Fantina/XXXVII

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XXXVII
por Francisco Badaró


Dois mezes depois D. Luzia sentia-se doente, triste.

Já havia consultado a varios médicos ; mas mesmo assim resolveu ir á cidade ouvir uma missa.

Fantina a muitos dias já andava afflicta em procura da chave, e agora que ia por de mão os preparativos da senhora, ficou aterrada. A idéa de aborrecer a nhê-nhá tão doente opprimia-lhe o coração amoroso.

Poz-se em procura da chave com sofregridão espantosa.

Muitas horas trabalhava debalde.

Rosa percebendo isto não se mostrou resentida. Quando Fantina luctava para arredar um caixão na despensa, Rosa chegou, e depois de saber a causa daquelle trabalho, disse :

—Fantina, eu supponho que a chave foi achada, e por isso é tolice você estar procurando.

Diante desta consideração desanimadora Fantina prorompeu n'um chorar hysterico, dilacerador.

—Como ha de ser então ? Nhê-nhá tão nervosa e doente sabendo disto é capaz até dar-me pancada, tia Rosa ! Ella estima muito aquelle estojo, e ainda mais a chave que foi feita com ouro tirado pelo pai della quando garimpeiro na Bagagem.

—Socega, menina ; o unico remedio possivel é mandar fazer outra.

—Não tem tempo, porque amanhão ou depois ella póde precisar das pulseiras e dos brincos. E demais, quem me havia de arranjar isso ?

E continuava soluçando.

—Pois então vá pedir a sinhô Frederico a que elle tem, que talvez sirva.

—Mas como hei de obtel-a nas mãos para experimentar ?

—Nada mais facil,—continuou Rosa,—vá onde elle está, e logo que você pedir elle dá.

—Não ! tenho muito medo delle ; aquillo que você me fallou é muito feio ! porque eu quero me casar com Daniel que me estima tanto !

E a voz lhe sumia entre o soluçar convulsivo.

Fantina era forte na musculatura, mas impressionavel como a flôr tirada da sombra e exposta aos raios lubricos do sol tropical.

—Desta maneira nada você arranja. Vá pedir, e se elle exigir alguma cousa em paga, e se você não der já, ao menos prometta ; senão elle vê que é por causa de Daniel e póde mandar leval-o para soldado.

Depois de muitos acoroçoamentos Fantina resolveu ir pedir a chave ao senhor.

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D. Luzia tivera um accesso e foi deitar-se.

Frederico esteve pelo quarto, e afinal sahiu assobiando uma mashurka que aprendera com a Joaquininha.

Fantina indo ter cora sua senhora, esta mandou-lhe buscar ao jardim umas folhas de malvas para banho.

Uma fachada de luz bruxuleante partindo das senzalas é que punha um lusco-fusco triste lá pela varanda. Corria pelo ar um magnitismo dormente de envolta com as baforadas mornas do sol da tarde. Fantina vio Frederico debruçado á um canto da varanda ; quiz voltar e mandar outra apanhar as folhas. Lembrando-se, porém, da chave teve animo para lutar e chegou. Apanhou as primeiras folhas que encontrou ; approximou-se de Frederico, e narrou-lhe o occorrido.

—Dou a chave Fantina, que ha de servir, mas quero que você me dê uma cousa.

Ella quasi fugiu correndo, mas a mão possante de Frederico deteve-a. Um grito de susto escapou-lhe da garganta.

—Gosto muito de você, Fantina. Hei de um dia casar o Daniel com você.

E segredando-lhe uma palavra, ella tremeu da cabeça aos pés como se fôra batida por duas desencontradas cargas electricas. Fantina nesse momento viu o grande e phantasioso castello de seus desoitos annos sadios, edificado com risos e temores, esperanças e beijos quentes, ruir.

Frederico não podendo dominar-se, agarrou-a fortemente pelas mãos, e cingindo-a ao peito, imprimiulhe na face que abrazava, beijos absorventes, devoradores, onde derramou toda a ancia animal de sua natureza potente.

Fantina quiz gritar ; elle largou-a temendo que D. Luzia soffresse mais no seu physico arruinado.

Quando Fantina deu fé de si, sentiu na mão um objecto frio : era a chave. A lera depois de ter sentido o gosto do sangue da preza, e de apalpar-lhe as entranhas trementes, soltou-a.

Em outra occasião, porém, ella esperava embebedar-se das fragancias macias daquella rosa de Jericó, candida e avelludada como o lyrio de Geslaad.


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