Castelo Perigoso/XI

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Castelo Perigoso
Capítulo XI – Da avareza e de como a propriedade em os religiosos é torpe pecado


Por avareza peca homem em muitas maneiras e especialmente em três, assim como: em cobiçar o alheio contra razão e com má vontade trabalhar de o haver, e a torto o reter. Quem o alheio cobiça por comprida deliberação, que de boa mente o haveria se ouvesse tempo e lugar, ele peca mortalmente. Mas quem cobiça alguma coisa por condição se a pudesse haver sem pecado, tal pecado é venial.

E quem busca o alheio por má razão ou por roubo ou por furto ou por engano ou por mal barato ou por usura, isto é pecado mortal, e não pode ser quite nem assolto se o não paga, se tem de que, e se repreenda de bom coração ou haja tenção de o pagar quando puder, que quem não há vontade de pagar, sempre está no pecado. E assim deve homem pensar, se houve alguma coisa do alheio por mau título.

E se homem há alguma coisa deve-a de dar a cuja é, se o pode saber; e se não, dá-la por Deus por conselho do seu maior. Propriadade em religiosos é grande pecado. Mas daqueles que não hão de sua igreja abastamento, que por mandado de seus maiores hão rendas, ou outras coisas de seus amigos, isto não é pecado, mas que sagesmente se despendam e em boas usanças. E devem saber todos os religiosos que nenhuma coisa podem dar nem filhar sem seu maior, geral ou especial. E se são escassos do que hão aos outros, a que é necessário, seja por dar ou por emprestar, eles pecam por avareza. Ou quando homem é avarento de ensinar a outrem o que sabe, ou de letras ou de outras obras honestas; que todo homem deve de ensinar de boa mente por amor de Deus.

Mas são alguns de tão má natureza, que antes deixariam o que hão apodrecer, que darem a seus irmãos ou a seus servidores. Certo, esta obra é muito feia e é grande avareza e grande pecado em religiosos, e devem-se dele a confessar.