Fantina/XVI

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XVI
por Francisco Badaró


A's onze horas já a lua apparecia, e cahindo dos telhados a grande sombra recortada formava no terreiro limpo uma figura semelhante a uma enorme mantilha.

Aquella pacatez do ermo era, aqui e acolá, quebrada pelo latir somnolento de um cão que enrodilhado, aproveitava o calor das cinzas onde as negras assaram batatas, á porta das sensalas. Fantina ainda estava acordada. Morava em um quarto que communicava com o de D. Luzia. Ella e mais três mulalinhas, mexiam na cama a noite inteira. Tinham desejos de passear, de fugir; mas a intervenção de Fantina as socegava.

Virada para o canto, com muito calor, passando a mão pelo corpo humedecido, Fantina ia arredando os lençóes,e dando redias a imaginação tropical; sempre phantasiosa, começava de ver Daniel, moreno, magro, de uma magresa sympathica, com um leve buço, que parecia o feltrosito do pecego sasonado ; e nitidamente sentia-o ao seu lado ; e então, irritada, arquejante, dava no travesseiro beijos voluptuosos, profundos, de uma mordacidade abrasadora. Sosinha, sentindo o sangue mestiço correr-lhe pelas veias com a velocidade de Masepa, ella chorava a sorte de escrava que a separava dos braços de Daniel.

E nestas tribulações dormia suffocada por mil desencontrados desejos. Empurrando,beliscando, apertando as outras três companheiras,ellas lembravam-se dos caixeiros que nos encontros na igreja disseram-lhes palavras novas, cheirando a coisas curiosas ; e do Vida, no qual um sapateiro déra pelotadas de bodoque, nos fundos da horta.


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