Fragmento de Algeu

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FRAGMENTO DE ALGEU, POETA GREGO


TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA DE Mr. PARNY




I


   Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,
Que os benéficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d′incenso3?
Crédula, branda amiga, é falso, é falso:
Longe a cega illusão. Se ambos sumidos
Em solitário bosque, e misturando
Doces requebros c′os murmúrios doces
Dos transparentes, gárrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que oíTensa
Nosso innoeente amor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te commigo
Sobre viçoso thalamo de flores,

Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de ineffaveis gostos
Morressemos, meu bem, d’uma só morte;
E se Amor outra vez nos désse a vida
Para expirar de novo: em que peccára,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolphado,
Submerso em perennal tranquillidade
Com as acções humanas não se emb’raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortaes, n’um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.


II


Eia! Deixemos á vaidade insana
Correndo-se da rapida existencia
Sem susto para si crear segunda:
Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,

Pela immortalidade os olhos ledos;
E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.
Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praia
Onde a morte nos lança, e nos arroja,
Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,
Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.
Em quanto dura a vida ah! sejam, sejam
Nossos os prazeres, os Elysios nossos.
Os outros não são mais que um sonho alegre,
Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,
Para curvar ao jugo os brutos povos:
E o que a superstição nomêa averno,
E á multidão fanatica horrorisa;
As furias, os dragões, e as chammas fazem
Mais medo aos vivos, do que mal aos mortos.