História das Psicoterapias e da Psicanálise/III/II

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Princípios básicos de psicologia no terreno da psicanálise, As atividades básicas do ser humano


1) Apoiado na direção destes princípios básicos e sob o impulso da energia vital e forças psíquicas, o ser humano desenvolve, gradativamente, estas cinco atividades fundamentais, ramificadas em outras muitas secundárias:

Alimentícia, Lúdica, Locomotiva, Laboral, Sexual.

A necessidade vital de alimentação, tanto para a auto-conservação como para o crescimento, cria o reflexo fisiológico (incondicionado primeiro e condicionado depois) da FOME, que se constitui em motivo ou impulso interno para agarrar coisas. Em primeiro lugar o peito, fazendo-o de início com a boca e depois com a mão. Aprende assim a pegar coisas, sentindo o prazer da necessidade satisfeita. O reflexo condicionado derivado cria, pela repetição, o hábito ou a tendência de levar as coisas para a boca e, depois, pega-as para identificá-las e para brincar com elas.

2) Evoluindo a criança, desde que todas as suas necessidades alimentícias lhe são satisfeitas pelos adultos, sem mais esforços que pedir (chorando) e sugar o peito, vai agora dirigindo toda sua atividade e atenção para o brinquedo. Neste período a criança aprende a brincar e brinca com tudo. Já sabe pegar coisas com as mãos e com elas brinca sem cessar. é a época ou fase da atividade lúdica, ginástica útil e necessária que, além da atividade alimentícia absorve por completo todo o seu esforço de criança.

3) Ao mesmo tempo treina para sentar-se, para levantar-se e para andar, fazendo-o como simples brinquedo, levada sempre pela satisfação obtida nos próprios exercícios de descarga da energia excedente, não utilizada no crescimento fisiológico. Inicia assim outra das atividades fundamentais: a atividade locomotiva, tão necessária na vida humana. Primeiro como parte da ginástica lúdica, e depois como parte da atividade laboral.

4) Quando o alimento não lhe é fornecido pelos outros, o homem deve buscá-lo por si mesmo. Isto às vezes torna-se fácil e agradável, como no caso da caça e da pesca, como um alargamento da atividade lúdica. Outras vezes torna-se difícil, aparecendo, então, a atividade laboral, penosa e amplamente diversificada, que, normalmente, lhe acompanhará toda a vida.

Desde cedo, a criança aprende a trabalhar, para ganhar de imediato (em famílias pobres) ou para preparar-se para ganhar futuramente (caso de famílias ricas). Misturando o brinquedo com o trabalho, o prazer com o dever, a criança vai aos poucos substituindo a atividade lúdica pela atividade laboral.

Aquela, porém, continuará bem significativa durante toda a juventude e, sob diversos aspectos (jogos de cartas, distrações artísticas, viagens, recreativas, cinemas, etc.) seguir-lhe-á ao longo da vida adulta.

5) O impulso vital da atividade hormonal, operando significativas mudanças fisiológicas, impele o adolescente ao exercício da atividade sexual. Ela é despertada pelas glândulas genéticas, o que marca o início da puberdade. Bem considerada, a sexualidade não é uma força ou energia libidinosa, nem sequer um "instinto" procriativo, mas sim uma simples atividade que obedece a uma série de motivos biológicos, eletroquímicos e também, a motivos outros de caráter psíquico. O prazer natural ligado ao exercício dessa como das demais atividades, o hábito ou condicionamento adquirido, e o amor a outras pessoas, podem ser alguns desses motivos. A necessidade vital de auto-conservação de si e da espécie, e sobretudo, a necessidade vital de autoproteção futura no estado de velhice, são também outros dos motivos fundamentais da atividade sexual, no ato específico da procriação.

6) Ao lado destas atividades fundamentais outras formas de atividades surgem no homem. O mesmo sentimento de autoproteção e de segurança e de medo, impele-o para a procura de segurança e conforto na construção de abrigos, habitações e de vestidos. As demais atividades incitam-nos à curiosidade e busca das formas mais fáceis de exercê-las. Desta nasce ainda o espírito e atividade de pesquisa e do estudo a caminho das atividades científicas, docente e artística. Por outro lado a mesma necessidade de procurar e assegurar o alimento, vestido e conforto, não só para o presente como também para o futuro, leva os indivíduos às atividades industriais, comerciais, de concorrência, de luta, de conquista, de auto-afirmação ou de fuga, etc. A ambição do poder e a política de mandar e dirigir estão dentro destas atividades também.

De todas estas atividades somente uma é clara e especificamente sexual, a atividade procriadora, a qual, mesmo que básica e fundamental, biologicamente falando, dispõe de uma área mais limitada que as suas congêneres, pois exige do organismo, um tempo de um esforço muito menor. De onde se deduz que toda a intensidade dos problemas sexuais, que no homem, à diferença dos animais, são muitos e muito grandes, recai quase totalmente na área psicológica. Os problemas sexuais, normais ou anormais-patológicos, do homem são antes de mais nada PSICOSEXUAIS.

Veja a tabela do gráfico a seguir.