Da França ao Japão/VII

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CAPITULO VII

 
A civilisação chineza. — Costumes chinezes. — A preponderancia do cultivo intellectual entre os chins. — A familia chineza. — Os casamentos. — Um codigo criminal philosophico.— As innovações no Celeste Imperio. — As ultimas concessões do governo da China sobre a civilisação européa. — Um estrangeiro poderoso na China. — As alfandegas chinezas. — Um devastador cyclone no porto de Hong-Kong. — Um quadro horrivel. — Como se pode visitar o Japão sem travar-se conhecimento com os cyclones. — Um fatalista em acção.
 


Muitas pessôas, aliás esclarecidas pelos conhecimentos que cultivão, da historia e da litteratura occidental, ignorão o gráo de civilisação e de instrucção da sociedade chineza; e, não raras vezes, somos interrogados sobre o que vimos a este respeito, durante nossa visita a esse paiz.

Em geral, os viajantes que visitarão o Celeste Império, contão com enthusiasmo as impressões, que gosarão, vendo mil costumes originaes, usos extravagantes, e outros accidentes que encontrarão em suas excursões ás differentes cidades da China, porém, com espirito caustico, mofão das instituições chinezas, por que as julgarão pelas apparencias, baseando-se em observações incompletas ou informações inexactas. Muitos escriptores julgão a sociedade chineza pelo que virão nas cidades do littoral, exclusivamente habitadas por pescadores e piratas e pelas autoridades civis e militares, as quaes, são compellidas a empregarem medidas violentas e arbitrarias para conter populações eivadas de todos os vicios, verdadeira escoria dos habitantes da China.

É nas cidades do littoral que refugião-se os foragidos do interior, é ahi que a raça chineza se cruza com a arabe e mesmo com a cafre; e, naturalmente, é nos portos do Imperio que recolhem-se os disfarçados piratas, de que já fallamos depois de suas correrias contra os navios de commercio, já para fugirem dos temporaes já para dissiparem qualquer suspeita sobre delictos que tenhão commettido.

Eis, pois, em que meio vive o estrangeiro ao chegar a China, e, não é neste abysmo fervescente de corrupção, que o viajante deve recolher os dados para julgar do estado moral e intellectual de um povo.

Accresce á influencia dessas falsas observações sobre o animo do escriptor, a má vontade com que os chins nos recebem, o que desperta em nosso coração, um sentimento pouco generoso ainda que de natural despique: — a antipathia por esse povo.

Esta repugnancia natural não deve, entretanto, guiar nosso juizo, quando tratamos de descrever os usos e costumes de uma sociedade, sob pena de faltarmos á verdade, por fraqueza de espirito ou intoleravel egoismo. Assim para, podermos conhecer os costumes dos chins, temos necessidade de investigar a razão de suas leis, a sua indole, e mesmo o fundamento da vida de familia, e sobre tudo, não devemos deixar-nos impressionar pelo que vimos nas cidades do littoral.

A historia de nenhum outro povo necessita da razão philosophica para ser commentada como a dos chins; entretanto, na massa d’esse povo não se encontrão homens de lettras e philosophos que confundão sua missão com quaesquer outros misteres.

 
CHINA
 
Mulher china

Lith, Imperial A. Speltz

MULHER CHINA
 

Salvo os casos de privilegios de nascimento, que são muito especiaes no Imperio da China, todo individuo póde elevar-se ás principaes dignidades do Imperio pela sua superioridade intellectual e moral. E estas distinções são tão legitimas, que os chins respeitão seus superiores sem que para isto seja necessario a imposição official; ao contrario, é a estima e a consideração publica que apresenta ao governo os homens capazes para a administração do paiz.

Além desta superioridade, conquistada pelo estudo e virtudes existe a da idade, e, em geral, é preconceito estabelecido que o tempo fizera as pessoas idosas depositarias da sabedoria; por isso, nem os homens os mais distinctos e até o Imperador deixão de lhes prestar respeito e distincta consideração.

O exemplo do amor filial, é edificante entre os chinezes, e nenhuma sociedade lhes avantaja neste sublime dever; é assim que os livros da moral chineza dizem que a primeira cousa que dá alegria é a saude de seus paes e a união da familia.

Pela morte do pai de familia é o mais velho dos filhos que o representa, a quem seus irmãos prestão verdadeiro respeito, e, aquelle, é o unico herdeiro de todos os bens de fortuna, comtudo, qualquer que seja o legado, o filho mais velho é obrigado a educar seus irmãos, sustental-os em vida, e as irmãs, são mantidas emquanto não casão. Assim, este privilegios de primogenitura, que parece injusto, é um verdadeiro encargo para o privilegiado herdeiro, se attendermos que as nove decimas partes da população da China compõem-se de familias de proletarios.

A lei da polygamia existe no imperio, só no caso de ser a primeira mulher infecunda, então é a esta que cumpre procurar outra mulher que dê filhos a seu marido; – foi para satisfazer os votos da natureza reproductora que esta lei foi promulgada no imperio. Na propria escriptura do velho testamento, vemos muitas matronas, que se distinguirão por suas virtudes, como Lia, Sara e outras, darem a seus maridos outras mulheres, afim de que um defeito physico, que lhes era pessoal, não impedisse a successão na familia; e, na verdade, se o fim do matrimonio é a procreação, a mulher infecunda devia ceder seus direitos a outra que podesse satisfazer os encargos da esposa.

Os chins assim pensão; porém reconhecem o dominio da legitima esposa sobre a segunda mulher, e também ellas tem direito de mãi legitima sobre todos os filhos de seu marido.

A superstição lavra na China nas classes inferiores, do mesmo modo que o fanatismo nos povos de raça latina, e por isso, vemos que quando apparece qualquer epidemia ou calamidade que afflija o paiz, em lugar de cuidarem de remover as causas do mal, quando é possivel; os chins tornão-se inactivos e desanimados, e limitão-se em rogar a protecção dos seus idolos. Comtudo, á nenhum indivíduo supersticioso, é confiado os empregos do Estado, e, em geral, os homens politicos da China, seguem a doutrina de Confucio, verdadeiramente philosophica, e humanitaria por excellencia.

O codigo criminal da China é admiravel pela humanidade de suas leis e pelas razões sãs e justas com que fundamenta cada pena; sómente pelo crime commettido é responsável o delinquente; a intenção de dar morte não constitue um delicto, como o que é disposto nos codigos das sociedades que se dizem mais civilisadas; ao contrario, os legisladores chinezes condemnando o assassino por ter commettido uma morte, livremente e depois de reflexão; não admittem como crime a intenção do dar a morte, desde que o delicto não foi perpetrado; e para fundamentarem as razões do seu codigo, dizem: «que as penas são proporcionaes aos estragos causados, sendo condição essencial a intervenção da acção physica.»

Um uso chinez que seria de máo gosto para as nossas leitoras, é o que diz respeito aos casamentos e ao modo do vida do bello sexo.

As velhas, como mais experientes, encarregão-se de procurar maridos ás jovens senhoras que não são consultadas sobre a escolha feita pelos parentes, e, quando casadas, as mulheres de distincção vivem em sociedade exclusiva do seu sexo no interior de suas casas, apenas sahem á rua uma ou duas vezes no anno para visitarem seus paes.

Apezar desta especie de isolamento, as grandes damas chinezas passão horas inteiras diante dos seus tocadores, e gastão muito tempo a enfeitarem-se; o que não deixa de ser agradavel aos maridos e ao mesmo tempo satisfaz o amor proprio que afflige o seu sexo.

As innovações encontrão na China invencivel repugnancia na população, e, ainda que muitos dos seus mais illustres filhos, tenhão tentado realisar certas medidas de interesse capital para riqueza de seu paiz, raras vezes tem-se visto serem bem succedidos. Muitas vezes ouvimos dizer, que a China é um paiz estacionario, rebelde a civilisação e insociavel; e, se estas accusações são fundadas, comtudo, tendo sido este rico paiz sacrificado em seus interesses, pelos famosos tratados de commercio com algumas nações da Europa, é natural a desconfiança que alimentão seus filhos contra qualquer instituição estrangeira, das quaes, algumas, já servirão aos inglezes para levarem a effeito seus ambiciosos projectos.

N’estas condições, vivendo fóra do contacto europeu com uma civilisação propria e sendo victima da diplomacia do canhão, este povo não pode supportar qualquer innovação nos seus costumes desde que suspeitão ser de origem européa, e, já muitas vezes, as revoluções instigadas pelos lettrados, derrubarão ministros d’estado e obrigarão o imperador a mudar de politica.

Apezar do odio que o povo chinez vota a tudo que é europeo, o governo da China, auxiliado por uma parte da sociedade illustrada, parece resolvido a sacudir o espirito estacionario de exclusão que caracterisa suas relações com as demais nações.

Em 1870, por um decreto do vice-rei da provincia de Chihli, forão creadas escolas especiaes onde os jovens chinezes podem aprender as sciencias cultivadas na Europa, e, ainda ultimamente, o governo do Imperio resolveo estabelecer legações e consulados nos principaes paizes da Europa e nos consta, que noventa mandarins forão designados para occuparem estas dignidades nos mesmos paizes, que apenas a annos, os chins denominavão «barbaros».

A boa disposição que o actual governo mostra, para com as instituições estrangeiras, é sem duvida devida a um homem poderosissimo da China, que sendo estrangeiro, soube captar a confiança dos chins e elevar bem alto a civilisação do occidente. O Sr. Roberto Hart chamado á China para crear e administrar o serviço das alfandegas do imperio, soube, em poucos annos, elevar as rendas das alfandegas, que antes rendido algumas centenas de dollars, à trinta e seis mil contos de réis annuaes, porém, depois de ter dispensado do serviço das alfandegas os filhos do céo, que forão substituidos pelos europeos.

As principaes alfandegas do celeste imperio são: a de Shangaï, Kien-Kiang, Fou-Chào, Cantão, Tai-Onan, Chin-Kiang, Nuig-Po, Chi-Fou, Tien-Tsin e Amoy.

Em 1869, os objectos importados representavão um valor de duzentos e quarenta mil contos de réis, e os artigos de exportação o de duzentos mil contos; elevando-se a receita das alfandegas á importante somma de trinta mil contos de réis que foi com o mais delicado escrupulo entregue pelo Sr. Hart ao governo da China.

Apezar da grande influencia de que este cavalheiro dispõe, não lhe foi ainda possivel decidir o governo a consentir na exploração das importantes minas de carvão do Pe-Tchi-Li e da ilha Formosa, entretanto, o preço da tonellada d’este mineral eleva-se muitas vezes á quarenta mil réis e mesmo, raras vezes, os paquetes e navios a vapor encontrão á venda em Shangaï e em outros portos da China o carvão de que necessitão, soccorrendo-se dos depositos das Messageries ou da Companhia peninsular.

Devíamos partir de Hong-Kong no dia 25 de Setembro pela manhã a bordo do Tanaïs com destino á Yokohama, porém, ainda achavamo-nos no Ava, quando ao anoitecer de 22 fomos assaltados por um violento cyclone que causou grandes avarias e desgraças em todo o porto e na parte baixa da cidade de Hong-Kong.

Foi verdadeiramente horrivel a noite que passamos a bordo do Ava durante o furacão.

Por espaço de doze horas, os officiaes, marinheiros e passageiros do Ava, esperavão a todo momento serem victimas da tormenta, e se depois de quebradas duas correntes que amarravão o navio, a ancora de salvação não podesse impedir o Ava que ia á garra, despedaçar-se contra o forte de Hong-Kong, teriamos a mesma sorte de vinte navios de alto bordo que derão a costa ou forão a pique, depois de se abalroarem, em quanto que o temporal, em terra também causava grandes desgraças.

O vento começou a soprar com impeto ás oito horas da noute mais ou menos, e, uma hora depois, tal era a violencia das rajadas, que se succedião com intervallos de mortificante silencio, que não ouviamos o que um companheiro de viagem, em voz alta, nos dizia, na distancia de um metro.

Ás duas horas da madrugada ouvimos em um destes intervallos, gritos de agonia e de soccorro; e no mesmo instante um grande navio passava á garra a bombordo do Ava e ia-se despedaçar sobre as casas que rodeão o caes da cidade.

Quando a rajada soprava, o Ava deitava-se sobre o seu bordo; era impossivel conservarmo-nos de pé; apenas, agarrados ás columnas de ferro da praça do navio, podiamos ter as indicações das agulhas de dois barometros aneroides.

Ás tres horas, o immediato exhausto por um lidar terrível de oito horas, desceu para onde estavamos, lançando imprecações contra as miserias da vida do marinheiro, e rogava a Deus a morte de seus filhos antes de dar-lhes momentos tão crueis como inglorios. Foi, então, que as duas cadeias do Ava romperão-se e o navio achou-se apenas preso á grande ancora que entretanto caçava.

O commandante, firme no seu posto, só esperava que a ultima ancora se perdesse para ordenar o movimento da machina com o fim de governar pelo porto até que a tempestade passasse, ou mesmo tentar uma sahida para o oceano; porém o céu estava escuro e os chuviscos obscurecião o tempo que era impossivel distinguir-se qualquer objecto ou mesmo a luz a alguns metros de distancia.

Felizmente pela madrugada, o vento saltava para o mesmo ponto donde começára na tarde anterior; cyclone tinha passado, mas o quadro mais triste e desolador que aos nossos olhos se tem mostrado veio contristar o nosso coração e fazer esquecer os perigos passados.

Em um canal, ao lado da cidade, apenas vía-se sobre a agua as pontas dos mastros de tres navios, carregados de gente que esperavão soccorros. Em frente de nós, sobre o caes, dois vapores hespanhoes que devião partir no dia seguinte para as Philippinas, completamente quebrados; perto das fortificações, alguns outros navios sossobrados e somente eramos tres ou quatro sobre a agua dos vinte que ahi se achavão fundoados na vespera.

A rua principal da cidade, sobre o caes, offerecia o aspecto de ruinas, tal era o numero de casas abatidas pelo furor do tufão.

Segundo os jornaes inglezes, o numero dos mortos se elevava a oito mil, comprehendidas as pessoas que perecerão nos navios hespanhoes, cujos passageiros compunhão-se na mór parte de familias proscriptas da Hespanha pela guerra civil, e que ião ás Philippinas em busca do asylo que, na sua patria, lhes era negado pelos soldados de D. Carlos.

Descemos á terra e desviamos os olhos destes montões de cadaveres de pescadores chins e de europeus, que as vagas lançavão a praia. Durante seis dias, que ahi permanecemos, só o desgosto e o pezar nos desanimava em nossos passeios e visitas aos arredores de Hong-Kong.

Sentimos não saber o nome de um cavalheiro inglez, então director da repartição dos incendios de Hong-Kong, que durante o furor do temporal arriscou sua vida para salvar a de um certo numero de passageiros dos navios hespanhóes. Actos desta ordem não devião ficar em silencio; e não nos desculpamos de ignorar um nome digno do reconhecimento de todas as almas bem formadas.

Emquanto dous elementos desencadeados levavão a morte e a desolação aos habitantes de Hong-Kong e aos tripolantes e passageiros dos navios surtos no porto, grupos de piratas chins ateavão fogo aos armazens da companhia americana, e levavão o saque e a pilhagem á um dos paquetes desta mesma companhia.

O incendio por circumstancias inexplicaveis apenas consumio dous armazens, porém, na pilhagem, forão assassinados alguns estrangeiros pelos miseraveis bandidos.

O governador da colonia mandou proceder a um inquerito sobre este inaudito crime e consta-nos que seus autores pagárão com a vida o acto barbaro e sanguinario que praticarão com o mais revoltante cynismo e audacia.

Muitos forão os dias de consternação e de luto que se seguirão ao da horrivel catastrophe; e a cidade de Hong-Kong foi theatro de pungentes e dilacerantes scenas.

Aqui, era um pai curvado pelos annos que reconhecia entre os vultos desfigurados dos cadaveres o do filho querido, a quem havia horas, considerava seu unico arrimo; mais adiante, uma pobre viuva trazendo pela mão dous filhinhos, levantava seus olhos ao céo para pedir ao Creador coragem e resignação, emquanto as crianças chamavão, em lingua indigena, aquelle que, sem duvida, lhes tinha dedicado seu ultimo pensamento; além, perto dos destroços do vapor Albany, um homem de tez morena com os cabellos em desordem e suas vestes em desalinho, andava a largos passos sobre o caes, gesticulando e fallando em voz alta e em lingua hespanhola, como que ordenando as manobras de um navio em perigo: – era o commandante do Albany a quem a desgraça da vespera tornara louco.

E estas lugubres scenas se repetirão durante o dia por varias vezes, todos choravão, e quem não tinha lagrimas para verter devia soffrer horrivelmente; — concentrava sem duvida acerba dor em seu coração.

Estas contrariedades, que algumas vezes sorprehendem os viajantes nas longinquas jornadas ao oriente, fazem valer as emoções que elles esperimentão ao visitar tão interessante paiz; e, se algum leitor tem a intenção de visitar o Japão, lhe aconselhamos realisar esta instructiva e deleitosa viagem, porém, de modo, que utilisando intelligentemente seu tempo espere na India a bôa estação para embarcar-se para o Japão. Em todo caso é perigoso e de máo gosto, viajar sobre os mares da China e do Japão durante a epocha da transicção das monções, o que tem lugar nos mezes de Setembro e Outubro; ao contrario, conta todas as probabilidades de fazer conhecimento com os cyclones o que não apurando o gosto para as viagens de mar, nem nos impressionando de modo agradavel, nos faz passar algumas horas aziagas.

Entretanto, existe nessa immensa familia humana alguns individuos de tal regimen de vida que nada lhes altera os costumes, e, como exemplo, apresentamos um gentleman nosso companheiro de viagem, que durante os dous violentos tufões deitara-se ás horas do costume ainda que para manter-se sobre o leito se ligasse solidamente á guarnição de ferro de que elle era rodeado, e como alguém lhe perguntasse se não receiava pela segurança do navio, e admirasse a serenidade de seu animo, á vista das desgraças que presenciavamos no porto, apenas respondeu que era fatalista.

E, na verdade, se o inglez não tinha razão não podemos negal-a ao experiente commandante do Ava.

 
JAPÃO
 
Da França ao Japão 08.jpg

Lith, Imperial A. Speltz

OS IMPERANTES DO JAPÃO