Elegia á morte de uma alcoviteira

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CARTAS DE OLINDA A ALZIRA




EPISTOLA I


OLINDA A ALZIRA

Que extranha agitação não sinto n′alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi a minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr′ora hei sido!
Minhas vistas ao ceu languidas se erguem,
E a mim propria pergunto d′onde venha
Tão novo sentimento assoberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n′elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.

Das mesmas sup′rioras a presença,
Que d′antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! minha cara! os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.



EPISTOLA II


ALZIRA A OLINDA


Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a Natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Procede ao fructo a flôr já matizada,
Que fôra antes de flôr botão mimoso.
Assim a sabia mão da Natureza,
A passos insensiveis caminhando
Maravilhas em nós produz, que assombram.
Somos na infancia apenas um bosquejo

Do que nos cumpre ser annos mais tarde.
N′aquella edade a Natureza attenta
Em conservar-nos só, não desenvolve
Sentimentos, que então superfluos foram:
Inactivas nos tem, e nos conserva,
Bem como as plantas no gelado inverno.
Porém depois que o sol da primavera
Fecundos raios sobre nós dardeja,
Então de novas fórmas animado
Pula nas veias affogueado sangue,
E sem perder da infancia os attractivos
Da puberdade o lustre desfructamos.
Então sentimos commoções insolitas,
Que origem são dos males, que te opprimem:
Do amor, que te domina, melancholico;
Da forte agitação, que em ti presentes.
Mas tem tudo remedio; eu hei-de dar-t′o,
Feliz serás, se o trilho me seguires.



EPISTOLA III


OLINDA A ALZIRA


Quanto gratas me são as tuas letras,
Querida Alzira! Ao coração me fallas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtude tal, que apenas lidas

D′ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, prezada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a sua origem.

Se bem me lembro, outr′ora de ti mesma
Ouvi eguaes queixumes, não sabendo
Nem eu, nem tu, d′onde elles procediam.
Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa
Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.
Cessaram os teus males, eu os sinto...
A edade é (dizes tu) a causa d′elles;
Ah! Que extranha linguagem! Não concebo
Porque fallas assim; pois traz a edade
Males, nos tenros annos não provados?
Tres lustres conto apenas: tu tres lustros
Antes de te esposar tambem contavas;
Poz o consorcio a teus lamentos termo,
Limitará os meus? Ah! dize, dize
Tu, que desassocego egual soffreste,
O seu motivo, e como o apaziguaste;
Revela á tua amiga este mysterio
D′onde sinto perder o meu repouso.
Eu não exp′rimentava o que exp′rimento:
Os meus sentidos todos alterados
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas:
O coração no peito turbulento
Pula, bate, com ancia extranhamente:

O sangue, pelas veias abrazado
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do pezo da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d′antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D ′outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lisos té′qui, macúla um brando pello,
Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.
Sobresalta-me d′homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos, que expressar me custa;
Amor... E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?
Já tenho lido effeitos de seus damnos;
Mas esses, que o seu jugo supportaram,,
Tinham com quem seu pezo repartissem,
Tinham a quem chamavam doce objecto.
Quem a seu mal remedio suggerisse,
Isto era amor; mas eu amor não sinto:

A doce inclinação, que dous amantes
Um ao outro consagram, desconheço.
Sim: dos homens a vista lisonjeira
É para mim; nenhum porém me prende;
Não sei se chamma interna me affogueia...

Amor isto será? Alzira, falla,
Falla com candidez á tua amiga;
Ensina-me a curar a funda chaga,
Que internamente lavra por mim toda.
D′estas agitações, que me flagellam,
Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:
Tu tiveste-as tambem, já não te avexam.
Mostra-me por que modo as terminaste.
Talvez do que te digo farás mofa...
Ah! vê que por meus labios a innocencia
Comtigo é quem se exprime; tem dó d′ella,
E se os meus sentimentos são culpaveis,
Dize-m′o, que abafados em meu peito
Serei victima d′elles; se extinguil-os
Os meus esforços todos não poderem,
Comigo hão de morrer, findar comigo.

EPISTOLA IV


ALZIRA A OLINDA


Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da innocencia, me affiguras
O que por mim passou, extranho effeito
De um coração sensivel, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Falla, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpavel fores de outrem aos olhos,
Aos meus és innocente, e assim te julgo.

Da inviolavel lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d′ella, é ella que t′os causa;
Ella os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remedio activo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes paes, que em sopeal-as
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ella atêa.
Nescios, de amor lhe formam attentados,
Que o coração desmente, e que não póde
Saber justificar a razão mesma.

Benignas emoções chamam flagicios,
Que infernaes penas castigar costumam:
Sem que atinem o modo por que devam
Tornal-as puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não diff′renceam,
Amor e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pae o emprego não tolera
Maximas impostoras, vis idéas
Que religião não soffre, e que forcejam
Para c′oa religião auctorisal-as.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quaes limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de aferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com disvello attento.
Pois que impureza e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d′este.

Sim, cara Olinda: como tu, eu propria
Falta da sociedade, porque n′ella
Viam meus paes o escolho da innocencia,
As mesmas emoções senti outr′ora;
Nos ternos annos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassocego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh′alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D′elles jámais me fosse conhecida?

Agora os exp′rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!...
A Natureza em ti o germen lança,
Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,
Porque sensivel és; e bem que hesites
Sobre o objecto, que deve contentar-te,
Ella t′o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu dominio as forças,
Porque do jugo seu o pezo é leve.
Não mais soffres férvidos desejos,
Que o coração te ancêam, e bem podem
A languidez eterna victimar-te,
Se de amor o remedio os não sacia.

Attenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d′entre elles escolhe um, cujo peito
Tão docil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abreviada.
Se contra amor dictames escutaste,
Que seus effeitos pintam horrorosos.
Não dês credito a maximas fingidas,
Que a lingua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dous amantes se jurem fé, constancia?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce

Que beijos mil só farta, e que só pôde
Nos braços de um amante saciar-se?...
Não, amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros soffrem, mais a humanidade
Em nós se augmenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizivel
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vêmos
A fallarmos de amor nos estimula;
Se a edade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera, assignalando
Com marcas bem sensiveis, que chegamos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existencia:
Se tudo a amar convida, e nos impelle,
Quem ousa amor chamar crime execrando?....

Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem
Virtude austera hypocritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afeiam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, sómente gosam
Emprestadas caricias, vis affagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como elles; ama e lh′o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Affecta, embora, affecta sisudeza

Já que affectar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indemnisa;
Zomba dos seus ardis, e estratagemas:
Dize, entre os braços de um amante charo,
Que mais credulos são, do que te julgam,
Se crêem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delictos
Quando sabidos são, com véo mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d′esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n′alma sentes.

São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anhela, que ella saborêa,
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gozal-os;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem ás vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te.
Por não têl-o em amar aproveitado.



EPISTOLA V


OLINDA A ALZIRA


Alzira, sou feliz!... Quanto te devo!...
Das tuas instrucções é tal o fructo.
Quanto encarava em torno era a meus olhos
De lúgubres idéas feio quadro:

Tudo o vejo agora alegres, vivas,
Imagens prazenteiras, me suscita.
Os ternos sentimentos, que provava,
Mil vezes combinado com dictames
Que desde a infancia sempre m′inspiraram:
Mil vezes reflectia que dos homens,
Ou de um tyranno Deus era ludibrio:
Conceber não podia que existisse
Para experimentar continua lucta
Entre impressões da propria natureza,
E princípios chamados da virtude.

No pélago de embates tão terriveis
Fluctuando implorei o teu auxilio;
Meu coração te abri: e tu leste n′elle
O que eu nem mesma deslindar sabia.
Tu me ensinaste a vêr quanto fingidos
Os homens são, nas vozes, e nos gestos:
Rasgaste aos olhos meus mascara infame
Com que teem de uso todos encobrir-se;
Das bordas me salvaste de um abysmo,
Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se.

Perdoa, Deus immenso! Eu blasphemava
Contra a tua justiça; eu te suppunha
Auctor do mal, que os homens machinavam:
Cria-te inconsequente e despiedado,
Pois sentimentos me imprimiras n′alma
Que ás tuas leis contrarias me pintavam!...
Tu foste, Alzira, foste a que lançaste
Um brilhante clarão ante os meus passos...
Finalmente apr′endi que a singeleza

Do mundo era banida, e o seu imperio
Os homens tinham dado á hypocrisia,
Ruins!... Amor por crime affiguraram,
E nem um só de amor vivia isento!...
Para elles não é crime um crime occulto,
Porque a simulação reina em sua alma,
Porque o remorso abafam era seu peito.
Amor um crime!... Os gostos mais completos,
E os mais puros deleites o acompanham:
Se a ventura maior se une ao delicto,
Quem ha que se não diga delinquente?
D′entre as delicias que gosei, querida,
Com as tuas lições fugiu o crime.
Eu não senti no coração bradar-me
A voz d′esse pezar, sequaz da culpa:
No meio dos prazeres, que gostava,
Graças rendi a um Deus que m′os concede:
Se elle troveja sobre os criminosos,
Nunca os seus raios menos me assustaram!...

Um amante acabou o que encetaste:
Elle cujo olhar meigo me assegura
As doces qualidades, que o adornam,
Afastou-me do espirito receios.
Que de mau grado combatia ainda.
Reinava em seus discursos a franqueza,
E o fogo que brilhava nos seus olhos.
Que o rosto lhe incendia, em seus transportes
Que eram nascidos d′alma, me dizia:
O labéo da impostura o não denigre;
Não é como o dos outros seu caracter;

Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!
Se tão amavel é o teu Alcino,
Ninguem como eu e tu é tão ditoso!...

Pouco preciso foi para vencer-me:
Não teve que impugnar loucos caprichos,
Com que ufanas amantes difficultam
O mutuo galardão, que amor exige:
Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos
Seus mimosos favores, porque causa
Havia de indiff'rença dar indicios.
Quando o meu peito, ancioso, palpitava?
Se eu o levava da ventura ao cume.
Não me dava elle a mão para seguil-o?
Sim; nos seus braços me arrojei sem custo
E se o pudor as faces me tingia,
Inda as chammas d′amor mais me abrazavam.
Eu nadava em desejos indisiveis;
E quantos beijos recebia, tantos
Cheios de igual fervor lhe compensava:
Seus labios inflammados ateavam
As doces labaredas, em que ardia;
E meus labios, aos labios seus unidos,
Sensações recebiam deleitosas.
Que me filtravam pelo corpo todo...
Tão grandes emoções exp′rimentava,
Que a tanto gosto eu mesma succumbia!
Preza a voz na garganta, não sabendo
Nem já podendo articular palavra,
Respirando anciada, e com vehemencia,
Os meus sentidos todos confundidos,

Sem nada ouvir, nem vêr, apenas dando
Signaes de vida, de prazer morria.
Excepto o meu amante, em taes momentos
Longe da idéa tinha o mundo inteiro:
O mundo inteiro então forças não tinha
Para do meu amante desprender-me.
Debalde ante meus passos furibundo
Monstro espantoso vira: em vão lançára
Do aberto seio a terra ondas de fogo;
Em vão coriscos mil o céo vibrára;
Dos braços do amante em taes momentos
Nada, nada podia arrebatar-me.
Oh quem podera, Alzira, descrever-te
Que extasi divinal veio pôr termo
A taes instantes de suaves gostos!...
Isto pôde sentir-se, e não dizer-se...

Agora, e só agora me parece
Que começo a existir: reproduziu-se
Uma total mudança na minha alma.
O mundo para mim já tem encantos;
Sob outras côres vejo mil objectos,
Que a phantasia me pintam tristonhos:
Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,
A Natureza seus thesouros me abre:
Tudo te devo, amiga; em todo o tempo
A teus doces conselhos serei grata:
Oxalá ditas tantas saboreies
Quantas por ti, queiida, eu propria góso!
Oxalá sintas com Alcino os gostos.
Que exp′rimento, de um amante ao lado!

Nem ventura maior posso augurar-te,
Porque maior ventura haver não póde.



EPISTOLA VI


ALZIRA A OLINDA


A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua innocencia?
Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,
Dão-me a vêr que a discipula inexperta
Ha de em breve ensinar a propria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos.
Que tanto a angustiavam... Não sabia
Qual d′extranha mudanças em suas fórmas.
Em seus membros gentis a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais activo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolphar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero successo
Pretendes tu, querida, dar-me a gloria?
Não, não fui eu: sómente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida suggeriu remedio activo!

Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!

A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em letras,
Vejo, que annunciar-me antes procura
Após do que se ha feito o que se pensa,
Do que por gradações d′acção o int′resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a vêr todo.

Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando innocente
Menos recato n′ellas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a affectavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingenua confissão d′esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolphas.
Quero saber porque impensados lances
D′um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando abrazada em férvidos desejos
Misturados com dôr indefinivel.

De amor colhestes attonita as primicias,
E provaste entre gostos e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Elle te dá prazer, d′ella o confia:
Gasta os momentos, que gozar não podes,
Do goso em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sel-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d′escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo.
Saiba eu teus momentos deleitosos.

Mas vê que o sacrificio, que te peço,
Eu propria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh′alma!
Como só elle faz meus gostos todos!
Chamem embora apathicos estóicos
Ardores sensuaes os que me inflammam:
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Taes vilipendios valem o que eu góso:
Venha a rançosa, vã theologia

Crimes fingir, crear eternos fogos,
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que elles trovejam!...
Nos mais puros deleites embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não, amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuisos,
Quaes cabeças fataes d′hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não ha para os christãos um Deus differente
Do que os gentios teem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da oppressora politica productos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o offerece:
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu throno assenta em bases
Que firmam a Razão, e a Natureza.

Outra vez eu farei que estes dictames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando illusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões e Larvas,
Para os gostos da vida atassalhar-te.
Para a remorsos vis dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam

As emoções da propria Natureza:
Sê religiosa e Qi-me em pratical-as.

O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N′um momento desfez o que em tres lustros
Nescios pães procuraram suggerir-me.
Por habito adoptei de uns a doutrina,
Por gosto d′outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quão perplexa
Minha alma balançava entre os combates:
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma oppunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.

Foi n′este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: occulta força
Me impellia a adoral-o: não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o apparato
Olhava como um sonho!... É impossível
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d′ Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n′alta noute
Ao throno nupcial foi conduzir-me.
Ficamos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba.
Que ao tiro assustador vôa e revôa.
Aqui, e alli mal pousa, se levanta

Sem guarida encontrar, que ao p′rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inexpontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrazava.
Não sei que meigos termos n′este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, supplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso, sobre o leito
Me foi em fim lançar. Quando eu ardia
Em chammas de pudor, o mesmo incendio
Davam a Alcino soffregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciaes ornatos, e seus beijos
Convulsivos esforços, que lhe oppunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando affouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha accezo, então tomando
Mais activo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: Eu languida fitando
N′elle amorosas vistas, reclinei-me

Sem resistir-Ihe mais, sobre o seu collo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflammados beiços de tocarem
Occullos attractivos... longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr′ora passavamos unidas
Em innocentes brincos... feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubis, patentes foram.
Ao voluptuoso tacto palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nus, meu collo, eu toda estava
Coberta de signaes de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava.
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d′Hercules as forças
Alli vencêra... As minhas que fariam?
Co′as forças o pudor desfallecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!... Que divinaes fórmas!...
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!... Oh céo!... que encantos!...
Que graças apparecem espalhadas!
Que thesouros de amor sobre estas bases!...
Oh que prazer! que vistas deleitosas!...
Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
Deixa imprimir meus osculos aonde
Entre fios subtis se esconde o nacar!...
Deixa esgotar a fonte das delicias!...

Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!...
Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!...»

Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolphadas
Todas as sensações luctavam junctas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Communicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva acção, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu propria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebo impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emanação de intimos membros,
Que electrisavam fogos insoffriveis.
Inundou o instrumento das delicias.
Como se ao crime seu vibrassem pena.
Ou antes dessem premio: affadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veio ao meu unir seu rosto.

N′este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de suffocar activas chammas,
Scentelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.

A ardencia dos desejos combatia
Receio occulto, sem nascer do pejo.

N′um volver d′olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a vêr quam bem talhado
D′hombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pelle; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados.
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obeso.
Igual nas proporções... Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se.
Não tendo de um a rude valentia.
Nem tendo d′outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa ávidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao vêr do sexo as distinctivas fórmas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre as quaes, de chofre,
Asseslou o canhão, que me assustava.
Ao medo succedeu uma dôr viva,
Como se agudo ferro me cravassem...
Alcino impetuoso ia rompendo
A ténue fenda... Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia

Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lagrimas bebendo,
Respirando com ancia, e furibundo,
Com a bocca colada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagellavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros soffrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d′Alcino, a afflicção minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus esforços crueis para romper-me:
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpòr, carece de abater-lhe
Antes d′entrar, humbraes a que se encosta.
A violenta fricção traiu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me.
Da propria sanha aos impetos rendido,
Succumbiu, espumando horrendamente.
Da electrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda,
O insoffrivel ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Taes estragos causou, que mais valêra

A entrada franquear ao sitiante.
Já dôr não conhecia: chammejava
Meu proprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as veias parecia.

Na estancia do prazer lançara Alcino
Do Mont gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expôr-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a victoria, de triumphos cheia.
Tardava a meus desejos vêr completa
D′Alcino a empreza; eu mesma o provocára,
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse affouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dôr, bem que me espedaçasse.

Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edifício tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)
O muro se escallou!... Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei: em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reducto de amor o intimo accesso

Penetra entre meus ais, e os meus gemidos.
Outra vez attingiu supremo goso,
Goso celestial, cujos effluvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Qne socegou a dôr, chamando a vida,
Lethargicos alentos me abysmaram
N′um pélago de gostos indizíveis;
Elevaram-me a um céo d′immensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com phrenetico ardor, com ancia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma e vida;
Vozes, suspiros confundindo... tanto,
Tanto emfim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n′um momento
Ineffaveis delicias distillando
Alcino em mim, e eu n′elle ao mesmo tempo.
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades...

Minha Olinda, que instantes!... Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!...
Amarga, acerba dor succumbe ao goso
Da ventura sem par...Vitaes alentos.
Saborear não podem tantos gostos...
É preciso morrer entre deleites,
E fôra melhor não tornar á vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.

Sete vezes Amor chamando ás armas

Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Victoria!»
Da indefensa coragem conduzido
Morpheu veio c′roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D′Amor com as lições sublime vôo
Erguer affouta sobre o nescio vulgo!
Este odeia o prazer por vã modestia,
E as pudicas vestaes, escravas do erro,
Não cessam d′embair-nos, affectando
D′uma virtude vã mimicas fórmas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Victorias, que do erro heroes alcançam.

Toma das minhas mãos amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triumphos a ganhar cheios de gloria:
Docil tua alma a improbos dictames,
Docil será tambem de mais bom grado.
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tacteando abysmos;
Desapprende a fingir; só quadra ao vicio

Acoberta-se com mendaces roupas.
A modestia o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n′uma alma vil póde arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d′em torno a si, ver quão distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita
Eu não córo de dar-me toda a Alcino,
Nem eu córo tambem de confessal-o:
Instinctos naturaes se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?...
Se é innocente a acção, a voz não pecca;
D′est′arte saboreia o que estudaste,
E d′est′arte fallar, ah! não vacilles!...

Não te escuse o pensar que egual pintura
Objecto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre ha mudança.
Amor sempre varia os seus deleites,
Eu mostrei-te o modelo; em mim o encontras:
Usa da singeleza que te é propria
E abre o teu coração, cheio de goso,
Qual, antes de o provar, ingenua abriste.
Se expor da sorte infensa a crueldade

Dá lenitivo ao mal, que ss exp′rimenta,
Sobre-eleva o prazer á extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! annue aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.



EPISTOLA VII
OLINDA A ALZIRA


Tu não pódes saber, querida Alzira,
Com que alegria as cobiçadas letras
Da tua Olinda foram recebidas!
Não pódes saber, nem eu dizer-t′o.
Que pura locução, que Amor ensina!
Quam diff′rente linguagem da que fallam
Os livros, que me dá o meu Beltino!
N′elles descubro o sensual estylo
Que a modestia revolta, e que não quadra
Às puras sensações, que Amor excita.
Phrase brutal, sem arte e sem melindre,
Qual despejada plebe usar costuma;
N′elles de amor os gostos enxovalha
Mysterioso véo, que arrancar ousam
Com mão profana d′ante o sanctuario
Que amor encerra, e d′onde o deus occulto,
Manda aos mortaes um cento de venturas.
D′elles o numen foge, e por castigo

Leva após si deleites, que não provam:
Em vez de graças mil, de mil prazeres
Priapeo tropel impios incensam.
Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,
Onde o prazer fugaz, lassos os membros,
Sob mil fórmas em vão se perpetua
Lassos membros, lassos os sentidos,
Debalde esgotam, soffregos de gostos,
De impudicicia innumeraveis gestos.
Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;
Como é vil a expressão, e é vil o goso
Que uma Theresa, que outras taes francezas
Em impuros bordeis gabar-se ufanam!

Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio
Que a um fraco sexo deleitosos modos,
Fagueiros, ternos, emprestar costumam,
Para do amante meu obter a custo
De obscenas producções o sacrificio.
Que o coração corrompem, e devassam
Puros desejos, sentimentos doces.
Mostrei-lhe que o prazer esmorecia
De amavel illusão sem os preludios;
E que, apesar dos seus vivos protestos,
Se os sentidos assaz lisonjeava,
Mil emoções gostosas embotando,
Impellido a gosar continuamente,
Escravo do prazer na sua amante
Não fartaria hydropicos desejos:
Ardentes Messalinas buscaria,
Entre os braços das quaes mais fácil era

Á vida termo pôr, que saciar-se.

Cedeu ás minhas supplicas, e agora
Grato me diz — que se elle da ventura
O caminho me abriu, eu n′elle o guio:
Assim, quando os sentidos fatigados
De amor se negam esgotar delicias,
Maná do coração inexhaurivel
Prolifica virtude, que os alenta.
Assim de gostos perennaes correntes
Franqueia amor a quem o não profana:
De Amor os gosos são como o diamante;
Que, sem o engaste que locar-lhe véda
Perdera a polidez, perdera o brilho.
Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno;
Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,
Como a ternura impera nos sentidos:
E d′um, e d′outro regulando as forças.
De amorosos tropheos requinta a gloria.

O sensual atola-se nos vicios,
Cujo infesto vapor todo o corria
De lançar-lhe no tumulo o esqueleto;
D′outra arte aquelle, que libar suavisa
Nectar; que Amor esparge aos seus validos,
Das rugas e das cans não teme o estrago;
Que nos ultimos annos pode ainda
Em seu transporte Amor beijar na face.

Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira
Que a rude Olinda como tu descreva
A emanação dos gostos, que se provam
Quando o primeiro amor os desenvolve

Da terna virgem do innocente peito?
Reclamas a candura, de que usava
Antes de me illustrar de Amor o facho?
Ousas mesmo increpar-me de artificio,
Porque eu não soube delicada teia
Urdir aos olhos teus, porque eu não soube
As effusões de amor envolver n′ella,
E, qual me envias, dar-te digna offerta?
Basta, tu mandas; vou obedecer-te.
Tenho ante os olhos instruccções sobejas
Para pintar o quadro dos deleites
Que de dois entes n′um absortos brotam.
Tu me dás os pinceis, o molde, as côres,
E no meu coração, prezada amiga,
Fecunda o goso meigos sentimentos,
Que só acabarão, se amor acaba!...

Que chimericos céos fórma a impostura!...
Aonde móres delicias se promettem
Que as de um amante, d′outro ao lado unido?
Eu sonhava illusões, antes que fosse
Nos mysterios de amor iniciada.
Errava de um em outro labyrintho,
D′onde os conselhos teus, amada Alzira,
E amor, dando-me o fio d′Ariadna
Me fizeram sair: deixam-me forças
Para abafar o monstro, que meus dias
Tinha de funestar com vãos temores,
Flhos do erro vil, da fraude abortos.

Qual vaguéa nas trevas sem acordo
Perdido o tino, afflicto o caminhante,

D′alta serra entre as faldas pedregosas,
Ou de invia selva na espessura vasta;
Aqui tropeça, alli se encontra, e bate,
Macera as mãos, o rosto, e tenteando
Um pé lhe escapa, cáe, rola-se o triste,
E n′um barathro crê despedaçar-se;
Eis improvisa luz assoma ao longe;
Attenta o infeliz, toma-a por norte,
E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:
Taes tuas letras para mim brilharam
Na escuridão fatal, que me envolvia.

Não espaçou Amor ditoso praso
Para no gremio seu a tua Olinda
Bemfasejo acolher. Vira eu Bellino
Passar uma, e mil vezes, attentando
Com interesse em mim, attentei n′elle,
Em seu terno olhar, e meigos gestos;
Vi que um amante o céo me destinava:
Em breve os olhos meus lhe responderam
Ás mudas expressões, que os seus diziam;
Em breve as suas cartas, de amor cheias,
Fizeram dar egual calor ás minhas,
Accendendo os meus férvidos transportes.

N′uma cerrada noute, quando ao somno
Estava tudo entregue, Amor velando
No meu peito, e no seu, a vez primeira
Nos ajuntou em fim: elle exultava
De indizivel prazer: eu me sentia
Na agitação maior de gosto, e susto.
Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso

Té ao aposento meu, subito fogo
Calou-me as veias, penetrou-me toda.
Mas quando, já fechados um com outro.
Vi que seus gestos, mais que suas vozes.
Sua ternura ousada me exprimiam,
Lembrou-me o p′rigo, a que me havia exposto;
Tarda lembrança, que cedia a embates
De ignoto medo, que o rubor gerava!
Queria eu impedir-lhe ardentes beijos.
Mas vedavam-no as chammas, que accendiam
E ás primeiras caricias insensivel,
Luctando entre o pudor, e entre o desejo,
Em mil contrarias reflexões absorta,
Meu silencio e inacção a emprezas novas
De maior valor, Bellino excitaram:
Confesso, que deveras quiz oppôr-me
A seus intentos no primeiro instante;
Porém pouco tardou que abrazeada
Em chammas voluptuosas, resistindo
A seus esforços, mais lhe franqueava
Facil accesso a proximos triumphos.

Sentado junto a mim, lançando um braço
Em redor do meu collo, até cingir-me,
E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;
Com a mão sobre os peitos inquieta,
Que ao crebro palpitar os apressava;
E os labios discorrendo os olhos, faces,
Té fixal-os nos meus, ou por entre elles
Confundindo os alentos, lançar chammas
Dentro em men coração, qual facho accezo;

A ardente lingua sua unindo á minha,
Ou, sobre o seio meu calando a bocca,
N′elle impressos deixar seus proprios beiços.
Com mão mais temeraria, do vestido
Pela abertura a occultos attractivos
Indo o fogo atear... Ah! que eu não pude
Mais resistencia oppôr a seus desejos!
Apenas leve fisga separando
Um dedo seu, que um raio parecia,
Tocou o sitio onde os deleites moram.
Subito, alvorotados uns com outros
Travando estranha lucta, me levaram
Onde, fora de mim, quasi sem vida,
Só quanto então gosei, gosar podia.
Dos membros todos foram engolphar-se
As sensações alli; e só tornaram
A ser o que eram, quando ao mesmo tempo
Sua potencia intrinseca exhalando.
Fiquei de todo languida, e abatida:
O perverso Bellino attentos olhos
Nos meus então fitando, quiz lèr n′elles
De que ficções minha alma se occupava.
Foi extremo o rubor, que de improviso
Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,
Escondendo meu rosto no seu peito,
Por não poder suster-lhe as doces vistas,
A minha terna acção atraiçoou-me;
Que o maligno, pegando-me do rosto
Com ambas suas mãos, mais me encarava;
De confusa me vêr folga e se ufana,

Com beijos mil parece devorar-me;
Entre os seus braços mais e mais me aperta,
E pouco a pouco sobre mim se inclina;
Minha cabeça no sophá encosta,
Meus pendentes pés trava, e os submette
Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo
Senti do corpo seu o pezo grato:

Meu leito era defronte: mas Bellino
No largo canapé circ'lo bastante
Habil athleta achou para o combate.
Perplexa em mil affectos engolphada,
Irada, enternecida, em cruel lucta,
Meus sentimentos todos labutavam:
Um timido pudor activos fogos
Contrariava em vão, em vão retinha,
Ignotos medos, soffregos desejos:
Suspensa, e curiosa eu esperava
Gostosa scena, em que prolixas noutes
Pensando o que seria, desprendêra.

Em quanto d'esta sorte embellezado
Me tinham taes idéas, já Bellino
No phrenesi maior de gráu, ou força,
Os meus secretos votos preenchia.
Em torno da cintura levantados
Meus trajos inferiores, sobre os joelhos
Sentindo os de Bellino desprendidos,
Alargando-me os pés, tomando entre elles
Vantajosa attitude a seus projectos,
Franqueando co'a mão facil entrada
Á chammejante lança, que tocava

O mesmo sitio, que invadira o dedo:
Forcejou para ferir-me com seus golpes,
Com impeto tamanho, com tal raiva
Que nem dos gritos meus se commovia.
Nem podia o meu pranto apiedal-o;
C'o forte impulso as movediças carnes
Levava-me ás entranhas; da ferida
Corria o sangue, mas sem que podesse
Ao ferro assolador achar bainha.
Seus dedos sanguinarios finalmente
D'uma e outra parte com vigor sustendo
Flexiveis membros, redobrando as forças
De valente impulsão, a cruel lança
Rompeu cruento ingresso... traspassou-me.
Que dôr, Alzira!... Dei tão alto grito
Que Bellino depois disse o assustára,
Bem que fosse de meus paes distante o quarto.
Sem sentidos fiquei, emquanto o amante
Os tropheus da víctoria recolhia;
E só tornei a mim, quando ao meu sangue
Suave irrigação veio mesclar-se,
A agitações de gosto a dôr cedendo,
De gosto inexhaurivel, que provára.
N'um momento apertada com Bellino,
N'activa sensação toquei com elle
A meta das delicias, transportada
De muito mais prazer que a dôr fora.
N'este instante convulsa e delirante,
E como se um espasmo supportasse,
Inteiriçada toda, os meus alentos

Senti reconcentrar-se n'um só ponto.
Findava o meu amante, inda eu gosava
(Comprimindo-o comigo) altas venturas,
De que sedenta então não poderia
Fartar-me assás: meus braços exhauridos,
Meu collo, e pés, eu toda fatigada
Do vehemente tremor, em que lidára,
Caí prostrada, quasi semi-morta.

Quando a meus olhos (que caligens densas
Tinham coberto) a luz tornou de novo,
Volvi-os sobre o amante, de tal sorte
Que ao vel-o já supplice o instigava:
Não ficava ocioso n'este tempo.
Que no exame gastou do entrado forte.
Pasmando dos estragos que fizera,
E dos despojos que lucrava alegre.
Da machina, que a praça expugnou firme,
A estructura e altivez eu divisando,
Custava-me a atinar como podéra
Plantar-se o belisco no reducto estreito.
Bellino minhas vistas comprehendendo,
Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,
Marmorea rigidez, côr escarlate,
Fórma e calor de obuz, que disparava.
Quando submisso, da peleja lasso,
O vi depois sem o estendido conto,
Brancas roupas trajava, mais humilde:
Mas agora, affrontando, arremeçando
Monarcha ufano, a purpura do collo,
Com furor ao combate se aprestava.

Reverberou seu fogo em minhas faces,
E a vêa e vêa d'ellas espalhado
De todo o corpo me filtrou os membros.

Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,
Fez-me Bellino levantar e tendo
Elle sentado unidos os joelhos,
Sobre elles me sentou, e franco accesso
Da lança abrindo á ponta, a foi de manso
No riste pondo, té que a meio conto
N'elle embebida, sobre si de todo
Levando o pezo meu, entrou de modo
Que fiquei té ás visceras varada.
A introduccão tão forte pouco affeitos
Meus delicados membros se avexararam:
Mas curvando-me um pouco, e com justeza,
Achei convir ao estojo o instrumento;
Cuja palpitação, sem ajustar-nos,
Em cadencia reciproca alliada.
Bastava a provocar gosto indizivel.
De modo que sem mais fadiga eu pude,
Na grata posição Bellino immovel,
Attingir o prazer mais saboroso,
Nadar em mil deleites engolphada:
Aqui, amada Alzira, essa virtude
Que appellidam pudor, foi-me odiosa.
De seus grilhões liberta, possuida
De um venero foror, impaciente
De comprimir a mim o caro amante,
Arranquei-me da lubrica attitude,
Sobre elle me arrojei, toda anciosa

De me identificar c'o meu Bellino:
Estreitada com elle, abandonada
De amor á raiva, que ambos incendia,
Sobre mim o arrastei junto do leito,
Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,
Do corpo os membros todos enlaçados
Misturando nos osculos o alento.
Nos osculos libando doce nectar,
Em tal agitação, que aos céos alçar-me,
E abater-me aos abysmos parecia;
Ávida de absorver a grossa lança,
De soffrer-lhe a rijeza diamantina,
E de arrostar-lhe os golpes incessantes,
Sentindo o instante em que violento impulso
De celeste effusão marcava o termo.
Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,
Tanto me impertiguei, queo o meu amante
Sustive sobre mim, suspenso, em quanto
Aos finaes paroxismos succumbindo
Ao meu uniu seu ultimo gemido,
E dentro das entranhas abrazadas
Lançando-me torrentes d'almo influxo.
Submersa me deixou n'um mar de gosos.

Julgas, Alzira, que entre tanto gosto
Na assidua compressão me não doiam
As maceradas melindrosas carnes?
Ah! que esta dôr pelo prazer vencida
Irritava emoções deliciosas,
Sobre-elevada ás sensações mais gratas.
Qual sequioso cervo, repassado

Da calmosa avidez, suaves gotas
Rabido anhela, e quanto é mais soffrida
Ardente sede, tanto mais ensopa
Uma, e outra vez insaciaveis fauces:
Não d'outra sorte flagellados membros
Da dôr pungidos de crueis combates,
Balsamica emoção consoladora
Com avidez seccavam insoffridos:
A alluvião prolifica eu sentia,
Pruridos divinaes e estremecendo
Á melliflua impressão, perennaes gosos
Bastante tempo apoz gosava ainda.
N'este instante expirou dentro em minh'alma
Temor nefando, que immolava ao culto.
Nova moral raiou de Olinda aos olhos;
Eu tive em pouco rispidos preceitos,
Ameaças crueis, com que ralavam
Meus annos infantis. Doeu-me, Alzira,
De ver tanta belleza definhada
Da hypocrisia victimas infaustas;
Aponta a edade, em que é d'amor forçoso
As delicias gosar; em que almo viçoso
Como nas plantas, n'ellas assignalam :
Grata reproducção comsigo abafam,
Envenena-se o germen da natura.
Infecção purulenta as vai minando.
Que seus dias termina, ou os condemna
A languida existencia: abate o corpo,
Abate o esp'rito corruido o alento.

Innovamos a acção, eu, e Bellino,

De eguaes em forças, sem perder coragem,
Nenhum de nós cedeu, bem que durasse
Algumas horas o combate accezo:
Mas da noute feliz o longo manto
Que os mysterios de amor commette ás trevas,
Com roseos dedos a invejosa Aurora
Cruel abrindo, fez dentro em meu peito
A escuridão entrar, que em torno tinha,
Foi-me odiosa a luz, que affugentava
De mim com o amor perennes delicias.

Uma e outra vez Amor tem facultado
Ao constante Bellino, á terna Olinda
Outros, como estes, prosperos momentos:
São de tormento para mim os dias
Que tel-o junto a mim debalde busco:
Para elle o tempo que sem ver-me gasta,
Figura-lhe de um seculo a distancia.
Já Hymeneu houvera de enlaçar-nos,
Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida
Senão em machinar sua ruina,
De longo tempo não tivesse urdido
Iniquas tramas, horridas ciladas.
Que ao homem (digno premio de sua obra)
Barreiras põe na estrada da ventura.
Retrocede o infeliz d'um a outro lado,
Negras voragens ante os seus passos
Tropel de Furias, que comsigo arrasta,
Filhas do Erro, que animou insano,
A Fortuna, que foi comigo larga,
Negou seus dons a meu querido amante.

Elle não conta nobres ascendentes,
De quem meus paes se dizem oriundos:
É quanto basta para erguer muralhas
De alcance, entre elle e mim, inaccessiveis:
O ditoso hymeneu não me é preciso,
O hymeneu, apparato de teus votos.
Para entre os braços seus tecer affouta
Indissoluveis nós c'o meu Bellino:
Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.

Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,
Abre meus olhos á Natura inteira:
Eu quero n'ella vêr os meus destinos;
Só n'ella eu quero divinaes verdades
Sollicita explorar, viver só n'ella
Cumpre as gratas promessas, que me fazes,
Deva a ti só a tua Olinda tudo.
Não ha para os christãos um Deus differente
Do que os gentios teem, e os musulmanos?
O que a razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o off'rece;
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
Devo eu seguir o culto, que me apontam
As impressões da propria Natureza?
Tenho uma religião em pratical-as?
Que o mundo é este pois, prezada Alzira?
Teem os homens levado o seu arrojo
Té forjarem um Deus na ousada mente.
Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,
Attribuir-lhe leis, que a ferro e fogo
Estranhos povos a adorar constrangem.

Immolando milhões á gloria sua?
Nos labios teem doçura, e probidade,
No coração o fel, a raiva: os monstros
São máus por condição, ou máus por erro?

Não, eu não posso, Alzira, d′este enigma
Romper o denso véo: minhas idéas
Jazem n′um cahos de horrida incerteza:
Hesitar-me não deixes por mais tempo:
Minha instrucção confio aos teus cuidados;
D′amizade o explendor dá-te a mim toda;
Acaba de fazer-me de ti digna.