Fantina/XXIV

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XXIV
por Francisco Badaró


Fantina chegando á sala fallou em roupas. D. Luzia pedia licença a Frederico, dizendo ter de fazer uns arranjos.

Alli enrolando um cigarro elle olhava seriamente para um sabiá muito arrepiado que sacodia as azas dentro da gaiola.

Teve vontade de soltal-o ; achava-se tão feliz que queria ser generoso dando a liberdade áquelle cantor que havia annos carpia na prisão os seus amores já emergidos nas sombras do occaso.

Foi para o quarto e lá estirado na cama dizia estar quebrado do calor. D. Luzia no bulir em roupas de certo babá achou uma Gran-Cruz do Habito de S. Bento de Aviz, que fôra do seu defunto marido, e mandou Fantina mostral-a a Frederico. A mulatinha correu os olhos pela sala e vendo-a vasia, comprehendeu logo que elle estava no quarto. Chegada à porta teve vergonha de bater, porque dentro o catre estalava.

— Dá licença ? disse ella meio aturdida.

Aquella voz vibrou n'alma de Frederico como um fio de magnesie, e de um salto abriu a porta. Elle teve vontade de tranca-la, amordaçal-a com os lençóes se ella quizesse gritar, mas o medo deteve-o. O leão faminto escondido no juncal deixou passar a presa imbelle e ficou chumbado ao chão.Nervoso, passeava pelo quarto os seus ódios contra os dias que faltavam. Fructos amadorecidos pendiam dos ramos ; mas se elle fosse apanhar um, suspendiam-se todos. Praguejava contra o tic-tac monotono do relogio que parecia dar noras de seculo em seculo. Desejava o conjugo-vos como a matéria cahotica o biblico fiat luz.

Depois do jantar Frederico acompanhado do pagem Fortunato seguiu caminho da cidade cavalgando o palafrem de D. Luzia.


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