Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Casar e descasar

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
96. Casar e descasar



96. CASAR E DESCASAR

Um lavrador rico tinha só uma filha, que era muito linda; uma noite fallando com a sua mulher, quando já estava tudo socegado em casa, disse-lhe:

— A nossa filha já está casadoura, e nós temos uns bens bons, que hãode ficar para ella, e faz minga de lhe dar um marido que seja capaz.

— Ora quem hade ser? Disse a mulher.

— Eu já cá tenho um de olho. É o filho d'aquelle lavrador que mora ali ao cabo da villa.

— Lá esse tambem me parece bom rapaz, e não tenho que lhe dizer.

A rapariga, que ainda estava acordada, ouviu tudo, e no outro dia quando o pae e a mãe estavam no campo a apanhar os feijões, pôz-se á janella e quando viu passar o noivo, disse:

— Entra cá, Manoel. Sabes que mais? meu pae quer-me casar comtigo.

O rapaz entrou para dentro, e disse:

— Tambem eu quero; e então vamos a isso.

A rapariga era babana e esteve pelos autos. Quando elle se foi embora, a rapariga foi levar o jantar ao campo, e disse muito contente:

— Meu pae, eu já casei com o filho do lavrador do cabo da villa.

O pae ficou muito admirado, e assim que soube a verdade do acontecido, pôz-se a berrar desesperado, e quiz-lhe bater. No dia seguinte, ella pôz-se muito triste á janella, e assim que viu passar o rapaz chamou por elle:

— Entra cá, Manoel. Meu pae não gostou do nosso casamento, e então é preciso que a gente se descase.

— Vamos a isso. As coisas desfazem-se do mesmo feitio que se fazem.

Tornou a rapariga ao campo a levar o jantar e contou tudo ao pae, que já se tinha descasado. Elle ficou ainda mais desesperado e d'esta vez bateu-lhe a valer. Quando foi fallar com o lavrador a respeito do casamento da filha, já o rapaz estava embeiçado com outra, e com o casamento ajustado. A moça não ficou triste nem alegre, e esperou o dia do casamento. Ora n'aquella terra era costume de darem um jantar em casa do padrinho antes dos noivos se irem arreceber; quando estavam á mesa, appareceu a moça que se tinha descasado, muito aceiada, com todo o ouro que tinha, e pegou n'um copo e fez uma saude, dizendo:

Venho aqui brindar
O noivo que se casa
E torna a descasar.

E repetia isto a todo o proposito. A noiva que ouviu, perguntou ao rapaz o que é que queria aquillo dizer? Elle contou-lhe tudo; vae ella e diz:

— Sempre é muito tola, não é? Eu cá trago um filho do nosso abbade, e nem meu pae nem minha mãe o sabem.

O rapaz cahiu em si a tempo; e disse para os convidados:

— Meus senhores, quero-lhes fazer uma pergunta: Quem tinha uma chave de ouro e a perdeu, e se serve com uma de prata, se tornar a achar a de ouro deve deital-a fóra?

Responderam os convidados:

— Deve querer antes a chave de ouro.

— Pois é o que eu faço.

E o filho do lavrador sahiu pela porta fóra e foi tratar de se receber com a rapariga innocente de que a ressabiada tinha feito chacota.

(Minho — Airão.)