Castelo Perigoso/LVI

Wikisource, a biblioteca livre
< Castelo Perigoso
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Castelo Perigoso
Capítulo LVI – Que o homem não deve presumir de si, posto que virtuoso seja, porque muitas vezes acontece que só por um defeito se perde


Ora está o coração em seu castelo alto assentado, bem fundado e cercado e bem guarnido de vitualhas e de água. Ora acontece algumas vezes que a pessoa esguarda o castelo de seu coração, e vê-o tão forte que se segura mais que razão, por que cai em alguma negligência; e assim algumas vezes o forte castelo que a grande pena e trabalho do corpo foi edificado em uma só hora se perde.

Isto acontece quando a pessoa a que Deus fez tantas graças ensoberbece e parece-lhe que tem assaz trabalhado e que é bem tempo de folgar. Isto não é assim que muito falece do que o sandeu pensa. Muitas pessoas foram já a que parecia que por sua santa conversação deviam de subir ao céu; e, por uma pouca de soberba ou negligência ou por grande segurança caíam no abismo donde jamais se não podiam levantar e eram perdidos.

Por isto deve saber a devota pessoa que o cerco dos inimigos é posto a seu coração e jamais não se partirá até que seja morto ou preso ou se renda. E quanto o castelo é melhor e mais abastado de riquezas, mais há de inimigos e de fortes combates. Isto quer dizer que quanto a pessoa é mais devota mais há de tentações e mais lhe duram.

E por isto, quem há cuidado de sua salvação não se deve muito segurar, ante deve considerar como aqueles que são cercados em um castelo se governam sagesmente, e assim se deve homem manter. Primeiramente, eles vivem temperados em comer, que vitualhas não lhe faleçam por mais durar sua defesa. Desde aí, pouco saem fora; e se hão de sair é ordenadamente e bem armados e por licença de seu capitão, e sempre com temor e tornam o mais toste que podem e têm cuidado de andar arredor de seus muros e buscar todo que não haja aí míngua nem lugar, por que os inimigos possam entrar a mal fazer ao castelo. E se acham alguma coisa mal corrigida, logo a fazem corrigir, e no mais fraco lugar põem maiores guardas. Desde aí, amiúde se admoestam e avivam uns aos outros a bem e virtuosamente obrar e com grande esforço. E assim acontece amiúde que ainda que eles estejam em medo e tristeza, não deixam de cantar sobre os muros por desconfortar os inimigos.