Castelo Perigoso/XII

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Castelo Perigoso
Capítulo XII – Da gargantuíce e diversas espécias e ramos dela. E aqui trata dos religiosos


Por gargantuíce peca o homem em cinco maneiras, scilicet em comer antes de hora ordenada, quando por pura gula a não quer nem pode aguardar, e em comer muito (trigoso?), e em cobiçar e buscar viandas preçadas e deleitosas e bons vinhos e fortes, e em muito comer e beber em quantidade, tanto que a natureza se agrava e homem serve Deus pior, ou quando homem se (revessa?), quando homem come muito açodado e muito gulosamente e muito asinha, assim que por triguança mastiga mal sua vianda, e quando homem sé muito longamente à mesa por joguetar ou por cuidar ou por se longamente deter em seus vícios.

Este é grande pecado, quando homem mete grande estudo e faz grande custa em aparelhar suas viandas com salsas custosas. Assim peca muito gravemente a pessoa que há idade e quebra os jejuns da Santa Igreja, se não é por justa causa, e os religiosos que britam os jejuns de sua ordem.

Por gula cai homem em muito falar, que é feia coisa aos religiosos, desde aí em detração e em murmuração e em sujas palavras e em vitupérios e em louçainha da carne e em prazeres desordenados e vilãs continências. Homem ou mulher lançado à gargantuíce, especialmente ao vinho, não pode vir a perfeição, nem pode resistir a algum vício, porque a gula é porta e entrada de todos os pecados.