Aventuras de Diófanes/V

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Aventuras de Diófanes por Teresa Margarida da Silva e Orta
Livro V

{{d|Sumário

Hemirena como Belino busca repetidas vezes a Climinéia, que tinha por Delmetra; e como o ódio não sabe descuidar-se para fazer suas presas; prendem a Diófanes, e Climinéia por traidores; foge Climinéia da prisão por indústria de Hemirena; e a Diófanes o permitem seus inimigos, que o mandavam ao suplício, por temerem as averiguações da verdade. Hemirena salva de um naufrágio e Climinéia, e a Arnesto, que com disfarce saíra a buscá-la; e continuam a caminhar para a pátria, sem se conhecerem, fugindo sempre aos inimigos da virtude, que por todo o Mundo andam dispersos.}}

Cantavam docemente as aves, festejando a Aurora, quando Delmetra, não obstante o que se lhe havia dado a entender sobre a conversação de Antionor, saiu buscando o benigno Zéfiro, que com a fragrância das flores conciliava alívio a seu triste coração; foi ao lugar do dia antecedente, e toda a manhã esperou com susto, e cuidado: voltou a casa a buscar alguma cousa, em que se ocupasse, porque abominava na ociosidade a primeira origem de vícios; e chegando Antionor, fizeram tréguas as suas apreensões. Bem sei (lhe disse) que estaríeis persuadida a que eu vos faltaria, pois vos vejo tanto de assento neste lugar; e ainda que tardei por vos diminuir o incômodo, perdoai-me, se julgais culpada a minha atenção. Seria ,ais sensível a demora (lhe respondeu Delmetra) a não estar eu costumada a negar-se-me todo o gênero de alívio; e como este é estimável pelos documentos, que tiro da tua conversação, será justo o meu pesar, quando me falte.

Estando nestas palavras chegou Belino, a quem o afeto obrigava a usurpar ao descanso as horas, que podia tomar, para que visse a Delmetra: passaram os três com grandes contentamentos o resto da tarde, Antionor perguntando a Belino, donde era. Não te direi donde sou, (lhe respondeu), porque basta que te diga, que nasci como um monstro, a quem a mesma natureza parece que desprezou, porque conjurando-se com a fortuna contra mim, me entregaram aos mais cruéis contratempos: fui usurpado aos meus, e perseguido dos estranhos; mas achei um coração tão nobre, que movendo-se à compaixão de tantas perseguições pelo mesmo, que me favorecia, entendo que experimentou o duro golpe da morte, e que fiquei assim como alma eterna para sentir, com razão imensa para chorar: fugi das gentes, e encontrei com os encargos Militares: e é tão igual a minha desventura, que não fazendo tréguas os meus pesares, conservo a vida para contínuos combates da desgraça. Antionor vendo como o gentil soldado deixava cair algumas lágrimas, a que acompanhavam as de Delmetra, com grande compaixão o consolou; e como os retiros do Sol anunciam os pertos da noite, se despediram ambos de Delmetra, que determinando fazer no dia seguinte a sua viagem, se recolheu à casa de cada vez mais triste, e saudosa.

Como o tempo da guerra é favorável para os desgraçados, a quem domina o espírito de vingança, os inimigos de Antionor, que se não descuidavam em excogitar meios para a sua ruína, sabendo que havia ido àquele lugar, e que se apartava largo tempo a comunicar Delmetra, o acusaram por suspeito de inconfidência. Na madrugada daquela mesma noite, dando repentinamente em casa dos paisanos, que haviam concorrido para tanto mal, pelo que murmuraram os seus reparos, prenderam Delmetra, que foi levada a um cárcere privado, e na mesma hora foi preso Antionor, não porque entendessem haver nele culpa, nem porque assim o pedissem as cautelas da guerra, sim porque com a sua última ruína conseguiam os maus a sua vingança, e outros ficavam livre de seus justos arbítrios. Deram conta a Anfiarau, que era fácil em crer, e transformar em ódio o afeto: o que ordinariamente consegue a maldade das gentes, quando se não descuida de recomendar a fingimentos, e enganos a ruína de seus próximos; mandou o Rei, que uma esquadra o acompanhasse até a Corte, onde vistas as provas da sua culpa fosse justiçado: chegou com aplauso de seus inimigos, e justo pranto dos que conheciam, e amavam as suas virtudes: determinaram logo tirar-lhe a vida, sem mais culpas, que o haver estado em conversação particular com Delmetra, que sabiam era mulher estrangeira, que não declarava a sua nação, e a quem falava largo tempo, e com cautela; e ainda que Antionor dizia o que continham os seus discursos, não lhe admitiam estas confissões, nem queriam dar crédito ao pouco, que lhe ouviam. Ao quinto dia de sua prisão foi avisado de que no seguinte iria ao suplício, para o que se dispôs com incrível ânimo; e vendo na sua fatal desgraça ser a desonra mais cruel, que horrível a morte, porque se nesta esperava os descansos, na causa sentia uma dor intolerável, e perdendo o acordo dizia: o tiranos, que perseguis a verdade, se intentais matar-me, não percais a ocasião de fazer bem a um desgraçado; aqui estou não invulnerável, como o forte Aquiles, pois tendes em meu peito o lugar mais pronto para as feridas; não demoreis os golpes da horrenda vingança, pois não sou invencível, como o Grego Alcides; mas se quereis matar-me com desonra, não poderá tolerar esse golpe o grande Diófanes, pois já vos confesso haver corrido a tormenta dos mais cruel destino, a qual me entregou aos bárbaros, que me venderam; e sabendo estes quem eu era, e que o príncipe Arnesto me buscava, receiando as circunstâncias deste caso, se o segredo se descobrisse pelo mesmo capitão, que me cativou, davam importante prêmio a quem me tirasse a vida, o que disseram se executara com os poucos, de que tiveram notícia, e que existiam da minha comitiva, crueldade, de que só reservaram o marinheiro, que lhes descobriu quem eu era; e como para maior infortúnio me reservou o fado, não se animando Pafo a fazer aquela impiedade, me ofereceu ao serviço do Rei; e ignorando a razão, por que intentavam matar-me pediu que me ocupassem fora da Corte, onde bastaria a proteção da Majestade para me defender daqueles contrários. Padeci mil infortúnios, sofri os contrastes, a que me sujeitou a maldade dos homens, não tendo alívio na mágoa, com que me lembrava da crueldade, que experimentaria minha amada filha, que havia ficado em casa do mesmo indigno capitão e igualmente havia chorado a desgraça da consorte, que é essa a quem chamais Delmetra. Não me foram insuportáveis os enredos, com que fui perseguido, nem as falsidades, com que já em outro tempo me culparam; mas não poderei tolerar, que me tireis a vida, padecendo o meu crédito: porque o sagrado culto, que se lhe deve, defenderei até o último instante, que tiver este alento que respiro, pois nasci recomendando-se os brazões soberanos de meus antigos; e sou ilustrado, para que minhas ações resguardem as glórias de seus nomes, o que consiste em não consentir manchas na honra, e grandeza de ânimo, me temer só aos céus, em amparar os perseguidos, e valer aos inimigos.

Eu não sei alterar a paz, nem perturbar a posse dos Monarcas, pois o defendê-los é o primeiro encargo da mais ilustre nobreza; eu estou inocente no que falsamente me impultais, se intentais matar-me, torno a dizer-vos, que espero sem susto a morte; mas se cuidais destruir o que só conservo de meus antigos predecessores, acabarei inseparável deste lugar, lutando convosco, ó bárbaros, que determinais dar-me, afrontosa morte, pois sei que primeiro se deve entregar a vida, que conspirar contra um Soberano, e que mais que o Rei só a honra se reguarda, e assim vede o que determinais; e sabeis que a minha consorte Climinéia ignora que em Antionor se oculta Diófanes, pois eu conhecendo-a, lhe não revelei o segredo, por lhe não duplicar os sustos, e cuidados, a que dava causa a maldade dos que me perseguiam; e não creiais que vos digo quem sou para negar-me à morte, pois buscáveis a Diófanes para lhe tirar a vida, mas sim para justificar a minha inocência, pois pelo mesmo, que descubro, intentareis fazer corpo ao delito, que não tenho; os justos Deuses, que me assistem, punirão a vossa crueldade, e se justificará ser bem nascida a resistência, que farei por não morrer, como vil, obrando sempre como Soberano.

A estas vozes de Diófanes não davam atenção alguma, dizendo serem sutilezas, com que esperaria, que o mandassem passar para o inimigo com a capitulação da paz. Estando já com poucos horas de vida, chegou um aviso de Anfiarau, que movendo-se aos clamores do povo, ordenava que se não justificasse, sem que fossem à sua presença as provas de seu delito. Com esta impensada novidade ficaram os malévolos cheios de susto, e terror; uns diziam, que se lhe desse veneno, outros lembravam o perigo de ser conhecido, e enfim assentavam, que só lhe seria conveniente dar-lhe lugar a fugir, o que com grandes despesas conseguiram; e como Diófanes não era sabedor do aviso de Anfiarau, logo que da prisão foi ajudado para a fuga, por mãos, que fingiam piedade, cuidou em retirar-se com pressa, e cautela. Neste tempo se achava Delmetra no cárcere privado, a fim de dizer o que o que continham as suas conversações, sem que fosse possível darem crédito à verdade, que lhes confessava; e como lembrasse que na última tarde lhe assistira também o soldadeo Belino, e crescia a curiosidade de investigar-se aquele segredo, concorreram os bem intencionados, para que se fizesse algum gênero de careações, para o que foi levado a um aposento vizinho ao em que estava Delmetra, e pela justiça lhe eram determinadas as perguntas, sem que houvesse incoerência alguma, que acusasse Delmetra, que ultimamente perguntou, se sabia o que era feito de Antionor? E ordenaram se lhe respondesse, que fora logo preso para a Corte, e que vendo-se condenado à morte, declarara ser o grande Diófanes, que sendo cativo pelos bárbaros, estes tiraram as vidas à mais gente de sua comitiva, pelo que também passara Hemirena, sua filha, e que isto descobrira, para que por outro motivo o matassem, porque os homens bem circunstanciados primeiro davam as vidas, que deixavam de ser fiéis aos Soberanos; e com ele se achava experimentando os rigores da mais baixa fortuna, só estava em estado de antepor (como príncipe, e bem morigerando) os resguardos da honra aos da vida; pelo que não o veriam ir ao suplício, como réu infame, vil, e indigno, pois em todo o evento era grande tão soberano, como infeliz. Qual foi o fim de tão cruel injustiça? (perguntou Delmetra). Que àquela hora seria morto (se lhe respondeu). A estas palavras rompeu aflita com o mais triste pranto; e sufocando-se em lágrimas, dizia:

Como será possível que eu possa tolerar este golpe maior que todos? O inumanos, qual foi o poder, que vos deu a tirania para me usurpares o que me haviam confiado os Deuses? Ai, amado consorte, eu temia amar em ti uma pequena sombra tua, e agora vejo que o mudar a vida, e descansos dela, destruiu a galhardia ilustre de teu amável semblante, e que eram em mim os receios delírios do gosto; e quem senão tu, falaria com tanta erudição, e certo? Como, ó Ministros do triste Reino de Plutão? deixas de tirar-me este pequeno resto de vida, que me deixaste? Confortem-me os Céus benignos ou me sepultem os montes.

Belino, que até ali ignorava o que se havia descoberto em Antionor, sabendo tão importante novidade, deixava cair de seus olhos infinitas lágrimas; os circunstantes se retiraram certos na inocência dos consortes; mas como a inveja, e ódio maquinavam estabelecer os seus enredos, disseram a Belino, que não destruísse a sua boa opinião em lastimar-se daquele pranto, porque os soldados valerosos se distinguem pelo sangue, que mostram, e os cobardes pelas lágrimas, que choram; e que se era Delmetra mulher de Diófanes, não provava a sua inocência, mas dava mais força para a suspeita do seu delito, e que brevemente veria executar em Delmetra a mesma sentença de Diófanes, ou Antionor. Ouvindo estes opróprios contra a verdade, imaginava Belino traças para valer a Delmetra; e aquela noite introduzindo-se com um servo daquela casa, que parecia compadecer-se do lastimoso caso, havendo-lhe observado os sentimentos, lhe rogou o encaminhasse para valer àquela infeliz, que perdeira a vida inocente; e como a boa persuação tem grande poder, e acode ó Céu com prodígios aos corações sinceros, conseguiram ambos mover o ânimo a Barnaxe, a quem estava recomendado o resguardo, e cautelas da prisão, para que na noite seguinte dessem liberdade a Delmetra, o que executaram com felicidade. O resto da noite caminharam com a pressa, que pedia o caso; e continuaram a ordem de caminhar de noite, e descansar de dia. Saindo daqueles domínios já iam com menos susto, sem que em todo aquele tempo deixassem as lágrimas de dizer a mágoa, com que lamentava a morte de Antionor. Uma noite (pela decadência de forças de Delmetra) tomaram o acordo de pedir agasalho a uma Pastora, que as recolheu para uns currais de gados, a qual era tão pobre, quanto generosa, e com incrível agrado as rogou, para que ali se demorasse, oferecendo os seus cabritos, e cordeiros.

Determinando Belino conciliar algum alívio à magoada mãe, lançando-se-lhe aos pés, rompeu nestas palavras: Senhora, e amada mãe da minha alma, não dura a desgraça mais do que em quanto não chega ao último grau, a que fomos reduzidas, eu sou a vossa filha Hemirena, os infortúnios me obrigaram a usar deste vestido, eu vos não conheci até o dia, que na prisão vos falei, e assim também ignorava quem me ocultava Antionor. As últimas desgraças de meu estimável pai me mostraram as luzes, que em vós escondiam as impressões de tão calamitoso tempo, tendo juntamente por certo que já ambos descansavam em Tebas; e quando nele choro a maior de nossas infelicidades, alcanço para consolar-me a fortuna de beijar-vos a mão.

Delmetra absorta com o gosto de ver ressuscitada a filha, que havia chorado morta, e com a mágoa do trágico fim de seu consorte, emudeceu sem saber resolver se era sonho, ou realidade o que ouvia, até que o gosto mesclado com a pena que decidiu a questão com um mar de lágrimas, a que correspondiam os apertados laços, e alegre semblante. Que nova primavera (continuou Belino) é a que em vós vejo, pois como o sol, e chuva ao mesmo tempo acompanham tantas lágrimas a vossa alegria. Como é possível (respondeu Delmetra) que eu possa explicar-te o que sinto, ó filha querida, se ainda estou duvidando, que para mim se guardasse um prazer tão grande? Que dissera que a dura mão, que desuniu de Antionor o feliz espírito de Diófanes, viria a mostrar-me a suspirada filha! Mas tu não és Belino? Sim, que a Hemirena já sepultou a crueldade dos bárbaros. Não zombes de mim, gentil mancebo, que eu te amo desde o primeiro dia, que teus infortúnios te mostraram aos meus olhos; e se tantos excessos devo à tua compaixão, para que me escarneces? Bem sei que as desordenadas ações, a que me obriga uma dor violenta, te poderão segurar a minha loucura, e esta desculpar as tuas graças; não te admires de ouvir-me, admira-te de que eu vivia, quando recebo golpes no coração. Levanta-te Belino, que te suspende? E reparando mais nele, e temendo alguma traição, continuou: Qual é a causa dessas lágrimas? Oh infeliz! não sei que sinto, que a cada instante me anuncia o temor novos trabalhos. Que crueldade te infundiria a maldade dos homens? Que me acode? Ai da mim! Não vos alieneis, Senhora (respondeu), com o que vos parece dissimulação: não deis vozes, temendo que eu seja algum traidor, que como me destes o ser, eu devo defender-vos à custa da própria vida. E possível que tal conceito façais de Belino? Como vos esquecem as qualidades, que dizeis haverem em mim, e em que tanto confiáveis? Estas palavras ouvia Delmetra com tanta atenção, que espantados os olhos, com o rosto pálido, e toda trêmula, ainda temia que ali executassem alguma tirania por mãos daquele mesmo, de quem tanto se fiava; pois ouvira, que se aparecessem aqueles, por quem se fazia a guerra, se lhes tirariam as vidas. Vós me haveis chorado morta, (continuou Belino), essa chaga quase havia curado o tempo; e que maior anúncio para novos cuidados vossos, que a vida, que eu ainda conservo. Lembrai-vos que me leváveis desposada com o príncipe Arnesto para assistir aos seus jogos; que o vosso primeiro filho caiu ferido no mar, que o sepultou; que eu fiquei desmaiada no porto dos bárbaros; que me recomendaste o conservar a candidez do decoro, e tivesse constância nos trabalhos; que eram muitos os da comitiva, com que saímos de Tebas. Basta, basta, (respondeu Delmetra, mudando inteiramente de semblante, e ações) filha minha, já vejo que assim como a muita alegria mata, eu saí do letargo de um prazer desmedido com os delírios de aflita. Graças aos Céus poderosos, que chega a bonança de tão larga tormenta, e se alegra o coração, em que só tem achado lugar há quatorze anos mágoas, sustos, horrores, e saudades. E possível que te vejo? Sim, que já vou descobrindo os vestidos da tua formosura, que escondia o traje, e ocultava a indústria. E possível que chegas a ser restituída à minha companhia? Já não temo os poderes da fortuna inimiga, pois me conforta para mais combates um alívio sem igual. Mais ai (dizia, mudando de cor, e deixando cair os braços, que apertavam a filha; a qual com susto receiava que aqueles intervalos fossem princípios de loucura.) Ai, consorte adorado, (continuava) como pode ser inteira a alegria, de quem foi a origem da tua injuriosa morte? Ah, que na vida de um infeliz sempre se alimenta a desgraça, se acaso impressa na alma não é com ela sem limite! Senhora, (lhe disse Belino) chegou a nossa desventura a dar os últimos passos, cheguemos também a dar as últimas provas da nossa resignação; e venham sobre nós os montes, ou se abra a terra para tragar-nos, e não se perca um escrúpulo de constância, para tolerarmos com fortaleza as eternas determinações; e acabam as lágrimas, porque o prosseguir no desafogo é querer a debilidade apressar os descansos com a morte; a minha dor e a medida da vossa mágoa, eu sei sentir as infâmias, como quem de vós nasceu: mas também conheço que o vencer as paixões é o triunfo mais ilustre: e pra buscar-vos alguma consolação, ouvi, Senhora, o que me há sucedido, e conhecereis que não há mal tão grande, que não possa haver outro maior; e refleti nos perigos, de que resguardam as Estrelas, para lhe serdes grata em moderar o vosso pesar.

Já sabeis como fiquei entregue aos bárbaros naquele cruel combate da desgraça, onde a perda dos sentidos eram bloqueios, com que o destino quis mostrar vencida a minha constância. Quando se me restituíram, as lágrimas eram contínuas; sem igual o medo, e inexplicável a dor, pelo que nos havia sucedido; continuamente chamava por vós, e só repetiam, como ecos da minha saudade, os magoados suspiros; as mulheres me maltratavam, os homens se compadeciam de minha aflição, e cansaço, pois eu fui destinada a trabalho grosseiro; mas como em cada hora ouvia repetir no meu coração os vossos documentos, não me afligia tanto o aborrecimento das mulheres, quanto me atormentava a piedade dos homens; e também observei fazerem-se elas escarnecer pelo muito, que falam, e pouco, que sofrem, sendo que pelo calar se amam, e pelo sofrer se veneram. Pelas contínuas desuniões, que haviam a meu respeito, entre os homens, e mulheres daquela casa, em que fiquei, me venderam a uns forasteiros, que me levaram a Atenas, e me ofereceram ao serviço da princesa Beraniza. Foram tantos os favores, e estimações, a que me chegou o agrado daquela Heroína, que eu já não sentia mais que os trabalhos, e ausência dos que me haviam dado o ser, e que tivesse aquela felicidade tão desgraçado princípio, que perdia de vista as em que eu havia nascido. Beraniza vendo-me sempre triste, instou, para que lhe dissesse a causa; e ainda que eu não tinha certeza do que ordenaste em a nossa separação, me determinei a comunicar a minha pena, pedindo a liberdade de meus progenitores, a qual as princesas Beraniza, e Argenéia pediram ao Rei seu pai, e com os sinais, que eu de vós dei, se passaram ordens para vos buscarem, e que com toda a decência fosseis restituídos ao nosso país, comprando-se a vossa liberdade, ou tirando-vos violentamente, onde quer que o impugnassem, e que fosseis conduzidos por mar, ou por terra, onde determinásseis, com a grandeza, e fasto, que pediam tais pessoas. Mas qual foi a razão, que tiveste, (perguntou Delmetra) para não pedir também a tua liberdade? Não foi outra (lhe respondeu) mais, que não querer Beraniza separar-me da sua companhia; e suposto que me ofereceu mandar-vos levar aquela corte, onde fosseis tratados com o maior esplendor, eu o não admiti, porque só quis conduzir-vos ao trono, porque distante dele sempre ficáveis sujeitos às contingências do tempo, e assim me sacrifiquei a servir toda a vida, porque não houvesse alguma ocasião, que vos disputasse o descanso, pois o não pode ter quem vive sujeito em Corte estranha, havendo nascido para faze-la em domínios próprios; assim determinei que a minha saudade incurável remediasse o pranto dos que talvez vos choravam morta, lembrando-se de vos ouvir dizer, que era nobreza de ânimo o arriscar o descanso próprio a favor do sossego público. Com esta razão vos consideravam no estado, que haveis perdido; e quando se me representavam os aplausos, com que seríeis recebidos na minha suspirada pátria, a alegria, que em todos me pareciam ver, me obrigava a banhar em lágrimas de gosto, e ternura, e na pena, que me restava daquele bem, que eu jamais lograria, só me animava a inocente vanglória de haver cumprido com os preceitos de minha obrigação; porque assim como devemos o ser aos pais, somos obrigados a tolerar todo o trabalho, que conduz para mais os honrar, Beraniza era sumamente agradável, tinha excessiva graça, desgarre, e afabilidade para com as gentes, e tão sabiamente ligava a estas amáveis qualidades o ânimo varonil, e os Reais pensamentos, que nos negócios políticos daquele Reino, e dos estranhos não se determinava cousa alguma, sem que o seu parecer aliançasse os acertos; porém tanto se entregava à dominante paixão dos estudos, que na gostosa conversação dos bons livros, e astronômicas observações passava insensivelmente os dias, e muitas noites, o que me obrigou a dizer-lhe:

Não sei, senhora, como não temeis uma aplicação tão excessiva, que suposto seja com moderação o mais decente realce de formosura, é no excesso insensível perigo de vossa vida; e já que a nossa bondade me permite o desafogo do que sinto, espero que a vossa benigna grandeza me desculpe, porque enquanto o afeto discorre, quase sempre o respeito esquece. O contínuo estudo, em que se emprega a vossa discreta curiosidade, tem degenerado em susto nosso; e ainda que parece que o tempo, e seus atrevimentos respeitam as heroínas, que já mais sabem temê-los, também não é razão que façais desperdiços da formosura, maltratando a vossa amável delicadeza, a que sempre é oposta a fadiga, e o desvelo, com que vos negais a todo o gênero de descanso. Compadecei-vos, senhora, deste povo, que ama tanto as vossas virtudes, quanto teme os vossos perigos, porque em vós descansam as esperanças, que lhes negam as moléstias de Ibério, e me perdoai, se acaso vos ofende a verdade, que me animo a dizer-vos sendo oposta às ações do vosso gosto; e ainda que assim satisfaço às obrigações, que me impõe o vosso agrado, se mereço castigo pelo ardente, e verdadeiro zelo, que me obriga a falar-vos com tanta liberdade, eu me não nego aos estragos, com tanto que não perca a vossa graça. Conheço (me respondeu) que é bem nascido o zelo, que te obriga, e assim farei ao público sacrifícios do meu gosto, moderado o meu primeiro divertimento, que como os dias dos mortais tem termo certo, não me devo conter por acautelada, mas sim como agradecida. Porém vede, Senhora, (lhe repliquei) que ao adorar o precipício se segue o cair nele, e que as vidas podem ter maior, e menor termo pelos decretos condicionais. Ultimamente conheceu que de uma vida precisa devem ser tantos os resguardos, quantos são os prejudicados na sua falta. Antes que se concluísse o discurso, chegou o princípio Ibério que também a persuadiu a moderar os excessos; e por não deixar em silêncio as admiráveis máximas, e documentos, que daquela conservação recomendei à memória, vos repetirei parte daqueles discursos, que trocando a natureza de precisos a carência particular com a conveniente utilidade pública, fizeram gostosíssima conversação. Creio, senhora (lhe disse Ibério), que a vossa prudente vontade dará o melhor lugar ao vosso claro entendimento, para que não haja circunstância, que dê a entender às gentes, que vossas prendas singulares sejam vaidoso desprezo da vossa vida. Eu sou sensível à ambição dos aplausos, (lhe respondeu) mas não ao horror das violentas paixões, que tomam corpo com o hábito da ociosidade; do exercício da útil aplicação se alimenta mais segura virtude; a esta mestra de acertos anda unido o espírito de prudência, e providência, o valor intrépido, e a moderação aprazível, pelo que pouco temo um perigo remoto, e muito receio um despenho próximo. Prossegui no que vos diverte, (lhe disse o Príncipe) porém moderai o que pode prejudicar-vos, assim como reconhecendo eu que é desonra dos príncipes o escusarem-se ao trabalho das campanhas, porque não sendo razão, que se ponha em dúvida a valentia do que manda, e deve ser modelo dos que obedecem, pois é o seu esforço o que infunde valor nos seus exércitos; também devo refletir que é igual a obrigação de não buscar os perigos, quando o não querer o Real decoro, e a utilidade pública; pois sendo virtude o valor, muda de natureza, se mais parece temerária vaidade, que zelo de honra, e amor dos povos; o que valerosamente se precipita, mais que bizarro, é furioso, e como o louco, que despreza a vida, jamais é senhor de si; altera a boa ordem militar, dá exemplos de temeridade, e arrisca exércitos, antepondo à segurança da causa comum a sua vangloriosa ambição, pelo que mais merece estátuas para o seu castigo, que padrões para as memórias das suas façanhas; e se conforme a precisão se desprezam os perigos e aumentam as providências, pela mesma razão se vos dispensam estes trabalhos, e cuidados, e a vossa delicadeza requer a moderação nos estudos. Eu não ignoro, (lhe respondeu Beraniza) que sendo em vós muito preciso o estudo, é em mim aplicação curiosa; mas como para os encargos dos soberanos não há distinção de sexo, pois que o tempo, casos, e acasos costumam repartir domínios, não deixa de ser conveniente, que se com a Astronomia me divirto, com a História também me instrua, pois nela observo que nem nos melhores homens se acha tudo o que é preciso para o bem público, porque em cada um deles há diversidade de gênios, idéias, inclinações, e aversões; e quanto mais povos há para reger, mais pessoas se necessitam para se lhes confiar o bem comum, e real autoridade, sendo inexplicável a dificuldade, que há em conhecê-los ao tempo de repartir os encargos; assim como a condição privada tem tal cautela em ocultar próprios defeitos, que ordinariamente só a morte os descobre, e pela mesma razão resplandecem os talentos dos que procuram dever à indústria o ocultar a própria ignorância, e sentimentos, enquanto não alcançam os lugares, a que aspiram; mas como a autoridade põe em prova toda a capacidade dos sujeitos, esta é a que descobre a maliciosa cautela, que os inculcou, porque os grandes postos, e lugares multiplicam, os objetos do merecimento, ou do escândalo; este só o tempo conduz à presença dos soberanos, porque as perniciosas políticas não dão todo o lugar é verdade.

Também admiro como as ações dos que regem Impérios todo o Mundo as observa, e as julga com o maior rigor, supondo-os com mais forças, e neles juntas quantas perfeições a natureza repartiu por todos os homens do Universo, sem refletir que suposto sejam semideuses as Majestades, também as rege influxo infinito, que as sujeita a impossibilidades, e embaraços, porque assim castigam os Deuses poderosos aos povos ingratos, e que ainda o mais prudente, virtuoso, entendido, valente, generoso, e sábio sempre é homem, tem limites o seu entendimento, e mais virtudes; tem humores, costumes, e paixões; não és senhor absoluto delas, porque vive rodeado de pessoas astutas, e ardilosas, e que as forças humanas alguma vez hão de render os enganos, e trabalhos, que traz consigo a doce fadiga de reinar; e Ulisses, que foi o exemplo dos Reis da Grécia, teve erros, e defeitos, que muito mais avultariam, se Minerva o não levara pelos caminhos da virtude para fugir aos rigores da contrária fortuna; e que não obstante os defeitos, que teve, foi pasmo de toda a Ásia; pelo que basta que quando empunhardes o cetro, procureis imitá-lo, lembrando-vos sempre que as majestades ou de todo perdoam, ou com mágoa castigam, e que com os inferiores é o perdoar o mais sublime estilo de repreender, e se desmente de generoso o coração, que se não abranda às lágrimas humildes do arrependimento, e aos discretos rogos do atribulado, pois sem demora ensinam as aflições a melhor Retórica; mas também é preciso ver, que nem sempre a compaixão é virtude, porque a alguns agravos será igualo mérito de os castigar à culpa de os cometer; porque quando as injúrias são públicas, e repetidas, para exemplo se castigam, e pelo escândalo se não perdoam.

Para conservardes a opinião de ter amável docilidade, nunca desprezeis o conselho dos que tiveram para o dar as qualidades precisas; mas para os aceitar, consultai primeiro em vós aquela vigorosa virtude, que sabe separar do útil o pernicioso; e reparai que da excessiva aspereza alguma vez tem sucedido haverem mais homens que sirvam, que fiéis que guardem, e que os que sem zelo servem, sem afeto assistem, só por interesse defendem, ou por medo pelejam, nem como dádivas se aplacam, nem com pouco se contentam; porque os que se não animam com o escudo da justiça, ou com o valor, que o brio infunde, a cobardia os perturba, ou a ambição os muda. Vós sois bem instruído, e tendes aquela alta capacidade, com que profundamente contemplam os príncipes no seu Reino, quando se dispõem para o possuir; mas assim como com respeitosa atenção me repreendeis os excessos, quis mostrar-me agradecida com o que vos lembro; e porque sabeis que é igual a pena da culpa, que se comete, à do bem, que se detesta, as minhas reflexões alguma vez hão de servir-vos para não ser inútil parte da minha aplicação, que prometo moderar, mais por amar o conselho, que por temer as ruínas, Ibério, que com inexplicável gosto ouvira a Beraniza, a satisfez com demonstrações dos mais discreto carinho, e singular respeito, concluindo assim aqueles admiráveis discursos. Argenéia segunda Princesa também me amava, e moderamente se divertia com a música, e com a caça, em que Diana bela se exercitava. Assim passei cinco anos, consolando-me com entender, que havia sido a causa do vosso descanso. Principiou Beraniza a padecer de uns acidentes, que não puderam moderar os remédios, pois não impediram os cruéis passos da morte; e em tarde, estando nos meus braços, rendeu o espírito, deixando-me recomendada ao Príncipe Ibério, para que me fizesse conduzir a Tebas; e não obstante, este motivo da minha consolação, as invencíveis correntes das minhas lágrimas eram anúncios de que o coração antevia, que com aparato de fortuna se mascarava a minha desgraça. O Príncipe foi o instrumento de todas as que se seguiram, porque continuou a ver-me com excesso tal, que temi que do círculo imperfeito, que formava o seu cuidado, e compaixão, fossem os extremos viciosos; pelo que me resolvi a retirar-me, desprezando indecentes esperança no silêncio da noite, saí como o homem mais desprezível. Padeci sustos, fomes , perigos, e aflições; e quando buscava, onde escondia pudesse descansar, encontrei convosco, e principiantes outra vez a tomar parte nos meus infortúnios. Não me culpeis o haver usado da dissimulação de tais vestidos; porque como os maiores trabalhos, e desgraças, que acontecem às mulheres, são originados pelos enganos dos homens, que os cegos de amor, ou de seus desordenados costumes, lhes prendem a liberdade, e as encaminham aos precipícios, pareceu-me que só escondendo-me assim aos seus olhos, caminharia com menos riscos. Tão pouco tenho que culpar-te, querida filha (lhe respondeu Climinéia), que dou graças ao astro benigno, que te infundiu esse acerto, pois é sem dúvida que o recato é o melhor dote das mulheres, com que as formosas adquirem adorações, as bem parecidas amor, e as feias estimação; e assim como a modéstia deve ser o primeiro adorno, também os mesmos, a quem não lisonjeiam os escrúpulos da sisudeza, apenas lhes conhecem a facilidade, as tiram das mãos da fineza, e as entregam ao rigor do desprezo, e esquecimento: entre os resplendores do decoro se contemplam na formosura vislumbres de divindade; porque quando as mulheres pela loucura se facilitam, não só perdem o ser, a beleza, e a glória, mas se fazem abomináveis, e escarnecidas dos mesmos, a quem servem; pois é tão melindrosa a estimação de uma discreta dama, que de muitos anos de cuidado perde o merecimento em um dia de descuido; e quando não houvessem razões tão nobres para conservarem a senhoril gravidade, bastaria que refletissem, que em deixando de desprezar as oblações dos rendimentos, passam logo a ser indignas de bem nascidos sacrifícios, sendo nelas infame desaire, o que é neles timbre da mocidade. Já me não será dura a morte, pois sei como te houveste pelo Mundo, entre bárbaros sem amparos, nem conselho, de que sempre carecem os poucos anos, e mais, quando lhes assiste a formosura; lembravam-me as desgraças, que te podiam acontecer, os riscos, a quem podiam conduzir-te os dotes da natureza. Entre estas, e outras muitas considerações rompia os Céus com lastimosos suspiros, e lhes dizia: O Estrelas benignas, como me encaminhastes a tão grande tropel de aflições? Não me seria cruel a servidão, se não tivera que sentir mais, que a dureza das prisões, onde só me quebranta o pesado grilhão, que na alma sinto neste profundo pélago de penas, e cuidados, em que flutuo. Perdi o melhor consorte de quanto havíeis destinado a todas as mulheres; talvez porque eu não sabia merecê-lo, não o quis conservar a vossa grandeza: perdi o ser de tal sorte, que eu quase duvido se fui sempre a que estou sendo. Não participa das minhas saudades aquele fasto, em que sempre se respiram venerações, porque a opulência, o trato da Corte, os parentes, os servos, e divertimentos passou tudo por mim tão velozmente, que lhes não reserva lugar algum a minha memória, pois toda ocupa a filha, que dos meus olhos arrebatou o mais tirano destino, temendo mais do que a Parca os seus desacertos. Oh quem pudera a aconselhar-te, para que soubesses temer o venenoso afeto dos homens! Quem pudera dizer-te em que consiste a melhor formosura, para não ouvires lisonjas, desprezando a indiscreta vaidade! Quem pudera chegar com estas vozes a teus ouvidos, para que fosses na verdade desenganada do pouco, que vale uma vida inconstante, se não adquire um descanso imenso! Ai, filha das minhas entranhas, quanto é limitado o sensitivo dos pais, ainda para receiar os desacertos dos filhos! Quem dissera que os regalos com que foste criada haviam de degenerar em misérias, e desamparos, pois te considero escrava desprezível: em que parou o recato, e gravidade, com que foste educada? Eu te resguardava dos olhos das gentes, porque sabia que no teu estado são tão sublimes os esplendores da beleza em uma Senhora, que mais se contemplam, que se comunicam; agora sem resguardos te choro em mãos inimigas. Nestas considerações, e tristes vezes uma dor veemente; ou paixão radicada me rendia a Morfeu: mas como o cuidado é oposto ao descanso, tornava logo a despertar, dizendo: Mas como dos meus braços te arrebataram sem acordo? Talvez que o susto te usurpasse de todo o brando alento. O dura Parca! Uma vez seríeis benigna, se cortásseis por uma vida tão sujeita a contratempos. E assim só me sossegava o julgar-te nas mãos da morte; mas já vejo que os Numes compassivos te resguardaram, para que uma infeliz viesse a ter o maior alívio. Mas que digo, se morreu, como vil, o que tão adornado de virtudes me havia tocado por sorte? Quem me dissera, que aquele venerando ancião atraía a si o meu afeto, não só pelo que parecia, mas sim pelo que era? Quem poderá mais crer nos enredos do Mundo, que apenas acaba um susto, já vai dispondo outros maiores? Se haverá tempo, que me alegre, quando vejo que este só se conserva a constância nas cruéis mudanças? Quem estimará as distinções; com que uns nascem de nobres, outros de humildes, se todos são igualmente sujeitos aos contrastes da fortuna? Quem desejará riquezas, e estimações, se mil anos de tempo para as possuir tem tanto ser, como um dia, que passou para deixar tudo? Assim chorava até agora também as tuas ações; agora que te vejo, e me satisfaço de como viveste, já me parece que aquele pesar não senhorava o meu ânimo; porque as razões que encontro na morte de Diófanes, parece que intentam arrancar-me do peito o coração.

Não se choram as mortes dos que deixam vinculados à posterioridade os seus gloriosos nomes, só se sente a saudade, que de um dia para outro vai curando o tempo. O quanto se ultraja a inocência, que deixa padrões para o escarmento! Ah cegos ministros da maldade, que lhes não lembra que serão severamente julgado pelos que puniram, sem mais culpa, que as que lhes imputaram a inveja, avareza, e ódios! Como não advertem, que o rigoroso Averno os ameaça com um eternidade de penas em cada erro, que autorizam com justiça? Como roubam a honra das gentes, se é fruto, que não tem restituição? Como castigam falsos homicídios por paixões particulares, se as vidas, e desamparos nunca podem ressarcir? Como chegam a mandar ao suplício por estranhos interesses a um pai inocente, se a falta, que experimentam os órfãos, nunca tem restituição? Como vendem a justiça dos que não têm meios para os subornos, se a verdadeira Justiça os vê para os castigos? Ah cegos mais desgraçados, que eu, e todos os que sofrem as suas injustas crueldades, satisfazendo-as, como famintas feras, no sangue inocente de seus próximos, a quem tiram os créditos, vidas, e bens, tendo a maior ventura os que os sofrem com ânimo constante! Ah desgraçados, que não advertem quanto é estreita a vida para o logro de tão grandes roubos, e se contentam de que continuem os seus maus nomes nos filhos, que ficam abundantes, e introduzidos, como se não houvessem juizes superiores, que lhes arruínem os seus mal fundados edifícios! Diófanes sem culpa acabou vilmente, porque menor castigo não mereciam a minha soberba, e desordens; e como falta a nobreza do ânimo, em quem se consola com a destruição dos inimigos, e em mim se executou o maior golpe naquela crueldade, os Céus queriam haver piedade com os que cegamente o mandaram ao suplício, para que conhecendo agora os seus atrozes desacertos, administrem a verdadeira justiça. Belino, que suspenso ouvia as magoadas vozes da mãe, com muitas lágrimas lhe disse: Bem sabeis, senhora, que os bons são no Mundo desconhecidos, em quanto nele existem, e que desde seu princípio foram sempre os virtuosos perseguidos, e invejados os merecimentos, e que a resignação nos trabalhos é o que move a compaixão dos Céus: a vossa mágoa não ressuscita mortos, e da vossa vida depende a minha. Não vos seria mais violenta esta mágoa, se chorásseis com a injusta execução também a notícia, de que eu estava servindo ao recreio daquele Príncipe? Diverti essa triste recordação, e contai-me os passos, que destes para eu tomar a fortuna de assistir-vos. Os Céus me amparem (lhe respondeu Climinéia), que eu quero dispor-me para resistir ao pesar do que eles determinam.

O dia, em que nos dividimos, em levarem a uma casa humilde, pouco distante daquele porto; aquela gente incivil zombou toda aquela noite de minhas lágrimas, fazendo-me muitas visagens, como parece que entre eles era costume. Logo no dia seguinte me fizeram caminhar m companhia de um deles, e cinco marinheiros nossos; e depois de três dias de jornada, em que passamos muito mal os dias pelo cansaço, e fomes, e pior as noites, porque também faltavam as camas, chegamos a Cidade de Argos. Aqueles inumanos procuraram inteirar-se de quem eu era; mas como já o tinha prevenido, conforme o havia ajustado com Diófanes, não o puderam conseguir; os meus tinham o cuidado de me pouparem ao trabalho, dizendo ser perseguida de vários achaques, e que em me fatigando caía gravemente enferma. Com muitos da numerosa família daquela casa, que era uma das mais distintas da Cidade, sendo eu desprezo de todos; e como me tinham por inútil, se lembraram de me mandarem para uma casa de campo com o emprego de tratar de cães, e mais bichos curiosos. Não me era estranho o vil exercício, em que me via, mas sim que eu houvesse de gastar tão mal o tempo, vivendo sem aplicação alguma, lembrando-se das muitas vezes, que te dizia terem muito espírito as mulheres que se empregavam em coisas pouco úteis e em contínuos atos de divertimento, ou em alistarmos os que passam pela rua, não se lembrando de que as que pouco se deixam ver, não só logram privilégios de deidades, mas dão lugar aos clarins da fama, que as recomenda aos repetidos votos da veneração; e pelo gosto de serem vistas, e melindres da ociosidade, arriscam o bom conceito, que só alcançam as aplicadas, e as que gravemente se retiram; e como das ações das senhoras se revestem as servas, as que se não sabem regular, ficam inibidas da severidade, com que repreende quem não concorre para o mal, com o exemplo. Quando tudo isto me lembrava, tinha a consolação de estar livre de alguma parte daqueles encargos pelo muito, que é difícil conservar a perfeição da verdadeira mãe de famílias; ou seja pela educação dos filhos, em que todo o cuidado é pouco, ou pela modéstia, e bons costumes das pessoas, de quem se servem, de que muito dependem as grandes casas, para que o respeito as tenha por sagradas. Tanto que e acostumei àqueles, com quem vivia, busquei modo de ganhar-lhes as vontades, conforme seus gênios, para os persuadir a se governarem com melhor economia, para os filhos se sujeitarem aos pais, os moços respeitarem os maiores, e se aplicarem, e para as mulheres darem maior preço a sua estimação no resguardo de suas pessoas, em que se acautelarem no falar, e nos exercícios quotidianos, e eu às ensinava ao que elas podiam admitir, por ser grande a sua rusticidade. Assim ocupava o tempo, que me sobrava do que me haviam encarregado; e tanto lhes granjeei os ânimos, que quando as lágrimas caiam de meus olhos, não só se entristeciam, mas buscavam meios para consolar-me. Os campos pela maior parte não os cultivavam, porque os seus moradores fugiam ao trabalho; as mulheres usavam com muita demasia dos adornos, e não sabiam mais que cantar os louvores de Vênus; a formosura, graças, delicadeza, e alegria igualmente brilhavam nos seus olhos; e tudo tão afetadamente, que não se via a nobre severidade, e o estimável pejo, que é o que se faz mais agradável na beleza, porque tudo eram artificiosos enfeites, e adornos profanos, com os quais olhavam, buscando quem visse os graciosos desdéns, com que nos corações acendiam a mais violenta paixão; enfim quanto nelas se observava, era desprezível, demasiado, e enfadonho.

Fui ver o Templo de Vênus com os mais daquela casa, que todos os anos lhe iam fazer ofertas, onde admirei o primor da arquitetura. Ali concorria inumerável gente a fazer suas oferendas, e se queimavam sempre odoríferos aromas; usavam todos de tanta desenvoltura, que eu fugindo de vê-los me recolhia à casa, enquanto não fui para Argos, onde se haviam moderado muito os maus costumes. Poucos dias depois de haver chegado de Citéra, estando uma noite na pobre cama, a que me via reduzida, em uma casa sem luz, entraram duas pessoas daquela família, e acaso se chegaram para a parte onde eu estava, e inadvertidamente trataram certos negócios, que requeriam tanto segredo, que buscaram aquela hora para os comunicarem; mas os Céus, que a todos vêem, não quiseram que se retirassem com a certeza de não serem ouvidos; porque representado-lhes o medo, que entrava gente na casa, quiseram chegar-se mais para o canto, em que eu estava, e cairam, tropeçando em mim; e quando se certificaram de que havia sido ilusão o que se lhes representou, me perguntaram, se eu ouvira o que eles haviam tratado. Bem via eu que lhes seria duríssima a verdade; mas como sei que a todo o risco sempre se deve usar dela, que a mentira não se conserva, que a verdade é esmalte de bem nascidos, nobreza de humildes, e sustento de pobres, ainda que algum tempo me demorei em lhes responder quase tentada a mentir, ou porque com a falta dos indignos principiava a mudar-me os costumes, ou porque com a falta da conversação dos bem morigerados, que suavemente ensina a bem obrar, principiavam a esquecer-me os bons hábitos, quando irados repetiam a mesma pergunta, respondi: Eu tenho ouvido o que falastes, e me pasmo da traição, que havíeis urdido: rogo-vos que deixeis passar alguns dias antes de executardes os vossos intentos, porque nesse tempo chegareis a abrir os olhos da razão; e reparai como quis o Céu, que eu fosse informada das vossas maldades, para mostrar-vos que a nenhuma cautela esperem dever as gentes, que no silêncio os oculte ao castigo de seus delitos; o rigor do tempo me tirou da casa, em que sabeis que eu me recolhia; a bondade dos mais servos me consentiu em um canto desta; a minha pequenez me tem aqui, se mais luz, que a que tenho para mostrar-vos os feios despenhos, para que vos encaminham os vossos desígnios: temei a ira dos Deuses, e vede que não deve viver no Mundo o que com acordo erra tão horrivelmente, desprezando os avisos da razão, que costuma representar a fealdade dos delitos. Ouviram imóveis estas palavras; e afastando-se, estiveram falando, sem que eu lhes percebesse palavra alguma, até que em desunidos pareceres dizia um: Não, não há mais remédio, que tirar-lhe a vida. Respondia o outro: E muito violento, e faltam as forças, quando a cólera não ajuda. E se lhe respondia: Eu serei o executor, basta que o consintais. A que tornava o outro a replicar: não vos digo que o façais, mais dai-me tempo para retirar-me, e obrai o que quiserdes; mas vede que o sangue inocente algum dia há de acusar-vos. A estas palavras fiquei sem ouvir mais rumor algum, a cada instante esperava a morte, fechando os olhos; e abaixando a cabeça para os golpes, via com o maior horror o fim da minha tragédia, e ultimamente me resolvi a dizer: Onde estais, ó cegos, que para que nunca acerteis, as sombras vos escondem o alvo, que busca a vossa tirania? E já cansada de esperar-vos chamo: Aqui está quem não cometeu mais culpas para a vossa crueldade, que o nascer ditosa, para viver infeliz convosco: acabai de aliviar-me do mal imenso, que na vossa companhia padeço; e sacrificai uma vida inocente, oferecendo o meu sangue nos altares da vossa ferocidade. Ficaram ainda imóveis, e em tal silêncio, ou falando com tal cautela, que estando eu persuadida a que se haveriam retirado, se chegaram a mim, e me disseram, que se queria a vida, havia de ausentar-me dali, e me livrasse de ser vista, porque em qualquer lugar, onde fosse conhecida, seria entregue à morte cruel, e que me parte alguma me acontecesse falar no que lhes ouvira. Eu o prometi com verdadeiras expressões, e lhe disse: Fugirei com o maior cuidado, não por me livrar da morte, que em toda a parte lhe serei sujeita, mas para que vivais sem a inquietação dos receios; nem revelarei o que vos ouvi, não só por conservar os juramentos, que faço, mas por não aprenderem a idear os que só tem má inclinação, e lhes falta a sutileza para urdirem os seus enredos, que este é o perigo, que tem entre os maus a especulação da maldade, e entre os bons o muito, que os escandaliza. Interromperam o mais, que ia a dizer-lhes, segurando-me que os seus sequazes estavam espalhados, e a todos informaraiam com as circunstâncias para me tirarem a vida e, que logo logo saísse dali, pensando bem em não ser vista; e pegando em mim com tirania, me levaram às cegas, sem mais vestido, que a coberta da pobre cama, que me davam; assim me levaram à porta de um jardim, e me puseram na estrada.

Fui caminhando o mais que pude no pouco tempo, que restava da noite: recolhi-me em um bosque solitário, onde a fraqueza, e cansaço julguei dariam fim a meus infortúnios; porém não o consentiu assim o fado, pois não era ainda satisfeito de meus trabalhos. Continuando a fugir, não podia andar sem grande incômodo; porque pelo muito, que cansava, me era logo preciso buscar onde me escondesse. Era tal medo, com que me via no escuro da noite pelos campos, que algumas vezes me parecia ouvir desordenados gritos, extraordinários assobios, e medonhas vozes, tudo efeitos do medo, e esperava nas noites de luar não ir tão aflita; mas chegadas que foram, me sucedeu pelo contrário, porque via fantasmas, com que as deliciosas sombras dos arvoredos aumentavam o meu horror; enfim a fome era contínua, em quanto ela me não ensinou a comer frutas agrestes, e ervas, conforme as produzia a terra. Também aproveitava de alguns bichos, que se criavam nos rios, comendo-se logo que podia apanhá-los; os olhos transformados em vivas chagas pela contínua corrente das lágrimas, iam perdendo a luz, que me encaminhava; a cor do rosto estava tão destruída pelo contínuo pavor, e aflição de espírito, que uma tarde, chegando a um regato para refrigerar a sede, que me atormentava, e reparando no semblante, que mostrava o líquido cristal, gritei aflita: Ai triste! crendo ser alguém, que se chegava a mim; e voltando logo sem ver pessoa alguma, assentei ser eu a mesma, que me desconhecia, pelo deplorável estado, em que no pálido semblante se copiavam os meus trabalhos. Assim passei cinco meses daquele inexplicável tormento, até que achei a gruta, em que me viste, onde fiz assento, entendendo ser aquela a minha sepultura, pois me faltava o alento para continuar o caminho, e ignorava se ia a encontrar-me com os meus contrários, ou se me retirava deles; e nesta dúvida, sentindo vizinha a morte, me recolhi ao centro daquele rochedo, que se achava então livre das feras; mas quando principiou a ser imenso o calor, me vi em novos sustos porque começavam a entrar os moradores, que eu não esperava.

Não sei dizer-te o medo, que me causavam, quando reparavam em mim; uns raspavam a terra, outros como rosnando se chegavam tanto, que pegando com os dentes no pano, que cobria, me voltavam de uma parte para a outra, e ficava eu imóvel no mesmo lugar, onde havia caído. A este tempo vinham outros, que me passavam por cima, ora saltavam brincando, ora davam branidos horrendos, e principiando s morder-se enfurecidos, me representavam todas as Fúrias, e horrores do triste Reino de Plutão. Acabou aquele mais feio dia, e com as sombras da noite me foram deixando pouco a pouco: melhorei-me da figura, em que tinha ficado imóvel, porque o medo nem me deixava respirar com liberdade. Desejava antes caminhar, que sujeitar-me à ira daqueles brutos; mas não só se me embaraçavam a decadência de forças, e falta de vista, mas também a incerteza da situação, em que estava, e o caminho, que deveria tomar, e escolhi aquela morte, por me faltar todo o remédio.

Na casa, em que fiquei na Cidade chorando a tua ausência, me encarreguei, como sabes, da educação de uns meninos, que suposto lhes buscavam os meios, que lhes conciliassem a boa inclinação, os domésticos da mesma casa destruíam todo o efeito daquele trabalho, como ordinariamente sucede. Também quiseram ali saber da verdade, quem eu era, dizendo não se acharem nas mulheres humildes as circunstâncias, que para aquele emprego em mim se admiravam, como se para a educação tivessem aquelas menos pesada obrigação, não me entregaram a filha, porque é tesouro tão importante, que sem muito larga experiência não se confia mais, que ao chamado Antionor, de cujos discursos renascia de cada vez mais viva a minha saudade pela semelhança, que tinha com os de meu amado Diófanes; mas no semblante o achava muito diverso, sem refletir que a natureza não nos parece que pinta com as mesmas cores a todos, porque a uns dota com regalos, descansos, e palácios magníficos, e a outros só com forças para resistirem aos rigores do tempo, sem mais reparo que o da rústica choupana; sendo que não há mais diferença entre uns, e outros, que uma antiga posse de fortuna, que faz o estabelecimento, e recomenda aos respeitos, e resguardos as pessoas, a que chamados ilustres, e nobres; e aqueles, que destituídos foram sempre de bens na contínua fadiga do trabalho, que os sustenta, os maltrata o tempo, e os faz encarnecer de medo, são tidos por humildes, ainda que todo tivemos a mesma primeira origem; assim mo ocultaram as impressões do tempo, que também conduziram para o estado, em que me vês: agora convém determinar o caminho, que devemos seguir, ainda que me falta o alento para dar mais passos, porque me todos parece que me chego para os precipícios. O, feras cruéis, que se me houvésseis tirado a vida, já teria eu encontrado com aquele magnânimo espírito, que nos Elísios descansa! e agora sem alívio choro a morte infames, que padeceu; e não sei se é menos crédito da mágoa não sacrificar a vida nas aras do sentimento. Consolai-vos, senhora (lhe disse Belino) e reparais que os Deuses vos defendem, e poderão ofendê-los as vossas vozes; parece-me que continuemos este caminho, a ver se encontramos com algum descanso nas vizinhanças da pátria, ou se cansa a desgraça, que nos segue.

A graciosa pastora, que com o romper da manhã saía a apascentar o seu rebanho, chegou ali a cumprimentá-las, e com galanteria lhes ofereceu sua pobre choupana, para que se demorassem todo o tempo que quisessem. Dizei-me se descansastes, (lhe disse) e se vos agrada ficar na minha companhia? Eu me hei de alegrar muito, e agora bem sabeis que eu não posso estar convosco, porque hei de mister ir para o monte com os seus cordeirinhos, ou vinde comigo: tomareis o fresco, ouvíreis dos pastores as melhores cantigas, e a graça com que também cantando as pastoras lhes respondem: vereis as lindas aves, que alegres vão para os seus ninhos, e adormecereis ao som, que faz o correr da fonte: eu repartirei convosco da minha pobreza, fiaremos a lã, para o que nos for preciso, e assim em paz, sem a soberba dos ricos, nos costumaremos a viver contentes. Delmetra lhe respondeu agradecida: Por alguns dias aceitaremos o que o vosso bom ânimo nos oferece; e passados estes, iremos obrigadas só a continuar a nossa jornada, porque os Deuses poderosos não querem que tenhamos muito descanso.

Assim se demoraram só três dias, e no fim deles saudosas se apartarem da agradável pastora, continuando ambas a fugir das vizinhanças da maldade. Quando chegavam a alguma povoação, punham todo o cuidado no retiro, e não descansavam, enquanto se não viam longe dos ajuntamentos, que sempre conduz para inquietações; já principiavam a ver, como uma pequena luz, que lhes mostrava a esperança, no perto, que já estavam de Tebas; e como para este fim, a que só aspiravam, lhes era mais conveniente fazer um pequeno embarque, esperaram alguns dias, que houvesse embarcação; e cuidando que assim terminavam suas peregrinações, e infortúnios, viram que ainda não havia cansado a desgraça; porque tendo embarcado, deu logo a embarcação fortemente contra uma rocha, em que acabou a maior parte da gente. Sobre umas tábuas se salvaram pessoas, e entre estas escapou Belino, que reparando que Delmetra havia acabado com os mais, que faltavam, levantou os olhos aos Céus, dizendo: O Deuses poderosos, como ainda se não aplacou a vossa indignação? Como consentistes que acabasse uma vida tão precisa, e na minha sustentais a mais inútil? Eu me ia acostumando a perder o horror, que os primeiros dias senti na companhia dos homens dissolutos; e agora, que já me envergonho de vê-los, como me tirais a mais precisa companhia? Ah que parece que zombais cruelmente de meus trabalhos: O infeliz mocidade, que entre perigos se passa! E consentem os Deuses em uma vida enfadonha, para apurar merecimentos? O bárbara estrela, fazei que eu descanse já na sepultura; pois que assim como a cerva ferida corre com a força da sua dor, levando consigo o dardo, que a tormenta, sem alívio levarei impressa na alma e justa causa do meu pranto; mas uma, e mil vezes tornarei a pedir-vos, que me livreis por qualquer modo do ar, que é corrupto pelos vícios, pois são males, que se têm introduzido para oprimir o Mundo, onde os enfraquecidos, que se envergonham da virtude, querem tomar o lugar dos constantes para que a virtude, não cresça. Com estas justas considerações estava Belino naquela praia continuamente olhando para a rocha, em que havia acabado a sua consolação; e observando que sobre a mesma estavam dous pequenos vultos, que se moviam, ora lhe pareciam, enganos da vista, ora queria persuadir-se, que não eram corpos, que formava a sua fantasia, mas sim realidades o que observava, e vendo que aqueles penedos tinham estado mais descobertos de água, e que a enchente lhe fazia parecer de cada vez mais pequenos os objetos, comunicou o seu reparo a algumas pessoas, que ali ainda se achavam, uns chorando pelo que haviam perdido, e outros consolando-os, pois que tinham escapado com a vida; e tanto que assentaram que era gente, que para ali arrojaram as águas, correram aflitos a buscar quem os ajudasse a acudir aos que estavam vendo, como se lhes chegava a morte; e em uma lancha se aventuraram a sair, lutando com as ondas; e suposto que o vento, que causara aquela desgraça, estava muito mais brando, os mares estavam ainda tão levantados, que muitos tiveram por temeridade a resolução de irem salvar aqueles, com o perigo de se perderem todos; pelo que só quatro se animaram a irem com Belino a executar aquela ação de piedade, e louvável desprezo da vida: foram um grande risco; e quando com muito trabalho tinham vencido meia parte da distância, já temiam perder as próprias vidas, e não terem remédios os que intentavam livrar da morte, porque os mares de cada vez mais soberbos cruelmente os ameaçavam, e os penedos com pressa iam acabando de cobrir-se de água: eram contínuos os clamores, que já ouviam, dos pobres aflitos, que de uma para outra parte andavam sem sossego, pois a morte de cada vez mais se lhes avizinhava com a enchente; o perigo dos compassivos de casa vez era maior, porque lhes faltavam as forças para continuarem a manear os remos. Não parecia Belino dama delicada; porque como robusto soldado, animando os companheiros, se pegava com incrível valor ao seu remo, até que permitiu o Céu, que abrandassem os mares; com inexplicável trabalho tiraram os aflitos daquele lugar infausto, porque o rochedo em parte escorregava tanto, que não podiam segurar os pés; e em outras de muito ferido das águas tinha pontas agudíssimas, e conchas de mariscos, que os maltratavam. Achou-se Carpache, filho de um dos que se haviam, animado para ir também valer-lhes, e outro era um gentil mancebo, chamado Albênio: voltaram todos para terra, e com menor trabalho chegaram a desembarcar. Belino, havendo já satisfeito à nobre ternura de seu ânimo, tinha de alívio só a parte, que à sua mágoa acrescentavam aqueles dous, pois lhes valera, não valendo à sua dor, e sem esperança alguma chorava a infeliz morte de Delmetra, a quem ela havia conduzido àquele naufrágio, pois não consentira em ficar gozando em sossego a companhia da inocente Pastora; e encostado a um tronco, junto ao qual descansava Albênio das fadigas, e sustos, que tão de perto lhe haviam mostrado a morte, com lágrimas, e soluços moveu a compaixão de Albênio, que intentado divertí-lo com algumas histórias, que o podiam, consolar, também lhe perguntou os mais sucessos, de que ouvia lamentar-se, dos quais não conseguiu mais, que ouvir uma limitadíssima parte, porque os suspiros, e arrancos do coração magoado não davam lugar a proferir muitas palavras, pois quando a dor é intensa, a mudez melhor a explica; e vendo que se aumentavam as demonstrações do pesar, que no princípio estiveram reprimidas pelo pasmo, susto, e desacordo: E tal a vossa mágoa, (lhe disse Albênio) que já tenho tomado nela uma grande parte; e se não posso servir-vos de alívio, vos servirei de companhia, sendo de vós inseparável. Não posso admitir o que me oferece a vossa bondade, (lhe respondeu Belino) pois me resolvo a buscar uma brenha, onde acabe os meus tristes dias. Não podereis conseguir (lhe replicou) que eu de vós me aperte, pois é impiedade grande o desamparar um triste, deixando-o entregue aos estragos da pena; e assim vos digo, que eu estou de ânimo de sofrer os impulsos da vossa repugnância, com tanto que de vós me não aparte; vede para onde determinais caminhar, ou se quereis ficar aqui. Como vejo que a nossa porfia é tão nobre, (respondeu Belino) serão sem efeito as demonstrações da minha repugnância; eu determino continuar por estas praias buscando o cadáver, de quem é filha a minha mágoa, porque ao menos possa beijar-lhe a generosa mão, e dar-lhe sepultura; e vamos que eu assim louco, e perdido, nem mais terei um leve pensamento de alegria.

Partiram ambos, e a poucos passos lhe anoiteceu, ficaram naquela praias, em que toda a noite Belino suspirava, e Albênio discretamente o procurava consolar, lembrando-lhe (com histórias muito próprias) quanto somos sujeitos à inquieta rota da fortuna, ou vela, que busca as mudanças do tempo; e que aos magnânimos não apoucam infortúnios, nem afligem desgraças, vendo com fortaleza laurear-se-lhes o sofrimento com o aplauso dos prudentes: quando os principiou a favorecer a luz da Aurora, continuaram o seu caminho.

Passados sete dias, lhes disseram umas serranas, que ali tinham saído os cadáveres de umas mulheres, que pelos sinais entendeu Belino seria uma sua amada mãe, o que novamente chorou; e determinado ir ao lugar, onde se haviam sepultado para seu inteiro desengano, não o consentiu Albênio, ponderando-lhe o estado, em que já estariam. Despersuadido desta diligência, e sem determinações da parte para onde iria, continuou a prolongar-se por aquelas tristes praias, sem esperança alguma de alívio; e não se animando a deixá-las, se demorou dezessete dias; e em uma noite, descansando sobre a areia, quando a mágoa lhe despertava mais os sentidos, pois sempre aflito conversava com a sua pena, lhe parecia ouvir ao longe uns lastimosos gemidos. Comunicou o seu reparo a Albênio, e toda a noite vacilaram, sem assentarem donde vinham: corriam para a parte da terra a ver se os ouviam, como de mais perto, conheciam que mais se lhes retiravam: continuavam para uma, e outra parte da praia, igualmente lhes parecia que sempre ouviam os tristes ecos: e sem saberem formar juízo, só assentavam que vinham da parte do mar, o que tinham por impraticável; e com a luz da manhã, aplicando mais diligências para verdadeira averiguação, fizeram reparo, que ali haviam ao longe várias ilhas; mas como eram distantes, não podiam divisar, se havia nelas cousa alguma, e juntamente lhes parecia que já não ouviam as ditas vozes, sem o reparo de que esta falta sucedia, quando totalmente tinha acalmado o vento, o que não obstante, se resolveram a demorarem-se ali aquela noite, para se certificarem se fora ilusão, e as tornarem a ouvir ainda antes da noite; porque refrescando a tarde, o brando Favônio as tornou a conduzir aos seus ouvidos; porém se lhes representavam mais distantes, talvez por ser mais brando o vento. Assim passaram com igual confusão; e ouvindo o mesmo todo o dia seguinte, se determinaram a buscar de aportarem àquelas ilhas, pois lhes não ocorria que de outra parte pudessem nascer as tristes vozes. Os rústicos daquela montanha tinham por delírios o que diziam terem ouvido; e muito mais, que esperassem achar gentes em tais lugares, onde diziam não haver coisa alguma, em que se alimentassem mais viventes, que algumas aves, que esperavam o que lançava o mar; mas de toda a sorte resolutos foram em uma embarcação, que remediaram, como puderam, e na primeira ilha não acharam pessoa alguma. Indo aportar às outras com igual diligência, quando já quase viam que fora inútil o seu trabalho (na penúltima, que faltava de averiguar), e acharam a Delmetra; e um homem, que parecia estar dando os últimos alentos, também o trouxeram para terra, onde em poucos minutos faleceu. Os montanheses, que esperavam na praia, zombando daquele delírio, admiraram tão raro sucesso, e ajudaram a dar sepultura ao cadáver, sendo as honras funerais o cantar daqueles rústicos, que com fúnebres canções o conduziram à sepultura. Quando Delmetra entrou em si, disse: Filha querida, eu já não esperava mais golpes, que o que em mim estava para executar a morte. E possível que torno a ver-te, quando tinha por certo que acabaras no naufrágio? Não sei dizer-te, como me salvei em tão horrendo estrago, porque desde o instante, em que deu a embarcação contra a rocha, até que me vi sobre aquela ilha, tive perdido o acordo, ou a memória, entendo que pegados a um remo fomos arrojados àquele lugar; dois homens, que é um o que sepultamos agora, e outro, que logo faleceu, achando-se com uma ferida na cabeça, e com a maior pena o vi acabar sem remédio, alimento, ou consolação alguma; as aves de rapina foram logo ao frio cadáver, e lhe comeram os olhos, e mais carne do rosto, e mãos, pois não faziam caso da pouco força, com que eu as enxotava; e assim fui vendo com indizível horror tirar os galhardetes da gentileza, e ficar em árvore seca e horrenda figura da morte; já me sentia sem ânimo para aquele, que eu pensava ser o último trabalho da minha triste vida, e quase desfalecida dizia ao infeliz, que me acompanhava: a ira dos Deuses não tenho ainda aplacado com as lágrimas de outros pesares, que sempre chora, pois castigam minhas maldades com a vista deplorável desse horrendo espetáculo; e não sei se o que estamos vendo com tanto pavor, e desengano da vida, nos acusará de negligentes; e posto que nos faltam as forças, e instrumento para abrirmos sepultura, trabalhemos como pudermos, para que se execute esta ação de piedade, que os Céus nos hão de confortar, já que não foram servidos, que acabássemos no fatal conflito, para que em cada minuto de vida sentíssemos a mais ditada morte; e lembrando-me a causa de meus cuidados, dizia: ai, filha querida, consorte amado, que oculto arcano é este, que dilata a mais desgraçada vida, se enfraquecido o peito já não pode tolerar a força de tantos golpes? Com estas, e outras semelhantes vozes se explicava a minha pena: e bebendo lágrimas, fui trabalhando na sepultura, como pude. O triste companheiro, que de susto julgo havia emudecido, tendo o pálido semblante cadavérico, e os olhos sempre espantados, explicava a sua bárbara dor com ações, que me atormentavam; porque sendo sujeito a estar algum tempo, como em letargo, quando tornava a si, levantava os olhos ao Céu, e ora punha as mãos na cabeça, ora batia no aflito peito, e assim arrancava das entranhas os mais ardentes suspiros. Dois dias gastamos em abrir a sepultura, o corpo já com terrível fétido, e grande multidão de bichos, que também estavam nos lugares, que haviam escamado as rapinas, com grande trabalho o sepultamos; e recordando eu o nosso último fim, via como se arruinam os edifícios da vaidade naquele hediondo padrão, em que melhor estavam gravadas as letras do desengano; os dias passava, clamando aos Céus; as noites com medo inexplicável, ouvindo os bramidos dos monstros marinhos; e os soberbos roncos das ondas, que quando ali quebravam os montes da cristalina espuma, me faziam temer a sua soberba; e quando ouvia o severo rumor, que faziam ao longe, se renovava a minha sem igual saudade; a fome nos obrigava a comer toda a castra de bichos, que lançava de si o mar, sem mais esperança de alívio, que o que nos prometia a morte; então conheci ser aquele trabalho o maior de todos, pois quase tinha extinto a lembrança dos que no primeiro dia chorava, queixando-me do fado, que nos dividira, e ultimamente só me lembrava a feia presença da morte, que ao mesmo tempo, que a desejava para termo de tão cruel desamparo, a temia como último estrago do mesmo tempo; e à proporção, com que o gritar me enrouquecia, perdia também as forças; até que a sabedoria dos Numes, que assistem aos viventes, e acodem aos que desampara a fortuna, te inspirou o valer-nos, amada filha, meu único remédio, e alento da minha esperança.

A estas palavras, com que se explicava a alegria de Delmetra, aportando nos braços a bela filha, que reparava em que o desacordo, e alvoroço da mãe, quase faziam conhecer aos circunstantes o seu fingimento: Consolai-vos, senhora, (lhe disse) que aqui está o vosso querido filho Belino, já não há causa para os delírios; eu sou o mesmo, que sempre vos assistirá, enquanto o permitirem os Deuses: descansai para podermos continuar a buscar a desejada pátria, porque a constância no empreender é costumada a obrar prodígios; mas se acaso vos determinardes a desprezar a pouca distância, que nos convida, aqui podermos passar os últimos dias, gozando amável sossego destes desertos; e suposto que conheço ser aqui a paz mais permanente, desejara também que não perdêssemos o fruto de tão agigantados trabalhos, que tanto tem adiantado a nossa esperança. Não sei, filho, (lhe respondeu Delmetra) se castigam os Céus a nossa porfia, pois vemos que com desventuras atalham os nossos passos. Antes com infortúnios (lhe disse Belino) costumam experimentar os mortais para os fazerem dignos de felicidades. Como fostes quem agora me deu vida, (disse Delmetra) e estou para daquela, que em mim tiveste, governa os meus passos, que eu seguirei o que te for inspirado. Os montanheses ouviam admirados, estes discursos, e Albênio mudamente observava as bem ajustadas palavras da mãe, e do filho, e quanto se fazia amar o agradável semblante de Belino; e desejando não deixar a sua companhia, lhe disse: já que vos tenho acompanhado estes dias, e também vos devo a vida, sou obrigado a caminhar, e seguir os vossos passos. Não queirais (lhe respondeu Belino) participar de nossas desgraças; os nossos passos vai sempre contando o fado, e não será justo que também tome parte nos vossos eu sou o que devo confessar-vos toda a consolação, que aqui tenho, pois me tirou a vossa companhia das mãos da exasperação; e para vos ser agradecido, não consentirei que nos acompanheis, para não tomar parte nas nossas infelicidades. Não temo (lhe respondeu Albênio) os rigores da sorte mais adversa, porque dos maiores já eu tenho larga experiência, e me recolho para um país, que não é daqui distante; e quando chegar ao lugar, que seja oposto ao vosso caminho, serei obrigado a deixar-vos. Não poderemos fazer caminho continuado, (lhe disse Delmetra) nem talvez próprio para os vossos intentos, porque nos havemos de demorar, onde nos convidar a soledade com as sombras para o descanso; e não só vamos fugindo à desgraça, que nos segue, mas também como delinqüentes nos retiramos dos que nos buscam; este segredo vos confia a minha agradecida vontade, pois nos convém não levar mais companhia, ou rumo, que o que o nos permitirem as estrelas; mas sempre levaremos na memória a bondade, com que nos quereis acompanhar. A estas palavras cedeu Albênio, despersuadido de que o admitissem na sua companhia, e no dia seguinte se despediram, continuando Delmetra, e Belino e a sua trabalhosa jornada.

Em poucos dias chegaram a uma grande povoação; e ignorando onde estavam, lembrados do que lhes havia sucedido em Esparta, se houveram com a maior cautela; mas não bastou todo o cuidado para evitar o que lhes falta de padecer. Junto às muralhas descansavam, e não passando dali, entendiam livrarem-se das gentes; mas como havia grande cuidado, e cautela em averiguar quem entrava naquela Cidade, chegaram duas sentinelas para reconhecê-los; e julgando ser Belino desertor, o levaram logo a prisão, em que ficou para descobrir que eram; donde vinham, e que queriam. Delmetra com lágrimas dizia estavam descansando, e que lhe soltassem Belino para poder continuar a viajar, sem fazer ali demora; e como se não moviam a tão justas súplicas, lhe disse Belino: Vós me haveis reduzido a esta prisão injustamente, pois não advertis que aos que vão correndo o Mundo, não deveis castigar, porque ignoram os vossos costumes, e por isso nós descansávamos àquela sombra sem malícia; eu sou filho de Delmetra, vimos de um país amigo vosso; e se ainda assim nos querei maltratar, é mais abominável a vossa porfia, e sem razão, que insuportável a nossa desgraça, e trabalhos. Onde nos levareis, que os justos Deuses não vejam a nossa inocência? Onde iremos, que com justa causa nos não possamos queixar da vossa iniqüidade? Nós não prosseguimos a nossa peregrinação, mas vós caminhais para os castigos, que esperam as injustiças. A estas palavras enfurecidos, tratando-o muito mal, o deixaram na prisão, onde mais sentia o susto de Delmetra, que o próprio incômodo; ainda que tinha por um novo gênero de tormento o estar entre um ajuntamento de malfeitores, dos quais eram as ações, e palavras indícios de suas depravadas vidas; pelo que chegou a temer que conhecessem o seu disfarce; e reduzida a uma pena consternação, se resolveu a dizer ao Ministro Arnézio: Bem quisera eu, senhor, conservar um segredo, que me tem defendido da maldade dos homens; porém vejo-me precisada a estar com estes, que não temem a justiça, não amam os Deuses, nem respeitam o Soberano, já perderam os bens, e não desejam a vida; e como da companhia dos maus se faz contagiosa a maldade, receio demorar-me aqui; e assim sabei que eu nasci a que não pareço, que um naufrágio me trouxe aqui, e que a mulher, com quem fui achada, é minha triste mãe, que ali descansávamos, para no dia seguinte continuarmos a nossa jornada; assim vos peço, que se quereis demorar-me na prisão, me tireis da companhia destes, a quem temo imitar, ainda que seja mais escura, e estreita outra qualquer, para onde me mandeis. Como é tão nova (lhe respondeu Arnézio) a idéia, com que me intentas persuadir, não devo admitir a tua súplica. Vede, senhor, (respondeu Belino) que não pretendo escusar-me às averiguações do fim, que nos trouxe, pois só me aflige, que se me faça preciso ouvir a especulação de toda a casta de maldade entre rebeldes, e malfeitores. Já Arnézio voltava, fazendo pouco caso, quando Belino com mais resolução: Ouvi-me, senhor (lhe disse), e me valha a vossa compaixão: Eu sou uma mulher desgraçada, que me vali de vestido impróprio para viajar com menos perigo; não permitiam os Deuses, que vós reveleis a pessoa alguma este segredo, nem me deixeis entre culpados e perversos: ampare a vossa compaixão os meus bens nascidos sentimentos, e se vos inspire o meu resguardo, e a minha liberdade para consolação de quem mais aflita me espera. Arnézio ouvindo tão ajustadas reflexões, lhe disse passaria para sua casa (o que logo se executou), onde seria assistida com o preciso, em quanto se não determinava a sua soltura. Delmetra foi em seu seguimento, e ficou inseparável da porta daquela casa para onde a recolheram. Arnézio, que só sabia que o gentil Belino era a belíssima Hemirena, (ainda que ignorava este nome, e mais prerrogativas dele) persuadido de uma violenta paixão, uma tarde, em que já a vontade perdida de vista o entendimento: Adorada Senhora, (lhe disse) eu sacrifício à tua beleza o domínio de meu alvedrio, e serei com grande excesso satisfeito, se me não negares a tua benigna atenção. Belino com severidade, e arrogância lhe respondeu: Os vossos sacrifícios jamais serão bem aceitos, nem podereis desculpar para com os Céus o haver assim abusado do segredo, que vos confiei, não como a homem frágil, mas sim como a quem só deve empregar-se em incensar os altares da Justiça; não vos demoreis em ver-me, porque me será menos violento o viver com os maus, que estão em caminho de pagar a sua culpa conhecida, que com os que fingindo retidão, os reveste a hipocrisia. A estas palavras se apartou dali Arnézio triste, e confuso; no dia seguinte, ainda que lhe não fez mais confissões do seu néscio rendimento, para fugir daquele perigo, se lançou Belino de uma janela com tanta felicidade que sem receber moléstia alguma, encontrando-se logo com Delmetra, (que era inseparável daquelas paredes) prodigiosamente saíram da Cidade; e continuando a caminhar com cautela, e cuidado, davam graças a Minerva, a quem atribuíam aquele admirável sucesso.