Castelo Perigoso/XXX

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Castelo Perigoso
Capítulo XXX – Como a memória do juízo eternal é aproveitosa, e de quatro considerações dignas de notar


A quarta besta que homem deve lançar é a consideração do dia do juízo, que muito será espantoso, de que são Jerônimo diz: "Que eu coma, ou beba ou durma ou faça outra qualquer coisa, sempre me parece que ouço soar em minhas orelhas aquela espantosa voz: "Ó vós, mortos, levantai-vos e vinde ao juízo".

Então serão as consciências de cada um a todos descobertas, ca todos os pecados de dito e feito e pensamento, de que homem não fez emenda em sua vida, aparecerão a todo o mundo. Ali receberão os maus perdurável confusão, e serão lançados da alegria do paraíso, e aqueles e aquelas que reportarão suas obras ao louvor do mundo.

Aa! Deus, diz são Bernardo, u fugirão então os pecadores? Ca, de cima será o sanhudo juiz; e de fundo, o inferno aparelhado; e, à parte direita os pecados acusadores; e, à sestra[1], o diabo que os estará esperando; e, de fora, o mundo ardendo, e, de dentro, a consciência fervendo. E assim não se poderão esconder, que lhe será mais grave que morte".

E, pois, quem há contra os combates do diabo e do mundo e da carne estas quatro considerações suso-ditas, scilicet, de seu original nascimento e de sua fraqueza e de sua miséria corporal e espiritual, isto é ignorância de seu estado, e a memória da morte, que muito é proveitosa, e o espanto do grande juízo, quem isto houver, ligeiramente pode defender a primeira cava de seu castelo, isto é ter humildade em seu coração pelo primeiro muro que é discrição.

Notas[editar]

  1. O original traz "seistra", forma não registrada pelo dicionário Houaiss.