Fantina/XVII

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XVII
por Francisco Badaró


Ao outro dia cedo Frederico abriu a janella do quarto para gozar o ar fresco de uma ridente manhã. Vendo correr lá embaixo um pedaço do rio que movia-se em uma cantilena melancolica, Frederico admirava parvamente a fumaça que adelgaçando-se em capuchos de algodão do cume de um monte, parecia partir do cachimbo de um piaga sentado á porta da taba. Achava bôa e bonita a posição da sua fazenda. O céo de um azul muito lavado, com certos accidentes, dava ao dia um aspecto jovial e protector. Não demorou, appareceu Rosa com o café. O seu primeiro cuidado foi perguntar por D. Luzia, como ella havia passado a noite, se tinha dormido bem. Rosa mostrava os seus dentes aguçados circulando umas gengivas pallidas, e respondia com bom humor, um pouco envergonhada.

— Então, tia Rosa, as mocamas como vão ?

— Esrão agora molhando o jardim ?

— Boas peças, não tia Rosa ?

— Eu não sei senhor . . . .

Bebendo o ultimo gole foi pondo a mão no bolço e deu uma moeda de cinco tostões, muito loira, lusidia como uma esperança no berço.

A rapariga agradeceu com muitos Deuses lhe ajudem.

Com o cigarro na bocca Frederico passou á varanda querendo ver o jardim. Ouviu umas risadinhas atraz do paiol, e concluiu que seria por lá. Pouco depois appareceu D. Luzia para dar-lhe os bons dias.

Depois dos primeiros comprimentos elle disse :

— Bonita arvore aquella ; e apontou para os lados do paiol.

— E' verdade, é um angico.

— Ah! supponho até ser medicinal.

— Faz-se, pois não, um bom xarope para o peito : e querendo vamos até lá.

— Gosto muito de um jardim bem cultivado : disse elle acariciando os bigodes.

Logo que passaram o portão que dava entrada na horta ouviram uns gritosinhos aqui, outros alli. Eram as mulatinhas que jogavam agôa umas nas outras com o regador de repucho.

— Que é isto, gente ? — disse D. Luzia.

Umas ouvindo a voz da senhora puseram-se quietas; outras encolhidas atraz das arvores vieram chegando manso e manso para juncto da nhê-nhá. D. Luzia era caprichosa a respeito da quinta. Fôra casada com um homem que começou a fortuna por meio da botica. Foi muito acreditado; depois de casado, rico e afazendado, inda curava por favor.

Dispensou as drogas da pharmacia e plantou na quinta hervas e arvores medicinaes. D. Luzia com essa pratica continuava zelosamente o plantio e tratamento.

Applicava, também, em certos casos : nos escravos e nos aggregados da fazenda.

— Bonitos amores perfeitos !

— Que não estavam bons em razão do tempo ; e deu-lhe um.

— Agradecido !.. E fez uma cortezia tão accentuada que provocou o riso das mulatinhas que os seguiam de perto.

D- Luzia mandou as mucamas apanhar fructas.

A' esta ordem as mulatinhas desappareceram e d'ahi a pouco ouvia-se um chirlear vivo lá onde a arvore balançava a coma com o movimento que ellas faziam descendo e subindo. Frederico teve impetos de ir ver marmotas debaixo da arvore onde reinava a folia.

Um sol muito brilhante, rompendo as nuvens da manhã, dava uma claridade lisa e larga como um pregão em hasta publica. E o ar muito sereno e humido, embebedado do perfume das flores, fazia sobresahir no aspecto franco da fazenda, uma felicidade legendaria.

Foram andando para o lado onde estavam as arvores plantadas pelo defunto marido ; e sobre uma e outra ella ia dizendo particularidades.


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