Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O figuinho da figueira

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
27. O figuinho da figueira



27. O FIGUINHO DA FIGUEIRA

Era uma vez um homem que tornou a casar, e tinha uma filha do primeiro casamento que era tratada pela madrasta mal a mais não poder. Tinham uma figueira lampa no quintal, para onde a madrasta mandava a enteada guardar os figos por causa da passarada. Quando a pequena ia para o campo, a madrasta seguia-a tambem para contar os figos, dizendo-lhe que a matava se lhe faltasse algum. Um dia veiu o milhano e comeu tres figos, por mais que a pequena o enxotasse. Quando estava já a anoitecer a madrasta veiu revistar a figueira, e deu pela falta de trez figos. Logo ali matou a enteada e a enterrou debaixo da figueira, e veiu para casa dizendo que a rapariga tinha fugido. O pae pensou que ella teria ido servir para alguma casa longe. Um dia que o pae passava por debaixo da figueira, ficou pasmado de ver debaixo d’ella muitas flores, e entre ellas um lindo botão de rosa. Foi para as colher, mas sentiu uma voz, a dizer-lhe:

Não me arranquem os meus cabellos,

Que minha mãe os creou,

Minha madrasta m’os enterrou

Pelo figo da figueira

Que o milhano levou.

Ao principio o homem ficou sem saber o que havia de fazer; mas por fim resolveu-se a fazer uma cova n’aquelle logar, para vêr que cousa era. Depois de estar já bem funda a cova, descobriu uma lagem, levantou-a, e deu com uma escadaria por onde desceu. Quando chegou lá abaixo encarou com a filha, que estava muito linda e muito bem vestida:

— Filha, como é que vieste ter aqui?

— Quando a minha madrasta me enterrou, appareceu-me aqui esta casa, e todos os dias vem aqui uma senhora dar-me de comer.

O pae ficou vivendo com a filha, e não quiz mais saber da mulher.

(Algarve.)


Notas[editar]

27. O figuinho da figueira. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XLI, vem uma versão de Coimbra sob o titulo A menina e o figo. Acha-se nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, n.º XVI, com o titulo A Madrasta. Celso de Magalhães colligiu-o na tradição do Maranhão.