Dicionário de Cultura Básica/Antígona

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Antígona


ANTÍGONA (o amor fraterno, a heroína anarquista) → Édipo

"O coração de Antígona é o pêndulo do mundo"
(Marguerite Yourcenar)

O mito de Antígona é uma continuação da história de seu pai Édipo. O rei de Tebas, depois de tomar consciência de ter sido um parricida e um incestuoso, pois, sem querer, matara o pai Laio e tivera quatro filhos (Antígona, Ismênia, Etéocle e Polinice) com mãe Jocasta, vazara seus olhos, refugiando-se nos subúrbios de Atenas, em Colona, acompanhado pela devotada filha Antígona. Esta, após a morte do pai, voltou para Tebas e, durante a guerra dos "Sete Chefes", que disputavam o trono da cidade, assistiu à morte dos dois irmãos, um matando o outro. Desobedecendo à ordem do tio Creonte, Regente de Tebas, Antígona prestou as homenagens fúnebres ao irmão Polinice, considerado inimigo da cidade. Creonte se vingou, encerrando a sobrinha num cárcere, onde ela se estrangulou.

A figura de Antígona perpassa toda a cultura ocidental. A longo dos tempos, a tragédia ateniense foi remontada em quase todos os teatros das grandes cidades e nos pequenos palcos das províncias, por atores profissionais e amadores. Estima-se que, na modernidade, a representação de Antígona tem comovido mais homens do que quando a tríade dos dramaturgos gregos, Ésquilo, Sófoclese Eurípides, apresentaram seu mito ao pé da Acrópole, no séc. V a.C. A elaboração dramática grega do relato mítico sobre Antígona foi objeto de quatro peças: Os Sete contra Tebas (Ésquilo: 467), Antígona (Sófocles, 441), As Fenícias (Eurípedes: 409) e Édipo em Colona (Sófocles: 407). O romano Estácio retoma o conjunto da lenda no volumoso poema épico A Tebaida, em 90 d.C. Na Renascença, em 1580, o dramaturgo francês Robert Garnier elabora uma peça caudalosa sobre o mito, com o título de Antígona ou A Piedade, desenvolvendo o tema do amor filial e fraternal, cristianizando a lenda. Por muito tempo, a interpretação mais recorrente da figura da heroína está centrada no verso que Sófocles coloca na boca de Antígona, antecipando a palavra de Jesus Cristo:

"Eu não vim trazer o ódio, mas sim o amor".

Mas, ao longo do séc. XIX, pela mudança das ideologias, vai tomando consistência outra linha semântica, também ela centrada numa passagem da Antígona de Sófocles, onde a protagonista, contestando os decretos de Creonte, promete obedecer a

"leis não escritas, imutáveis, que não datam de hoje,
nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram".

Está afirmada a supremacia do direito natural e a proposta da luta sublime da consciência contra a força e a sabedoria contestável dos poderosos. Esta nova dimensão da tragédia está presente na peça Antígona do poeta romântico Alfieri, que luta contra o sistema monárquico italiano, no teatro de Brecht que, impregnado de marxismo, ataca a sociedade burguesa e capitalista, nas centenas de outras peças representadas no palco, no cinema e na televisão, inspiradas na figura de Antígona, vista como a mulher-símbolo da desobediência à lei, quando ela não é justa e não é útil ao viver social.