No País dos Ianques/VIII

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No País dos Ianques por Adolfo Caminha
Capítulo VIII


A Grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao Almirante Barroso. O belo cruzador brasileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.

Compreende-se o vivo interesse do povo em assuntos desta ordem.

Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brasil, e este fato por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vê-lo de perto, de o percorrer dum extremo a outro.

– Quantos canhões traz? perguntava-se. A máquina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?

E quando afirmávamos que a máquina do Barroso era de ferro Ipanema e doutros metais brasileiros, que todo o navio, da popa à proa, era construção inteiramente nacional, subia de ponto a surpresa dos. nossos vizinhos.

O quê! No Brasil já se constroem navios de guerra? – It is impossible!... E toda a população, tomada de um quase espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, afluía ao cais.

Todo o cruzador, desde a câmara do comandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto à curiosidade pública.

O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.

Desde as oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.

Grandes lanchas iam e vinham do cais para o cruzador e do cruzador para o cais, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 cêntimos de ida e volta. Cada uma trazia à proa, em letras esparramadas e vivas, a senha: – Brazilian man-of-war.

À tarde, depois duma faina acabrunhadora de receber famílias e percorrer duas, três e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo aparelhos e maquinismos com uma paciência de pedagogos, íamos à terra, distrair nos cafés, nos teatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões públicas e familiares.

As famílias com que íamos entretendo relações de amizade exigiam que fôssemos quotidianamente a suas casas, como se nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quase paternal.

A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caráter oficial que a revestia, foi a do governador da Luisiana, esplêndido baile no Royal Hotel, no dia 8 de abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.

A casaca, o clak, a gravata de seda branca, o vestido decotado até aonde permite a decência, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palácio em festa.

A jovem oficialidade brasileira, exímia em cotillons, expandiu-se a valer nessa magnífica soirée de inverno, fria e clara, constelada de botões de ouro e brilhante, longe da pátria, longe de suas famílias, mas no seio dum povo que nos amava deveras.

Sarau principesco esse de que ainda sinto o saibo esquisito ao traçar as reminiscências da minha primeira ausência do Brasil.

Mesa abundantíssima e franca, desde a deliciosa sopa de ostras com molho inglês ao mais fino champanha Clicot, com escala pela maionese de lagosta, fresca e picante, pelo suculento poisson à l’italienne, rubro e apetitoso... e tantos, meu Deus, e tantíssimos outros pratos maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde Lúculo até à nossa.

Volvemos para bordo seria madrugadinha, trôpegos, cansados e sonolentos, pálpebras caídas, suplicando a frescura dum travesseiro, dentro de nossas invioláveis capas da Bretanha.

Uma noite brasileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caráter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei numa casaca irrepreensivelmente bem-feita...

O Barroso, diluído na escuridão da noite, aproado à correnteza que descia rio abaixo cantando uma melopéia de lenda, o Barroso – pedaço da pátria longínqua – acenava-nos com a sua luzinha amarela palpitando às rajadas do vento frio.

...E os bailes repetiam-se e nós vivíamos cercados da alegria comunicativa desse povo americano eternamente jovial!

Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.

Belas quase todas, amáveis e insinuantes, cheias duma inexcedível graça que arrebata e seduz voluptuosamente.

As créoles, ah! as créoles... ninguém as vê que não as fique desejando.

Caracteres principais: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicídio flagrante, pequenas, delicadas, flexíveis, aéreas quase, conjunto meigo e melancólico, muito sensíveis... A vaga expressão de seu olhar aveludado derrama não sei que misterioso fluido, cujos efeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta...

Como diferem as chamadas créoles das verdadeiras americanas!

Estas – muito rubras, cabelo cor de ouro, olhos azuis – são frias, quase indiferentes ao amor, egoístas de sua beleza de estátua, vivendo para o trabalho e para a família; aquelas – adoráveis com as suas linhas ideais, com a vaga e comunicativa melancolia de seu olhar voluptuoso – fazem lembrar um povo místico e cheio de bondade dalgum país nebuloso e desconhecido...

É curiosa a origem da população créole de Nova Orleans. Ela descende na maior parte de aventureiros canadenses e courreurs des bois – gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da América setentrional, por terra, através de inóspitos desertos povoados de selvagens perigosíssimos. Esses aventureiros chegaram à Luisiana sem famílias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, às margens do Mississipi. A Luisiana era então colônia francesa, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes imigrantes, que viviam solteiros, longe de sua pátria natal, sujeitos a uma castidade quase absoluta, quis aproveitá-los para a colonização. Nesse intuito mandou vir de Paris um carregamento de mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues à concupiscência da população masculina.

Isso, porém, não trazia vantagens à colônia, que precisava de gente. Os canadenses satisfaziam seus apetites carnais sem que aumentasse o número de habitantes – fato este que não passou despercebido ao diretório da Companhia da Luisiana, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.

Nestas condições foram dadas outras providências, e, em 1728, chegou a Nova Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luisiana histórica pelas filles de la cassette ou casket girls, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas a fim de se casarem licitamente. A experiência foi coroada de sucessos. Em breve tempo começou a crescer a colônia e os descendentes da cassette tinham orgulho em o serem.

Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luisiana.

Seu sangue é uma mistura de sangue canadense e sangue francês.

A mulher americana do Norte é geralmente bem-educada. Muitas vimos em Nova Orleans, que conheciam e falavam dois, três idiomas, além do vernáculo.

Preocupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegância, sem afetação, sem a natural coquetterie da mulher parisiense. Seu divertimento predileto é a música.

O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.

Nos Estados Unidos o belo sexo é respeitado como em parte alguma.

Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade.

Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. O que sei é que, se um rapaz gosta de uma rapariga de família reconhecidamente honesta, não tem mais do que namorá-la escandalosamente às barbas de quem quer que seja, à vista do mundo inteiro, beijá-la sem-cerimônia, como se fossem irmãos, e, daí a pouco, ei-los casadinhos de fresco, bras dessus, bras dessous.

E ai! daquele que violar os preceitos decretados pelo governo! Imediatamente vê-se dentro deste triângulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexorável e a polícia exerce uma vigilância sem igual.

Informados de tais particularidades do caráter americano, nós, brasileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionais, evitando o mais possível os compromissos amorosos, as manifestações de simpatia por essas adoráveis ladies, que, a falar verdade, infligiam-nos os maiores suplícios com o maravilhoso poder de suas qualidades físicas.

Tântalos do coração, éramos obrigados a conter os ímpetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convívio das louras misses e das ternas créoles.

Estão verdes, não prestam – era a nossa divisa e destarte escapávamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo...