Filomena Borges/XVII

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XVII: Suprema exigência


Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob todas as singularidades de seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais ela não o poderia suportar.

As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta é para o sopro — o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.

Queria todos os beijos do esposo, sim — contanto que não viessem naturalmente, sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse necessidade de esconde-los de alguém, de obte-los com sacrifício de alguma coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças, promover comentários.

Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível, quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.

O botocudo intrigava muita gente: — Seria crível que uma mulher, tão formosa e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?... O monstro seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?...

E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d’hiver à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada e menos condescendente.

Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhá-la de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista da brasileira.

Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.

Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas; tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no quarto, por alta noite, a tripe-trepe, quando não fosse pressentido por nenhum dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera do primeiro escândalo.

E tudo isso o torturava abertamente. — Maldita fosse a hora em que ele se fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.

Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.

Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e triolets, publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.

E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricaturas, em fotografias, em cromos, em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevins de terre cuite. E por toda a parte apareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócio; suas toillettes serviram de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas, traduzidas em todas as línguas.

Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto de sua vida.

Por outro lado o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo papel de botocudo e retomara o seu título de barão de Itassu, rogava-lhe com instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com ele a um cantinho feliz da pátria — a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que ele tinha as mais vivas saudades!

— Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era mais que tempo de regressarem! ele estava farto de nunca ser aquilo que era, de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito! ... Para que ir mais longe? Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana— riram, sofreram e gozaram; tiveram o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!

A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:

— Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população, desencaixilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola, que tinha a suprema honra de lhe haver dado o berço!

Não iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e vaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos; nunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha; não seria a indígena que tantos corações fez pulsar, mas em compensação havia de ser a "Exma. Sra. Baronesa de Itassu". Enorme cauda de veludo! jóias deslumbrantes! luvas até o ombro!

E só se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na melhor sociedade; ou então, lá uma vez por outra para quebrar o seu tédio de mulher célebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos pés, mostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse de mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado num programa de espetáculo, esse nome que os parisienses decoraram, seria o bastante para encabrestar a população da corte e traze-la de rastros aos degraus de seu trono.

E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquetá!

— Mas, santo Deus! estaria nas suas mãos por ventura sumir-se por uma vez, desaparecer, fugir?!... Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento em vida!

Do que havia experimentado até ali, do que havia sentido, do que sofrera, do que gozara — nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer coisa! No seu coração ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!

— Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as mãos à cabeça. — Valha-me Jesus Cristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda não é desta vez que sossego!

— E para que sossegar?! interrompeu Filomena. — Que significa o repouso? Pensarás que eu hoje seria capaz de resignar-me à morbidez estúpida de uma existência sem idéias nem aspirações? Pensarás que eu consentirei em abandonarmos a vida pública, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas conquistado um nome digno de mim e digno de teu mérito?! ...

— Hein?! Como é lá isto?!... exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas fazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um "grande homem"?!

— Certamente! certamente! Ao contrário não valeria a pena gastarmos tanto tempo e tanto esforço em preparar o teu espírito!

— Ora essa! De sorte que até agora... eu nada mais fiz que preparar-me? ...

— Para conquistar uma posição eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperança que te dediquei a minha vida e o meu amor...

— Mas filoquinha de minhalma! eu não disponho de aptidões para isso! ... Bem vês que até hoje tenho feito por ti tudo que está nas minhas mãos... como, porém, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa dose de talento?! ...

— Isso é o que pensas, e a modéstia com que te julgas é mais uma prova de tua competência! O verdadeiro mérito é sempre assim!

— Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como não tenho o menor talento! Acredita que é esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que não serei jamais um "grande homem"!

— Se sentisses o contrário, é que nunca o poderias ser!

— Ora, que desgraça a minha! ... considerou o Borges de si para si. — Ora, que eu não consiga entrar um momento nos meus eixos, sem ter de contrariar minha mulher! De que havia agora de se lembrar — querer que eu seja um "grande homem". Eu, que não sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade, o escândalo, o ruído! eu, que já me impacientava de a ver tão conhecida, e suspirava todos os dias por sair desta inferneira!

— Não! disse ele em voz alta. Não! Tem paciência! Isso é impossível! Pede o que quiseres, mas não exijas de mim uma coisa de que eu não disponho!

— Entretanto, assim é preciso, respondeu Filomena, a não ser que estejas resolvido a destruir num segundo a única esperança que me resta! ...

— Mas a questão é que a gente não é "grande homem" quando quer!... Ora essa! replicou o Borges.

— E muito menos quando não quer! volveu a outra. — Não exijo de ti mais do que um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!

— De boa vontade?!

— Sim, de resolução. Contento-me com isso!

— Mas se tenho toda a certeza de que esse esforço será baldado! ... Eu bem me conheço, minha mulher!

— Seja ou não seja baldado, ele é necessário para a minha felicidade e para a segurança do amor que te dedico! Agora, se entendes que não vale a pena...

— Eu não disse semelhante coisa!... Valha-me Deus! Teu amor está acima de tudo, e creio já ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza: eu, isto aqui entre nós, eu nem sei em que consiste o tal esforço de que me falas; não sei os passos que é preciso dar; não sei como a gente se faz célebre ou o que melhor queres que eu seja!

— Não é tão difícil como te parece à primeira vista. — Se o Brasil estivesse em guerra, sentarias praça em quanto antes e dentro em pouco tempo poderias alcançar um posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!

— Deus me livre!

— Mas, continuou Filomena — desgraçadamente estamos numa paz absoluta, e, por conseguinte, só nos resta a política.

— A política?...

— Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!

— Uma causa?!

— Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não obterás o que não quiseres. Entendes tu?

Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:

— É difícil!

— Qual difícil o que! retrucou a mulher. — Difícil era conquistar o meu coração e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho: conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! faze-te célebre! coloca-te ao meu lado! sobe à minha altura! acompanha-me no vôo!

— Veremos, veremos..., prometeu o marido vagamente. Hei de fazer a diligência!

Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender; o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos; isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava disposto a empregar a diligência. — Já agora, seria o que Deus quisesse!

E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.