Fantina/XXI

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XXI
por Francisco Badaró


Vieram passar a tarde na varanda da frente, onde o sol deixára um calor morno, que ia desapparecendo com a viração macia e fresca que sobia do rio, e punha uns fremitos avelludados entre as alegres folhas da gamibira, que bracejava aos lados das paredes. Ahi conversavam muito. Frederico animado pela liberdade que D. Luzia lhe dava, poude dizer palavrinhas quebradas. A noite encontrou-os ainda na varanda.

A claridade das fogueiras que as negras começavam de accender á porta das sensalas punha no ferro das enxadas amontoadas a um canto scintillações cruas.

A espaços saia lá dos fundos de uma senzala a voz dolente do africano que chorava as liberdades doces do Congo ; e essas cantilenas selvagens eram de uma sonoridade phantastica. Quando os sons do rude instrumento perdiam-se nas trevas, a Joaquininha soltava do teclado do piano as notas mugidoras do Real Tambor. A frescura do ar da noite embalsamada, os cantares do preto que chorava saudades d'alem-mar, e o preludio que o piano já soltava das magneticas notas da Batalha de Marengo, provocavam desejos infindos, azues, no peito de D. Luzia, que suspirava.

Conversaram sobre o casamento e marcaram o dia.

Frederico animado pelo próximo poderio expandiu-se em protestos de fervoroso amor.Seu semblante illuminado pelos fogos de uma alegria san e feliz, promettia a D. Luzia gosos dormentes, de uma animalidade absorvente.

D. Luzia estava como um vampiro saido do ouco de um pau onde estivera preso por dias longos, expiatorios ; ao passo que pela imaginação ardente de Frederico passava a figura alegre, moça e jovial de Fantina, cada vez mais attrahente e arrebatadora. Lá ao longe, n'um horisonte calmo e rosado tremeluzia uma estrellinha de affago e mansidão, que Frederico submetteria ao menor aceno da auctoridade de senhor, que em breve elle seria.


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