna de receio. No dia seguinte saí com dissimulação a informar-me do que diziam os pobres, e como viviam os ricos, e os que administravam a justiça: depois de haver concluído esta diligência, procurei instruir-me nos livros, e Leis do Reino. Passado todo o tempo, que me foi preciso para averiguação tão importante, fui à presença de Anfiarau, e lhe disse: Sabei, Senhor, que o vosso Reino, que há pouco mais de três anos, que governais, se acha reduzido a um estado miserável; não há nele caminho algum, que seguro seja; não há lugar privilegiado, nem quem queira cultivar os campos; o comércio está arruinado, porque se lhe quebrantam os privilégios, e não há verdade; os que admitis no vosso agrado servem-se da vossa autoridade, arruinando os créditos, e corrompendo as vossa Leis: acudi às balanças da justiça, fazei mercês aos naturais, mandai que não saia para fora a vossa moeda, aliviai os tributos, e não dês créditos às vozes da vileza ignorante. Se tens considerado (lhe disse Anfiarau) os meios para evitar os danos, quero ouvi-los. É certo, Senhor, (lhe respondi) que não só nasce o Rei para defender os seus domínios com a lança, mas também para governar os seus vassalos com prudência; não só para destruir inimigos, como também para extirpar vícios; e não só para ir à guerra, como também para resistir na República , mantendo em boa ordem a justiça; e assim mandai guardar inviolavelmente as vossas Leis sobre os pleitos civis, e nos criminais que se moderem; porque as severas, e rigorosas se fizeram mais terror, que para se executarem sempre, pois que os justos Deuses mais nos remuneram serviços, que castigam delitos. Não consistais que sirvam as ocupações homens ambiciosos, pois não há na República animal mais perigosos, que o que serve com a ambição de se lhes comprarem as dependências. Também deveis cuidar em que só se dêem os cargos da justiça a homens doutos, e de conhecida prudência; porque os que principiavam a exercitar as letras só tem a ciência nos lábios, e antes que acertem, perturbam a República; porque sabendo o que dizem os livros, e não o que ensina a experiência, serão bons para advogar, porém não para julgar. Os juízes, de quem se deve fiar a República, devem ser retos no que sentenciam, compassivos no que mandam, honestos no viver, sofridos nas injúrias, e comedidos nas palavras. Entre os Romanos só podem servir de Censores os que passam de quarenta anos, tidos por honestos, medianamente ricos, e experimentados em outros ofícios da República, porque a arte de governar se acha com a prudência, se defende com a ciência, e com a experiência se conserva: não só devem ser sábios os Ministros, como também nobres; porque assim como aumenta a ciência o lustre da nobreza, também é esmalte da nobreza a ciência, que a acompanha. Para haverem bons soldados na guerra, basta que os homens sejam valerosos; mas para governar, e administrar bem a República, é preciso que tenham sabedoria, nobreza, e prudência, porque esta virtude sabe discernir entre o claro, e o escuro, entre o nocivo, e o útil, o que se deve apetecer, ou desprezar; e é tão própria virtude do Soberano, quanto precisa no que reger a justiça, assim como é da nobreza um grande efeito o vencer as paixões próprias. A primeira classe de nobres criou Teseu em Atenas, e lhes deu as máximas de bizarrias, a que a nobreza excita; e o que se esquece de executá-las tanto se desmente de nobre, como desmerece a sua classe, que não consiste só nas preclaras prosápias, pois o descansar na antiga origem, vivendo entre os vapores dos vício, é ofuscar as glórias dos antigos; e para empregos de alta ponderação, os que fazem vida com as maldades, ainda que sejam filhos de Júpiter, se devem reputar por indignos; porque a nobreza, que não declina, é costumada a dar o melhor lugar à razão, sendo obrigada a executar o mais sublime que a ilustra. Radamante, e Minos foram tido dignos desempenhos do Céu pelas ações, com que glorificaram a nobreza; mas para se gozarem seus privilégios, é preciso que com as obras, se mereça o ilustre esplendor da fidalguia. Não é regra geral, que todos os mecânicos se ensoberbeçam com os grandes aumentos, mas os bem nascidos são mais hábeis para tais empregos; muitas cousas se devem levar com o rigor, que pede a justiça, (como já disse) e em outras se deve moderar as leis, para o que é preciso que o Juiz seja sábio para determinar com acerto, e nobre para moderar o rigor do Direito. Muitos varões ilustres primeiro serviram as Repúblicas, administrando justiça, que empunharam os cetros, distribuindo tesouro, pois se não devem prover as pessoas de ofício, mas os ofícios de pessoas. Os soberanos podem dar riquezas, mas não a vara da justiça, que só se deve entregar a quem mais a merece. Se os jurisconsultos forem ignorantes, como poderão julgar os vossos vassalos? Mas poderão ser sábios, ambiciosos, e mal intencionados, (disse Anfiarau). Se forem apaixonados (lhe respondi) em arruinar os inimigos, ou favorecer os amigos contra justiça, será conjuração de maus, e não confederação de bons, como devem ser; e se os erros nasceram da sua má intenção, só eles serão culpados; mas se errarem por ignorantes, ou dementes, não será só sua a culpa. Havendo muitos sábios, não se consentirão nas ocupações os que forem mal intencionados, o que se não pode executar, quando faltam, ou são poucos, porque é necessário sofrê-los à custa do povo, pois há ocasiões, em que se fazem precisos; e como todas as leis humanas estão fundadas mais sobra a razão que sobre opiniões, muitas vezes mais acertará o rústico do campo, que alguns graduados nos estudos; pois há casos, em que mais se devem governar pelo que a verdade lhes ensina, que pelo que as leis determinam; para o que são precisas as circunstâncias, que vos hei ponderado, e que estas sejam regidas pelo temor dos justos Deuses, para que façam viva reflexão, em que só tem lugar o desobedecer ao Rei unicamente, para cumprir com a mais alta lei, e falar às leis, só por obedecer ao Rei, naquelas, que ele anima; e ainda que ordinariamente, quando o Rei é justo no que empreende, são os vassalos retos no que julgam, sempre é preciso que lhes dês ordenados, com que sustentem o respeito, e esplendor de seus lugares.

Se quiserdes, senhor, conservar a posse de distribuir riquezas, reger Estados, e ensinar animar o cetro, deveis acudir ao vosso Reino, mandando como soberano, e não isento de ouvir os vossos vassalos, e ver algumas vezes as provas da sua justiça; porque não consiste a grandeza da Majestade em os ter com a maior submissão aos pés, mas sim no vigilante cuidado de muito bem os governar, porque só os tiranos procuram ser temidos, e o melhor Rei também deve querer ser amado, vendo o muito que tem, e quanto deve dar às obrigações de seu ofício, tendo o maior prazer em socorrer a pobreza, fazer amar as virtudes, e conhecer os homens astutos, e avaros, que o rodeiam, pois que aos seus enganos estão sujeitos os mais sábios Monarcas; e como não basta para operar nos ânimos das gentes a autoridade Régia, e submissão dos vassalos, é preciso senhorear suavemente as vontades, para que os homens conheçam as grandes vantagens, que levam os que melhor servem.

Os homens grandes nas ciências se fazem com regalias, isenções, e boa renda. Se os mestres não tiverem grandes aumentos, estimações, riquezas, e privilégios, como haverão moços, que gastem os melhores anos de suas vidas em contínuos estudos, se para tanto trabalho os não subornarem grandes esperanças?

Também conseguireis facilmente haverem muitos peritos nas artes, e em todos os empregos mecânicos, fazendo-lhes maiores conveniências, que os mais Príncipes; e os que ou morrerem em vosso serviço, ou chegarem a um certo número de anos, vão a descansar com bastante, de que mantenham suas famílias, e com aumentos à proporção de suas ocupações; e determinando prêmios, e regalias para os que chegarem a um certo auge de perfeição em seus ofícios, todos se hão de esmerar para os merecerem, e desde o berço ensinarão aos filhos a seguirem os passos, em vão alcançar a sua felicidade; e a outros trará a fama de Reinos estranhos, vindo buscar os aumentos, e estabelecimento, que tiveram os primeiros, que lhe serviam de estímulo, e os discípulos aplicarão todo o cuidado, por chegarem ao estado de seus Mestres.

Ordenai que se castiguem os falidos, como réus de temeridade; e que ninguém possa comerciar, arriscando bens alheios, nem mais que a metade dos próprios; porque o meio para ter muito é não querer demasiado. Ajudai o aumento dos vassalos, privilegiando as companhias, e pondo penas aos que se lhe opuserem: daí inteira liberdade ao comércio com favoráveis direitos, e prêmios a quem o aumentar, de sorte que os vassalos sejam ricos, e os estrangeiros contentes; e que estes levem uns gêneros, tragam outros; e entre os comerciantes elegei alguns mais capazes para governarem o comércio, e a estes deveis honrar, e ressarcir a falta da sua negociação, pois toda lhes deve ser proibida; e ordenai que se castiguem severamente os Enganos, as negligências, e demasiado fasto, porque de tais imprudências se aproveitam as outras nações: favorecei as fábricas, e premiai aos que as intentarem, animando-os, para que não desmaiem, e para terem efeito os melhores inventos, e a estes defendei-os da inveja: mandai erigir outras, em que os cegos, e aleijados trabalhem nos lugares, onde forem postos, que assim se faz em alguns Reinos, onde florescem as artes, vivem melhor os pobres, e não se experimentam tantos efeitos da ociosidade: e vede que de repente se não podem emendar os erros da República, que se introduziram pouco a pouco; não consistais que se alterem os costumes, que não ofendem os Deuses, nem prejudicam ao bem comum, pois é preciso haver grande cautela em empreender novidades no governo; porque são os plebeus tão fáceis em se inquietarem, como as constantes águas do mar, que se com qualquer vento se alteram, a plebe com um pequeno motivo se perturba, pois é composta de muitos sujeitos, que ignorando os preceitos de honrados, e faltando-lhes as forças da nobreza, lhes sobram as das línguas para temerários delírios. Há muitos políticos, que dão arbítrios mais por conveniência própria, que pelo bem público: pois se são ambiciosos, procuram só fazer bom o partido de seus interesses; e se vingativos, cuidam sempre em satisfazerem os desejos de seus maus corações; e por esta causa havia uma Lei entre os Atenienses, pela qual não tinha voto na República o que queria ter conveniência no que aconselhava.

Vede, senhor, que por mar, e por terra é preciso que se tema o vosso poder, se respeitem os vossos vassalos, e deseje a vossa amizade; e para melhor se conseguir este fim, mandai que os vossos artíficeis trabalhem com mais cuidado nos estaleiros, porque é preciso que uma grossa armada conserve o vosso respeito; e porque se houver alguma ocasião, em que dissimuleis com os mais príncipes, conheçam que sois prudente, e generoso, certos em que não sofreis falto de forças; e mandai que os soldados sejam atendidos, e bem pagos, pois assim se formam exércitos de voluntários, que são os que melhor costumam servir.

Também é preciso que honreis os Templos, temais os deuses, e ampareis os pobres, que mais sentem que se não conservem em fiel equilíbrio as balanças da justiça; porque o Rei, em que resplandecem estas virtudes, dá exemplo aos amigos, e o não podem destruir os inimigos; e fazei que haja constância nos negócios, que forem convenientes ao bem público, porque não consiste a boa direção em se determinarem, mas sim em que tenham boa execução, e estabelecimento, revestindo-vos de sofrimento para com os importunos, e de prudência para dissimular com os descomedidos, porque o bom príncipe há de perdoar as ofensas próprias, e castigar as injúrias da República; e aconselhando-vos com a Majestade, sentireis grande prazer pelos que enriquecestes, e perdoastes, pois são condições do vosso ofício reger com amor os vassalos, perdoar-lhes, e remunerar serviços, recomendando sempre que não oprimam os pobres com a cobrança dos tributos, porque é maior a culpa de roubá-los, que o mérito de socorrê-los. E certo que o melhor Rei não cuida em adquirir tesouros, mas sim em assistir aos seus vassalos, tomando as armas só contra príncipes soberbos, e exércitos formados, mas não contra o general fugitivo, pois só se devem pelejar com os que resistem, e dissimular com os que fogem; porque não é para os generosos perseguir o pobre tímido, que noa se anima a esperar, nem se atreve a acometer.

Também deveis, senhor, reparar que o governo, que só faz a vontade, é o mais cheio de desacertos; e que o estilo mais alto de emendar, é saber ser exemplar; e que o melhor modo de estabelecer um suave Império, está em mandar, como quisera ser mandado, e não obrar em tudo, como senhor absoluto; porque entre os mortais não há autoridade tão grande, que não tenha sobre si os Deuses imortais; pois quem tem domínios para possuir, também tem uma só morte para esperar. Oh quantos lisonjeiros tem profanado a vossa presença com enganos, não a sabendo gratificar com a verdade! E refleti, senhor, em que os que ignoram as obrigações de bem nascidos, desconhecem a grandeza da Majestade, e por esta razão os grandes, e a nobreza são destinados para servi-la. Logo não em hei de servir (disse Anfiarau) com outra casta de homens, ainda que dignos sejam? Não só são grandes, (lhe respondi) e nobres os que procedem de antiga, e preclara geração, porque também as ciências fazem grandes, e enobrecem os sujeitos; e o admitir, e engrandecer este é preciso, para inspirar a todos o amor das letras, e infundir-lhes suavemente o espírito estudioso; e destes também os tereis, mandando moços nobres, e bem instruídos para Reinos estranhos, onde se apliquem ao político, e ao militar, e assim achareis sujeitos capazes, quando vos forem precisos, usando da cautela de os mandar à vossa custa para os Reinos, que não sejam dos vossos confinantes. Na Monarquia, que é falta desta qualidade de grandes, há muitas ocasiões, em que com desaire dos nacionais se lhes conhece a falta de tais forças, pois são tão precisos os Jurisconsultos para os cargos da justiça, como os políticos estadistas para o governo no que lhes toca; porque não basta que hajam soldados para formar exércitos, é preciso também o maduro conselho para arriscar os vassalos, defender os domínios próprios, ou castigar os alheios. O homem, que é valorosos, se lhe faltar a prudência, muitas vezes se arriscará degenerando a valentia em temeridade: mas o que é prudente, e valeroso, é invencível. E não havendo aquela qualidade de sábios, a quem ouvirá o Rei, quando for obrigado a fazer a paz, ou declarar a guerra? Não consiste só a felicidade do Soberano em ganhar vitórias, pois é a maior a conservação, e aumento do bem adquirido: para o que é preciso que as armas tenham pazes com as letras, pois onde assim não sucede, poucas vezes se cantam os triunfos; e pela mesma razão as palmas são tidas por gloriosas insígnas das mãos, que maneiam as armas, e das cabeças, que dão o maduro conselho, o que se nos ensina, quando em Minerva também adoramos Palas; porque invocando a Deusa das batalhas, nos assistirá também a da sabedoria, que conduz para as vitórias.

No que vos disse sobre as distinções, só quis mostrar que são indignos de verem de perto os Soberanos aqueles, a quem as primeiras doutrinas não fizeram aptos para lhes assistirem, pois que o serem bem vistos lhes infunde tal autoridade, que tratam mal as gentes, aborrecem as ciências; e por estas e outras razões, que tenho ponderado, domina o ódio, e a inveja na maior parte dos corações, as fábricas estão paradas, o comércio está arruinado, labora a ociosidade, os sábios se retiram, os bem morigerados se escandalizam, os pobres padecem, os vícios se aumentam, e os militares se desconsolam; sendo que uma sentinela fiel é a mais forte muralha de uma Cidade, pois não teme a praça invasões inimigas, se estão vigilantes os soldados. Não resplandece a verdadeira proximidade, que distingue dos brutos aos racionais, nem aquele santo temor dos justos Deuses, que é remora das paixões dominantes, e mais preciso tesouro dos corações das gentes, com o qual se adquirem os prazeres mais puros, a abundância, que é permanente, e aquela ditosa sinceridade, que infunde prudência, paz, justiça, e alegria. Oh quanto é feliz o povo, a quem governa um sábio Rei! e quanto é mais feliz o Rei, que é autor da sua felicidade, e que está vendo na virtude dos vassalos resplandecer a sua, sendo muita mais que temido, quando é amado, pois todos servem gostosos aos que dilatam docemente o seu domínio nos corações, que suspiram pela sua conservação, o que conseguem, sendo fiéis aos Deuses, cautos nos perigos, afáveis para os seus, benignos para os estrangeiros, e desprezadores dos próprios apetites, e imortalizando assim os seus gloriosos nomes, governam com tranqüilidade as suas Repúblicas: e quanto também é mais feliz, que o Rei, aquele vassalo, que descansa livre de tão pesados encargos, e se contenta de uma vida inocente, aborrecendo os prazeres da Corte, no melhor recreio de cultivar com as ciências o próprio entendimento, que a qualquer parte, para onde o arroje a desventura, leva consigo os cabedais, que se transportam sem risco, pois é incomparável a felicidade dos que em sossego tomam o sabor ao que acham escrito? Não entendais, senhor, que no que digo pretendo estabelecer-me no vosso agrado, quando sei que a verdade anda fugitiva, porque é mal vista; mas como não pude negar-me ao vosso preceito, não devo faltar em dizer-vos o que sinto, o que ouço, e o que convém: perdoai-me, se acaso vos desagradam as minhas ponderações, despidas de adornos, e cheias da mais brilhante verdade, que como é tão vil, e horrorosa a mentira, antes quero sujeitar-me a que me sepulte a vossa indignação nas ruínas de tal tempo, que ser cúmplice no vosso engano; e se me julgais algum merecimento, deixai-me senhor, fugir dos homens, porque me não enganem, que eu estimo renunciar às riquezas (no caso de mas prometer o vosso agrado), porque me não corrompam, e darei de mão às honras, porque me não ensoberbeçam; e se acaso tenho sido demasiado, ainda que as minhas palavras nascem de um coração sincero, e verdadeiro; a vossa bondade me desterre de uma Corte desordenada.

Com estas, e outras muitas coisas, que não repito, acabei aqueles discursos. Anfiarau com as lágrimas nos olhos me apertou entre seus braços; e ainda que de enternecido não pôde proferir palavra alguma, deu mostras de seu bem disposto ânimo. Foram conhecidos os aduladores, remedeadas as opressões do público, desterrados os vagabundos, os empregos repartidos pelos beneméritos, punidos os malfeitores, e amparados os pobres; as terras já se cultivavam, e abundantes repartiam com seus filhos os frutos à proporção de suas fadigas; contentavam-se as gentes em lhes não faltar o preciso, observava-se a paz, alegria, e concórdia, com que todos viviam; os pais ensinavam os filhos, costumando-os desde sua primeira infância a aborrecerem ócio, e desprezarem o supérfluo; e só os que se haviam mantido de enganos, traziam nos semblantes a culpa. As vozes do povo parecia quererem chegar à presença dos Deuses, pedindo-lhes me conservassem no agrado de Anfiarau, que até então havia perdido o tempo de se fazer amar, e com repetido contentamento dizia “Bem aventurada é a nossa pátria, que nos vê fartos, amando as virtudes, temendo os Deuses, e obedecendo suavemente às Leis! Bem haja quem se arriscou para favorecer aos pobres, que padeciam; aos ricos, que se despenhavam, e se castigar a maldade, que florescia, oprimindo a todos, e nos tem feito amas a vida sincera, e aborrecer os vícios. Assim diziam os que haviam chorado oprimidos, e necessitados. Os soldados viviam tão contentes, que parecia desejarem a guerra para se mostrarem gratos ao seu Rei, desprezando os perigos, e sacrificando a seu respeito as próprias vidas.

Não se ouvia falar em ladrões, falsários, ou homicidas, porque os primeiros foram logo castigados, e tirada na ociosidade a primeira causas de tais efeitos: era desconhecida a afeminação, que aos homens faz indignos, desprezados os soberbos, desterrados os efeitos da ambição, e avareza, e abominada a ingratidão. Não era culpa do soberano (disse Delmetra) a desordem, que chorava o povo, mas sim dos que lhe ocultavam as luzes da verdade. Os Céus (respondeu Antionor), que sempre são providos, criam aos Príncipes com alta capacidade para reinarem; mas é tal a maldade dos homens, que com seus enganos fabricam a sua própria ruína. Anfiarau era dócil, compassivo, magnânimo, e entendido; mas a estas, e outras virtudes escureciam o ser demasiadamente crédulo, e inconstante; o que produzia inclinações, e aversões pueris, que lhe deslustravam o talento; erros, que havia introduzido em seu ânimo, os que com atrevimento iam à sua presença cheios de vícios; e ainda que aqueles povos se consideravam naquela ditosa era de ouro, não sei dizer-vos, Senhora, os grandes trabalhos, a que me reduziram os produtos da inveja, e os impulsos da maldade, que rompendo em blasfêmias, conferiam uns com outros a minha ruína; e assim persuadiram a Anfiarau, que as gentes se riam de que ele me estivesse sujeito, e sem liberdade, pela muita confiança, que me permitia, para atrever-me a falar-lhe com demasiada soltura, e inteireza, transformando a ousadia, e repreensões em serviços do bem público. Como Anfiarau os atendia, pouco a pouco lhe foram introduzindo o aborrecer-me, pelo que já me não ouvia com o antigo agrado, que este é um dos males, que fazem os príncipes, em ouvirem os que totalmente ignoram quais sejam as mais importantes máximas, e primeira glória do Soberano. Uma noite indo da Real Câmara para o meu aposento, ao passar de um jardim, me saíram quatro homens; e como logo vi que iam a encontrar-se comigo, lhes disse ainda distante: Quem sois, amigos e que quereis? Se intentais tirar-me a vida, sabei que me usurpais o que eu menos estimo; e se quereis vilmente obrar alguma ação em meu ultraje, crede que a morte me é tão pouco horrorosa, quanto amável a honra, que sempre vereis em mim, enquanto no Mundo existirem as minhas cinzas. Sem tomarem a resolução de investirem comigo, estiveram algum tempo imóveis; e eu instei com sossego: Se quereis de mim alguma cousa, (lhe disse) eu não vos fujo, nem vos temo, quando não, deixai de tomar-me os passos, porque nem vós aí estais bem, nem eu aqui. A estas palavras se resolveram; e depois de largo tempo de pendência, me feriram gravemente, de que logo caí sem acordo. Acudiu gente, retiraram-se aqueles bárbaros, e eu ainda fora de sentidos fui levado para curar-me.

Tanto que Anfiarau soube esta novidade, me honrou , visitando-me, e com as maiores instâncias quis saber quais haviam sido os agressores daquele delito; e supondo que eu os conhecera, buscou todos os meios para obrigar-me a dizê-lo em confiança; mas como o abuso havia ali introduzido, que as Majestades podiam ceder os créditos da palavra a favor do seu gosto, e interesses, depois de lhe resistir quanto pude, me resolvi ultimamente a dizer-lhe: Nunca podereis, senhor, obrigar-me a dizer-vos quais foram os que me feriram; eu pudera dizer-vos, que os não conheci, mas nem em tal caso posso faltar à verdade; vós me prometeis honras, e riquezas, para que os entregue; as riquezas seriam padrões da minha injúria, e as honras estátuas para castigo de tal vileza, o que bastaria para dar forças aos meus inimigos, que sempre me verão constante para lhes valer, e perdoar; porque mais devemos amar a honra, e temer os Céus, que estimar as vidas, e buscar indignos aumentos. Se é zeloso do bem público, (disse Anfiarau), como não concorres agora, para que se castiguem os malfeitores? Não consiste só o castigo daqueles (lhe respondi) o conservar-se limpa a espada da justiça; se o Palácio estivera reparado da Guarda Real, que é precisa distinção dos soberanos, pois se deve compor dos melhores, a quem a nobreza faz fideldignos, não haveriam temerários, que usassem profanar o sagrado de vossos jardins; quanto mais, que se quereis castigar aqueles, reforçai as penas para a observância das novas Leis, e não vos deixeis persuadir de ignorantes, que este é o castigo mais próprio, e sensível, que podeis dar aos maus, que eu não só lhes perdôo, mas lhes farei todo o bem, que couber nos dias, que me restarem de vida, pois foram o motivo de que me honrásseis, e o serão de tomarem mais forças as vossas Leis a favor dos bons costumes, ciências, governo e pobreza; e se estas feridas me entregarem a morte, darei graças à mão, de quem as recebi, vendo que os Numes se servem de instrumentos vis para empresas de glória. Com demonstrações de compungido me disse Anfiarau: Estas foram as mais qualificadas provas da tua virtude, e constância; e por não cansar-te mais, me retiro novamente confuso, e admirado de tanta prudência. Com estas palavras me deixou Anfiarau consolado, pois fiquei crendo, que outra vez se esforçara a ser verdadeiro pai de seus vassalos.

No largo tempo da minha moléstia senão descuidava a maldade, buscando o gênio do Rei para traçarem melhor os seus enganos (que a tanto se expõem os que deixam conhecer os seus dominantes), e como naquele tempo se fingiram com falso zelo pela compaixão, que mostravam terem de mim, lhe pediram que me não admitisse em sua presença, em quanto não sossegassem os malignos efeitos do ódio, e inveja. Quando acabei com os remédios de tão prolongado padecer, vendo-me quase cego, e coberto de lepra, mandei pedir que me deixassem ir para os montes, onde acabariam de curar-me a pureza do ar, a doçura das águas, os manjares inocentes, e rústica tranqüilidade; logo me concedeu a pedida licença, e me mandou para a casa de campo, na qual fosse assistido com todo o preciso. Não tolerei as assistências mais que os primeiros meses; tanto me principiei a ver alguma cousa, e tive forças para poder dar alguns passos, logo despindo o que da Corte me haviam levado, fui habitar para os bosques, onde via pouco as aves, as fontes, as flores, e mal os compassivos Pastores, que me socorriam mais do que eu havia mister, pois com a vida austera se curam os achaques da abundância; vestido de peles de brutos principiei a mudar o que tinha corrupta com as matérias da Corte; e refrigerando-me em uma fresca ribeira, curei a lepra; ou porque para curar o meu mal bastava tirar-lhe a causa, ou porque os Deuses para ocultos fins me querem vivo. Assim estive por aqueles desertos em paz, em quanto Anfiarau se não lembrou de me consultar sobre esta guerra, o que vos comunicarei na certeza da vossa prudência, e bom juízo; e se jurardes aos eternos Deuses, ficar imóvel, guardando o maior segredo a quantos vos descobrir. Crede (lhe respondeu Delmetra) que se preciso é, juro, e vos não culpo a cautela escusada, pois me não conheceis. Mandou Anfiarau (continuou Antionor) um confidente seu comunicar-me que o soberbo Ibério, seu confinante, lhe mandara propor, que se logo logo não fizesse conduzir com decência a seus Estados o grande Diófanes, Climinéia, e Hemirena, de quem se servia com soberba, e ultraje, havendo-se buscado tantos anos pelo Mundo com justa mágoa de seus vassalos, e amigos, passariam os seus exércitos a arrasar-lhe as praças, e assolar-lhe os povos; e suposto que havia lembrado o buscar-se aquela família por todas as Comarcas de Anfiarau, ainda que não havia indício algum de que vivessem em seus domínios; como aquela proposta acompanhava muita soberba, e falta de civilidade, haviam votos, que se aparecessem, se lhes cortariam logo as cabeças, e postas sobre as muralhas, iriam as tropas senhoreando-lhe as terras, e passando à espada quantos se lhe opusessem, pois só esta era a melhor resposta de tão injusta arrogância; mas que sempre queria ouvir as prudentes reflexões, que eu sobre este negócio faria, e vos repetirei o que me lembrar de uma carta, que no dia seguinte me escreveu.

“Esta é a ocasião, em que mais careço do teu conselho (me dizia), as tuas sábias ponderações me faltam para resolver com acerto. Já te fiz saber a arrogância do soberbo Ibério; agora te digo, que me fales com liberdade, e não te lembres de algum desabrimento meu, porque deste seria causa o desprezar do mal, que eu obrara, e não do bem, que tu me aconselhavas; porque sempre conheci que os príncipes interessam mais em um sábio, que na verdade é virtuoso, que em possuir mais um Reino; pois mais conservam os bons sábios com o conselho a República, que o aumentam os valerosos com o que conquistam; e agora vejo que os que tenho sobram para afligir-me, e para o conselho me faltam; porque vivendo muitos de os dar, os acertam muito poucos. Diz-me o que entendes, pois os Deuses te infundem o melhor, e me inspiram a ouvir-te.”

Eu lhe respondi: Estimo, Senhor, as mercês, com que a vossa grandeza me atende, no que me confiais; mas espero dever à vossa alta compreensão, que vos não ofenda em responder-vos, guardando as proporções à honra, com que devo obrar, pois é o mais alto bem da natureza, em cujas sagradas leis não têm império as Majestades, que sendo árbitras das vidas, e bens de seus vassalos, o não são só daquele, que a tudo o mais leva excelente vantagem. São grandes as conseqüências de um erro em negócio tão importante. Pelo que, contemplando na minha obrigação, e estado, em que me acho, só farei algumas reflexões, porque é justo o cuidado, que me dispensa de dizer-vos tudo o que entendo.

Os Monarcas da mais elevada prudência não receiam a guerra pelo que obrarão os seus exércitos, mas sim pelo que ordenará a fortuna, a qual não quer outro alvo para o seu cruel emprego, senão o que mais seguro se considera; porque a todos toma contas, e não as sabe dar a ninguém; nem se lembra dos vencidos, pois apura o seu rigor com os vencedores. Lembrai-vos de que os príncipes, que no Mundo houveram mais ilustres, mais nome tiveram por clementes, que por triunfantes, pois não há vitória completa, se não traz lances de clemência: porque o vencer é de humano, e o perdoar de Divino. Isto me lembra, Senhor, a respeito da inocente família, que onde quer que se acha, padece e não tem parte na soberba, de que tanto vos ofendeis: quanto mais, que usar de piedade, quando o rigor é incitado, aumenta a glória do generoso. Preparai-vos para as batalhas, tendo exércitos numerosos, e boas naus para as armadas; que poderá ser que isto baste para nos livrar da guerra; porque o Rei, que por mar, e por terra está pronto para ofender, e se defender, muitos concorrem para as suas satisfações, e alianças, pois que a todos serve a sua amizade, disfarçando algumas cousas, de que tomariam vingança, se o viessem enfraquecido. Não sei que contenha glória, valentia, ou razão o parecer de que se tirassem as vidas aos que mudamente padecem, quando na vossa, e dos vossos vassalos não só experimentaríeis os golpes da eterna justiça, como também as forças de seus súditos, e aliados. Eu morrerei sempre pela verdade, mostrando-vos com a razão que o sangue clamará, pedindo o castigo da tirania.

Também não é justo que sofrais ultrajes, que se opõem ao soberano culto da Majestade; mas antes que resolvais a castigar naqueles vassalos a imprudência de seu Rei, vede primeiro se lhes fizestes algum agravo, com que provocásseis a sua arrogância; porque o fazer guerra aos homens algumas vezes ensina a honra; mas o fazê-la à justiça é loucura: e se justamente sois queixoso, eu me persuado que fazendo saber o Mundo a vossa ofensa, depois de bem preparado para castigar a Ibério, este vos há de satisfazer, alcançando da sua indiscrição, admirado, e corrido da vossa moderação. Com este arbítrio se aumentará a vossa autoridade, respeitando-se a vossa clemência, e temendo-se o vosso poder, sem que se arrisquem os vassalos, nem estes passem pelo susto do vosso perigo; pois sabem quanto é difícil o conseguir num bom Príncipe; e que se as suas vidas se comprassem, muito dariam os Assírios pela de Belo, os Persas pela de Artaxerxes, os Troianos pela de Heitor, os Gregos pela de Alexandre, os Lacedemônios pela de Licurgo, e os Cartagineses pela de Aníbal, e que mais se devem reverenciar os sepulcros destes, que os palácios, que os maus habitam. Enfim, Senhor, eu me vejo perplexo para responder-vos: e mereça-vos o desvelo, com que vos hei servido, o livrar-me de tão grande embaraço, porque para aconselhar-me é preciso fazer muitas reflexões: e há ocasiões, em que é mais conveniente pegar nas armas, que esperar pelo conselho; quanto mais que para este em matéria tão importante é preciso prudência, bom juízo, lição, ancianidade, e desinteresse. Algumas circunstâncias destas se podem achar em mim; porém como me faltam as mais precisas, não levareis a mal a minha escusa, e receio, pois pelo que já os aconselheis, creio estar hoje entregue ao conhecimento, e ódio das gentes; e só vos digo que resguardareis as regalias do trono, de que são custódios os soberanos: e juntamente vos lembre, que o tirano põe o seu direito nas armas para fazer crueldades, e senhorear o alheio, e o Rei justo na Lei para castigar só os delinqüentes, conservar-se, e pedir o que se lhe deve.

Com estas, e outras semelhantes palavras dei fim à minha resposta; e como os meus inimigos temiam que esta ocasião novamente me introduzisse com Anfiarau, quando se rompeu a guerra, lhe disseram que seria mais conveniente que eu viesse para aqui para observar, e o avisar das desordens, que houvessem, porque o viam inclinado a levar-me em sua companhia para as fronteiras, onde se acha; quando me chegou o aviso, chorei com os cristalinos regatos, suspirei com as aves, despedi-me das flores, queixei-me dos montes, que se não abriam a esconder-me das gentes; e perdendo a sombra dos bosques, triste, confuso, vacilante troquei o vestido, que me curou, por este, que talvez me acabe a vida. Delmetra aflita disse: E tendes notícia que se busquem os que são a causa da guerra? Não (lhe respondeu Antionor); mas estou certo que os Deuses têm a sua conta o livrá-los das mãos da tirania, porque são obrigados a defender a inocência; se acaso tiverdes alguma notícia, não os façais conhecer, mas antes será justo avisá-los, para que se ouvirem falar de si, estejam tão advertidos, que os não acusem os semblantes, ou algum intempestivo retiro. Não sei, nem saberei, onde vivem, (respondeu Delmetra) ainda que muito os tenho ouvido nomear; e tomara saber qual foi a razão, por que Ibério tomou tão grande parte no que experimentavam? Entende-se (lhe respondeu Antionor) que faria liga com o príncipe Arnesto, quando saiu a buscar Hemirena, com quem estava desposado. Delmetra não podendo reprimir um efeito da sua pena, se banhava em lágrimas; e querendo disfarçar o que sentia: Não sei (disse) como Anfiarau em tal ocasião se deixou persuadir dos teus contrários. Antionor por lhe consentir o desafogo, passando pelo reparo das lágrimas, que bem entendia, lhe respondeu: Buscaram Armelinda, que era uma dama perniciosa, a quem o Rei por sua beleza, e vivacidade atendia; não lhe lembrando que os homens, que seguem os passos de tais mulheres, os dão para as suas ruínas, contentes de seu engano; porque quando entendem que os amam pelos dotes da natureza, elas só lhes estimam as generosidades; e assim livres das cruéis cegueiras do amor, os enganam, escarnecem, e entregam.

Mas reparo (lhe disse Delmetra) que muitos dos que dão remédios para os que amam, jamais souberam curar-se. Eu não falo (lhe respondeu) nos que lícita, e reciprocamente se amam, sim nos que primeiro se perdem inteiramente, que conheçam o fingimento, com que são enganados, podendo inferí-lo de que os tratem com mais carinho quando mais recebem, ou muito pedem: assim Armelinda foi obrigada com dádivas a dizer a Anfiarau que se compadecia do estado, em que me considerava; porque se eu fosse chamado para a Corte, seria entregue aos meus inimigos com grave perigo da minha vida; e se ele me levasse em sua companhia, também não era menor o risco, porque se ajuntaria matéria para o fogo, que se havia atalhado com o meu retiro; mas que se condoía de que estivesse fazendo vida tão áspera, sem mais causa, que amar a verdade, e desejar os acertos do Soberano. Anfiarau dizem que ficara triste, e pensativo, por lhe não ocorrer o remédio, ou a providência, que se devia dar em ocasião, que necessitava servir-se de mim. Armelinda, que com lágrimas havia acompanhado as suas ponderações, fingindo que lhe ocorrera meio próprio, e conveniente, disse, que me mandasse conduzir a este porto para o avisar de tudo o que se passasse, não chegando à notícia das gentes, que eu viera mais do que curiosamente. Este enredo, e outras mais circunstâncias dele me contou Balênio, criado de Armelinda, que para aqui me acompanhou, a fim de ir ganhar alvíssaras, quando levasse a certeza de que eu aqui ficava; desta sorte se traçavam os enganos da Majestade, que entendia assistir naquele coração, em que só tinha lugar o interesse.

Esta é a menor parte de meus trabalhos, e a que vos posso comunicar; e como não sei se me dilatei mais do que devia, perdoai o incômodo, e permiti que eu me retire, e em outro dia me contareis o que aqui vos trouxe com a mesma pureza com que eu vos disse os meus passos. Delmetra não consentiu que se retirasse, dizendo, que repartiriam entre si o que as serranas para ela houvessem reservado. Antionor aceitou a inocente oferta; e conhecendo-a melhor do que era conhecido, se sentia arrebatar de gosto, e consolação. Foi Delmetra a casa; e tomando o que lhe estava reservado, buscou algumas frutas, e preveniu o mais, que era preciso para hospedar Antionor, que não achara menos a Corte, e grandezas de Tebas, pois o servia Delmetra, que com o inocente asseio das serranas fazia competir o prazer de Antionor, e a sua tão pobre, quanto sincera vontade. Não lhe deu manjares delicados semelhantes aos que lhes haviam servido em Tebas, mas sim dos inocentes, em que não periga a saúde, compunha-se finalmente o jantar de ervas, frutas, leite, e favos de mel. Agora vejo (lhe disse Antionor) qual é o gosto dos que com alegria comem; porque estes manjares, que me permite a vossa bondade, me são mais saborosos, que os delicadíssimos, que de sua Real mesa me fazia participar Anfiarau, quando me havia recomendado o acautelar as desordens de seu Reino. Dizei-me: como vieste dar a estes domínios? Pois creio que sois de país distante, pelo muito, que vos queixais da fortuna. Tenho jurado aos Deuses (lhe respondeu Delmetra) não revelar todos os meus infortúnios, e só te digo, que têm sido tantos, que a vida já me é pesada, porque o meu cruel destino, retirando-me às grandezas, me entregou a crueldade dos bárbaros; pelo que fugindo das gentes, habitei as brenhas, fiz sociedade com os brutos, que me fizeram melhor companhia, que me haviam feito os racionais, e persuadia deixei as feras, que haviam sido compassivas, como se entendessem, que se deve ter compaixão de quem perseguida de todos busca abrigo debaixo das pedras.

Acompanhei a Belino, que com semelhante fortuna me havia encontrado entre os rochedos. Chegamos a Esparta, onde por ignorar um estilo, foi entregue aos trabalhos de Militar, e rapidamente o negaram à minha companhia: vendo aqui só a vê-lo; para a mesma Cidade, e deixar a alegria destes montes, onde não obstante as vizinhança da guerra, eu sentia o espírito em paz; e se houvesse acaso tão venturoso, que me confiasse aqui a companhia de dous sujeitos, dos quais há muitos anos que ando ausente, sem mais esperanças, ou alívio, que o permitem os tristes suspiros, e lágrimas ardentes, com que infelizmente lhes sacrifico a mais viva saudade, eu me retirara consolada, pois maior felicidade não espero, nem desejo; mas como com duplicados pesares me desengana a minha cruel fortuna, e poucos dias me restam de aqui estar, porque está acabado o tempo, em que prometi retirar-me, será preciso que o alívio de ouvir-te principie a despedir-me. Assim esperava Delmetra tirar uma última prova, com que totalmente desenganasse a sua quase perdida esperança, pois a desanimava o parecer-lhe, que aquelas poucas semelhanças, que a inquietavam, eram aqueles doces enganos, com que sempre sonha o desejo.

Que pode obrigar-vos (lhe disse Antionor) a voltar tão apressadamente a Esparta? Não me obrigam os parentes (lhe respondeu), porque dos que vive só conservo as imagens na memória para instrumentos da minha mágoa. Não me levam as amizades; porque como é difícil conhecer as verdadeiras, vivo conforme a vontade, que de todas me separou, porque não fosse enganada; não me chamam os bens, porque tenho experimentado que o maior de todos é depois de os possuir perdê-los com igual semblante; nem me levam negócios, ou dependências, porque depois da desgraça de perder tudo, tenho a felicidade de não desejar cousa alguma, conhecendo que é mais importante servir aos Deuses no estado, que eles determinam, pois são as felicidades uma vaidosa lisonja do tempo, que tem pronta a vontade para descuidos, e loucuras, sendo de todos bem aceitas, enquanto não tem inteiro conhecimento ou do pouco, que duram, ou do muito, que é estreita a vida para possuí-las; e ainda que estas, enquanto não chega a morte, pintam a vida com as mais agradáveis cores, apenas os dias se terminam, mostram entre sombras, que as que foram estátuas para idolatrias, se transformam em obeliscos para sentimentos, sendo igual ao peso de como se possuíram a dor penetrante de as deixar; pelo que vou só cumprir a palavra, que é todo o bem, que me abona, porque esta não só obriga aos homens, pois ainda que estes ordinariamente a sustentam para resguardo de seus interesses, não há entre eles, e as mulheres mais diferença, que terem eles mais forças para o trabalho, e campanhas, sendo tão dissolutos em suas ações, que já se lhes dispensou o reparo público, e elas naturalmente dóceis, compassivas, mais sujeitas a encargos, e mais fortes, e constantes na modéstia. Antionor, que a ouvia com gosto, sentindo o despertar da sua ausência, lhe rogou não apressasse tanto a sua partida, e ajustou tornar a vê-la no dia seguinte. Delmetra ficou sentindo de cada vez mais viva a sua saudade; e sem poder averiguar a verdadeira origem daquele excesso, dizia aflita: Qual é a causa da nova revolução, que dentro em meu peito sinto? Eu não tratava o racionais, e por isso os não amava? Mas não pode ser este o motivo, por que eu já havia tratado outros, e mais me inclinava a temê-los, que a amá-los. Pois qual é o incentivo deste afeto, que me prende, para não continuar os passos do acerto? Será a semelhança, que nos trabalhos tenho com Antionor? Também não, que de perseguidos está o Mundo cheio, e eu jamais me via arrastar tanto do afeto, como agora me vejo, mas eu também amo intimamente a Belino; porém com os seus trabalhos tem mais conexão os meus infortúnios, e somos companheiros. Ah que se os meus anos não fossem a melhor prova do inocente amor, que sinto, com razão me disputara sossegos o decoro!

É certo que Vênus, e Cupido só admitem moços, que os sirvam, liberais, que dispendam, néscios, que sofram, discretos, que falem, prudentes, que calem, fiéis, que agradeçam, e constantes, que preservem; em mim não há circunstâncias alguma destas, e sei que amo puramente a Antionor. Que juízos formaria eu, se visse entre os perigos dos poucos anos crescer tanto a violenta paixão do amor entre sujeitos estranhos? E que mal consideram as gentes, que dos interiores só podem julgar bem os Céus, que sabendo qual é o risco de ajuizar pelo semblante a culpa do coração, só para si o reservaram, pois ao mal muitas vezes oculta um aspecto agradável, e o bem debaixo de um melancólico semblante se aborrece; é certo que as virtudes são costumadas a desmentir sinais. Oh quanto são errados algumas vezes os juízos, que se formam pela estreita amizade dos sujeitos! Ave inocente, que em teu suave canto passas de um a outro raminho, gozando felizmente a fresca tarde, e os cândidos orvalhos da bela Aurora, sem que o teu amor perturbe o teu descanso; fonte cristalina, que murmurando corres, ameno prado, monte alegre, bosque sombrio, e belas flores, quando vos vereis, sem que as lágrimas contínuas tirem a luz aos meus olhos? Consorte amado, queridos filhos, Belino, Antionor, ai de mim! que estrela cruel é a que sempre vai acrescentando mais causas para o meu mal? pois parece que a suave convivência das gentes degenera no meu tormento. O Júpiter poderoso, se nessa esfera luminosa tendes poder nos Deuses, e o orbe estremece com os finais da vossa vontade, como não amparais uma infeliz, que noa acha lugar no Mundo? Mandai que Minerva, como parto da nossa cabeça, e em vós mesmos gerada, encaminhe os meus passos, como já fez, livrando aos bons mortais. Eu amo em Antionor as virtudes, que nele resplandecem, e não sou nesciamente, como Narciso era de si namorado, ainda que ambos somos estímulos da desgraça, e muito semelhantes na desventura; mas em tudo quanto vejo, e quanto alcanço, encontro desassossegos, pesares, e cuidados. Não receio que tenha o filho amado nas brenhas a cruel morte de Adonis, mas sempre o choro, contemplando nas suas cinzas frios despojos da sua vida. Esposo amado, se descansarás, nesse ditoso Olimpo, ou andarás pelas brenhas, como Alcides, devorando as feras? Querida filha, a que extremo te haverá chegado a crueldade das gentes? Se te lembrará que te adverti valerem mais os créditos da modéstia, que as posses de todo o Mundo; e que antes que perigue o decoro, convém primeiro acabar a vida, em que são contínuos os combates, a que ordinariamente é sujeita a formosura e discrição, ainda quando resiste às lisonjas com discreta, e prudente vivacidade, e que mais grata se conserva, e zomba do tempo, que intenta o seu deslustre. conservando a singela moderação, que sublima a beleza, e esforça o coração para as virtudes, pois o não admitir muitos adornos da vaidade, é repreender as que se fazem escarnecidas, fugindo com eles nas asas do tempo; e se acaso te esquecem, querida filha, os meus documentos, e deixas de servir a Diana, sejam destruídos pelos seus servos, que castigaram a Acteon, os instrumentos do teu desassossego. Ai de mim! onde ficou a tranqüilidade, com que eu gozava a sociedade dos meus? Onde está a que então era, e onde veio a que hoje sou? Com quanta mágoa se haverá lamentado em Tebas o meu trágico fim? Quem lhes dissera o estado, para que éramos destinados. Amado consorte, eu quis crer que te via, porque sempre a imaginação representa aquele bem, que te deseja; mas fui como o triste, que se acaso alguma vez sonha lances de alegria, quando acorda, mais chora o mal que sente. eu sonhava que te via, para renascer de um engano mais viva a mágoa de perder-te; mas se acaso hás passado a gozar o descanso imenso, mereça-te o ardente amor, que te consagro, que atraindo a ti este espírito atribulado, acabem as lágrimas de tão dilatada separação, e seja eu conduzida a ver-te entre os descansos.

Com estas lastimosas vozes parecia que Delmetra desafiava a compaixão dos mesmos irracionais no desconcerto, com que ora se lembrava de uns, ora de outros, tornando outra vez àqueles mesmos, mostrando assim que a memória lhes ministrava de cada vez mais de que magoar-se; e recolhendo-se a casa se lhe descontaram as horas de alívio pelos risos, com que as paisagens ou zombavam de sua ociosidade, ou sentiam mal de tão larga conversação; mas como não achava em si que acautelar, fez não as entendia por se não privar do último alívio, que só esperava ter no dia seguinte.