Galeria dos Brasileiros Ilustres/José Inácio Silveira da Mota

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
José Inácio Silveira da Mota


O conselheiro José Inácio Silveira da Mota, nasceu a 15 de fevereiro de 1811 na capital da província de Goiás, sendo aí ouvidor da comarca seu falecido pai o conselheiro Joaquim Inácio Silveira da Mota.

Em agosto de 1823 foi enviado por seus pais para Lisboa onde fez seus estudos clássicos, que havia começado na Bahia: destinava-o seu pai a estudar na Universidade de Coimbra o curso de Direito. Para essa Universidade foi ele mandado em 1828, mas as dissensões políticas dessa época naquele reino interromperam os trabalhos da Universidade. Nessas dissensões tomaram parte muitos brasileiros; o Sr. Silveira da Mota compreendeu que, brasileiro, devia abster-se de toda a intervenção pessoal, quaisquer que fossem as suas idéias e simpatias. Voltando para Lisboa, soube que se tinham criado os cursos jurídicos de São Paulo e Olinda; embarcou pois imediatamente para o Rio de Janeiro, e daqui seguiu para São Paulo a tempo de poder marticular-se no ano de 1829. Concluiu os seus estudos escolares em novembro de 1833, tomando o grau de bacharel.

Nesse mesmo ano apresentou teses para o grau de doutor, e o obteve; e estando vagas duas cadeiras de substitutos do curso jurídico, concorreu para uma dessas cadeiras, com outros quatro candidatos, e obteve não só a aprovação, como também as mais honrosas votações relativas, de onde resultou ser nomeado substituto para uma das cadeiras vagas pela regência permanente.

Muito se deve gloriar o Sr. Silveira da Mota do brilhante começo de sua carreira literária e pública. Tendo perdido seu pai na idade de 21 anos, quando ainda era estudante do 4º ano, não tendo herdado senão o nome e a honradez do velho magistrado, ficou arrimo de numerosa família e destituído de todos os bens da fortuna. Mas conseguiu vencer o apuro dessas circunstâncias; os seus já então reconhecidos talentos, as suas ótimas qualidades lhe granjearam amigos entre as notabilidades da província em que residia; entre estas ufanar-se-á de contar os Paula Sousas, os Costas Carvalhos, os Fei-jós, e os Vicentes Pires da Mota.

Os seus primeiros títulos de glória literária foram exibidos na cadeira de Direito Criminal, que regeu por 4 anos; dela passou para a teoria de processo, ultimamente para a de Direito Administrativo, que lecionou por poucos dias.

O júri lhe abriu campo para o talento de orador que depois demonstrou na tribuna das câmaras legislativas. No júri de São Paulo ficou memória de algumas de suas defesas, distinguindo-se especialmente as que era obrigado a improvisar por ser na ocasião mesma do julgamento convidado pelos juízes de direito para defender réus desvalidos. Entre esses improvisos citaremos o discurso em defesa de um réu escravo condenado à morte — o discurso em defesa do tenente-coronel Lacerda, acusado como autor da rebelião de 1842, da qual o Sr. Silveira da Mota fora, aliás, franco adversário.

A essas lidas do professorado e da advocacia ficou entregue desde 1834 até 1842, estranho ao movimento político da província, fortificando e enriquecendo o seu espírito pelo estudo e pela reflexão.

Em 1842, sendo deputado provincial, tomou a parte mais importante nas discussões tempestuosas dessa assembléia, sendo o único orador que se opunha aos homens notáveis que então nela tinham assento, e tomavam parte nos debates, Paula Sousa, Vergueiro, Antônio Carlos, Martim Francisco, Álvares Machado, Rodrigues dos Santos, etc.

Em 1842, porém, os debates não deviam circunscrever-se às as-sembléias políticas: os adversários do governo conspiraram à subversão da ordem pública, e fizeram aparecer o movimento revolucionário.

Homem de ação tanto como homem de estudo e de gabinete, o Sr. Silveira da Mota, ao lado do general hoje marquês de Caxias, prestou à pacificação da província serviços importantes; se porém o guiava o entusiasmo, não o cegava o fanatismo, e os próprios adversários políticos acharam nele, quando vencidos, um protetor desvelado.

Em 1849 a província de São Paulo o mandou à Câmara dos Deputados, e reelegeu-o em 1853. Em posição mais elevada, melhor pôde então o Dr. Silveira da Mota mostrar todo o seu merecimento. Fiel à idéia política que sempre abraçara, e que nunca desmentiu, o digno brasileiro fez-se especialmente notável nas grandes questões sociais que se prendem ao cativeiro. Depois de importantes interpelações dirigidas ao ministro de Estrangeiros acerca das violências que estavam sendo praticadas pelo cruzeiro inglês nos nossos portos e litorais, e que mostrou a justa indignação do patriotismo, apresentou ele, expôs e defendeu um projeto tendente a excluir lentamente das cidades e concentrar no campo a população escrava, pelos meios indiretos de um imposto progressivo.

Apresentado em 1853 pela província do seu nascimento em lista tríplice para senador, foi por carta imperial de abril desse ano escolhido, e o senador continuou a obra do deputado.

Em oposição às medidas financeiras do Ministério Sousa Franco, fez importantes discursos sobre os saques com que o ministro, querendo acudir a perigos fantásticos, expôs seriamente o crédito do país. Não acompanharemos a vida parlamentar do nobre goiano, apenas mencionaremos os dois belos e progressivos projetos de um liberalismo prático que ele apresentou este ano, já proibindo os leilões e praças de escravos, já concedendo aos escravos o direito da família, e vedando a venda de filhos separados de seus pais e de suas mães.

O Sr. conselheiro Silveira da Mota é advogado do foro fluminense, e nele goza da consideração devida a um belo talento unido a um belo caráter.