Julga-me a gente toda por perdido

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
(Julga-me a gente toda por perdido)
por Luís Vaz de Camões
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras completas de Luis de Camões (1843, v. II)

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado,
E de humanos commercios esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quasi que sôbre elle ando dobrado,
Tenho por baixo, rustico, e enganado
Quem não he com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento,
Honras busque e riquezas a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma.

Que eu por amor sómente me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso formoso gesto dentro da alma.