Filomena Borges/XXII

Wikisource, a biblioteca livre
< Filomena Borges
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XXII: Dissolvem-se as últimas ilusões


Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandescente de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.

Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! — por uma semana, por um dia ao menos!

— Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante — teu marido já não pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto, estou seco, sem uma pitada de miolo! — mais uma semana — estouro! levo o diabo!

— Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe nos braços. — Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te, meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardemente o posto de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa! Não queiras ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!

— É o diabo! ... respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão é que eu já não sei a quantas ando! Já não tenho cara para mostrar a todos esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que nunca esperei! — É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade; não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que me puseram nas costas, e fugir, fugir contigo para um canto obscuro, onde não haja preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono! ...

— Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo, sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu! Hás de ser grande; e poderoso!

Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que lhe era dado realizar tudo isso — a proteção do padrinho. Não desconfiava ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa, que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua impotência, teve ímpetos de estrangular-se.

Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o seu contrato de fidelidade conjugal.

— Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. — As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!

O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente em um canto obscuro e feliz.

— Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto antes, porque, para falar com franqueza, desconfio que as coisas não vão boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece? ...

Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava "disposta a lutar até o último momento".

Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio tolher-lhe as asas logo no coração do vôo, e decidir a derrota de Filomena: — declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação de 5 de janeiro de 78.

O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de políticos que dormiam à sombra dele.

Foi um charivari furioso.

O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder. Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram; mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram... Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.

E tudo veio à superfície d’água; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros, a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.

O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto, perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares; labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem o lugar de entrada, nem o lugar da saída. O imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta; o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.

Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão, crivado de pilhérias, de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por todas as bocas da publicidade.

— Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.

— Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência, mas em coisas que cheirem a política nunca mais meterei o bedelho! Nada! Hei de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!

Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome, porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.

Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos despenteados e soltos ao ombro.

— Então, hein?! ... Que me dizes tu à brincadeira?.., exclamou ele, indo ter com a mulher.

— Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política! respondeu Filomena erguendo-se muito triste.

E a partir daí deixou-se tomar de uma grande melancolia.

Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois febre, acompanhada de delírios.

Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.

Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão, de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo de enfermeiro à esposa.

Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.

Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão, e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que eram igualmente a sua alegria e a sua força.

Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, tão abatida, que não parecia a mesma.

Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a de beijos.

A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.

— Como te sentes?... perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?

Filomena respondeu que sim com a cabeça.

— Isso nada vale! Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar. Agora mesmo venho de estar com ele; amanhã tratarei da viagem.

E, chegando-se mais para a esposa, principiou com muita ternura a dizer os seus projetos:

— Seguiriam juntos e mais o Urso para um ar que escolhessem no campo. — Paquetá, por exemplo, "Paquetá, que ele não via há quanto tempo, e da qual sentia tamanhas saudades!..."

— Ah! que bom! uma existência calma e desocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre muito limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiro, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota da Brocoió! ...

— Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal..., dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, endireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!

E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:

— Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá! ... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar! ... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!

— Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.

Filomena ouvia-o em silêncio, o olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.

— Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. — Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!

— Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.