Horto (1910)/Ao mar

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Ao Mar
por Auta de Sousa


A D. Martha e D. Amélia Pacheco

Ontem à tarde, ao pé de ti sentada,
Eu pus-me a contemplar-te, ó Mar bravio!
Pensava que acolhida em tuas ondas
Talvez minh’alma não sentisse frio!

Contei-te, uma por uma, as cruas dores
De minha vida, toda de saudade;
Quis afogar as minhas mágoas fundas
No leito azul de tua imensidade.

Como seria bom morrer aí,
Moça, inocente, tendo n’alma em flor
Um mundo virgem de sagradas crenças,
Todo banhado no ideal do Amor!

Tu dar-me-ias, então, a sepultura
Nessas espumas murmurosas, belas...
E à noite, se mirando em tuas águas,
Me cobriria o Céu de mil estrelas.

Ao pé de ti, como um soluço brando,
Sinto fugir-me, pouco a pouco, a vida...
Chorai, vagas, por mim! dobrai finados
Bem como os sinos de risonha ermida!

No mausoléu augusto do Oceano
De outros dobres minh’alma não precisa;
Por súplica mortuária só deseja
O soluço do vento que desliza...

Dezembro de 1893.