Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os tres conselhos

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
161. Os tres conselhos



OS TREZ CONSELHOS

A casa de um sabio letrado chegou um mancebo de dezouto ou vinte annos e lhe disse:

— Meu pae, antes de sua morte me deu cento e cincoenta cruzados e me mandou que buscasse n'esta terra tres doctos varões, a quem desse cincoenta a cada um, e lhe pedisse por mercê que cada um me desse seu conselho d'aquillo que me pertencia fazer para bom governo de minha pessoa e vida. Eu tenho já escolhidos os letrados, e vossa mercê é o primeiro; sirva-se d'estes cincoenta cruzados.

E deu-lh'os logo em dinheiro, que o letrado tomou, e estudando sobre o caso, passados outo dias lhe respondeu:

— Assentae vivenda com algum senhor, e qualquer que fôr aquelle que vos acceitar honrae-o e servi-o com verdade e lealdade.

Despedido d'este letrado se foi a outro, e com as mesmas palavras que disse ao primeiro, lhe pediu seu conselho, declarando o conselho que já trazia, e lhe deu cincoenta cruzados, que o letrado tomou. E estando como o caso requeria, a cabo de outo dias, respondendo-lhe disse:

— Filho, presuposto, que aveis de ser tal qual o douto varão vos aconselhou, vos digo mais: Quando fordes poderoso, sêde misericordioso, não façaes com rigor tudo o que poderdes ainda que seja justiça. E sendo misericordioso no que fizerdes, sereis bem quisto de todos, tereis amigos, que em alguma necessidade, se a tiverdes, vos serão bons, e isto guardae sem falta.

E o mancebo se foi ao terceiro letrado, ao qual contou os conselhos dos dous que já ouvistes, dando-lhe os cincoenta cruzados, que acceitou; e estudando sobre o caso, conforme aos outros respondeu aos outo dias, e disse:

— Pois daes vosso dinheiro por conselhos, usae d'elles, que vos vae a vida em guardal-os. E alem d'elles digo, que se os amigos a que fizerdes bem vos agasalharem, acceitae seu gasalhado, e quando caminhardes andae de dia, não andeis de noite, ainda que seja uma pequena jornada; mas deixae-a pola menhã, que vos vae n'isto muito.

Estes foram os tres conselhos que os sabios deram a este mancebo, que se foi logo assentar vida com um senhor cidadão d'aquella cidade, ao qual sempre foi leal e sem lisonja como lhe foi aconselhado. Aconteceu, que vindo el Rey áquella terra, quiz este senhor por fruta nova (que então o era) mandar-lhe alguns figos, que os tinha, em certas figueiras temporãs muito boas; e mandou a ellas tres pagens, cada um com seu açafate, que os enchessem de figos, encommendando-lhes a limpeza e bom tratamento d'elles, porque eram para levar a ElRey. Dos quaes pagens era este mancebo um d'elles; e um dos outros, tanto que subiu na figueira, desejoso de comer dos figos se poz a isso comendo os melhores que achava. O outro pagem poz-se a encher seu açafate, tendo o olho emquanto lhe vinha ter á mão algum muito fermoso que lhe contentava mais, este comia. Este nosso pagem de que tratamos, tanto que trepou na figueira, com grande deligencia buscou como encher seu açafate de muitos bons figos limpos e maduros, tendo diante dos olhos que este era o gosto de seu senhor, que os havia de mandar a elrey. Todos os tres açafates foram bem recebidos, e logo se viu a ventagem que o d'este pagem tinha ao soutros, e foi descoberto o caso que aconteceu no apanhar, pelo que o mestre-sala delrey o pediu áquelle cidadão com quem estava, o qual pelo aproveitar lh'o deu, e o moço se soube dar tal manha em seu serviço e com tanta verdade, que elrey de o saber e de que vêr levou muito gosto e não queria ser servido por outrem senão por elle, quando o mestre-sala era ausente.

Mandou elrey para fóra do reino ao mestre-sala com um carrego honroso, e mandou que até elle tornar servisse em seu carrego aquelle mancebo, o qual o fez, tendo tão boa ordem no serviço do officio, que elRey estava muito satisfeito. E tanto que vindo novas que era morto o mestre-sala d'onde fôra, a este deu o officio, e foi tal, que mereceu que elrei o fizesse mordomo da casa da rainha. E querendo ir aforrado visitar seu reino, e prover algumas coisas d'elle, o deixou onde ficava a rainha, servindo-a n'este cargo em que esteve até que elrey tornou. Como nunca faltam mãos, foi este mordomo-mór mexericado com elrey, de maneira que com falsas informações o indignaram tanto contra elle, que sendo como era muito leal, affirmaram contra sua pessoa que era trédor, e isto dito por palavra e per pessoa, que elrey creu que seria verdade. E porque de todos era bemquisto, não quiz elrei na côrte fazer justiça d'elle, nem descobrir seus delictos; mas chamando-o ante si lhe disse:

— Esta carta não se fia de outra pessoa senão de vós; pelo qual com diligencia caminhando o mais que poderdes, a levae a foão, que está na raia d'este reino, em tal fortaleza, e dae-lh'a, e vêde como e de que sorte tem a guarda d'aquelle castello.

E logo lhe deu uma carta sellada com o sêllo real, que o mordomo tomou como leal criado; e visto o mandado delrey, partiu logo para a fortaleza por jornadas que já levava ordenadas da côrte, em que o terceiro dia avia de ir dormir áquelle castello. Porém, uma legoa antes de chegar a elle, se achou com o cavallo quasi desferrado de todo. E porque isto era passando pelo meio de uma boa povoação, quiz repoisar sua cavalgadura, e ouvindo trabalhar um ferrador, foi-se para aquella parte; mas antes que chegasse, lhe sahiu ao encontro um homem preto, alto de corpo, ladino, e lhe disse:

— Senhor, boa seja a vinda de vossa mercê; em verdade este é um alegre dia para mi; apeie-se, repousará aqui esta noite.

E poz-se a ferrar o cavallo, o qual fez com muito primor e graça, e feito disse:

— Senhor, conhecei-me, que tenho muita razão de vos servir, e fazei-me mercê que entreis n'esta casa, que é vossa.

E o mordomo attentando por elle, pareceu-lhe que já o vira. E n'estas detenças estiveram algum pequeno espaço, que lhe pareceu ao mordomo que devia de ficar ali, porque o preto se lhe deu a conhecer e era amigo que já recebera honras d'elle, e conforme ao terceiro conselho, não havia de passar adiante, e assi o fez com intenção de se erguer muito cedo e amanhecer na fortaleza. Cearam todos com contentamento, e sobre mesa lhe disse como ia áquelle castello não a mais que a dar aquella carta del rey ao capitão, que devia importar, pois elrey a não fiára d'outrem senão d'elle, a qual mostrou, e poz debaixo da cabeceira. Duas horas ante menhã, o preto se ergueu de sua cama, e tomando mansamente a carta da cabeceira ao mordomo, a bom recado caminhou, e ante menhã elle estava batendo á porta da fortaleza.

Tanto que o capitão abriu a carta, sem outra detença o mandou enforcar de uma amêa. Ora o mordomo-mór, tanto que foy menhã se ergueu, mas quando não achou a carta ficou agastado, e partiu a todo o galope. E em chegando á vista da fortaleza viu o preto enforcado da amêa, que lhe dava já o sol, logo presumiu que aquillo devia ser recado da carta, e estava comsigo pensativo que faria. Todavia com a furia que o cavallo levava chegou á porta, e chamou, e porque foi logo conhecido dos de dentro lhe foi logo aberta; o mordomo-mór tomou a carta, e viu que era a que ella trazia; leu-a, que dizia assi: «Capitão, tanto que esta receberdes enforcae o portador.» E estava escripta da propria letra de elrey, assinada e sellada, de que o mordomo-mór ficou espantado. Determinou tornar diante de elrey com a propria carta. Chegou ao paço a horas que elrey acabava de jantar, e se recolhia a uma camara a repousar. Entrou e posto em giolhos, disse:

— Senhor, não sei que supito accidente pode tanto com vossa alteza, que sem ser ouvido me mandasse matar tão cruelmente; minha innocencia me livrou.

E com breves palavras lhe contou como, e disse:

— Porém se vossa alteza tem culpas de mi, aqui estou, faça justiça, mande vir diante de mi quem me accusa. E se me faz mercê que eu seja ouvido, saiba que antes de vir a casa de meu primeiro senhor, dei cento e cincoenta cruzados que tinha, a trez sabios por trez conselhos que até hoje guardei. E do primeiro, que era ser sempre leal, como o fui, resultou que subi a mais do que merecia, nem esperava, como é chegar a servir de mordomo-mór da rainha. E n'este tempo que a servia, sendo vossa magestade ausente, senti que um escravo de casa sahiu do paço com certas peças ricas, que me pareceu levava de mau titulo; tomei-lh'as, e por não infamar á pessoa que as devera guardar, ou quem lh'as deu para as vender, dissimulei o caso, forrei o escravo, e mandei-o fóra do paço, dando-lhe dinheiro para o caminho; no que tudo usei do segundo conselho, que era — ser misericordioso quando fosse poderoso. Agora levando a carta que vossa alteza me mandou, achei-me a uma legua da fortaleza com o cavallo desferrado; conheceu-me aquelle escravo, que com o dinheiro que lhe dei aprendera a ferrador, e estava ali casado, e quando me viu ferrou-me o cavallo, mostrando e fazendo-me muito gazalhado me importunou que pousasse com elle aquella noite, o qual eu acceitei por guardar o terceiro conselho, que era tomar pousada com sol. O preto por me pagar, sem eu o saber me tomou a carta da cabeceira, porque lhe disse que a levava áquelle capitão, e de madrugada partiu de sua casa e a levou; d'onde resultou que conforme ao que n'ella dizia elle padeceu. Póde ser que quem tinha culpa das peças que digo, quando achou que não parecia o negro, temendo ser descuberto de mi, quiz com minha morte innocente segurar a vida maliciosa pondo-me algum falso testemunho.

ElRey ouvindo isto pasmou e fez vir ante si quem o accusava, o qual a poucas perguntas confessou ser elle culpado em delictos que cuidava o mordomo-mór sabia, e por escapar lhe alevantou tudo o que contra elle se disse a elrei. ElRey o poz em justiça e por ella foi condemnado á morte, que logo se executou. E assim pagaram elle e o negro como malfeitores, e escapou o innocente mordomo.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte I, n.º XVIII.)



Notas[editar]

161. Os trez conselhos. — Conserva-se ainda no povo este thema tradicional, a que Trancoso deu fórma litteraria. Vide n.º 100 e nota correspondente. O thema da morte do mensageiro repete-se na tradição do Pagem da Rainha Santa Izabel. (Vid. nota 173.)