Galeria dos Brasileiros Ilustres/Rafael Tobias de Aguiar

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Rafael Tobias de Aguiar


Entre os grandes vultos da história política da província de S. Paulo, se destaca o vulto grandioso do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. A tenacidade e a constância desses homens que, vencendo montanhas e atravessando rios caudalosos, foram levar até o Peru a fama do nome paulista, parece haver-se consubstanciado no caráter e nas ações do distinto paulista, cuja vida vamos esboçar em largos traços.

Soldado constante de uma idéia, defensor inabalável da causa liberal, ante todos os vaivéns, e a instabilidade da sua longa carreira, aquela alma espartana nunca recuou ante os golpes da fortuna, e mais de uma vez, como o velho romano, preferiu a causa dos vencidos à causa dos vencedores.

Rafael Tobias de Aguiar nasceu na cidade de Sorocaba, na província de S. Paulo, aos 4 de outubro do ano de 1795. Fruto abençoado de legítima união entre o coronel Antônio Francisco de Aguiar e D. Gertrudes Eufrosina de Aguiar, viu escoar-se a infância e despontar-se a mocidade entre as tradições de um passado feliz; pois que sua família era uma das mais gradas e ricas do país; visto que seu pai um dos mais abastados fazendeiros da província. O pai de Tobias de Aguiar não pertencia ao número dessas almas ignaras e orgulhosas que acreditam que o ouro é o rei do universo, e dispensa a virtude. Dele recebeu o seu filho as mais sãs lições de moral; deveu-lhe a mais cuidadosa educação intelectual, aquela que pelo menos comportavam as dificuldades do regime pouco adestrado à que sujeitava o Brasil à metrópole portuguesa.

Tobias de Aguiar estudou todas as humanidades e teve a ventura de estudar algumas delas com o seu parente e amigo o ilustre Mar-tim Francisco Ribeiro de Andrada. Por morte de seu pai, foi investido da direção da avultada fortuna de sua casa, e conduziu-se com tanta prudência, que não só a fez prosperar como apresentar avultados lucros.

Começou ele a sua vida política servindo no regimento de milícias, da cidade de Sorocaba, seguindo gradualmente os postos até o de coronel comandante do mesmo, sendo incansável em promover a sua disciplina e brilhantismo, para consecução do que não poupou despesas e sacrífi-cios.

Tinha ele apenas 26 anos e já o sacro fogo do patriotismo lhe ardia intenso no peito magnânimo. Foi nessa idade que iniciou e armou, a expensas suas, cento e tantos homens, para enviá-los ao Rio de Janeiro a debelar as tropas de Avilez que pretendiam entorpecer os pródromos de nossa independência política. Quando o Augusto Fundador do Império, desafiando mil perigos, tomou a resolução de ficar no Brasil, e de arrostar as iras de nossos antigos dominadores, Rafael Tobias de Aguiar, com aquela fé no futuro do país que sempre tiveram os paulistas dos tempos gloriosos, empenhou todas as suas forças em auxiliar o nosso libertador na sublime tarefa que encetara.

Não só concorreu com avultados donativos para esse fim, como promoveu uma subscrição entre os seus patrícios da cidade de Sorocaba, e a pedido do governo aditou a quantia de doze contos de réis para esse fim. Sempre que se tratava de auxiliar com sua fortuna e com os seus esforços a prosperidade do Império, Rafael Tobias de Aguiar era o primeiro a entrar no páreo e alcançar a meta desejada. É assim que sem exigir juro algum ao estrear seus trabalhos na fábrica de ferro de São João de Ipanema, ele emprestou avultada quantia para esse fim, e fê-lo em ocasião em que o governo da província não tinha nem sequer o preciso para pagar os vencimentos dos empregados públicos, e só depois de longos anos de espera é que foi embolsado da quantia adiantada.

Quando o povo sorocabano, refratário aos melhoramentos materiais de sua localidade, opondo-se com todas as forças à abertura de novas ruas, ameaçava o governo da província com uma sedição, Tobias de Aguiar, com suas imensas relações, com sua vontade enérgica e suas palavras persuasivas, conseguiu chamar os espíritos a sentimentos mais ordeiros, manter a paz e prestígio da autoridade.

Tobias de Aguiar era um dos homens mais populares da província de São Paulo, e as simpatias profundas que por ele nutria o povo paulista o habilitaram, como membro do conselho do governo e dos conselhos gerais, a prestar relevantes serviços à província que o vira nascer.

Chegada a época que decorreu de 1831 a 1834, foi-lhe confiado o importante cargo de presidente da província de São Paulo, e apesar dos exaltamentos de uma revolução que havia triunfado e da relutância dos vencidos, soube conservar a ordem sem que uma gota de sangue fosse derramada. Tobias de Aguiar teve a honra de ser por muitas vezes eleito deputado à assembléia geral legislativa e assembléia provincial de São Paulo, tendo presidido por duas vezes a esta distinta corporação.

Quando a alta inteligência que preside os destinos do Império assumiu as rédeas do poder, houve por bem nomear R. T. de Aguiar presidente da província de São Paulo; e o distinto paulista soube corresponder satisfatoriamente a esta prova de confiança da Coroa.

A estrada da Maioridade, progresso notável no sistema de viação, é um padrão de glória dessa presidência. Sempre generoso, sempre solícito pelos interesses da província de São Paulo, Tobias de Aguiar recusou sempre receber seu ordenado de presidente, e o fez aplicar em obras públicas, e em prol dos institutos de instrução que a província estabeleceu para as classes necessitadas. A Deus não praza que, levantando o véu do esquecimento que a vontade soberana lançou sobre os acontecimentos de 1842, venhamos dar a lume recriminações sobre os tempos que já foram, e despertar as angústias de um passado ainda tão próximo; outro é o nosso fim. Sem examinar as causas que acarretaram os movimentos armados que se deram no ano de 1842 nas províncias de São Paulo e Minas, seja-nos lícito restituir aos atos do distinto paulista, cuja vida esboçamos, sua verdade histórica.

Suspeito de favorecer o movimento revolucionário que o governo então receava, Tobias de Aguiar, avisado por um amigo devotado de que ia ser preso, retirou-se da capital com direção às suas fazendas até que serenassem tais suspeitas e que se lhe fizesse justiça.

Chegado a Sorocaba, amigos sinceros, porém ardentes, o haviam imprudentemente comprometido, e disseram-lhe que só com um movimento geral podiam ser salvos. O nosso amigo compreendeu perfeitamente que um movimento realizado por massas populares, quase desarmadas e sem disciplina, seria infalivelmente debelado pelas forças do governo; mas, para salvar seus amigos, arriscou sua vida e sua fortuna. Foi um erro talvez, mas um desses erros que só praticam os corações magnânimos, e que só podem compreender as almas nobres.

A província de São Paulo, que bem conhecia o distinto caráter e virtudes cívicas que adornavam o brigadeiro R. T. de Aguiar, mais de uma vez o incluiu em listas senatoriais. O governo do Brasil, reconhecendo seus serviços, entre outras condecorações o distinguiu com a comenda de Cristo e com a dignitária da Rosa, e lhe concedeu o posto de brigadeiro do nosso exército.

A avultada riqueza de R. Tobias não era por ele aferrolhada em férreos cofres. Na sua primeira presidência emprestou ele à fazenda pública a quantia de 30:000$000; e na segunda presidência a de 20:000$000,00, sem exigir juro algum. Os cofres da província, que na época de 1840 lhe tinham sido entregues esgotados a ponto de ser preciso que ele emprestasse dinheiro para se pagar empregados públicos, foram por ele entregues ao seu sucessor com avultado saldo.

Nunca a miséria bateu à porta de R. T. de Aguiar, que o pranto da angústia que derramava não se lhe tornasse em lágrima de pura alegria. Não esperava ele que seus amigos lhe pedissem aquilo que desejavam; fazia mais, advinhava-lhes o desejo.

Quando seu velho mestre, o respeitável André da Silva, viu-se exposto a perder o teto que o abrigava, T. de Aguiar, sem ostentação que torna pesada a esmola àquele que a recebe, comprou a casa em que ele residia, deu-lhe o usufruto da mesma, e depois dele à sua enteada.

Como político, o homem cuja vida esboçamos era uma dessas almas cunhadas no molde esparciata, um desses homens de antes quebrar que torcer, de que nos fala Sá de Miranda. O estandarte de suas crenças hasteara ele nos arraiais do partido liberal, e novo Leônidas morreria antes nessas novas Termópilas, do que renunciaria as crenças sinceras de seu coração, a causa nobre e santa que havia esposado apenas lhe despontara a bela inteligência. Além de suas crenças inabaláveis, tinha ele uma qualidade bem rara no tempo do sórdido egoísmo em que vivemos — era — o sincero interesse, a mais íntima devotação pelos seus amigos. Um só fato é mais eloqüente que todas as palavras. Poucas horas antes de morrer no meio das mais acerbas torturas, ele ainda escrevia em prol da eleição de um de seus mais íntimos amigos, e dirigiu ao mesmo palavras que revelavam que nele a amizade sobrepujava à dor.

Rafael Tobias de Aguiar, o chefe mais popular do partido liberal paulista, faleceu em viagem da cidade de Santos para a capital do Império, a bordo do vapor Piratininga, no dia 7 de outubro de 1857, vítima de uma moléstia acerba. A província de São Paulo inteira pranteou a morte de um de seus mais distintos filhos. Rafael Tobias de Aguiar era homem, teve, como outro qualquer, erros em sua vida, mas os fatos dela nos apontam uma soma tal de atos virtuosos e de serviços prestados ao estado, que o historiador imparcial pode contá-los sem receio entre os vultos mais notáveis da história pátria.