Filomena Borges/XIX

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XIX: Petrópolis


Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.

Principalmente a subida da serra com a sua estrada muito branca, em ziguezague, que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.

Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num morte-cor ideal, vaporoso e fugitivo. As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes de neblina, que se iam rasgando às primeiras irradiações do sol, como trêmulas cambraias sopradas pelo vento.

E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes adormecidos de pé, e lá embaixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando largos horizontes cor de pérola.

— Esplêndido! balbuciou Filomena, com a boca meio aberta, os olhos iluminados de inspiração, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. — Esplêndido!

E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se de plano em plano, derramando-se até o fundo misterioso dos vales ou voando aos alcantis que se perdiam no céu.

Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão fundo a alma apaixonada e contemplativa.

Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia com este os seus projetos políticos.

— Agora só o que me falta é a "idéia"! disse o barão ao ouvido do outro.

— Idéia? de que?... perguntou o Guterres, sem compreender.

— A idéia, homem, a causa que eu tenho de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por alguma!

O amigo olhou muito sério para ele:

— Tu ainda não tens partido?!

E depois de um gesto negativo do outro:

— Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuis! O imperador dá a vida pelos homens nessas condições!

— Achas, hein!

— Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém, é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar com o poder... não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E, se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta é a prática, são as relações políticas. — Isso obterás rapidamente, juro-te eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!...

Enfim, não te faltam os elementos!... segredou depois de uma pausa, piscando o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro.

— Não é tanto como supões! respondeu o Borges.

E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.

De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.

Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.

Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que produziu em Filomena.

Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um paraíso da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo, a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.

A acumulação dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do céu, a frescura do ar, prontamente impressionaram o seu espírito, sempre voltado ao pitoresco, ao recreativo, ao ideal. Além disso, as criancinhas louras, descalças, caminhando em bando para a escola, as criadas alemãs, de olhos azuis, a boca vermelha e a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, do africano e repulsivo aspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da legendária e melancólica Germânia.

E no Borges. as primeiras impressões foram justamente o contrário de tudo isso. Espírito prático, e por demais ferrenho, não se cegou logo pelas aparências do mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petrópolis friamente, com todo o peso do seu bom senso grosseiro e burguês.

O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos, supondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando aliás Sua Majestade, astro sem brilho próprio, não podia emprestá-lo a quem quer que fosse.

Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios, ele, o Borges, notava que Petrópolis, com os seus decrépitos laudêmios, com as suas sesmarias, OS seus enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais, continuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante tocar em qualquer coisa, que lá estivesse, para se sentir logo a dois passos, o olho vigilante e repressivo do proprietário, do dono.

Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestígio do "Senhor". A mesma impertinência do "Amo".

— Bela rua! exclamou o barão, considerando a rua D. Afonso, depois de percorrer as ruas do Imperador e da Princesa Januária.

— É exato! responderam-lhe — o imperador acha-a bonita!

— Não morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra vez.

— Não! contradisseram-lhe, esta cerveja é magnífica — o imperador gosta!...

E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer informação. As idéias, as frases, giravam sempre sobre o mesmo parafuso — o imperador. Era ele sempre o ponto de partida, o termo de comparação, a base, o princípio, o fim, o meio.

— Ora bolas! exclamou o Borges, afinal já importunado com aquele servilismo. — Para qualquer lado que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo! No fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? Não estou aqui por obséquio, não estou na casa de ninguém; estou num hotel, a tanto por dia! Ora essa! Pago com o meu dinheiro!

O Guterres então contrapunha argumentos cheios de prudência e reflexão. — O amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! Não era isso que mais convinha aos seus projetos políticos! Que diabo! Não custava coisa alguma guardar umas tantas conveniências!

— Estou vendo é que mando para o inferno a tal idéia de minha mulher e musco-me daqui quanto antes! — Ah! meu Paquetá! meu Paquetá!

Não sabia por que, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha! Faziam-lhe mal aos nervos aquela elegância convencional, aquele falso luxo, aquela preocupação de "parecer rico", que notava em quantos iam passar ali o verão.

— Súcia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de tédio.

E experimentava arrepios de indignação quando, à tarde, num alvoroço postiço, reuniam-se à porta do Bragança grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando uma aristocracia que não tinham, fazendo uma existência fina e superior, que mal conheciam de tradição. Por debaixo daquelas roupas a inglesa, daquelas rendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia endinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portuguesão, meticuloso, ruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de vícios.

Os phaetons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e três tiros de cavalos, as corridas à marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa dos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que não tinha o cunho do hábito e o caráter de coisa adquirida insensivelmente com a educação, com o berço, tudo isso se lhe afigurava tacanho, ridículo, insuportável.

E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de negócio, nos costumes, nas toilettes, na linguagem, nas relações, nos amores, em tudo descobriu o mesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupação de mostrar uma grandeza que não havia.

— Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confidência com o Guterres — cheira-me assim a mulata forra com pretensões a cocotte.

E o Borges, aquele pax vobis, aquele homem que não sabia quais eram os passos necessários para entrar na política, resolveu do fundo do seu bom senso burguês que Petrópolis não passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa, que se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes um parhélio, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.

E profetizou, o toleirão! que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas do prazer e do vício como Mônaco ou Monte-Carlo, alimentadas pelo jogo, pagando o "barato" ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom-tom e às prostitutas de alto bordo.

Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras, vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.

Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o "tépido retiro das almas delicadas, a fina corte do espírito e da elegância". Uma espécie de ninho artístico, feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas de ylang-ylang.

Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestígio do monarca, por exemplo, longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessava. E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser ele mais completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da idade média.

Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais moço, mais bonito, amando os combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo; supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos, suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.

Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas. Preferia-o de longos cabelos da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo, o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.

A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causava-lhe um desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e turgido pela vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam no espírito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às magnificências da coroa.

— Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação. — Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!

Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!

E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios de um belo infante apaixonado, que vivia a abater nas suas terras o javali bravio.

E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste som de retorcidas trompas de metal.

E formosas damas, pálidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafréns cobertos de pedrarias, o amazonas desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos, e pajens lindos como arcanjos, e donzéis de falcão ao dedo, e ligeiros batedores, e nuvens ululantes de cães que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava vertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmagórico de opulências.

Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas matas e a natureza se recolhe na concentração, mística e voluptuosa da sesta, Filomena furtava-se de todas as vistas e saía a bordejar silenciosamente os largos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada dos caminhos de bambus.

Em um desses passeios encontrou-se com o monarca, Ele caminhava em direção contrária à dela, inteiramente desacompanhado.

Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e lá se foi por diante, muito sombrio, com a cabeça enterrada nos ombros, as mãos cruzadas atrás, os olhos presos na terra.

Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contemplá-lo. Depois fez um gesto de impaciência com a boca, sacudiu as espáduas e continuou o seu passeio.