Filomena Borges/XX

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XX: Volta-se à dança


Naturalmente o monarca falou a alguém do seu ligeiro encontro com a afilhada, porque esta, se até então conseguira em Petrópolis furtar-se um pouco ao burburinho das salas, daí em diante não foi mais senhora de si.

Viu-se logo cercada de manifestações, querida, reclamada a todos os instantes, servindo de alvo a todas as atenções, discutida, invejada, luzindo e ofuscando com a sua beleza, com os seus gostos, com o seu espírito e com o seu nome, que se impunha aos ouvidos de toda a gente, alta ou baixa, como o título de uma canção popular.

Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto, de a obsequiar. Os seus gostos foram imitados; as suas toilettes decretaram a moda da estação, as suas frases mais insignificantes converteram-se em apotegmas.

— Isto vai mal!... considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes, em vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. — Isto vai muito mal!... muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda não tive um momento de verdadeiro descanso, e já pressinto aliás que as coisas vão tomando um caráter ameaçador! Confesso que não estou nada satisfeito!

— Não sou dessa opinião, contrapôs o Guterres, — Entendo que o negócio caminha às mil maravilhas! Nós, o que precisamos é não dormir com o trabalho!

— Ó homem! exclamou o outro. — Pois você acha que temos trabalhado pouco? Você acha que é pouco o que temos feito?! Ainda não abandonei a pena senão para comer e dormir algumas horas!

— É pouco! é quase nada!

— É um artigo!

E com efeito, os quatro dias que tinham de Petrópolis foram devorados na confecção de um artigo político, uma espécie de autobiografia a jeito de programa ao mesmo tempo, peça original e divertida, na qual criticava o autor a lamentável situação econômica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo outras com entusiasmo, fazendo-se muito patriótico e empenhado na salvação desse "país esplêndido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente vítima todos os dias do egoísmo e do desamor daqueles que, se compreendessem os seus deveres, deviam ser os primeiros a defende-lo e honrá-lo perante o século dezenove e não procurar precipitá-lo no aviltamento e na vergonha".

O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua mesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais, não parecia ter quatro dias naquele serviço; parecia ter vinte anos.

E ele, todo vergado sobre a pasta, o olhar carrancudo, a ponta da língua a brincar fora da boca, como a cabeça de um boneco de engonço, enchia e reenchia centenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicionários, consultando o código, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta o que ficava escrito, declamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.

O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balanço, o copo de cerveja ao lado, a cabeça vergada para trás, a fisionomia cheia de preocupação, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os dedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.

Ou então passeava pelo quarto, fitando o soalho, as mãos nas algibeiras das calças, o charuto fumegando a um canto da boca. E só se alterava para fazer uma visita ao copo ou dar uma vista d’olhos ao que escrevia o Borges.

Às vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em silêncio a pena das mãos do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de novo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.

"Patriota e defensor acérrimo da Carta Constitucional"..., bradava ele, destacadamente, acentuando a frase com um movimento de braço: "sempre tive por único objeto de meus esforços a prosperidade e a glória de meu país!" Escreva!

O Borges escrevia.

"No meu livro sobre o Oriente" (é bom falar nisso!) "escrito de colaboração com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!".

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

"Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas revoluções do cantonalismo...

— Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena e limpando o suor da testa. — O que se passou foi só aquilo que te contei! Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!

— Cala a boca, homem de Deus!

— Não! Hás de convir que...

— Mau! Se você conta escrever só a verdade, está bem servido nas suas pretensões! É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder...

— Em política, meu amigo, disse o outro — verdadeiro é só aquilo que nos convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?! Sim! Quero saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me consta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

— Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto fica por minha conta!

Daí a pouco suscitou a mesma questão a respeito de D. Luis de Portugal. O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em Paris gozado "a estima e a confiança do bom e afável duque do Porto".

— Não! Essa agora é que não passa! reagiu o Borges energicamente. — Ainda com o cantonalismo — vá! porque enfim o basbaque do estalajadeiro tomou-me por um correligionário; mas com o D. Luis valha-me Deus! a coisa é muito diversa! Homem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que até supunha que eu não entendesse o português! ... Eu estava de botocudo!

— Mas é a mesma coisa, João! Você não entende disto! Faça o que lhe digo e deixe-se de escrúpulos sem razão de ser!

Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria levá-lo pessoalmente ao Jornal do Comércio.

— Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. — Deste estou livre!

Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia seguinte, antes de principiar o baile do Casino, organizado no próprio hotel Bragança, onde havia um teatrinho, ela dançaria um de seus tangos e cantaria uma de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.

— Está tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo. — Adeus sossego! O diabo é dançar a primeira vez!

E o pobre homem tinha razão. A notícia de que Filomena ia dançar, levantou entusiasmo. Petrópolis assanhou-se; o hotel Bragança encheu-se de curiosos; por toda a cidade só se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar nos preparativos da festa; foi preciso fechar o salão do baile para conseguir-se fazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.

No dia da função, às sete horas da noite, já se não podia transitar na rua do Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo o comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os corações.

E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a platéia; distribuídos os lugares, o monarca já instalado com o seu seminário, ergueu-se o pequeno pano do teatrinho e Filomena principiou a dançar o tango, o entusiasmo difundiu-se de tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para contê-lo.

Era a primeira vez que o salão do frio e sizudo Casino experimentava uma febre daquela ordem.

Terminado o ato, o imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa artista e prometeu que dançaria com ela uma quadrilha francesa.

Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justiça.

Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da platéia, desembaraçando-se o salão para a dança e, daí a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme de baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por várias vezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o barão e que mais tarde havia de dar provas dessa simpatia.

Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela irresistível afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.

Verdade é que, depois do primeiro baile, não se passava um dia em Petrópolis, sem que D. Pedro tivesse ocasião de se encontrar com ela; e, quando havia dança, o bom príncipe não lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois dedos de palestra.

— Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por aí toleirões que falavam em república e revolução! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano, mais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele? ... um verdadeiro amigo de seu povo!

E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defende-la. Se, em sua presença, alguém se animava a falar no suposto namoro de Filomena com o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lamúria:

— Não, coitado! é uma injustiça! O pobre homem não pode se divertir um instante!... Ah! também vocês de tudo querem armar escândalo!

O Borges é que não se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse todos os meios para convence-lo de que tais sobressaltos não tinham o menor fundamento.

Mas não era só por causa disso que ele se apoquentava — é que a despeito do esforço que fazia o infeliz para evitar as convivências ruidosas e resignar-se à maçadora companhia do Guterres, não conseguia fugir às constantes visitas de cerimônia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas e mortificações.

— Já vejo que é mesmo sorte minha!... resmungava ele. — E eu que supunha vir encontrar aqui neste inferno de intrigas um momento de repouso!

A presença do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos incompreensíveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade que empregasse, não podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.

— Não nascera para aquilo!

Burguês completo, amigo sincero do povo, donde saíra e onde crescera, livre por hábito e por princípio conhecendo o governo apenas pelos seus impostos, pelas suas exigências, pelas suas opressões, era, sem nunca o ter dito, talvez até sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucionário moderno, um verdadeiro, um puro republicano.

Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente aos atos do governo, aos negócios do Estado, chegando até a evitá-los instintivamente, como uma mulher honesta evita por impulso natural o contacto de certas pessoas.

Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não seria ele decerto quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.

Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo, a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma forma trabalhador e independente. Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro, menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.

De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés de um soberano, que, até aí, era para ele simplesmente um princípio, que a gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que aceita, atirado assim de improviso aos degraus safados de um trono, que nada de comum podia ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu próprio, o Borges sentiu-se como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido, preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.

Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela posição falsa e constrangedora.

Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco, habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo; até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de "superintendente dos trabalhos privados do Paço", com um bonito ordenado, casa, comida, roupa lavada e engomada.

A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: — Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!

— Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo... objetou o Borges muito atrapalhado.

— Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente, não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho de dar em troca do ordenado que me oferecem!

Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.

— Está bom, está bom! disse afinal a baronesa.

— Acho que deves guardar essas discussões para quando estivermos em casa — neste hotel ouve-se tudo o que se diz um pouco mais alto!

Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do Guterres. — Precisava desabafar! Arre!

— Não dês com o pé na fortuna!... disse-lhe o amigo. — Que diabo queres tu então, homem de Deus?! ...

— Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei pra que lado fica o serviço de que me querem encarregar!

E que necessidade tens tu de entender disso?... Acaso alguém te reclama habilitações?... Alguém te pede competência?... Por ventura os mais que são nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?... Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes reformar os costumes!... Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!...

— Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações para exercê-lo!

— Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz muito quando sabe ler e escrever corretamente... Não vês que o ministro da fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!

Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.

— Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo! seria uma bandalheira, uma velhacaria! Não quero!

— Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou o outro. — Ah! se fosse eu o nomeado, havia de te mostrar que...

— Queres tu ficar com o emprego?!... perguntou o barão, limpando o rosto, que se inundava o suor.

— Ora! Se fosse possível, que dúvida! ...

— Vai ver se é ou não possível!

E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o imperador, foi-se atravessando defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente, mas que designava o Guterres para o substituir.

— É um pouco difícil de contentar, seu marido! observou D. Pedro a Filomena quando se encontrou com ela.

— Não sabia que era tão exigente!

— Exigente?! ... perguntou a baronesa.

— Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora é quase impossível dar-lhe coisa melhor!...

Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca: — Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?... Oh! Não julgava que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!

— Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião do esposo — No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado! Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!

— Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por titulo brasileiro e mais alto — vou faze-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!

Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: — Oh! Vossa Majestade é magnânimo!

— Engana-se! Não sou: — faço-me, para dar-lhe o exemplo: percebe?..., disse o monarca piscando o seu olho azul do lado esquerdo.

Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.