Fantina/XXIII

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XXIII
por Francisco Badaró


O grande relógio da sala de jantar marcava onze horas.

D. Luzia no seu escriptorio, onde havia ainda muitos frascos de remedio do tempo do Silva, escrevia cartas aos amigos convidando para o casamento. A liberdade entre os dous, a este tempo, já era grande. Por isso emquanto D. Luzia traçava sobre o papel bordado, muito flacido, as letrinhas finas, Frederico fumando remexia na estante que era a bibliotheca da casa. Elle que só cursara as primeiras letras não conhecia mais do que algumas obras recheadas de obscenidades nuas. Procurava alguma martinhada ; mas abria um livro, era A certeza do fim próximo do mundo, baseada sobre considerações philosophicas e bullas de muitos soberanos pontfiices, bem como sobre o testimunho de S. Vicente Ferrer, e sobre os signaes dos tempos em que vivemos,— resposta a uma caria d'um cura de provincia relativa a essa questão, pelo abbade Marquy, traducção do Pimentel. Abria outro, era a Direcção para socegar em suas duvidas as almas timoratas, pelo venerando Quadrupani Tirava um mais escondido, roido das traças e cheio de pó, e era A mulher como deveria sêl-o, pelo reverendo Marchai. Já nervoso atirava-o no meio dos outros com força. Dava uma volta pelo quarto, vinha ver outro ; era Fabiola ou a Igreja das Catacumbas. Ficou com raiva e deu um muchocho alto.

D. Luzia virou-se e perguntou o que era.

— Não acho um livro, são todos de irmã de caridade.

E abanava a cabeça com ar enfastiado.

— Pois se não gosta desses, na ultima taboa ha alguns folhetos curiosos.

Elle riu, e uma idéa luminosa passou-lhe pelo cérebro : pensou achar o Elixir do Pagé, poemeto que só conhecia de tradição, mas que adorava. No primeiro que pegou encontrou o seguinte titulo : Para que serve o Papa ? Atirou-o para traz da estante. Viu ainda outro ; era A água benta no XIX século, tudo do monsenhor Gaume.

— Nem o bispo terá tantos livros assim ! disse elle maçado.

D. Luzia olhou para elle com admiração, pois nunca lera outros livros. O Jornal do Commercio era a leitura mais impia que fazia.

Frederico pediu-lhe que continuasse a escrever. Debruçado no peitoril da janella elle olhava a fonte onde algumas mulatas batiam e ensaboavam roupa. De saias levantadas até acima dos joelhos ellas mostravam ao sol o torneado macio das exuberancias carnaes.

Uma dellas passando perto da Josepha deu-lhe uma palmada. A ofendida disse encolerisada.

— Viu passarinho verde, hoje ?

E partiram todas n'uma gargalhada biltre, esfrangalhada. Frederico meio occulto no vão da janella apreciava aquellas graçolas canalhas, de um descaramento nú e imprudente ; e lembrava-se dos tempos em que passeava seus desejos pelas fontes,esses bordeis ambulantes, onde á larga luz do sol se commettem immoralidades apopleticas.

Emquanlo D. Luzia sahiu para entregar as cartas ao rapaz que esperava na varanda,Frederico chegou á mesa e leu a carta que ficara aberta. Era endereçada a uma antiga collega,que vivia criando os afilhados de um cura

A carta dizia:

« Minha amiga Marianna.

« Muito contente te escrevo esta. Junto de mim está tudo. . .

« Convido-te para de hoje a quinze dias vires assistir o meu casamento com o Sr. Frederico das Neves, moço de nobres qualidades e muito prendado.» E grifava esta palavra. « Dias de venturosa delicia estão reservados á tua Luzia !. . .

« Não fazes idéa como estou alegre e afflicta.

« Não faltes.

« Tua do coração.— Luiza. »

Frederico estava passeando pelo quarto e julgava-se feliz lembrando de Fantina e suas companheiras. D. Luzia chegando perguntou-lhe se não tinha convites a fazer.

— Convidarei alguns amigos mesmo d'aquí. Não convido os de minha terra porque não chegariam a tempo : para elles o enveloppe de mãos ; e punha-as nas formas rituaes.

D. Luzia ria-se, porque achava aquillo delicioso, celeste.

Da sala do jantar annunciaram o café. Entraram. Agora Frederico mesmo achava a interessante. Uma toilette bem arranjada a fazia elegante. E demais a alegria que banhava-lhe o semblante era meiga, attrahente, com visos de puberdade. A Joaquininha olhava estas scenas revoltada. Queria, também, um marido, um homem para si.

— Mamãe já nos teve a nós todos ; está velha, eu sim, preciso;— dizia ella comsigo. E instinctivamente abotoava o corpinho do vestido que velava duas pomasinhas semelhantes ás ametades de uma melancia verde.

Tomou o café e safou-se. D. Luzia percebia a má cara da menina.

— Não está satisfeita ; dizia ella a Frederico.

— Arranjaremos o Antonico para ella.

— Mas elle anda tão impostor quando vem da Côrte, que nem dá fé.

A hora era de intenso calor. O sol cahindo muito a prumo feria as telhas que faiscavam. Nenhum signal de chuva marcava o céu, que tinha agora o aspecto de um lago de metal em ebulição. Frederico começava a saborear pelos longos dias de estio o preludio da vida de um pachá, tendo aos pés a captiva docil como a cera morna. Fantina chegou e poz sobre a mesa os jornaes vindos da cidade. Frederico só costumava ler o Mercantil muito enxovalhado que forrava o balcão de uma taverna lá no Rabicho, mas, para mostrar-se digno da elevada posição a que a fortuna o guindava, correria os olhos naquelles.

Com o Jornal do Commercio todo aberto, elle olhava indiferente para as longas columnas.

D. Luzia perguntou se não havia alguma noticia acerca do visconde do Rio Branco.

— Supponho que não ; disse elle um pouco atrapalhado com o tamanho do jornal e com a falta de pratica.

Ella olhou de lado para o jornal e deixou cahir esta admiração :

— Oh homem, está até no artigo de fundo !

Elle machinalmente fixou a attenção no folhetim.

— Póde ler alto, que desejo muito saber de alguma nova.

Com voz pausada e lenta, elle começou :

— « Punham a chave no buraco da fechadura quando um guarda apitou. Ouviram-se batidos de tacões que avançavam para o lado onde o assobio chamava. Querendo pular o muro visinho, um cão de fila ladrou furiosamente do lado de dentro...»

— Que diabo está o Sr. a ler ?

— Isto ! disse elle batendo na barra do jornal.

— Eu lhe pedi que lesse noticias do Rio Branco !

— Pois este Rocambole não é o mesmo ?

— Ora, ora, o senhor !

E suppondo que Frederico fizesse aquillo por chalaça, instou que lesse. Ao levantar os olhos sempre achou o artigo, com cuja leitura D. Luzia se enfureceu pois via a passagem da lei de 28 de Setembro na camara dos deputados. Blasphemou muito e deu razão a Frederico, dizendo que Rocambole valia mais do que o homem que queria forrar o que não era seu.


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