Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O falso principe e o verdadeiro

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
166. O falso principe e o verdadeiro



166. O FALSO PRINCEPE
E O VERDADEIRO

Acabado de repousar a sesta um rei viuvo, que já sahia fóra da camara para a guarda roupa, muitos fidalgos mancebos lhe apresentaram um, que traziam ante si preso, e póstos ante elle lhe disseram:

— Senhor, estando agora na sala grande jogando á péla o princepe com este fidalgo e outros, sobre uma chaça vieram a ter differença no jogo, e tanta que o Princepe manencorio contra elle o affrontou e lhe disse palavras muito feias e mal ditas, que este fidalgo alevantou a mão e lhe deu tão grande punhada no rosto, que lhe ensanguentou os narizes e bocca, cousa que a todos nos pareceu tão mal que o queriamos matar por isso, e o fizeramos se não fôra pelo Duque seu avô, que com grandes brados se poz no meio, dizendo: Que pois sua alteza estava na terra não quizesse mos nós tirar-lhe seu mando.

Elrei que o ouviu entendeu bem o caso, e disse:

— E o princepe a esse tempo não tinha comsigo nenhumas armas? Ou como lhe não tirou a vida?

— Armas, tinha; que sempre traz adaga na cinta; porém tanto que se viu ensangentado se poz a um canto da sala a chorar, coisa que de todos lhe foi muito estranhada.

Elrey deixando passar um pequeno espaço em o qual deu logar a apartar de si a grande ira que com a supita menencoria tinha concebida contra o fidalgo, e socegado no espirito, disse:

— Affirmo-vos, em verdade, que mais quizera que me dissesseis que o principe era morto, ainda que não tenho outro filho, que saber que soffreu essa injuria tamanha sem se vingar d'ella. Quero que seja ouvido este fidalgo ante os meus desembargadores, guardando-lhe tambem a elle seu direito e justiça, que creio não terá nenhuma desculpa que o escuse de morte, havendo feito tão grande delicto como fez.

E ainda que o mancebo a este tempo quizera responder, elrey o não quiz ouvir, mas mandou-o ter preso e arrecadado com grande guarda; porém que se quizesse ir a alguma parte da cidade que o levassem com muito resguardo e segurança, e que esta prisão fosse por quinze dias, dentro dos quaes se provesse do que lhe cumprisse, e no cabo se apresentasse ante elle e os seus desembargadores. Muitos fidalgos que se acharam presentes acompanharam a este mancebo e lhe aconselhavam que se fosse, porque o podia fazer não sómente da cidade mas do reino até á raia na fronte ira dos imigos, onde trabalhando em armas na guerra podia fazer cousa com que elrey lhe perdoasse o mal que fizera, o que elle não acceitou nem quiz nunca quebrar a prisam que lhe deram. E assi se lhe passaram os catorze dias do praso em os quaes, ainda que buscou conselho de letrados e fidalgos para sua salvação, não achou quem lhe aconselhasse cousa que o satisfizesse, nem desculpa do delicto, porque a todos parecia caso de morte. E muy inteiro n'esta tenção sabia alguns dias de sua pousada acompanhado de seus guardadores por se desagastar, e para vêr se achava quem lhe abrisse algum caminho como parecesse mais despejado diante de elrey. Recolhendo-se quasi noite encontrou á porta de um Mosteiro uma mulher muito velha, que ao parecer seria de noventa annos, muito feia, secca e mal arroupada, e ella que o estava esperando, chegou-se a elle e disse-lhe:

— Senhor, eu vos faço saber que sei a pressa em que andaes e o remedio que tendes para sobrar vossa vida do caso que vos aconteceu; para o qual não achareis no mundo quem vos aconselhe o que vos cumpre senão eu, e seguindo a ordem do meu conselho sereis livre d'esta affronta e ficareis o mais honrado de vossa geração. Porém, antes de tudo, para que eu tenha razão de vos dar a industria e modo que necessario é n'este caso, convém que façaes por mim o que vos eu pedir.

O fidalgo tanto que a ouviu e entendeu o que lhe dizia, foi em extremo ledo, promettendo-lhe de fazer por ella tudo o que lhe mandasse; porém ella disse que havia de ser logo, e que o que lhe pedia era que a recebesse por sua mulher, do qual elle se maravilhou muito e respondeu:

— Deixando á parte a calidade das pessoas em que não fallo, vossa edade não conforma com a minha, que eu ainda não fiz vinte annos e vós pareceis de cento ou quasi, pelo qual não posso casar comvosco.

Ella se mostrou muito agastada e respondeu:

— Embora; e vós engeitaes-me por velha, pois eu vos certifico que me haveis de rogar e receber, se não que ireis a casar com a picóta, que é mais antigua deixando-lhe lá a cabeça por arras.

E assi se apartou d'elle, indo muito direita pelas ruas. O fidalgo, que com as suas palavras estava já esforçado e com esperança da vida, vendo-a ir, e temendo se fosse ficaria sem remedio, foi-se após ella com tenção de lhe prometter o que pedia, e tanto a seguiu, que a alcançou e lhe disse:

— Senhora, perdoae-me não acceitar antes de agora o que me pedistes, que eu conheço que errei e quero fazer o que me mandardes.

E assim se foi ella a sua pousada e ali em mãos do cura prometteu e jurou de a receber por sua mulher; porque sem isto não lhe quiz ella dizer cousa alguma. E tanto que perante testemunhas foram jurados, ella lhe aconselhou o que devia de fazer aquella noite e o que havia de dizer ao outro dia apresentando-se na relação diante de elrei. Vindo a menhã, quando foram horas e soube que estava elrey com os desembargadores na casa de despacho se foi lá, e lhe fez saber que estava ali, que se vinha livrar. Elrey mandou que entrasse, maravilhando-se todos de sua ousadia; e elle entrando disse o seguinte:

— Mui alto e poderoso rei e senhor nosso, ainda que vossa alteza está manencorio, a seu parecer com rasão, se me ouvir diante d'estes fidalgos e letrados com animo desapaixonado, e de sua pessoa que será a principal testemunha do que disser, ficarei desculpado e corri muita honra; para o qual somente lhe peço por mercê me queira ouvir, até que acabe de todo o que quero dizer: Havendo quatro annos, pouco mais, que vossa alteza era casado com a rainha, vendo que ella não paria, desejoso de ter filhos era afeiçoado a mulheres, e a ella não mostrava tanto amor como no principio. Por lhe ganhar a vontade, aconselhada de outras mulheres se fingiu prenhe, e assim haveria princepe no reino e vossa alteza lhe teria mais amor. O que tudo se ordenou e fez como ella pedia, e as parteiras lhe trouxeram um filho de uma pobre mulher, que morava fóra dos muros da cidade, cujo marido era um cavouqueiro. Isto tudo se fez com tanto segredo, que nunca té hoje foi descoberto. Com esta imaginação a rainha adoeceu de enfermidade de que morreu, dando primeiro conta a seu confessor do que fizera. Verificado não ser princepe o que cuidavam que o era, ficará o meu caso menos grave e eu não merecendo tanta pena por sua parte. E se vossa alteza não se enfada, ainda lhe direi adiante outras novidades maiores do tempo e de mi, que fazem ao caso e folgue de as saber.

Elrey lhe disse:

— Por certo, que o que até aqui me dissestes foi tanto e estou d'isso, tão espantado e triste, que não posso imaginar que possaes dizer adiante cousa maior, nem que eu receba alegria; porém, por saber que é, e por vos ouvir como tenho promettido, dizei.

— Saberá vossa alteza, que havendo quasi dous mezes que a rainha se fazia prenhe, por encobrir melhor o engano não consentia que houvesse mais ajuntamento, e pela não anojar, se foi para fóra d'esta côrte vossa alteza e assi andando pelas terras do Duque meu avô mandou rodear a cêrca por vêr se havia entrada no pomar; e achando-lhe uma pequena porta a fez lançar fóra do couce, e aberta viu que andavam dentro mulheres, e uma donzella muito fermosa, que n'aquelle tempo seria de catorze annos, e peitando com joias e dinheiro aquellas que a deveram guardar, a meteu na casa do pomareiro, e ali houve ajuntamento e lhe deu estes tres anneis que vossa alteza levava nos dedos, e esta cadêa com esta cruz e lhe descobriu que elle era rei, ainda que ella não lhe quiz dizer quem era, por que ficou tam anojada de seu corrompimento, recolheu-se em casa sem tornar mais em sua vida ao pomar. Seu pae, que é o Duque meu avô, tomou isto muito mal, porque minha mãe se determinou de não casar, e como o duque não tem outro filho nem filha senão minha mãe, e sabia ser eu seu neto, criou-me com mimo, pois sou com verdade filho de vossa alteza, e veja se conhece estes anneis, cadeia e cruz. E assi sendo isto verdade, como é, já vê que este que até agora se teve por princepe o não é, que se o fôra não couberam em sua bocca as palauras torpes e vis que me disse.

E com isto se poz em giolhos na alcatifa que estava aos pés delrey; admirados ficaram todos os desembargadores e fidalgos que estavam presentes, em especial sua alteza, que então se lhe representou diante dos olhos aquella donzella fermosa e como a houvera n'aquelle pomar, e as muitas vezes que desejou saber quem era; lembrou-se que elle dera aquellas joias, conheceu-as e considerando o mais que fica dito, teve para si que aquelle que tinha diante dos olhos era seu verdadeiro filho, e quanto ao mais do que estava em posse de princepe fizeram-se as diligencias necessarias, e de um em outro se soube a verdade, e o mancebo foi julgado por sem culpa do passado, e do presente lhe fizeram grandes honras, jurando-o por princepe do reino para o haver depois da morte de seu pae. Mandou elrey o mancebo que até então tivera o principado e sua mãe com todas as pessoas que foram ao conselho e consentimento de o trazer por filho de elrey, se fossem da terra e os mandou levar a uma ilha donde nunca mais nenhum tornou á côrte.

Estando sobre mesa com grande contentamento, elrey quiz saber como e por quem fora descuberto a seu filho, que o era e não o outro, rogando ao princepe lh'o contasse. Contou como á porta de sua casa achara aquella velha que lhe descobriu o caso miudamente, e que ella lhe ensinou que fosse pedir aquellas joias a sua mãe, e tambem tudo o mais que até então tinha dito e feito, e lhe descobriu como para isso elle lhe jurara casar com ella, porém que o não faria pela disformidade das edades baixeza e fealdade d'ella, e não tinha tenção de casar senão quando e com quem sua alteza ordenasse. Elrey lhe disse:

— Já que lh'o jurastes de a receber e ella cumpriu o que vos prometteu, seja quem fôr, cumpri vossa palavra.

Fez elrey que a velha viesse ao paço, e foi recebida por mulher do princepe, o qual ficou d'isto tão triste como já fôra ledo com o socego de seu conselho. O princepe e ella foram levados a uma camara rica donde tinham seu leito, em que o princepe se deitou com mostras de tanto pesar por se vêr casado contra seu gosto, que ninguem lhe podia vêr o rosto, nem elle quiz vêr o da princeza, mas deitado na cama virando-se para a dianteira e ella da outra parte voltada para a parede estiveram sem se verem nem fallarem um ao outro esta noite e outras muitas. Uma noite, estando o princepe e a princeza na cama, segundo seu costume, ou viu um rumor na camara, e era tal, que parecendo-lhe fosse alguma treição se ergueu do leito, e com a espada na mão foi para aquella parte adonde o rumor parecia, e ali nem em toda a casa não havia cousa que se podesse temer, nem mostras que dessem suspeita do que fôra, que elle pôde vêr tudo bem porque tinha um brandão acceso que alumiava a casa toda. Vista a quietação, deixou a espada e tornou-se ao leito, e como a este tornar levasse o rosto para a cama donde a princeza jazia, ainda que estava virada para a parede viu-lhe a cabeça em que tinha uma coifa feita de ouro tirado com algumas perolas riquissimas que davam de si muito lustro e faziam que os fermosos cabellos, que estavam debaixo se differençassem na côr do ouro. Elle vendo o resplendor da coifa, sem saber determinar comsigo o que seria aquillo, considerando que a velha tinha os cabellos muito alvos, desejou affirmar-se que era o que via, chegou mais perto, viu-lhe o rosto muito alvo e fermoso. Ficou mais maravilhado do que se póde imaginar, porque viu que era a mais fermosa e bella criatura que seus olhos viram. Não podia acabar comsigo de crêr que aquella fosse a velha, que elle cuidava tinha comsigo, porque lhe parecia, como na verdade era, moça que não passava de catorze annos, alva e loura.

Vista pelo princepe a fermosa dama que tinha com sigo, pediu-lhe se voltasse pera elle; por que se não desconcertasse no termo, inda que era sua mulher e elle seu marido, conhecendo que era acabado o tempo de seu encantamento, lhe disse:

— Senhor, quem me desconhece de dia na sua sala por velha, não é rasão que me venere e conheça em outra parte por moça e fermosa; pelo que vossa alteza não haverá de mim mais do que até agora houve sem se determinar de duas cousas qualquer: Se me quer esta que ora me vê de noite comsigo na cama, e que me hade soffrer de dia velha e fêa na sala; ou pelo contrario, ter-me na sala de dia esta moça e fermosa, e na cama de noite velha e fêa. E como se determinar no caso assi lhe responderei e direi o que hade fazer ao diante.

O princepe, que já a este tempo estava tão namorado d'ella, que por nenhum preço a queria perder, nem aventurar-se a isso, lhe respondeu:

— Seja eu tão ditoso que vos não perca, e no mais vos quero como vós quizerdes que vos queira, porque em vossa vontade deixo a minha, e essa quero seguir toda a minha vida.

A este tempo ficou a princeza muito leda, e logo disse:

— Pois senhor, de hoje para sempre serei esta que aqui me vêdes e não parecia, porque já é acabado meu encantamento. Parece cousa tão contra rasão vêr-me hontem velha e fêa e hoje moça e fermosa; é necessario dizer-vos quem sou. Elrey de Granada é meu pae; sendo eu de sete mezes, estando no berço a deshoras a ama que me criava viu que em um instante se me mudou a côr e se me arrugou a pelle de maneira que me tornei logo velha muito fêa; minha ama deu logo grandes brados, aos quaes accudiram elrey e a rainha, e ainda que a ama lhes disse o que vira disseram elles que não era possivel senão que alguma cousa má lhe levara a filha, e logo lançaram fóra de casa a ama, queixosos d'ella, que saiu commigo do paço, e buscou quanto a ella foi possivel, quem lhe dissesse que cousa fôra aquella e o remedio que tinha, e achou um velho que lhe disse, que antes de quinze annos de minha edade seria livre e com muito contentamento, porque aquillo fôra feito por ciumes de uma mulher com quem meu pae antes de casar tivera conversação; e aconselhou a minha ama me trouxesse a esta cidade, porque aqui haveria fim meu trabalho e eu ficaria livre.

Todos folgaram muito de saber que era de tão alto sangue; despediram logo mensageiros que o fizeram saber aos reis de Granada, os quaes levaram tanto gosto d'isso, que não se poderam ter sem virem alli donde viram a filha e genro e aos Reis seus sogros.


Trancoso, Contos e Historias, P. III, conto I)





Notas[editar]

166. O falso principe e o verdadeiro. — Sobre o thema tradicional de um principe que se dá a conhecer pela sua valentia, vide o n.º 44. Em um conto da Edade media, que vem no Novellino, e no Baculo Pastoral, o principe é ensinado por um mestre, que tem mais doze discipulos em quem bate quando o principe erra a lição.