Filomena Borges/VII

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo VII: O rapto


Mas uma noite, achavam-se então em Sevilha — sultana do Guadalquivir — como lhe chamava Filomena, sempre fecunda nas suas paráfrases poéticas; Borges, familiarizado já com os gostos românticos da mulher, resolveu pôr de parte uns certos escrúpulos e assaltar-lhe o quarto pela janela.

— Era impossível que Filomena resistisse ao encanto de uma violência tão pitoresca!...

Moravam em Triana, num modesto e confortável hotelzinho. A caprichosa, segundo o louvável costume, exigira que o marido alugasse dois quartos bem separados, e não teve grande empenho em declarar-se casada; ao Borges, por outro lado, também não convinha dizer a verdade, receoso de que esta o tornasse ridículo aos olhos de todos, como havia já sucedido em várias partes.

O terno marido, depois de bem estudar o seu plano de ataque, tratou de realizá-lo. Vestiu-se como os do povo, arranjou uma escada e, logo que só ouviu em todo o quarteirão a voz longínqua dos serenos, meteu mãos à obra.

E, com certeza, teria obtido o melhor êxito, se alguém, que o vira tentando penetrar de um modo tão suspeito no hotel, não fosse denunciar o fato aos tais serenos, que sem demora acudiram armados de suas lanternas e de seus chusos.

Houve escândalo; reuniu gente, e o Borges escapou de ser catrafilado, graças à lógica de sua algibeira, que conseguiu provar ao honesto estalajadeiro a conveniência de arranjar-lhe em menos de dois minutos um esconderijo no próprio hotel.

Por esse tempo, Filomena, tendo chamado em vão pelo marido, e talvez ‘até desconfiando ser ele o autor do malogrado assalto, exigia do oficial de ronda (estavam em épocas revolucionárias) que lhe deparasse um lugar decente, onde uma estrangeira honesta ficasse ao abrigo do primeiro malfeitor que lhe quisesse entrar pela janela.

O oficial tinha família e pôs a sua casa à disposição da queixosa, até que o juiz designasse, com as devidas formalidades, o sítio onde ela devia ser depositada judicialmente.

O fato ganhou logo circulação no bairro e, a falta de esclarecimentos verdadeiros, inventou-se toda a sorte de legendas. Uns juravam que Filomena não era mulher e sim um grande sonso que namoriscava a esposa do oficial e usara daquele expediente para ir ter com ela; outros afiançavam que a tal estrangeira era pura e simplesmente uma cocotte, sequiosa por chamar sobre si a atenção do público; outros lhe atribuíam intenções políticas. Este notara que ela trazia no corpo as mais belas jóias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no colo brilhantes de um tamanho fabuloso; aquele protestava que nunca ouvira uma voz tão estranha e todavia tão melodiosa, como a dela; outro dava a sua palavra de honra em como a tal sujeitinha era de uma formosura e de uma graça, que nem as virgenes de Murilo.

Porém a opinião mais seguida rezava que a encantadora e misteriosa estrangeira era nada menos do que a filha de rico negociante português, de cuja companhia desertara por não querer casar com um fidalgo velho e debochado que o pai lhe impunha. Pelo menos era esta a versão que mais se compadecia com o que noticiavam a esse respeito os jornais do dia seguinte:

"GRANDE ATENTADO CRIMINAL, dizia um. — A noche a las doce poco mas o menos, un malhechor de los muchos que infelizmente infestam esta hermosa ciudad, intentó introducirse por la ventana, de una de nuestras mas acreditadas fondas, con el fin perverso de raptar una joven estrangera que ali residia esperando su anciano padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar por motivos faciles de comprender.

La bella niña, que casi fue victima de tanta atrocidad, halasse, a su ruego, depositada en caza del oficial Sr. D. José Nuñez, hasta que el competente juiz decida de su destino.

Debido al delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la señorita aludida aun no ha podido explicar los pormenores del crimen de cual fue objeto.

El malvado desapareció, pera la policia emplea todos los medios para alcanzarlo y cremos que sus esfuerzos no seran defraudados.

A medida que nos lleguem nuevos pormenores los transmitiremos a nuestros lectores."

Outros jornais iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas considerações sobre o fato estranho de se achar "desacompanhada num hotel já por si suspeito (o dono do hotel era federalista e o jornal apoiava o governo) uma senhora tão distinta, tão bem tratada e com todas as aparências de donzela! Não estaria aí a ponta de algum importante enigma político?... Em épocas de revolução é preciso desconfiar de tudo e de todos".

Estas notícias excitaram a curiosidade geral. Não faltou quem deixasse de enxergar no misterioso homem da escada um malfeitor ordinário, como diziam algumas folhas, e atribuir-lhe fins de grande alcance político.

O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, não lhe podia passar despercebido que o seu misterioso hóspede usava um lenço de seda encarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o lenço; não podia deixar de notar que nas caixinhas de fósforos do seu protegido encontrara sempre o retrato de alguns dos chefes dos cantões — encontrou o retrato do general Contreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Gruilleu.

— Não há dúvida! pensou ele. Não há dúvida que o homem é dos nossos!

E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligionário gastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o incógnito em que se fechara esse homem, estrangeiro sem dúvida, mas estrangeiro amigo e respeitável, não vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa federal, e resolveu pôr-se discretamente ao seu serviço.

— Talvez, quem sabe?... considerou o cantonalista com os seus botões. — Mais tarde, quando subirem os nossos homens, isto até me venha a render um lugar importante na política!

E foi logo ter com o Borges.

— Cidadão! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de refugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!...

Borges recuou de boca aberta.

— Descanse! volveu o outro em tom de mistério. Pode ficar tranqüilo! Não tem que temer aqui — eu sou seu correligionário.

— Mas, senhor!... ia a protestar o Borges.

— Não quero que me diga quais são as suas intenções — as intenções de um cantonalista são sempre as melhores! O que eu desejo é saber em que lhe posso ser útil! Tenha confiança em mim e fale com franqueza.

E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete frígio, que ele possuía para as ocasiões de levantamento, meteu-o na cabeça e perfilou-se defronte do Borges.

— Bem vejo, bem vejo... respondeu este, compreendendo a situação e hesitando, na qualidade de homem sério, se devia ou não aproveitá-la em seu favor. Bem vejo, mas...

E franziu o sobrolho. — Era o diabo! Aquilo não lhe podia ficar bem!...

— Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento. Fui indiscreto!...

— Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui um inimigo!...

— Este federal é chefe com certeza de algum cantão! disse consigo o estalajadeiro. E sabe Deus qual não será a importância de sua presença por estas alturas!

— Em todo o caso..., acrescentou o Borges, tomando uma resolução, não me despeço de seus favores, talvez precise deles.

E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:

— Preciso fazer chegar uma carta às mãos daquela senhora que...

— Já sei de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha portuguesa. Bem tinha eu cá um pressentimento!... Preparai o amigo a carta, que eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver mais cinco companheiros, tão bons como eu, com os quais podemos contar para a vida e para a morte!

— Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.

E logo que terminou a carta, chamou o seu correligionário, e entregou-lhe juntamente com algumas libras esterlinas.

O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnegação heróica. E, com tão boa vontade se pôs em ação, de tal modo providenciou as coisas, que pouco depois uma correspondência cerrada se estabelecia, entre o Borges e a mulher.

Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido, nas frases mais poéticas que conseguiu arranjar, suplicava à esposa que desistisse do abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos daquela maldita cidade, que só lhe trazia canseiras e dissabores.

Filomena, porém, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido, mas não queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.

"Ë inútil insistires", terminava a visionária, em seguida a uma exposição minuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcançá-la.

"Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro amor não conhece dificuldades! Não encontra obstáculos quando se precipita em torrentes vertiginosas de um coração apaixonado! Vem! Vem conquistar-me à força de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida, e eu serei tua, eu viverei para beijar os grilhões com que me prenderes ao teu destino! Tua, P."

O Borges ficou irresoluto, coçou a cabeça, passeou longas horas com as mãos cruzadas atrás. — Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: — ter de perpetrar um rapto! Eu! — Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabeça a idéia de casar! Ah! que se não fosse a esperança de que as coisas não durarão neste belo gosto por muito tempo, eu... eu nem sei o que faria!...

Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situação que o tornava ridículo aos seus próprios olhos, deliberou fazer a vontade à mulher. — Já agora seria o que Deus quisesse!...

Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das intenções de seu ilustre protegido, tratou de dar as providências para o rapto.

Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profissão que exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem do raptor pela maneira que mais convinha à conjuntura, isto é, reduzindo-a o melhor que pôde, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria a boléia; e, depois de erguer com os outros vários brindes ao cantonalismo, à Espanha, à liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratidão que o Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos a caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a última gota de sangue em prol da gloriosa empresa que cometiam.

E quem os visse, tão formidáveis nos seus capotes de conspiradores, os colones convictamente puxados sobre a orelha, os gestos ameaçadores e trágicos, não seria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ninguém senhora de seu nariz.

Filomena, ébria de prazer com a idéia de ser furtada, palpitando de comoção, fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando incômodos para dissimular os seus projetos de fuga.

À meia-noite chegava o terrível grupo dos conspiradores, acompanhando o coche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicadíssima. Borges separou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão armada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. Não foi difícil, porque, felizmente, o portão achava-se apenas encostado.

Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de metal e apitou devagarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clarão da lua, apareceu o vulto romântico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos, os braços nus.

— Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as mãos à boca em forma de porta-voz.

— Trouxeste a escada?..., perguntou Filomena no mesmo tom.

— Trouxe. Arreia o barbante.

— Aí vai.

— Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cordão.

Filomena daí a pouco lançava-se nos braços do marido, a exclamar: — Fujamos, meu amor! Fujamos!

— Não grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!

E, com efeito, alguém abria já uma janela.

— Estamos perdidos! bradou a fugitiva.

O Borges, porém, havia já alcançado a rua com a mulher nos braços, quando o sujeito da janela berrou com uma voz de trovão:

— Ó da guarda! Ó da guarda!

Ouviu-se um estardalhaço de portas que se abrem precipitadamente, fechaduras que rangem e vozes que altercam.

Mas Filomena, trêmula e sobressaltada, achava-se já dentro do carro, ao lado do raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.

Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de gritos e de apitos, simulavam uma alteração na rua, atraindo sobre si os serenos, que acudiam de vários quarteirões.

O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-del-rio. A cidade desaparecia atrás deles, vertiginosamente. Mal avistavam já o cume quadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.

No fim de três horas de carreira, penetravam no campo.

— Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo não seremos alcançados!

— Ao contrário, respondeu o estalajadeiro, o campo é menos favorável à fuga, porque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.

Não tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.

— Quem vai lá?! gritou um deles.

O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em direção contrária ao lugar donde vinha aquela voz.

— Alto! gritou o guarda campestre.

Novas e mais fortes chicotadas.

— Faça alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.

O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do campo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a frente, sobre as coxas.

Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois outro; mas as bestas não afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras de um olival que nascia a algumas braças daí.

— Ânimo! gritou o intrépido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos livres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!

E fustigou as bestas com energia.

Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito que aterrou os companheiros. Na sua precipitação, invadira, sem dar por isso, as terras de um tal marquês de Saltillo, e agora, auxiliado pela aurora, que ia repontando, via-se no meio de uma vasta defesa, cujos touros gozavam da fama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.

— Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de medo, espiavam pelas portinholas.

— Que é?! que é?! perguntaram.

— É que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando de fugir ao perigo.

A defesa era enorme, estendia-se até muito longe; nessa ocasião, por felicidade, os touros achavam-se entretidos para o lado contrário ao do carro, e o estalajadeiro não precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes, fariscando logo o risco que corriam, abriram a rinchar e, malgrado da fadiga, desembestaram para as bandas do campo.

Malditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando a cabeça nas pernas dianteiras, corria assanhado na direção do carro.

O federal chicoteou os cavalos com toda a força e o pobre coche rodou por entre o mato como uma bola perdida.

— Anda! Anda! berrava o Borges de pé, a tocarolar as costas do cocheiro. — Olha que o diabo do bicho aí vem!

Com efeito, o touro perseguia-os na distância de uns cinqüenta passos.

— Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que há é lutar.

Mal terminava essa frase, quando se sentiu descair com o marido para a direita; uma das rodas do carro estava por terra, em pedaços.

— Jesus! fez ela, agarrando-se à portinhola.

— Já aí vem o conocedor e já ouço o chocalho do cabestro. Estamos salvos!

De fato, três homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham com os seus cajados em punho à pista da rês que se desgarrara da defesa. O touro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e foi humildemente emparelhar-se ao cabestro.

— Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre carro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!...

Felizmente já não estavam muito longe da estação de Lora, e o Borges, se não quisesse tomar aí o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde com facilidade arranjaria meios de condução para o lugar que melhor entendesse.

Mas Filomena declarou logo que não se sentia disposta, por coisa alguma, a passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. Não foi para isso que viera à Espanha! Queria um sítio pitoresco, ignorado, poético, silencioso. O marido que tivesse paciência; ela, porém não descansaria antes de encontrar um lugarzinho nessas condições.

— Pois tranqüiliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu o Borges. Já agora, com mais um empurrão leva-se a caixa ao porão!

Durante esse diálogo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais com a bagagem dos fugitivos. E os três, seguidos das cavalgaduras, puseram-se corajosamente a caminho, dispostos a não acampar, sem terem descoberto o tal sítio indispensável para os amores de Filomena.