Castelo Perigoso/XXXII

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Castelo Perigoso
Capítulo XXXII – Que a paciência é muito necesária, e de como esta virtude a nenhum a pode percalçar, salvo o que for tentado


E porque falamos da paciência, devemos de saber que nos é necessária não tão somente contra os males de nossos próximos, mas ainda contra as adversidades que Deus nos envia, ca o bom padre castiga e fere o filho que ama, se é bom, afim que, alterando-se, não piore; e se é mau, que se emende.

Pois eu digo que por virtude de paciência vencem os sofredores todos seus inimigos: o diabo e o mundo e a carne. Este é escudo de ouro àquele que por amor de Deus sofre, que o cobre de toda parte, assim como diz no Salteiro, que nenhuma seta o pode ferir. Esta virtude não há algum se não é tentado. Ca tribulação forja paciência.

Sem esta virtude nenhum é provado, assim como o ouro sem fogo não pode ser fino, nenhum pode haver, sem paciência, perfeição nem vitória. Muito sofre de fogo e lhe convém levar de golpes a copa de ouro, antes que venha à mesa do rei, e o cálice, antes que seja posto no altar. Assim convém à criatura sofrer, antes que possa chegar à mesa do rei do paraíso, ca por muitas tribulações nos convém aí entrar, segundo diz são Paulo.

Por esta virtude é o homem e a mulher forte, assim como o ferro, que assenhora os outros metais, e é provado como o ouro, que, quanto mais é no fogo, tanto mais é claro e puro e melhor se trata.

São alguns que presumem que ser pacientes, porque não há aí quem contra sua vontade alguma coisa faça nem diga, mas tanto que o[1] homem repreende ou corrige de suas mínguas, eles mostram bem o que tinham no coração por suas ásperas e orgulhosas respostas.

Notas[editar]

  1. "O", aqui, não é artigo, é pronome de objeto direto. Por "o homem repreende", diríamos "homem o repreende".