Filomena Borges/XVI

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XVI: Segredos de bastidor


O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou um momento. Aprendeu a executar os jogos malabares, exercícios no trapézio, ginástica sobre o cavalo, mágicas e prestidigitação.

De Hércules Inglês passou a equilibrista japonês, fazendo-se anunciar com o nome de Tchim-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande mitra encarnada, um leque na mão, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que ninguém pudesse suspeitar que aquelas pantomimices escondiam um coração puro e singelo, talhado para o amor da família, para a dignidade do lar doméstico e para os exemplos da honra e da perseverança no trabalho.

E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o palhaço vulgar, de cabeleira pontiaguda e cor de fogo, à cara empastada de alvaiade, até o empresário, de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra os cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.

Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseudônimo de Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impressão nos anúncios.

A mulher conservaria as suas roupas indígenas, mas não havia de pintar mais o rosto nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: "Filomena Borges — A Brasileira".

O Urso é que ficara de melhor partido — ia deixar a cena e recolher-se à sua primitiva e sossegada posição de animal doméstico. Já não era sem tempo, coitado! O pobre cão estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as faculdades.

Estrearam no Cirque d’hiver.

Que sucesso! Os parisienses cansados de boa música e fartos de artistas célebres; os parisienses desiludidos, esgotados, blasés, ainda tiveram fibra para um arrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Pará, gemidos em português por aquela deliciosa filha dos trópicos, que não precisava de espartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem clássica e singela das curvas carnais toda a velha sensualidade paradisíaca.

O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, não tinha mais que afetar grande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos beiços e nas orelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio único que descobriu o pobre homem para não se fatigar em extremo, por várias vezes teve de sair do seu sossego e ameaçar com as suas flechas de ubá e com os seus guinchos atroadores os gommeux embeiçados pela mulher.

Ingleses silenciosos e tradicionalmente excêntricos, russos viajantes, príncipes de várias partes do mundo, vinham ao Cirque d'hiver atirar o coração e a bolsa aos pés da formosa brasileira. Filomena, porém, não era mulher que sucumbisse a tais seduções e, já com a tática que apanhara nos teatros, já com os conselhos que em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores tudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares de ternura e os seus belos sorrisos de esperança. Só nas ocasiões supremas é que o terrível botocudo se mostrava, armado de tamarana, uirupara e esgaravatana, e, tal gritaria e tais ameaças punha em jogo, que ninguém levaria a sua intrepidez a ponto de avançar.

Não obstante, ele às vezes ficava sobressaltado e receoso.

— Não acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em segredo à mulher — Podes vir a cair em algum laço... conhecemos muito pouco esta cidade, e os parisienses, minha rica, gozam a esse respeito de uma fama terrível!... Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta maldita vida de teatro e irmos descansar a um canto sossegado e feliz da nossa terra!... O que já possuímos, com alguma economia, chegar-nos-há perfeitamente para o resto da existência, e eu, confesso-te, minha santa, desde que me casei, não faço outra coisa senão suspirar por um momentozinho de repouso!

Filomena sorriu.

— Ora, queira Deus que te não venhas a arrepender!... acrescentou o Borges. Tenho pressentimentos horríveis com esta cidade infernal!

— Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. São de todo infundados os teus receios! Descansa, eu sei o que faço; não me há de suceder coisa alguma!

— Hum, hum!... resmungou o botocudo, sacudindo a cabeça. Não sei que te diga!... Olha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante negro, não me passa da garganta! É de todos o que mais me incomoda! Não sei que diabo acho na cara de semelhante homem!

Nesta noite, já no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e o marido metia no pescoço o seu barulhento aiucará feito de búzios e dentes de animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim, dizia no melhor português:

— É permitido cumprimentar a formosa brasileira?

— Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a visita na pequena sala próxima.

E, quando apareceu, já pronta: — Oh! o duque!... Não sabia que V. Excia. falava português, e com tanta perfeição!

— Pois se eu sou português...

— Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.

Dir-se-ia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à Cavaignac, cabelos de um amarelo frio e seco.

— Não falemos nisso, interrompeu ele — tratemos de outra qualquer coisa!... De seu esplêndido país, por exemplo.

— O Sr. duque conhece o Brasil?...

— Não. Nunca fui ao Brasil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.

— Parentes! Na corte ou nas províncias?

— Na corte.

— Ah! Então devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.

— É inútil insistirmos: não conhece com certeza... é uma família de estrangeiros.....

— Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cortês, porque havia já suspeitado quem vinha a ser aquela incógnita visita. — É ele, com certeza... pensou de si para si.

Mas nesse momento o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerimônias.

— Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o ao duque.

O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita, franzindo as sobrancelhas.

— Ainda não conseguiu familiarizar-se com as línguas estranhas, explicou Filomena.

E percebendo no duque um gesto de contrariedade:

— Pode conversar à vontade em português; Bu-ru-cu-lu-lu não entenderá uma palavra do que ouvir. Só eu posso fazer-me compreender por ele, graças ao pouco que sei do tupi.

— Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse monstro para seu marido?... quis saber o fidalgo.

— Devo-lhe a vida! ... respondeu Filomena.

— Se não fosse esse bravo indígena, teria sido devorada pelos seus compatriotas numa lamentável excursão que fiz ao Alto Amazonas...

— Ah! E sabe o que o levou a salvá-la?

— O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros, correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os que me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este instante me segue como um cão. É de supor que me tomasse por alguma divindade! Pelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!

— Ah!

— De resto, não tem absoluta consciência do que faz — é uma espécie de bicho! Não sabe a razão por que aparece em público; não compreende nada do que o cerca. Uma ocasião, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia Paris, e, pela resposta que deu, conclui que o tolo se supõe numa existência de além-túmulo, julga-se no paraíso de sua religião.

— Como assim? perguntou o duque intrigado.

Filomena apressou-se a explicar:

— É que, na ocasião de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou muito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres tão fortes, que o fizeram delirar três dias consecutivos. Pois, bem, o toleirão imagina que sucumbiu à moléstia e que voou logo às mansões siderais, onde eu represento para ele a veneranda encarnação do poder altíssimo e da suprema divindade!

— De sorte que ele se julga já falecido?... perguntou o duque com interesse.

— Em plena bem-aventurança eterna... Julga-se como alma do outro mundo. Paris, que é o éden terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! é nada menos que o paraíso celeste!

— É singular!

— Singular e extremamente cômodo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando do efeito que as suas palavras produziam na visita. — Imagine o Sr. Duque que o fato de meu marido se julgar morto faz com que ele não tenha comigo a menor exigência e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, é o meu guarda, é a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, não tenho que recear qualquer agressão, venha ela de um leão das salas ou de um leão das florestas!

— É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a grossa e taciturna figura do Borges acocorado ao canto da sala. Sim, senhora! Está garantida!

— Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia encontrar melhor marido em parte alguma do mundo!

— Ele então não consente que lhe toquem sequer com o dedo?... perguntou o louro, fazendo um ar de desgosto.

— Experimente! disse Filomena, faça que me vai prender o braço.

O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escócia e fingiu que ia tocar no carnudo braço da artista.

O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os lados, com movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.

— E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?..., perguntou o duque.

— Deus o defenda! Nem é bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangulá-lo no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu não respondo pelas conseqüências.

— E não havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presença desta alimária?!

— Pode haver, mas é muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de qualquer cão de caça! ... Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me escondesse!

E por que não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas, deve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.

— Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demônio do bicho tem faro!

— Era fazer presente dele ao museu zootécnico de França, em nome do Imperador de seu país, que é um sábio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante serviço à biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter à comissão que recebe os donativos.

— Não! disse Filomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o seu oferecimento.

— Pois, quando quiser, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre visita, erguendo-se e tomando a mãe de Filomena para depor um beijo.

Mas o Borges afastou-o da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.

— Este animal não me deixa pôr o pé em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo contrariado, depois de cortejar a brasileira.

Borges acompanhou-o até fora da porta e, ao voltar para junto da mulher, disse-lhe esta:

— Conheces?

— Quem? Este tipo? Não!

— Oh! o D. Luís, homem!

— Que D. Luís?

— O D. Luís de Portugal.

— Ora essa!

— Pois é ele!

— Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça! ... observou o botocudo.

— Deixa-te de receios, meu selvagem — e vem daí, que já deu o segundo sinal para principiar o espetáculo!