Dicionário de Cultura Básica/Nibelungos

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Nibelungos


NIBELUNGOS (saga alemã musicada por Wagner) → Épica

Como os outros poemas épicos primitivos, A canção dos nibelungos é uma rapsódia de mitos e lendas da antiga Germânia, que se formaram a partir de um fato histórico: a destruição do antigo reino dos burgûndios por obra de Átila, chefe da horda barbárica dos hunos, no ano de 437 d.C. Ao redor deste núcleo histórico, a fantasia popular criou várias "baladas", que enfeixam as sagas teutônicas dos séculos V e VI. Ao centro do material fabuloso encontra-se a lenda da rivalidade entre duas rainhas, Cremilda da Burgúndia e Brunilda da Islândia, que foi a causa da morte do mítico herói Sigfrido e de seus nobres cavaleiros nibelungos. O sentimento de inveja, de ciúme e de vingança de nobres e belas senhoras é o motivo mítico que tenta justificar a rivalidade histórica entre os povos germânicos (burgûndios, nibelungos, godos, francos, neerlandeses), causa esta do enfraquecimento dos povos cristãos e do domínio do império de Átila, rei pagão e não-germânico. Evidentemente, os mitos e as lendas sobre as origens, os fatos gloriosos e as desgraças dos povos germânicos estiveram sujeitos a um longo processo de maturação e a uma contínua reelaboração pela tradição oral. A primeira redação escrita, em forma de poema épico, remonta ao início do século XII. Um rapsodo anônimo deu aos cantos lendários da antiga Germânia o mesmo tratamento que Homero conferiu aos cantos heróicos da Grécia, ressalvadas, naturalmente, as diferenças estéticas e ideológicas. Os vários manuscritos do Poema dos Nibelungos só foram descobertos no século XVIII, no começo do Romantismo alemão. Mas o poema se tornou conhecido na Europa e no continente americano somente a partir da obra literária musicada por de Ricardo Wagner. Para a elaboração do libreto da famosa tetralogia ("O ouro do Reno", "A Valquíria", "Sigfrido" e "O crepúsculo dos deuses"), o imortal músico alemão fundiu a lenda dos Nibelungos com outras lendas nórdicas (as sagas escandinavas, dos Eddas, de Volsunga, de Teodorico, entre outras), estritamente relacionadas com as religiões pagãs da Europa antes do advento do Cristianismo (→ Cristo), cujas figuras principais eram Wotan, pai dos deuses, sua esposa Fricka, deusa da fecundidade, e Odin, deus da natureza, pois era o herói da luz que sucumbia ao poder da escuridão. O poema anônimo é imenso (2379 estrofes, cada qual composta de quatro versos alexandrinos), podendo ser dividido em duas partes. A primeira, de dezenove capítulos, trata das núpcias de Cremilda com Sigfrido e de Brunilda com Gunther e da inimizade entre as duas rainhas, com a conseqüente morte de Sigfrido. A segunda parte, de vinte capítulos, expõe a tragédia dos Nibelungos, causada pela vingança de Cremilda, após seu casamento com o rei huno Átila. Apenas para saborear a obra, apresentamos a tradução da quadra introdutória:

Antiqüíssimos cantares narram grandiosas façanhas;
falam de bravos guerreiros, de nunca vistas batalhas,
de festas e regozijo, de lágrimas e quebrantos,
de prodígios e aventuras que cativam. Escutai-os.