Fantina/XXII

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XXII
por Francisco Badaró


Daniel estirado sobre uma esteira roida que occultava umas taboas carunchosas pensava com receios tetricos no enlace da sua madrinha com Frederico.

Fantina sempre boa, cheia de medos, desde meninos quando brincavam o tempo será e ella não entrava nas furnas que elle abria nos montes de palha ; lhe apparecia com o semblante pisado, os olhos chorosos e o corpo mordido dos herpes das sensualidades brutaes. Chorava diante delle e accusava-o de não tê-la furtado. E elle mordendo os punhos amaldiçoava a religião que o conteve. Depois chovia gritos, ais prolongados, gemidos pungentes, e o estalar do relho dilacerando as carnes que elle desejava morrer mordendo. Ella nas vascas da agonia infamante, que acabrunha, chamava-o ; e elle preso, longe, não a podia salvar. Daniel levantava esfregando os olhos e perguntava á sua velha mãe que cousa seria aquella de estar sonhando acordado. A boa velha com um timãosinho de baeta azul ao hombro, com o fuso cheio de linha nas mãos, dizia-lhe que a causa era ter se deitado depois do jantar ; e que não caísse n'outra, porque o defunto marido da sua comadre, o Silva, que Deus houvesse nos reinos do ceu, já lhe fallava que era mau costume aquelle.

Chegava depois o Feliciano, seu visinho, e pedia a viola, e sentados á soleira da porta afinavam o instrumento.

O Feliciano passava por aquellas redondezas como o primeiro pontista; fazia da viola o que queria. Outros visinhos vindos da roça accendiam os cigarros e faltavam dos caetitús que destroçavam o milho.

— Póde acompanhar uma coisinha, tio Feliciano ? perguntou um truculento caboclo.

— Pois não, filho.

E correndo os dedos pelo pinho, este chorava como comprehendendo a vibração que o velho sentia quando o encostava bem ao peito. O caboclo limpando a guela prometteu cantar um jongo que aprendera com um tropeiro do norte.

D'ahi a pouco uma voz forte, de barytono, ia de valle em valle acordando os echos adormecidos no regaço das viridentes raramarias. A viola trinava soltando harmonias irritantes, de um tremulo cheio de sentimentalidades pagans.

Depois de diversos cantos e conceitos lorpas, repletos de desejos de cachaça e de mulheres em sambas livres, ouviam-se em voz cadenciada os versos da orgia dos duendes de Bernardo Guimarães.


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