História da Mitologia/XXXII

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História da Mitologia
por Thomas Bulfinch
XXXII - As regiões infernais


As regiões infernais[editar]

O barqueiro Caronte
ilustração de Alexander Litovchenko (1835–1890)

No início da nossa série nós fizemos um relato pagão sobre a criação do mundo, portanto, a medida que nos aproximamos dos momentos finais, daremos um panorama sobre a região dos mortos, ilustrada por um de seus mais iluminados poetas, cujos conceitos foram extraídos dos filósofos mais renomados. A região onde Virgílio, localizou a entrada dessa morada talvez seja a mais impressionante adaptação para excitar os conceitos do fantástico e do sobrenatural de qualquer coisa existente na face da terra. Trata-se da região vulcânica perto do Vesúvio, onde toda a região encontra-se fendida por abismos, de onde se levantam chamas sulfurosas, enquanto o solo é sacudido por vapores irreprimíveis e sons misteriosos emanam das entranhas da terra.

O lago de Averno dizem ter preenchido a cratera de um extinto vulcão. Sua forma é circular, meia milha de largura[1], e é muito profundo, rodeado por margens altíssimas, e que na época de Virgílio era coberto por uma sombria floresta. Vapores mefíticos se elevam de suas águas, de modo que não existe vida no seio do lago, e nenhum pássaro costuma sobrevoá-lo. Nesse lugar, segundo o poeta, ficava a caverna que dava acesso às regiões infernais, e aí Eneias oferecia sacrifícios para as divindades infernais: Proserpina, Hécate e as Erínias. Então, um bramido foi ouvido na Terra, as árvores nos picos das montanhas estremeceram, e o ladrar dos cães anunciavam a chegada das divindades. "Vamos," disse a Sibila, "tenham força e coragem, pois vocês vão precisar disso agora."

Ela desceu até a caverna, seguida por Eneias. Diante do limiar do inferno eles atravessaram um grupo de seres que eram denominados como os Pesares e os causadores das Vinganças, a palidez dos Males e a melancolia da Velhice, o Medo e a Fome que levam ao crime, o Trabalho, a Pobreza e a Morte, -- uma paisagem com formas assustadoras. As Erínias ali espalhavam seus divãs, e a Discórdia, cuja cabeça era forrada de víboras, amarradas por filestes de sangue. Aí também ficavam os monstros, Briareus, com centenas de braços, Hidra que assobiava, e Quimera que lançava fogo pelas narinas. Eneias estremeceu com o que viu, sacou da sua espada e teria golpeado, mas a Sibilia o deteve.

Chegaram, então, ao rio negro chamado Cócito, onde encontraram o barqueiro, Caronte, velho e esquálido, porém, forte e vigoroso, que dava as boas vindas a passageiros de todas as espécies em seu barco, heróis magnânimos, jovens e donzelas, tão numerosos como as folhas que caem durante o outono, ou os rebanhos que correm para o sul com a aproximação do inverno. Eles se amontoavam, pressionando a passagem, desejando tocar a margem oposta. Mas o austero barqueiro levava somente aqueles a quem ele escolhia, e empurrava o resto para trás. Eneias, maravilhado com o que via, perguntou à Sibila, "Porquê tanta discriminação?"

Ela respondeu, "Aqueles que são levados a bordo do barco são as almas das pessoas que receberam os devidos ritos funerais, o grupo dos demais que ficaram insepultos não tem permissão para atravessar o dilúvio, mas ficarão perambulando durante cem anos, e andando para lá e para cá em torno do litoral, até que finalmente sejam levados." Eneias se desesperou ao se lembrar de seus próprios companheiros que haviam perecido durante a tempestade. No momento em que ele viu Palinuro, seu piloto, que caiu do barco e morreu afogado, dirigiu-se a ele e lhe perguntou a causa de tanto sofrimento. Palinuro respondeu que o leme havia sido levado embora, e que ele, agarrando-se ao timão, foi arrastado junto.

Dafne, a Sibila délfica
afresco de Michelangelo (1475–1564)
na Capela Sistina.

Ele implorou a Eneias que lhe estendesse a mão o mais depressa possível, para que o levasse em sua companhia até a margem oposta. Mas Sibilia o repreendeu pelo desejo de transgredir desse modo as leis de Plutão, porém, o consolou, informando-o de que as pessoas da outra margem, onde o seu corpo ficara flutuando sobre as ondas, seriam acionadas por meio de premonições para lhe oferecerem um sepultado condigno, e que o promontório receberia o nome de Cabo Palinuro, nome esse que permanece até os dias de hoje. Despedindo-se de Palinuro com estas palavras consoladoras, eles se aproximaram do barco. Caronte, fixando os olhos com firmeza sobre o guerreiro que avançava, perguntou com que direito, Eneias, vivo e armado, se aproximou daquela costa.

Ao que Sibilia respondeu que eles não cometeriam violência, e que o único objetivo de Eneias era ver o seu pai, e finalmente, mostrar-lhe o galho de ouro, cuja visão relaxou a ira de Caronte, apressando-se ele a voltar seu barco até a outra margem, e aceitá-los a bordo. O barco, adaptado apenas ao transporte leve de espíritos destituídos de corpos, rangeu sob o peso do herói. Em pouco tempo foram transportados para a margem oposta. Lá, eles encontraram Cérbero, o cão de três cabeças, com seus pescoços eriçados por causa das cobras. Ele latia com suas três gargantas até que Sibila lançou para ele um bolo medicamentoso, que ele devorou com sofreguidão, em seguida, estendeu-se em seu covil e adormeceu. Eneias e a Sibila saíram do barco e rumaram em direção à terra.

O primeiro som que chegou aos seus ouvidos foi o choro de algumas crianças, que haviam morrido no limiar da vida, e perto delas, ficavam aqueles que haviam sido mortos sob falsas acusações. Minos atuava como juiz, e examinava os atos de cada um deles. O próximo grupo era constituído por pessoas que tinham morrido usando a própria mão, odiando a vida e que procuraram refúgio na morte. Oh, como eles, com alegria, suportariam a pobreza, o trabalho, ou qualquer outro tipo de aflição, se eles pudessem retornar à vida! Em seguida, visitaram os territórios do infortúnio, divididos por caminhos afastados, que atravessavam alguns bosques de murta.

Ali vagavam aqueles que tinham sido vítimas do amor não correspondido, e que não haviam sido libertados da dor nem mesmo com a própria morte. Entres eles, Eneias pensou ter divisado a forma humana de Dido, com o ferimento ainda recente. Sob a luz fraca, ele ficou indeciso durante alguns momentos, mas ao se aproximar, percebeu que realmente era ela mesma. Lágrimas caíam de seus olhos, e ele se dirigiu a ela com gestos amorosos. "Pobre Dido! era então verdade os rumores de que você havia morrido? e fui eu, oh meu Deus! o causador? Invoco os deuses para testemunharem que a minha partida foi relutante, tive de obedecer às ordens de Jove, e nem poderia acreditar que a minha ausência lhe custaria um preço tão alto. Pára, te suplico, e não me recuses um último adeus."

Ela ficou por alguns momentos com o rosto baixado, e os olhos fixos no chão, e então caminhou silenciosamente, tão insensível às suas súplicas quanto uma rocha. Eneias a seguiu até uma certa distância, e depois, com o coração partido, tornou-se a se juntar ao seu companheiro, retomando a sua rota.

Em seguida, adentraram os campos onde vagueiam os heróis que pereceram em batalha. Ali avistaram muitas sombras de guerreiros gregos e troianos. Os troianos se acercaram em torno dele, e não podiam estar satisfeitos com o que viam. Estes lhe perguntaram porque ele tinha vindo até ali, e o encheram com inúmeras perguntas. Mas os gregos, ao avistarem a sua armadura reluzente através da atmosfera escura, reconheceram o herói, e assustados de terror viraram as costas e fugiram, como costumavam fazer nas planícies de Troia.

Eneias teria se demorado muito com seus amigos de Troia, mas a Sibila pediu para que ele se apressasse. Em seguida, chegaram a um lugar onde a estrada se dividia, uma delas levava até os Campos Elísios, a outra para a região dos condenados. Eneias contemplou de um lado as muralhas de uma poderosa cidade, e ao redor dela Flegetonte rolava suas águas ardentes. Diante dele ficava o portão diamante que nem os deuses nem os homens conseguem atravessar. Uma torre de ferro ficava ao lado do portão, onde Tisífone, a Fúria da vingança, fazia a vigilância. Da cidade ouviam-se gemidos, e o som do flagelo, o ranger de ferros, e o tilintar das correntes. Eneias, tomado de horror, indagou a seu guia que crimes eram aqueles, cujas punições produziam os sons que ele ouvia?

A Sibila respondeu, "Aqui é o tribunal onde Radamanto, revela a todos os crimes cometidos em vida, mesmo aqueles que o assassino acreditou ter sido perpretado na clandestinidade. Tisífone aplica neles o chicote de escorpiões, e em seguida, encaminha o infrator até as Fúrias, suas irmãs." Nesse instante, com ruídos estridentes, os portões de bronze são abertos, e Eneias vê lá dentro uma Hidra com cinquenta cabeças guardando a entrada. A Sibila disse a ele que o golfo dos Tártaros descia até as profundezas, de maneira que os seus abismos ficavam bem abaixo de seus pés, assim como o céu lá em cima estava acima de suas cabeças.

No fundo desse poço, a raça dos Titãs, que haviam guerreado contra os deuses, jazia derrotada, e Salmoneu, também, que pensava poder rivalizar com Júpiter, construiu uma ponte de bronze, sobre a qual ele avançou com sua carruagem, fazendo ruídos que pareciam os de trovão, e lançava jatos de chamas que imitavam raios sobre seu povo, até que Júpiter desferiu sobre ele um raio de verdade, ensinando-lhe, dessa maneira, a diferença entre as armas dos mortais e as dos deuses. Ali, também, ficava o gigante Tício, cuja figura era tão assustadora, que quando deitado o seu corpo se estendia por nove hectares, enquanto um abutre se alimentava do seu fígado, o qual se regenera a medida que é devorado, para que a punição jamais termine.

A Sibila de Cumas
ilustração de Michelangelo (1475–1564)

Eneias viu grupos sentados ao redor de mesas repletas com acepipes, enquanto por perto estava uma Fúria que rapidamente lhes roubava os alimentos de seus lábios com a mesma velocidade com que se preparavam para saboreá-los. Outros contemplavam imensas rochas sobre suas cabeças, que ameaçavam cair, mantendo-as em estado de vigília constante. Estas eram criaturas que tinham odiado seus irmãos, ou matado seus pais, ou ludibriado amigos que neles confiavam, ou que, tendo ficado ricos, guardavam o dinheiro apenas para uso próprio, sem compartilhar com os outros, sendo que estes últimos eram a classe mais numerosa. Aqui, ficavam também aqueles que haviam violado o voto do matrimônio, ou batalhado por uma causa injusta, ou que deixaram de ser fiéis aos compromissos com seus empregadores. Ali estava um que tinha vendido seu país em troca de ouro, outro que pervertera as leis, fazendo com que agissem de uma maneira num dia e fizessem outra coisa no dia seguinte.

Íxion estava lá, amarrado à circunferência de uma roda que girava incessantemente, e Sísifo, cuja tarefa era rolar uma pedra enorme até o alto de uma montanha, mas quando a declividade estava quase vencida, a pedra, impelida por alguma força súbita, ele rolava de cabeça de volta até as planícies. Novamente, ele voltava a rolar, enquanto o suor lhe banhava todos os membros exaustos, porém, nada disso adiantava. Lá também estava Tântalo, mergulhado em uma piscina, com o queixo ao nível da superfície da água, todavia, sua boca estava seca de tanta sede, não encontrando meios de amenizar a situação, pois quando ele inclinava sua cabeça grisalha, ávido para beber, a água desaparecia, deixando o solo seco aos seus pés. Árvores majestosas carregadas de frutas pendiam seus topos em cima dele, peras, romãs, maçãs, e figos deliciosos, mas quando ele rapidamente tentava pegá-las, ventos furiosos rodopiavam as frutas para fora do seu alcance.

A Sibila então falou para Eneias que já era tempo de se retirarem dessas regiões melancólicas para visitarem a cidade dos bem-aventurados. Eles então atravessaram uma região medianamente sombria, chegando até os Campos Elísios, que eram bosques onde os felizes residem. Respiravam um ar mais puro, e perceberam que todos os objetos eram revestidos de uma luz púrpura. A região possuía sois e estrelas próprias. Os habitantes se entretinham de diversas maneiras, alguns se recreavam sobre a relva esverdeada, em jogos de força ou de habilidade, outros dançavam ou cantavam. Orfeu brandia as cordas da sua lira, arrancando sons arrebatadores.

Ali, Eneias viu os fundadores do estado troiano, heróis magnânimos que viviam tempos mais felizes. Olhou extasiado as carruagens de guerra e as armas reluzentes que agora descansavam por falta de uso. As lanças estavam fixadas no solo, e os cavalos, desatrelados, vagavam pelas planícies. O mesmo orgulho das armaduras esplêndidas e dos corcéis generosos que os heróis sentiam em vida, o acompanhou até aqui. Ele viu um outro grupo que festejava e ouvia os acordes de uma música. Estavam eles num bosque de louros, onde o imenso Rio Pó tem suas origens, fluindo no reino dos homens.

Aqui moravam aqueles que pereceram com ferimentos recebidos em defesa de seu país, além dos sumo-sacerdotes, e poetas que enunciaram conceitos dignos de Apolo, e outros que contribuiram para saudar e alegrar a vida com suas descobertas em suas habilidades proveitosas, e que tornaram ditosas suas memórias oferecendo serviços à humanidade. Estes usavam fitas ornamentais brancas como a neve em suas frontes. A Sibilia se dirigiu a um destes grupos, e perguntou onde Anquises podia ser encontrado. Puseram-se a procurá-lo, e logo o viram num vale verdejante, onde ele contemplava a escala de seus descendentes, seus destinos e os feitos de coragem que seriam conquistados nos tempos futuros.

Quando ele viu que Eneais estava se aproximando, estendeu as duas mãos para o filho, enquanto que as lágrimas fluíam livremente. "Você veio, afinal," disse ele, "há muito tempo que te espero, e será que te vejo depois de teres vencido tantos perigos? Oh, meu filho, como tenho sofrido por ti, enquanto acompanhei todos os teus sucessos!" Eneias, então, respondeu: "Oh pai! a tua imagem esteve sempre diante de mim a me guiar e a me proteger." Nesse instante, ele tentou envolver seu pai com um abraço, mas seus braços sentiram apenas uma imagem surreal.

Eneias percebeu um espaçoso vale diante dele, com árvores que balançavam suavemente para o vento, uma paisagem tranquila, que era atravessada pelo rio Letes. Ao longo das margens do riacho vagava uma enorme multidão, tão numerosa quanto insetos no verão. Eneias, surpreso, perguntou quem eram eles. Anquises respondeu: "São almas que, no tempo devido, se verão donos de seus corpos. Enquanto isso, habitarão as margens do Letes, e beberão o olvido de suas vidas passadas." "Ó pai!" disse Eneias, "Seria possível que alguém se apaixonasse tanto pela vida a ponto de querer deixar estes recantos aprazíveis em busca do mundo superior?"

Anquises respondeu explicando o plano da criação. "O Criador", disse ao filho, "originalmente fez o material de que as almas são compostas com os quatros elementos: fogo, ar, terra e água. Todos eles, quando unidos, assumem a forma do elemento mais preponderante, o fogo, e se torna chama. Este material se espalhou como semente entre os corpos celestiais, o sol, a lua e as estrelas. Desta semente, os deuses inferiores criaram o homem e todos os outros animais, misturando-os nas várias proporções com a terra, cuja pureza se amalgamou e se reduziu."

"Desse modo, quanto mais terra seja predominante na composição, menos puro é o indivíduo, é por isso que vemos homens e mulheres totalmente adultos sem ter a pureza da infância. Assim, proporcionalmente ao tempo que durar a união entre o corpo e a alma, a parte espiritual contrai a impureza. Esta impureza deve ser eliminada depois da morte, e isso é feito ventilando as almas nas correntes do ventos, ou mergulhando-as dentro da água, ou incinerando as impurezas pelo fogo. Alguns privilegiados, entre os quais Anquises se declara ser um deles, são admitidos imediatamente nos Campos Elísios, e ali permanecem."

"Mas os demais, depois que as impurezas da terra são removidas, são enviados de volta à vida dotados de novos corpos, tendo a lembrança de suas vidas efetivamente apagadas pelas águas do Letes. Alguns, no entanto, são completamente corruptos, a ponto de não lhes ser permitido investirem-se de corpos humanos, e são transformados em animais embrutecidos, leões, tigres, gatos, cães, macacos, etc. Isto é o que os antigos chamam de Metempsicose, ou transmigração das almas, doutrina essa ainda conservada pelos nativos da Índia, cujos escrúpulos impedem que a vida do mais insignificante animal seja destruída, nada sabendo, exceto que possa ser um de seus parentes numa forma modificada."

Anquises, depois de explicar tudo isso, começou a chamar a atenção de Eneias para os indivíduos de sua raça, que ainda deveriam nascer, e passou a falar para ele sobre as façanhas que eles deveriam realizar no mundo. Feito isto, ele voltou ao presente, e falou ao seu filho sobre os acontecimento que ele ainda deveria realizar antes do seu estabelecimento definitivo bem como de seus seguidores na Itália. Guerras seriam travadas, combates seriam desferidos, e uma noiva seria conquistada, e como resultado, o estado de Troia seria fundado, de onde ascenderia o poder romano, para exercer, no tempo devido, a soberania do mundo.

Eneias e a Sibila então, pediram licença a Anquises, e retornaram por meio de um atalho ao mundo superior, que o poeta não chega a explicar.

Campos Elísios[editar]

Goethe entrando nos Campos Elísios
ilustração de Franz Nadorp (1794–1876)

Virgílio, como vimos, coloca os Campos Elísios debaixo da terra, e atribui a ele o papel de residência dos espíritos bem-aventurados. Mas, em Homero, os seus Campos Elísios não fazem parte do reino dos mortos. Ele situa essa região no lado oeste da Terra, próximo ao Oceano, e o descreve como uma terra feliz, onde a neve nunca cai, não faz frio, nem chove, e é sempre ventilada pela brisa deliciosa do Zéfiro. Heróis que aqui são favorecidos atravessam essas regiões sem morrer, e vivem felizes sob o comando de Radamanto. Os Campos Elísios de Hesíodo e Píndaro ficam na ilha dos Bem-aventurados, ou Ilha dos Afortunados, no Oceano Ocidental. É a partir deles que surgiu a lenda das ilhas da felicidade na Atlântida. Esta região privilegiada pode ter sido completa imaginação, mas, possivelmente, pode ter nascido dos relatos de alguns marinheiros arrastados pelas tempestades e que tiveram uma visão da costa da América.

J. R. Lowell (1819-1891), em um de seus poemas mais curtos, reivindica para a época atual alguns dos privilégios desse reino abençoado. E dirigindo-se ao passado, ele diz:

"Qualquer que seja a vida dentro de ti,
Ela vibra ainda nas veias da nossa era.
Aqui, em meio às ondas sombrias de nossas lutas e preocupações
Flutuam as verdejantes Ilhas da Fortuna
Onde todos os teus espíritos e heróis habitam e compartilham
Nossos martírios e labutas.
O presente se move como esperado
Com toda a bravura, excelência e beleza
Que tornaram esplêndidos os tempos passados."

Milton também se refere a mesma fábula em seu "Paraíso Perdido," Livro III, 1. 568:

"Como aqueles famosos jardins hesperianos de antigamente,
Com seus campos e grutas e vales floridos
Ilhas triplamente felizes."

E no Livro II ele personifica os rios do Érebo, de acordo com o significado de seus nomes no idioma grego:

"Estige abominável, com seu dilúvio de ódio mortal,
Pobre Aqueronte com sua tristeza escura e profunda,
Invocando o Cócito com suas lamentações berrantes
Ouvidas no riacho sombrio, o feroz Flegetonte,
Cujas ondas de fogos torrenciais inflamam-se de ódio.
Distante dali jaz um riacho lento e silencioso,
Flui o Letes, o rio do esquecimento
Seus labirintos de água, da qual aquele que a sorver
Esquece imediatamente sua condição e forma anterior
Olvidando tanto a alegria como o pesar, o prazer e a dor."

A Sibila[editar]

Os Campos Elísios
ilustração de Léon Bakst (1866-1924)

Enquanto Eneia e a Sibila faziam o caminho de volta à Terra, ele disse a ela: "Quer seja tu uma deusa ou uma mortal amada dos deuses, para mim tu serás sempre lembrada com reverência. Quando eu chegar ao mundo superior, mandarei que um templo seja levantado em tua honra, e eu mesmo te trarei oferendas." "Não sou uma deusa," disse a Sibila, "Nem necessito de sacrifícios ou de oferendas. Contudo, sou uma mortal, e se tivesse aceitado o amor de Apolo poderia ter sido uma imortal. Ele prometeu o cumprimento do meu desejo, caso concordasse em pertencer a ele. Peguei um punhado de areia, e estendendo-o, disse, "Permita-me que veja tantos aniversários quantos forem os grãos de areia que estão em minhas mãos." Infelizmente me esqueci de pedir juventude eterna. Isto também ele teria me concedido, se eu tivesse aceitado o seu amor, mas ofendido com a minha recusa, ele permitiu que eu envelhecesse. Minha juventude e minha força juvenil há muito tempo se distanciaram. Vivi setecentos anos, e para atender ao número de grãos de areia, terei ainda de vivenciar trezentas primaveras e trezentas colheitas. Meu corpo se encolhe à medida que os anos aumentam, e com o tempo, perderei minha visão, mas a minha voz permanecerá, e as eras futuras respeitarão tudo o que eu disser."

Estas palavras finais da Sibila diziam respeito ao seu poder profético. Em sua caverna. ela estava habituada a inscrever nas folhas colhidas das árvores os nomes e previsões sobre os indivíduos. As folhas com as inscrições eram colocadas em ordem dentro da caverna, e podiam ser consultadas pelos seus devotos. Mas, se por acaso, ao abrir a porta, o vento soprasse com força, e espalhasse as folhas, a Sibila não ajudava a recolocá-las novamente, e o oráculo se perdia irremediavelmente.

A lenda a seguir sobre a Sibila foi relatada numa data posterior. No reinado de um dos Traquínios eis que se apresentou diante do rei uma mulher que lhe ofereceu nove livros para vender. O rei se recusou a comprá-los, com isso, a mulher foi embora, e queimou três dos livros, e ao retornar, ofereceu os livros que restaram pelo mesmo preço que ela havia pedido pelos nove. O rei, novamente, os recusou, mas quando a mulher, depois de queimar mais três livros, retornou e pediu pelos três livros restantes o mesmo preço que ela havia pedido pelos nove, a curiosidade do rei aumentou, e ele comprou os livros.

Descobriu-se que eles continham os destinos do Estado Romano. Eles foram guardados no tempo de Júpiter Capitolino, preservados dentro de uma urna de pedra, e deixados que fossem examinados apenas por oficiais especialmente designados para essa tarefa, os quais, em grandes ocasiões, os consultavam e interpretavam os oráculos para o povo. Havia várias Sibilas, mas a Sibila de Cumas, mencionada por Ovídio e por Virgílio, é a mais celebrada de todos. A história de Ovídio sobre a vida dela que se estendeu até mil anos, pode ter pretendido representar as várias sibilas como sendo apenas as reaparições de uma única individualidade.

Edward Young (1681-1765), em seus "Pensamentos Noturnos," se refere à Sibila. Falando sobre a Sabedoria do Mundo, ele diz:

"Se a sorte futura ela prevê em suas folhas
Como a Sibila, na felicidade fugaz e insubstancial
Desaparece no ar com o primeiro vendaval
Assim como os desígnios do mundo se parecem com as folhas da Sibila
Os dias do homem bom se comparam aos livros da Sibila
Com o preço se elevando a medida que as quantidades diminuem."

Ver também[editar]

O Mito de SísifoHades

Notas e Referências[editar]

  1. Segundo a Wikipedia o lago de Averno tem 2,5 milhas de diâmetro ou seja 4km.