História das Psicoterapias e da Psicanálise/VI/IV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Natureza, interpretações e elaboração dos sonhos, Interpretações psicanalíticas dos sonhos


1) Nos esquemas anteriores estudamos a natureza dos sonhos e sua linguagem simbólica. Vimos também as diferentes interpretações que deles fizeram alguns estudiosos no passado. Ultimamente, Freud e os psicanalistas deram excepcional importância ao estudo e interpretação dos sonhos, seja para a análise dos comportamentos inconscientes, seja para o conhecimento das causas psíquicas das neuroses.

Já dissemos que Freud afirmara que "a interpretação dos sonhos era a estrada real para o conhecimento do Inconsciente". Chegara a esta conclusão após um exame minucioso de seus próprios sonhos e dos seus pacientes. Foi após ter abandonado a hipnose catártica e seu uso analítico e terapêutico que Freud e seus discípulos junto à técnica da "livre associação de idéias" começaram a servir-se, principalmente, da prática do exame dos sonhos. Tinham descoberto que "os sintomas da enfermidade tinham um verdadeiro sentido causal", que muito servia para a análise das causas das neuroses. A seguir, escutando os relatos dos paciente e examinando-lhes os sonhos, concluíram que também os sonhos eram sintomas da doença e que, como tais, tinham seu sentido e era de grande valor para o mesmo fim.

2) Fosse por mera coincidência ou por ter-se referido sabiamente às anteriores interpretações oníricas, Freud reafirmou várias das opiniões já apontadas por diversos filósofos e intérpretes de sonhos no passado. Em primeiro lugar, contrariando a opinião de Rousseau, para quem o homem nasce fundamentalmente bom e as interferências sociais o tornam mau, Freud reafirmou a mesma opinião de Platão, sustentada mais tarde por São Paulo, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e toda a filosofia religiosa ocidental, de que o homem nasce fundamentalmente mau e escravo de seus instintos impulsivos, anti-sociais e anti-morais refletindo, mais uma vez e de maneira diferente, o velho mito do pecado original, destruidor da natureza humana, feita inteiramente boa pelo Criador. Nesta base, para Freud e muitos de seus discípulos mais ortodoxos, os sonhos seriam a expressão da natureza irracional (biológica e psíquica), segundo afirmou Platão, refletindo impulsos irracionais, sexuais e agressivos, socialmente tornados antimorais e recalcados.

De outro lado, afirmou também, como o filósofo moralista romano Lucrécio, que os sonhos representam, normalmente, a realização "simbólica" dos desejos instintivos e irracionais (biológicos e psíquicos) não-satisfeitos. Quem está com fome ou sede, por exemplo, pode sonhar que está bebendo ou comendo e, com este simples expediente, pode ficar satisfeito e continuar dormindo ao invés de despertar para satisfazer essas necessidades biológicas. Tais os ditados populares: "Quem tem fome com pão sonha" e "Galinha faminta sonha com milho".

3) Daí o terceiro postulado freudiano a respeito dos sonhos: "sua finalidade precípua é a de afastar tudo o que possa perturbar o sono, cuja função é o descanso".

Assim, para excluir os estímulos óticos perturbadores do sono, fechamos os olhos, e não podendo fechar os ouvidos, procuramos um lugar tranqüilo e silencioso. Todavia não podemos proteger-nos eficazmente contra os estímulos internos, como o de uma bexiga excessivamente cheia, um estômago vazio, a pressão hormonal, a tensão produzida por desejos insatisfeitos, as frustrações, preocupações, sentimentos de culpa, etc. Tudo isto continua a afetar o nosso psiquismo e pode perturbar o nosso sono. Nossos sonhos, segundo a teoria freudiana, viriam a reduzir esses estímulos de modo a que o sono pudesse ser prolongado, o que nem sempre conseguem. "Um médico sonhador, sentindo o dever de estar de manhã cedo em seu consultório, pode sonhar que já se encontra lá, com outro médico, consultando como paciente pois, o paciente não precisa deixar o leito", e dessa forma pode continuar dormindo. O sonho nesse caso vem a proteger o sono, confirmando sua tese geral de que, todo sonho realizando simbolicamente o desejo, protege o sono.

4) Todavia, nem tudo é assim tão simples. Certo que nas crianças, cujos desejos ainda não foram fortemente reprimidos ou recalcados, vê-se claramente, através do sonho, qual fora o desejo que o produzira. Pois, "a criancinha sonha sempre com a realização dos desejos que a atividade do dia precedente lhe fez nascer e ficaram insatisfeitos". Assim a criança a quem o Papai Noel não contemplou com um automóvel de pedal grandemente desejado, pode sonhar na noite seguinte com um automóvel de verdade, passeando por toda a cidade.

Mas a maioria dos desejos dos adultos, que são contrários a seus próprios padrões religiosos e sócio-morais, e que portanto foram recalcados "no passado", surge agora novamente, no sono. Mas sua realização, simples e clara, durante o sonho, poderia provocar um conflito demasiado severo, originando poderosos sentimentos de medo e de culpa, e enfraqueceria o sonhador, ao ponto de, talvez, acordá-lo. O sonho nesse caso perderia sua principal finalidade de proteger o sono. Para evitar isto, a realização desses desejos "reprimidos", nos sonhos, deve ser disfarçada, a fim de permitir a continuação do sono, satisfazendo o desejo insatisfeito, sem criar conflito com os padrões morais do sonhador. é o caso, por exemplo, de nós sentirmos um desejo veemente de ferir a uma pessoa por causa de algum desfeito, à qual devemos, por outro lado, imensos benefícios e grande carinho. Neste caso, nem o desejo, nem sua satisfação podem ser manifestados durante o sonho. Não podemos sonhar simplesmente que estamos espancando e matando a essa pessoa amada e reverenciada, pelo fato de ter-nos causado raiva. Para isso, tal desejo e sua realização devem ser disfarçados, imaginando, por exemplo, que estamos espancando ou matando a outra pessoa..."

5) Parte importante da técnica analítica dos sonhos consiste, portanto, em saber distinguir o verdadeiro conteúdo latente, que existe por baixo do conteúdo manifesto, que é a estória narrada pelo sonhador. Neste, reside a forma de manifestar ou contemporizar o problema, de modo a ser capaz de iludir a censura crítica do EGO. Naquele, se acha o impulso irracional ou desejo vergonhoso, recalcado e não passível de se manifestar, verdadeira causa latente de todo o processo do sonho; e neste o conteúdo manifestado sob esse simbólico disfraz, que são a estória e imagem do sonho.

é claro que quando se trata de desejos não tão vergonhosos, não reprimidos e não recalcados, o disfraz ou simbolismo do sonho não precisa ser tão exagerado, e a estória manifesta e o conteúdo latente se encontram muito mais próximos de uma só realidade. Mas nos casos em que existia muito recalque, censura e repreensão, por tratar-se de desejos que se apresentam como muito vergonhosos, o disfraz simbólico do sonho deverá ser muito maior, e a dificuldade de conhecer a verdade latente, que ele oculta, deverá ser muito maior. é o caso dos estados neuróticos e psicóticos.

Daí que a verdadeira técnica analítica de interpretação dos sonhos consiste no adequado conhecimento da linguagem dos sonhos, que é a linguagem simbólica de que falamos anteriormente. Os símbolos oníricos são o conjunto de imagens e representações, que ocupam, na linguagem onírica, o lugar das palavras na linguagem falada, e as letras e gestos na linguagem escrita e na mímica. Tais símbolos oníricos são, mais bem, disfarces antes do que termos de comparação, como acontece nos exemplos e nas parábolas. São também de significado, mais bem individual do que universal ou convencional, não sendo muito susceptíveis de serem reduzidos a regras gerais de significado. Conhecer essa linguagem é a arte mais importante e a parte difícil do procedimento psicanalítico.

6) Freud e os psicanalistas, seus sucessores, têm-nos apresentado uma lista enorme e variada de simbologia onírica, tirada segundo eles, do estudo dos sonhos de um grande número de indivíduos (a maioria doentes neuróticos), bem como do estudo da mitologia, do folclore, da arte, das línguas e da literatura. Certos símbolos parecem ocorrer com tanta freqüência que na teoria psicanalítica passaram a ser considerados como universais. Jung lhes deu o nome de "arquétipos". A lista maior foi fornecida por Freud e, logo, enormemente ampliada por alguns de seus discípulos. Cheia de subjetivismo interpretativo, sem nenhuma discussão crítica e sem nenhuma comprovação científica, ela continua ainda hoje fazendo parte da Psicanálise.

A forma humana, por exemplo, é simbolizada, segundo eles, por uma casa, se as paredes forem lisas é um homem, se houver sacadas e balcões é mulher.

Os pais surgem como reis e rainhas ou como homens célebres; os sonhadores como príncipes ou princesas; os irmãos e irmãs como pequenos animais, por vezes, insetos e parasitas, que vieram perturbar a hegemonia do sonhador.

A procriação seria simbolizada de diversas formas: pela semeadura, o trato da terra ou pela manufatura; o nascimento e a relação mãe-filho, pela água, pelo ato de cair ou sair dela, ou salvar e ser salvo dela.

O ato sexual, o desejo mais vergonhoso, sigiloso e recalcado, viria envolto numa série de analogias, como a penetração de objetos ocos, viajar no mesmo transporte com outra pessoa, etc.

Os órgãos sexuais estariam simbolizados por objetos que a eles se assemelham sob qualquer aspecto. Todos os objetos alongados, que tem a propriedade de penetrar, abrir, rachar, ferir, etc., seriam representações do órgão genital masculino, o pênis; e toda espécie de recipientes e objetos ocos e espaçosos, representariam as partes genitais femininas. Assim, um quarto fechado ou aberto pode significar uma mulher virgem ou deflorada, e a chave que abre, o órgão masculino que deflora.

Entre as peças do vestuário, um chapéu ou um agasalho, simboliza o órgão genital feminino e a gravata é um símbolo peniano.

Calvície, decapitação, extração ou queda de um dente significariam castração, e brincar com crianças, acariciá-las e dar-lhes golpes, etc., simboliza oniricamente o ato de masturbação, etc.

7) Partindo destas e de outras interpretações semelhantes (a lista é enorme) a escola psicanalítica freudiana pensa ter descoberto a chave mágica da interpretação universal de todos os sonhos e, através deles, de uma grande parte dos processos dinâmicos do Inconsciente. Realmente nesse suposto, nada poderia sonhar-se que não pudesse ser englobado na teoria pansexualista de Freud e seus discípulos mais fanáticos e ortodoxos, e na enorme lista de símbolos por eles apresentada.

Todavia, vê-se facilmente quanto de subjetivismo existe na análise das análises oníricas desses intérpretes, ao ponto de a gente duvidar quem sonha mais: se o psicanalista ou seu paciente...

Lembre-se no mais, que os símbolos oníricos, como todos os símbolos, podem ser: convencionais, acidentais ou universais, como deixamos dito em esquemas anteriores. Ora, nenhuma convenção do passado ou do presente tem dado a esses símbolos o significado atribuído pelos psicanalistas, que o sonhador começa previamente; nenhuma conexão intrínseca de significado universal pretendido se liga a esses símbolos; quanto ao significado acidental, sabemos que ele é muito individual e ligado às experiências íntimas de cada sonhador. E se o significado do símbolo é estritamente individual, não podem existir regras de aplicação aos demais.

8) De fato, muitos psicanalistas não ortodoxos, têm-se desviado de tão rígido esquema interpretativo. Jung, por exemplo, estabeleceu a tese de que os sonhos são a expressão de nossa natureza racional superior, só dando crédito aos símbolos universais ou arquétipos, que ele estudou na mitologia e no folclore da cultura universal, revividos nos sonhadores através do Inconsciente coletivo. Uma sabedoria superior e universal seria assim expressa de forma simbólica através dos sonhos, segundo a interpretação jungiana, talvez, não menos parcial que a dos freudianos.

Com melhor senso, acaso, Erich Fromm tem tratado de unir a teoria de Freud à teoria de Jung, vendo nos sonhos a manifestação da natureza irracional, biológica e psíquica, tanto quanto da natureza racional e superior, isto é, do homem total. A simbologia onírica teria em sua opinião, um sentido, mais que convencional ou universal, de forma mais acidental e personalística do sonhador. Não haveria uma simbologia onírica universal que servisse de padrão ou tabela métrica comparativa, através da qual se pudessem interpretar os sonhos. O significado destes dependeria mais bem do estado atual e da situação dos dias precedentes do sonhador, antes que dos fatos muito antigos, mesmo que a atitude geral dependesse deles.

9) De qualquer forma, o esforço psicanalítico de compreensão dos sonhos, iniciado por Freud e continuado por seus discípulos, deve ter contribuído significativamente para o melhor conhecimento dos processos ocultos do inconsciente dinâmico, na complexa motivação do comportamento humano. Supondo mesmo que muito do trabalho acumulado nessas interpretações fosse errado, o esforço psicanalítico teria demonstrado a importância excepcional do conhecimento exato do significado dos sonhos, expressão máxima do psiquismo inconsciente. Aberta a porta e sentada esta pedra fundamental ficaria a cargo dos novos esforços a explicação total do enigma.