Numa e a Ninfa/VII

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Numa e a Ninfa por Lima Barreto
Capítulo VII


Houve sempre quem se zangasse com os estrangeiros que perguntavam lá nas suas terras, se aqui, nós andávamos vestidos; e concluísse daí a lamentável ignorância dos povos europeus. Essa irritação trouxe aos nossos dirigentes, diplomatas e gente do mesmo feitio de espírito, a necessidade de pensar em medidas que levassem os franceses a ter uma mais decente reputação de nós mesmos. Aborrecia-se essa gente tão bonita, tão limpa, tão elegante, que não vissem o Brasil nela mas nos índios nus, nas serpentes, nas florestas e nas feras. Era um erro palmar de geografia que precisava ser emendado de vez e apagado do espírito estrangeiro essa feição tão deprimente para a nossa pátria. Há quem pense que daí não advém mal algum; que a representação de um país na imaginação de outro povo há de ser sempre inexata; e na de um país de segunda ou quarta ordem, feita por estranhos, há de dominar forçosamente o aspecto mais nitidamente diferente que ele possuir.

Outra fonte de irritação para esses espíritos diplomáticos estava nos pretos. Dizer um viajante que vira pretos, perguntar uma senhora num "hall" de hotel se os brasileiros eram pretos, dizer que o Brasil tinha uma grande população de cor, eram causas para zangas fortes e tirar o sono a estadistas aclamados. Ainda aí havia um lamentável esquecimento de um fato de pequena observação. Hão de concordar esses cândidos espíritos diplomáticos que o Brasil recebeu durante séculos muitos milhões de negros e que esses milhões não eram estéreis; hão de concordar que os pretos são gente muito diferentes dos europeus; sendo assim, os viajantes pouco afeitos a essa raça de homens, hão de se impressionar com eles.

Os diplomatas e jornalistas que se sentiam ofendidos com a verdade tão simplesmente corriqueira, esqueciam tristemente que por sua vez a zanga ofendia os seus compatriotas de cor; que essa rezinga queria dizer que estes últimos eram a vergonha do Brasil e seu desaparecimento uma necessidade.

Os viajantes estipendiados, dessa ou daquela forma, pelo tesouro, nas obras e artigos que publicavam, tinham sempre o cuidado de dizer que não havia mais febre amarela e o preto desaparecia. Um houve que teve intensas alegrias quando não viu negros no porto de Santos e levou essa novidade ao mundo inteiro, por intermédio de seu livro.

Os nossos diplomatas e quejando com esse tolo e irritante feitio de pensar quiseram apoiar a sua vaidade em uma filosofia qualquer; e combinaram as hipóteses sobre as desigualdades de raça com a seleção guerreira, pensando em uma guerra que diminuísse os negros do Brasil.

Não podendo organizar uma verdadeira "reserve for the blacks", decretar cidades de resistência, estabelecer o isolamento "yankee", pensaram na guerra em que morressem milhares de negros, embora ficando as negras a parir bebes brancos.

Não convém discutir o valor de semelhante propósito e demonstrar esse projeto dos nossos diplomatas com peças oficiais seria vão. Há inequívocas manifestações desse espírito nos jornais e fora deles; e elas indicam perfeitamente esse pensamento oculto, esse tácito desejo dos nossos homens viajados e influentes.

Por momentos, esse espírito tomou um grande ascendente sobre a nossa administração e quis concluir a sua obra de embelezamento de cidades, organizando um exército para a guerra futura. Necessitou de uma figura de um general. Os que haviam se notabilizado no Paraguai tinham desaparecido e os velhos oficiais que tinham por lá passado, estavam cansados. Sabe toda a gente que quando um grupo social tem um pensamento fortemente comum e deseja realizá-lo, inconscientemente procura um indivíduo em que encarná-lo e por ele executar o seu desígnio. Nos generais que freqüentavam os corrilhos políticos e próximos, havia a esperança.

Era um comandante, simplesmente comandante, minucioso na administração do seu batalhão, mas com cujo auxílio, os jovens oficiais, tendo nos olhos o exemplo dos países militares, julgaram ser possível criar um exército à prussiana. No seu temperamento, na sua personalidade facilmente impressionável, dúctil e maleável, que não guardava impressões e não fazia com elas um "eu" seu, um pensamento próprio, era fácil influírem essas sugestões e representar ele o papel. Os políticos levaram-no aos pináculos da carreira e da administração; e os jovens militares fizeram-no organizar espetaculosas manobras e tomar atitudes guerreiras.

Com o ascendente dos diplomatas, nesse instante aliados aos guerreiros, Bentes ganhava prestígio e parecia ir ser o executor do pensamento de ambos os grupos. Há, porém, entre os militares uma corrente mais forte que a daqueles que querem um exército adestrado, automático, garboso e eficiente; é a dos políticos. Não que eles sejam eleitores ou deputados; o que eles são é crentes nas virtudes excepcionais da farda para o governo e para a administração. A farda, a longa e pesada tradição que representa e evoca promete muito a todos que a vestem; e os militares não pesam os meios de que dispõem para realizar esse muito que lhe és prometido. Para eles, o uniforme dá qualidades especiais; todos são honestos, todos são clarividentes, todos são enérgicos. A tradição de Floriano, sempre mal analisada e sempre falseada em grandeza e poder, muito concorre para isso e faz repercutir no povo a concepção quarteleira.

Há até doutrinadores a afirmar que os grandes fatos políticos e sociais do Brasil tem sido realizados por militares. O Exército, escrevem eles, tem levado este país às costas. Ainda não havia Exército brasileiro, pois ainda o Brasil não era independente, e já aquele fazia a Independência com as milícias paisanas. A abolição foi feita porque um tenente não quis apanhar escravos fugidos. É bem possível que esse oficial não o quisesse fazer por espírito de casta ou classe; que julgasse talvez incompatível com a dignidade de seu ofício semelhante diligência; mas os teoristas não se detêm. O que aconteceu foi o que se daria hoje se se mandasse o Exército executar as funções de polícia. Parece.

Justificada vagamente a excelência da política dos militares, não é de admirar que tal convicção se haja solidificado nos espíritos, tanto mais que os doutrinadores especiais não têm merecido a crítica que exigem. Lamentavelmente não se tem mostrado a eles que a sua teoria no que é peculiar ao Brasil tem vício insanáveis; e no que toca ao mundo esquecem a consideração que durante muito tempo não houve militares nem civis e a casta dominante, donde saíam os governantes, era forçosamente a de guerreiros.

Popular entre os militares a doutrina, pondo na ascensão de um deles ao poder grandes esperanças de solver pequenas dificuldades, não é de espantar que Bentes, prestigiado pelos diplomatas, gabado nos jornais, se fizesse em pouco tempo o chefe primacial que não existia.

Com uma docilidade espantosa, foi ao encontro das sugestões e as acatava. Um jornal, pela pena de seu cronista militar, por ocasião de um revista, disse que Bentes, a cavalo, pequeno busto, era bem um qualquer general japonês. Bentes gostou da lembrança, e como esse general tivesse o vício do havana que não largava da boca, esforçou-se ele também por não largá-lo dali em diante.

Bem cedo, aliaram-se os militares políticos e os organizadores da nação armada em torno da figura que nascia toda inteira do pensamento diplomático. Sob o pretexto de reorganização, alargaram os quadros, fizeram-se centenas de promoções e esse alargamento dos quadros era justificado pelo sorteio militar.

A oposição foi grande e não houve expediente por mais inconfessável que fosse, que não empregassem os interessados para arrancar a lei inconstitucional à facilidade do Congresso e à timidez do presidente.

Feitas a promoções, criadas as repartições em que os militares se fizeram plácidos burocratas, a popularidade e prestígio de Bentes no Exército foram os de um general vitorioso que tivesse repelido o invasor.

A criação dos diplomatas, porém, ia tomar outro rumo; o selecionador da população não queria mais o papel. Julgou-se estadista, ficou convencido que o era, graças aos ascendentes sinais cabalísticos do seu anúncio. O despeito dos políticos com a candidatura de Xisto foi ao encontro da apocalipse militar; e Bentes pesou na escolha do sucessor presidencial com uma revolução na retaguarda.

A primeira impressão que se teve foi de estupor. Aquele motim branco, aquela revolução de palácio, de serralho, não estava nos nossos hábitos. Ninguém tinha percebido esse lento trabalho oculto; ninguém tinha notado e não notava as interferências dos diversos espíritos dos grupos que Bentes representava e o seu ato foi no ar, espantando e aterrando, como se fosse um braço que se agitasse no espaço sem inserir-se em um corpo qualquer.

Depois, passado o espanto, houve a irritação causada com aquela súbita fortuna. A opinião só as admite assim, as de dinheiro; ,mas as outras, que ela está habituada a ver obtidas lentamente, passo a passo, quando o são de outra forma, chocam e ferem as noções que o consenso geral já tem firmes no espírito.

Esquecia o povo todos os seus defeitos, todas as suas insuficiências, se a ascensão fosse feita aos poucos, normalmente, sem violências disfarçadas e coações meio confessadas; e a irritação da multidão, da opinião, descarregou-se, transformou-se em riso, em riso sardônico, como sabe sempre rir a massa, dos tiranos que são ao mesmo tempo tiranizados.

Não foram todos os políticos que o aceitaram; foram alguns chefes, um dos quais era Macieira, que viu logo como podia aproveitar a situação; e Bastos, apesar de toda a sua força aparente, admitiu-o, aceitou-o, por uma consideração de defesa e conservação pessoais. Neves Cogominho e os outros homologavam a escolha, e todo o esforço destes foi simular que o fizeram com liberdade e convencer Bentes que muito lhes devia.

Solicitado por uma corrente de interesses, solicitado por outra contrária, Bentes oscilava doidamente, como um espantalho sob o vendaval. Os adeptos sem se entenderem entre si, só se compreendiam na bajulação infrene, com que incensavam o feitiço - bajulação que crescia em proporção aos ataques.

Políticos aposentados e esquecidos, agitadores infelizes foram trazidos à tona e, do exagero de adulação, penitenciavam-se todos troçando na intimidade o manipanso que tinham criado.

Um antigo político gabou a ignorância como fecunda no governo, firmando mesmo a sabedoria como prejudicial ao pais; e Inácio Costa em conversa com Benevenuto, confirmou a sentença:

— Soberania? Bacharelismo?... Nada! Nada!... Acabamos com essa pedantocracia bacharelesca.

Benevenuto disse-lhe então pacientemente:

— Inácio, queres ouvir uma história? É uma lenda que corre entre os Fellahs. Como tu sabes, são supostos representantes dos contemporâneos dos Faraós. Contam eles que, por ocasião da conquista pelos árabes, o escriba Hué-Tep despertou do túmulo. São casos que se passam freqüentemente nessa vasta necrópole que é o Egito. Hué-Tep ergueu-se do túmulo, tirou a sua máscara funerária e viu toda a brutalidade de Omar e seus sequazes. Reparou que não gostavam dos rolos de papiros e não tinham em grande conta o seu velho saber de estilizar em belos caracteres demóticos os grandes fatos das dinastias. Hué-Tep, ressuscitado do túmulo por aquele tropel, não sabia como viver. Tinha uma língua tão diferente e os recém chegados odiavam a escrita. Como havia de ser?

Estava pensando, já fora do túmulo e sentado sobre a extremidade de uma gulga de granito, quando um "caid" árabe, com a cabeleira untada de graxa, aproximou-se e perguntou-lhe:

— Que fazes, meu velho?

— Vim de entre os mortos e não sei o que hei de fazer.

— Quando vivias, o que fazias?

— Escrevia; era escriba de Phon-Chué, ministro do poderoso Amenem-Set.

— Isto está fora de moda. Não vês, por que o Egito com os seus três impérios desapareceu? Foi a escrita... Nada de escrita. Fora os preparados.

E logo o escriba da maravilhosa letra ficou convencido dos malefícios que a sua habilidade representava e seguiu o "caid" que lhe dava tâmaras e mel de quando em quando.

O escriba Hué-Tep, que só fora estimado pelo seu saber e pela sua linda letra, começou a aconselhar a quebra dos monumentos e a queima das bibliotecas; e foi por isso, dizem os Fellahs, que o Egito ficou estéril.

— Eu sei Doutor. Eu sei.... Mas esse saber aí não é saber que valha.

— Mas qual é o teu saber, Inácio?

— É a ciência positiva... Não admito essa jurisprudência, esse Direito.

— Por quê?

— Porque não é positivo.

— Quem diz que o teu é?

— Doutor, o senhor é um metafísico... Não de pode conversar com o senhor. Nós precisamos, Doutor, de aperfeiçoamento moral; e devemos ter por principal escopo a incorporação do proletariado à sociedade moderna.

Quase sempre Benevenuto, depois do jantar, vinha àquele Café espairecer e conversar com um e outro conhecido. Não tinha companheiro certo, mas era raro que encontrasse Inácio Costa. As noites, raramente este saía de casa; mas, por aquela época de grande atividade política, ele as aproveitava para ir a esta ou àquela casa de pessoa influente, principalmente à de Bentes, que vivia cheia. De resto, quando o não fazia, corria os cafés, as redações dos jornais, buscando novidades, num temor constante que Bentes se evaporasse de uma hora para outra.

O primo de Edgarda encontrara ali Inácio e estavam a conversar amigavelmente, quando Lucrécio aproximou-se da mesa e, e pé, apoiado ao guarda-chuva, disse sem mais cumprimentos:

— Sabe... com licença, Doutor... mataram o Zeca Boneco.

A Benevenuto pareceu que se tratava de alguma relação de Inácio, mas este indagou com indiferença.

— Quem é?

Lucrécio tinha nas faces o temor estampado e, de vez em quando, olhava os lados cautelosamente.

— Um rapaz... Um rapaz dos nossos... amigo do Totonho.

— Quem foi?

— O povo!

Barba-deBode pronunciou esta palavra e respirou aliviado; Benevenuto levantou-se e foi passar o resto da tarde em lugar menos povoado de novidades políticas.

Lucrécio sentou-se e contou os pormenores da execução popular. Zeca era antigo aprendiz de marceneiro. Alistara-se no bando de Totonho, fizera diversas desordens e mesmo mortes. Tinha andado sossegado um pouco, devido à polícia; ultimamente, porém, voltara mais terrível. Extorquia dinheiro a todos do bairro, de revólver em punho, especialmente dos negociantes, gostando também de fazê-lo alta noite aos jogadores felizes. As queixas eram muitas, a polícia o prendia, mas sempre o Dr. Campelo ou Totonho soltavam-no. Naquela noite, no largo do Machado, intimara um cocheiro de carro a dar-lhe algum dinheiro. O "Capote", tal era o apelido do cocheiro, não acedera e Zeca matara-o a facadas. Perseguido pelos colegas do morto, outros populares se vieram a juntar e, quase em frente ao palácio do Catete, fora morto a tiros de revólver.

— E a polícia? - perguntou Inácio.

— A polícia não pode nada.

Inácio não viu bem como legava esse acontecimento ao destino da candidatura de Bentes. Pareceu-lhe ver naquela atitude dos populares, alguma coisa de mais efetivo na manifestação de sua opinião; e notem que Lucrécio estava amedrontado, assustado, como se o povo estivesse a gritar sempre: Mata! Mata! Lincha!

A notícia desse fato teve uma pungente repercussão na cidade. As proezas do assassinado, arroladas pela polícia e não punidas, que os jornais publicaram, deram aos habitantes a idéia de que estavam à mercê do mais audaz. Mesmo a frouxidão das autoridades em apurar tão grave fato indicava que se julgavam felizes por se verem livres do pesadelo que o desordeiro representava; e, se assim era, se não tinham procedido contra ele na forma da lei, denunciava que estavam coagidos, manietados, deixando a fortuna, a honra, a segurança de cada um entregues à sanha dos desalmados de que a polícia precisava para aterrar, asfixiar a opinião e as consciências.

Numa, na manhã seguinte, conforme o seu hábito, depois de ter tomado café, propôs-se a ler os jornais. Com os acontecimentos, a sua leitura era mais descansada e curiosa, estendendo-se a jornais de todos os matizes e feições.

Os periódicos efêmeros, as revistas comentárias, ele os lia ou fazia a mulher lê-los, cauteloso como andava em perscrutar a marcha dos fatos, em precaver-se contra as intrigas, em descobrir de que forma os seus colegas, no entusiasmo pela candidatura do general, enxergavam a sua situação política.

Amanhecera chovendo, um chuvisco fino e intermitente. O dia era indeciso. As árvores tinham um verde contente e as montanhas estavam encobertas. A velho D. Romana, que raramente se interessava pelos acontecimentos, veio perguntar a Numa:

— Doutor, estão matando gente na rua?

Ficou entre os umbrais da porta. Como que a velha tinha medo de avançar e perguntava com toda a sua forte e boa velhice:

— Doutor, estão matando gente na rua?

Numa descansou a folha e respondeu com acanhamento àquela pergunta em que havia algo de censura maternal:

— Não... Não... Um desordeiro... Não foi nada, D. Romana; isso acontece em toda a parte.

Esteve a velha ainda instantes de pé olhando o marido da neta sem dizer palavra, mas a interrogá-lo com os olhos. Numa evitava olhá-la e os encargos domésticos chamaram-na ao interior da casa.

Não se espantou o legislador com o caso, mas sentiu no ato dos populares um desaforo, uma insolência. Governo é governo; e se protegia o homem....

A mulher veio tomar café na sala em que o marido lia os jornais. Já sabia vagamente fato e inquiriu:

— Numa, que fuzilamento é esse que os jornais trazem?

— Um caso à toa... Um sujeito matou outro e o povo matou-o.

— Por quê?

— Por quê? Porque matou o outro.

Acabando de tomar o café, Edgarda correu os jornais e leu o fato. Não tinha, como o marido, prática desses atos de política e não sabia que esta exigia tanto. A sua impressão foi de desmoronamento. Tudo caía, a lei, a ordem, a autoridade; e na barbaridade dos entrechoques de paixões, a paixão irrefletida da multidão teria de dominar... Acertaria sempre? teria acertado? Por que aquele calaceiro saqueava em pleno Rio de Janeiro? Por quê?

Era a política, era Campelo a garantir-lhe a impunidade e, mais alto, os protetores de Campelo dando a este mão forte e prestígio... Se o Estado é uma coação organizada, essa coação cessava por abdicação do próprio Estado... Era o ruir de tudo... Onde nos levaria tudo isso?... A sua colaboração não seria criminosa? Tinha direito perante a sua própria consciência de contribuir para semelhante ruína? Sentiu perfeitamente que este afrouxamento da lei e da autoridade tinha por fim recrutar dedicações aos ambiciosos antipáticos à opinião. A coação legal do Estado fizera-se, para uma mascarada eleitoral, ameaça de valentão... No afã de fingir que Bentes era desejado, os aparelhos de compressão governamental não tinham o cinismo de impô-lo à força de baionetas. Tergiversavam, simulavam uma escolha regular; era a homenagem que o vício prestava à virtude. Como a opinião não se revoltava? Tinha medo?... Parecia impossível, mas se não tivesse... Crime maior lhe pareceu a coação que se fazia à consciência da nação.

Com que direito? Em nome de quê? Não eram interesses secundários que se sobrepunham, com baionetas, garruchas, facas, à manifestação de vontade de um país inteiro? Não era um sindicato profissional que queria tirar de Bentes os lucros de seu monopólio? A maldição viria sobre ele e sobre ela também que, por simples vaidade, não falava claramente... Mas, se fizesse, que havia de ser, que adiantaria? Numa não voltaria deputado; ela não seria a esposa do eloqüente parlamentar; as outras não a olhariam com respeito e a sua fortuna não teria essa moldura; seria a fortuna vulgar, corriqueira, da mulher de um negociante qualquer.

— Esse caso vai ter eco na Câmara - disse ela.

— Penso também, A oposição vai aproveitá-lo e fazer um cavalo de batalha. Não me meto na discussão.

— Não faça isso... É bom sempre dar uns apartes... Naturalmente vão censurar a polícia.

— Qual polícia! Você não reparou que o homem é protegido do Campelo! Vão censurar a todos nós, atacar-nos.

— Os comentários de Fuas encaminham um pouco a opinião que você deve ter. Você leu?

— Li e já sei dos casos que tem havido em outros governos.

— Os oposicionistas podem achar certas diferenças.

— Quais são?

— É que o de hoje vivia a extorquir dinheiro à mão armada, desde que o "Velho" deixou o governo, com ciência e aviso à própria polícia que não tomou providências. Você não acha?

— Que tem isso?

— Você sabe bem... Você não está na Câmara? A polícia não tomou providências porque vocês....

— Nós? Eu, não.

— O partido de vocês...

— Campelo.

— Sim, Campelo o acoitava.

A mulher retirou-se e Numa um instante considerou a gravidade dos fatos. A abdicação deles, os políticos, tinha afrouxado senão cortado todos os laços sociais. Ficou surpreendido por ter verificado isso, ele que, em Catimbao julgava de somenos essas coisas de assassinatos...

Na sala em que estava, ouviram longinquamente os ruídos das ruas. os zumbidos dos elétricos, o buzinar dos automóveis, o pegão dos mercadores, mas, assim mesmo, sentia a palpitação do Rio de Janeiro, capital do Brasil, cheia de comodidades, mas de oposição e de crítica.

Embora no lugar em que estava não visse o portão, Numa teve idéia de que ele fora aberto. Devia ser uma visita. No começo eram raras; mas, ultimamente, se multiplicaram. Não havia projeto em que o seu voto não fosse solicitado por uma meia dúzia de empenhos. Muita vezes, os pedidos eram contrários à sua disciplina partidária, e negando-se a atendê-los criava antipatias. Como queriam que fossem independentes? De um lado, o partido, e de outro, os interessados? Como havia de ser? Para não errar, para a sua segurança, votava sempre com o partido.

Os jornais e o povo debochavam o Congresso, faziam-lhe as mais acerbas críticas e cobriam os deputados de epítetos os mais desprezíveis. Não se entendia o povo! Dizia isso, proclamava a inutilidade do Parlamento, desmoralizava-o; entretanto, queria que resistisse aos assaltos, às ameaças do poder. Estariam os deputados muito avisados, se lhe seguissem os conselhos. Seriam tocados da Câmara, expulsos, e então não valeria mais nada o Congresso. A vista entrou; era Mme. Forfaible. Edgarda acompanhava a generala e conversavam garrulamente. Numa teve pressentimento que ela vinha interessar-se pelo projeto das desacumulações. Que diabo! Não sabia como votar!... O governo, uma hora fazia questão, outra diziam à socapa que vetaria... Temia incompatibilizar-se e ficar incompatível, tanto mais que Bentes parecia ser contra. Tinha mesmo dito: "Eu sou pelas desacumulações bem entendidas".

A senhora entrou e toda a sala animou-se com a sua presença.

— Doutor, bom dia! Já sabe da última novidade? O Comensoro casa-se com a copeira da pensão. Esse Comensoro, Edgarda, é muito engraçado. Você sabe como foi o casamento dele? Vou contar. Ele pinta os bigodes. Outro dia, não tendo tempo de pintá-los completamente, saiu com a metade do bigode branco. Na sala, ao tomar a escada, alguém disse: Coronel, o senhor está com o bigode sujo; A menina, a noiva, a copeira...

— Não era copeira, Anita - disse Edgarda.

— Enfim, a noiva observou por aí: Não é verdade dizer que a metade do bigode do coronel está suja; o que ela está é limpa.

— Por isso casou-se? - perguntou Numa.

— Por isso. Vai comer bons quitutes, certamente.

— Como você sabe disto, Anita?

— Eu não sou muito própria para saber, mas certamente Comensoro não será também. Está tão velho...

— Nem tanto - disse Numa.

— No almanaque; a igreja talvez não seja da mesma opinião... Doutor, outra coisa: preciso do seu voto para serem rejeitadas as tais desacumulações. Manoel não pode viver sem os vencimentos de professor...

— Minha senhora...

— Olhe, Doutor, nós ficamos inimigos...

— O povo...

— Que tem o senhor com o povo? O povo não vale nada... Não vê como ele não quer Bentes, como se pudesse ter opinião dessas coisas. Não acha, Edgarda?

— Olha, Anita, eu não sei bem se ele pode ter ou não.

— Você é socialista. Não sei como você, filha de senador e mulher de deputado, pode ter idéias tão estrambóticas. Então, Doutor, como vota?

— Minha senhora...

— Seja franco: como vota?

— Depende.

— Edgarda, como vai votar o marido de você?

— Isso é lá com ele; não tenho nada com isso.

— Pois olhe, minha filha, não é o que dizem por aí.

Numa e Edgarda entreolharam-se, e Mme. Foirfable insistiu:

— Quero uma resposta, Doutor.

— Minha senhora, voto com o líder.

— Está bem. Você sabe, Edgarda, vim só com o café...

— Você quer almoçar comigo?

— Não. Falar em almoçar... Você sabe quem me convidou a jantar com ele há dias, em "tête-a-tête"?

— Quem?

— O Albuquerque. Não conhece, Doutor? O poeta Albuquerque...

— Conheço. Recita muito bem.

— Ele convidou e você aceitou? - perguntou Edgarda.

— Quase! Albuquerque está fazendo um poema... Você não gosta dos versos dele?

— Não são maus. Por que você não jantou com ele?

— Que diriam?

— Ah! - fez Numa vitoriosamente. - Aí, a senhora respeita a opinião...

— Sim, mas para fazer um presidente da República, precisa-se saber a opinião do carniceiro, do padeiro, do vendedor de jornais, do tripeiro? Ora!

Numa, nessa questão de acumulações, sabedor como era grande o número de pessoas a que ela interessava, tinha procurado sondar a opinião de muita gente. Em Fuas, não pudera descobrir estrela que o guiasse. As suas opiniões, tanto por escrito, como pronunciadas, eram cheias de duplicidade, de evasivas, de restrições. Todas elas admitiam que o cidadão tivesse dois ou mais empregos quando fossem de natureza técnica, quando não houvesse capacidades senão em um indivíduo para preenchê-los. Fazer tais restrições era continuar a manter as acumulações. Por que, então, querer a solenidade de uma lei especial? Fuas, que era ladino, podia bem orientá-lo; Numa, porém, não gostava da sua intimidade. Ele o tratava com uma condescendência superior, como se fosse Fuas o legislador, o deputado. Se bem que precisasse dele, essa atitude do jornalista feria-o e tirava-lhe a acuidade nas perguntas, as lábias para surpreender-lhe a opinião. Na verdade, Fuas pouco se incomodava com a questão; os seus interesses se haviam voltado para Bogoloff.

É caso que o diretor da Pecuária Nacional logo que tomou posse do seu lugar, procurou Xandu, com quem teve uma conferência, na qual mostrou a necessidade de dar começo às experiências dos seus processos de fazer um boi quatro e fabricar carneiros que fossem ao mesmo tempo cabritos.

— Não há dúvida, Doutor, organize o seu plano - disse Xandu com toda a segurança. - Exponha o que necessita, pois aqui estou eu para fornecer-lhe os meios. O Doutor compreende perfeitamente que tenho o máximo empenho em levar avante esse empreendimento, não só porque é de um valor científico extraordinário, como também oferece aspectos práticos de alcance transcendente. Demais, a glória que lhe couber também será partilhada pelo meu ministério...

Consertou o monóculo na arcada orbitária e continuou com calor:

— Sou pela prática da atividade útil. Hoje, por exemplo, tenho que assinar 2.069 decretos e levo ao presidente 412 regulamentos, entre os quais um sobre a postura de galinhas, que lhe vai agradar muito... Não se dedica à avicultura, Doutor?

— Não; mas os meus processos são gerais, destinam-se a toda espécie da criação de animais. Havemos de experimentá-los, se V. Exa. me fornecer os meios necessários.

— Não há dúvida. Faça o orçamento.

Não se demorou muito Bogoloff em organizá-lo com todo o capricho. Nele, além de muitas coisas, exigia dez auxiliares hábeis, práticos e sabidos na bioquímica, os quais deviam ser contratados na Europa; exigia também um numeroso pessoal subalterno; pedia uma fazenda e uma grande verba para material e aparelhos.

Só em pessoal gastavam-se quatrocentos contos e outro tanto com a fazenda, aparelhos e material. Fuas, sabedor do caso, pôs algumas observações no seu jornal, sobre a criação da Estação Experimental da Reversão Animal e Quadruplicação do Bois. O russo procurou-o, os comentários cessaram e Fuas ficou encarregado da aquisição da fazenda, material e aparelhos.

Vencido esse pequeno tropeço, Bogoloff procurou o ministro, a quem apresentou o orçamento.

— Não lhe posso dar resposta já, meu caro Doutor. Estou muito atrapalhado... Nesse país está tudo por prover e eu trabalho dia e noite. Nunca teve ministros e um que vem com disposições de trabalhar, esgota-se em pouco tempo... Imagine, que não pude tomar hoje o meu banho de frio, tanto estou atrasado!... Um dia em que não o faço, volto a ser o brasileiro mole que os senhores conhecem... Assim mesmo já assinei 382 decretos e organizei 49 regulamentos... Ah! Doutor! Esse Brasil precisa de frio, muito frio!

Despediu-se Bogoloff do homem tão ativo e voltou ao seu gabinete de Quadruplicação de Bois, que era no próprio edifício da secretaria. Fuas esperou o resultado durante um mês e o trabalho do russo na Direção da Pecuária Nacional limitava-se, durante esse tempo, tão somente assinar os registros de estábulos e cocheiras da cidade.

Fuas Bandeiras desesperou e foi tratar de outros negócios; mas Bogoloff, que era mais tenaz, esperou pela decisão de Xandu. Houve um dia em que o ministro o chamou e falou-lhe a respeito da sua pecuária intensiva:

— Li o seu orçamento e a sua exposição. Muito bons, ambos! O orçamento está um pouco salgado. Por que o senhor quer um laboratório de química tão completo?

— V. Exa. compreende - disse-lhe o doutor russo - que os nossos processos se baseiam na bioquímica; daí essa necessidade.

— Não há dúvida, concordo; mas o Doutor podia bem dispensar a fazenda.

— E os meus bois onde viveriam: Não acha V. Exa. necessário pastagens?

— O seu método nãos e baseia na alimentação artificial, Doutor?

— Baseia-se na superalimentação química.

— Pois então? O seu gado podia até ser criado em uma sala.

— Isto podia dar-se se fosse um ou dois, mas muitos não é possível. Demais, não abandono inteiramente os métodos comuns de alimentação. Não é possível!

— Não há dúvidas, Doutor! O senhor sabe que o governo está em economias e não pode atendê-lo. Em todo o caso o Estado tem uma casa disponível com um razoável quintal, à rua Conde de Bonfim, e em pequena escala, o senhor podia experimentar. Vá ver a casa.

Inútil é dizer que Bogoloff não tinha nenhum interesse em por em prática as suas fantásticas idéias. Foi ver a casa e fez um relatório completamente desfavorável. Nem outro podia ser. A casa era um pardieiro arruinado e o quintal tinha para pastagem algumas touceiras desse capim a quem chamam "pés de galinhas". Aconselhou-lhe o ministro por essa ocasião:

— Doutor, não se aborreça. Ninguém mais do que eu conhece as vantagens do seu processo, a barateza que ia trazer para um gênero de primeira necessidade, mas o governo está em apuros, está cortando as despesas... Sinto muito, mas... Olhe: faça como eu, escreva regulamentos... Se não quiser... Se não quiser, aconselho que se ocupe com o expediente ordinário de sua repartição e espere um pouco.

Bogoloff viveu assim feliz e tranqüilo. Os cruéis acontecimentos que o envolviam não despertavam nele os ardores generosos da primeira mocidade, que tanta amargura havia sofrido. Nascera em Kazan, na Rússia, onde seu pai tinha um "sebo" que lhe dava os parcos recursos necessários à subsistência de ambos.

Aquele contato com os livros desde quase o seu nascimento, dera-lhe "fumaças" e a inaptidão do intelectual de origem obscura para o esforço seguido, quando se choca com o meio naturalmente hostil. Fez o seu curso na faculdade de Línguas Orientais da Universidade em que Lobatchevsky afirmou, com rara coragem intelectual e grande vigor, que, por um ponto fora de uma reta se podiam tirar várias paralelas a essa reta.

Anos passou dentro dos seus "inocentes sonhos" de quimeras de justiça e de fraternidade. Inutilizou-se; fez-se honesto de pensamento e de coração. Acabado o curso, não sabia fazer nada; viveu encostado ao pai sem atinar como havia de empregar o seu persa e o seu tártaro.

Travou conhecimento com revolucionários, freqüentou-os nos cafés, estimou alguns, foi tido por suspeito; e, quando houve um atentado contra a vida do governador da cidade, foi com outros parar à cadeia, a fim de ser escolhido aquele cuja cabeça devia ser perdida para que a majestade do Estado não fosse conspurcada.

Verificaram que nada tinha com o caso, soltaram-no. Rolou de cidade em cidade depois de ter perdido o pai, por fim veio para o Brasil para sossegar e morrer.

Não tinha mais escrúpulos; e se não cobria humanidade com desprezo, desprezava-se a si mesmo, não se detendo diante de empecilho moral, senão daquele que fosse castigado pelo Código.

A terra era boa e chã; e ele não se incomodava em saber se era bem governada ou mal. Ia vivendo com a sua liberdade interior, perfeita e completa.

Não empregava os processos ultra cínicos de Fuas, mas pouco se interessava pelas suas questões. Fuas, porém, fingia interessar-se, tomava partido, indignava-se, chegava-se a este e àquele, mostrando dedicação, a ponto de fornecer aos bisonhos prazeres requintados de casas de ópio que ele mesmo montava com o auxílio de velhas cocotes conhecidas, ou desbragadas orgias, tendo por convivas "parvenus" que iam para elas sem o enfado de viver e a embriaguez do poder de patrícios romanos, mas com a grosseria da sua falta de cultura e a inquietude das estreitas preocupações do momento. Os seus convivas eram senadores amatutados, ricaços que, há trinta ou quarenta anos, não pensavam senão em ladroeiras honestas, traficantes de todos os matizes e aventureiros de todas as cores. Este era dos seus mais seguros processos de arranjar dedicações e seguros protetores para os seus negócios. Outros processos de que lançava mão era perder propositadamente no pôquer, quando queria obter do parceiro influente proteção para um grosso negócio. Com Bastos, acontecia quase sempre isso. Vivendo assim, de rendosos expedientes, pouco se lhe dava que as coisas marchassem bem ou mal. Se as dele iam bem, estavam satisfeitos; se não, procurava fazer com que caminhassem a seu contento, por qualquer meio que fosse.

Nem todos, porém, eram assim; nem todos tinham a indiferença filosófica de Bogoloff e o secreto desdém do hipócrita Fuas pelas coisas do Brasil. Benevenuto, que sempre fora totalmente infenso aos conluios políticos, que mesmo duvidava da pátria, sentia dentro de sei energias até agora sopitadas. Aquele espetáculo de subserviência geral, aquele amordaçamento da opinião, aquela série de delitos de toda a natureza, reagiram sobre ele e tiraram-no do seu quietismo.

A revolta era contra os oprimidos e contra os opressores, mais contra estes, pois eram reincidentes na sua opressão, feita sem ideal, sem desejo de realizar grandes obras, mas instigadas unicamente por uma pueril vaidade e justificada com sentenças cheias de heresias liberticidas.

Os últimos sucessos escandalizaram-no; ele tinha como que remorsos deles, vergonha, sem ter tomado parte direta ou indiretamente neles. Acusava o seu silêncio, julgava-se covarde e, com a sua covardia, responsável por tudo o que de sangue, de opressão, de força bruta e selvagem se anunciava.

Só, naquela noite, em sua casa, não pode ler os seus livros habituais. Os seus olhos mareavam-se ao contemplar os seus livros e os seus quadros. Havia como que sentimentos da impotência do pensamento, da cultura, do sangue dos mártires e das vigílias dos sábios, para melhorar a nossa condição... Fumava...A luz elétrica brilhava segura. Contemplou um grande mapa do Brasil à parede... Ele estava na sombra. Pensou em dormir; mas viu bem que a sua angústia de alma não o deixaria conciliar no sono.

Saiu do Catete onde morava. Veio a pé bordando o mar. O céu estava povoado pelo luar. Benevenuto rodava o cais a olhar, ora aquelas casa sombrias, fechadas, adormecidas; ora, o mar, coberto de densa película clara, com manchas espaçadas, mais brilhantes, aqui e ali. As luzes esféricas de Villegaignon brilhavam muito azuis no seio do luar prateado. As montanhas muito negras, que a fosca claridade da lua fixava melhor o seu negrume, erguiam-se em Niterói; eram muralhas, ameias de um castelo fantástico em cujos altos torreões sentinelas vigiavam a muda obscuridade das planuras que se supunham do outro lado. A rua da Lapa iluminada, agitada pelo trânsito, tomou-lhe os passos.

Uma dama, vivendo dentro de uma atmosfera inebriante de perfumes fortes, cortou-lhe o caminho e perturbou-lhe por momentos o seguimento das idéias e o vôo dos seus desejos. Outras passaram estonteantes de irritantes perfumes, vestidos farfalhantes, altos chapéus, como velas enfunadas ao vento propício.

O largo da Lapa tinha as sua habitual agitação noturna e o seu trânsito; lá, mais além os Arcos, o aqueduto - um pontilhão sobre o lago infernal em que as almas ardiam como corpos e os corpos como miseráveis fragmentos de palha.

Os botequins estavam cheios; as garrafas espoucavam; músicas fanhosas e cansadas esforçavam-se por dar compasso e medida àquela agitação; os carros dormiam às portas dos clubes e os automóveis passavam céleres; o Passeio Público esperava o dia para o encontro dos amorosos e dos namorados inocentes.

Benevenuto entrou num café, quis encontrar, no atordoamento e na alegria dos outros, o pensamento calmo que lhe fugia. Um instante viu aquelas mulheres, aqueles chapéus, aquelas plumas; e o seu pensamento continuou triste. A lua se ocultara.

Continuou a descer, encaminhou-se para a cidade. Avenida. O Teatro Municipal enterrava-se um pouco mais. Tubos de borracha sobre patins de roda lavavam o asfalto e os lavadores viam com indiferença a sua vagabundagem atormentada.

Na estação do Jardim, os bondes demoravam-se mais um pouco a reconhecer o lugar e a rua do Ouvidor já tinha aqui e ali, os seus ambulantes cafés noturnos. Foi no largo de São Francisco que notou alguma coisa de anormal na cidade. Doidas galopadas de moleques, correrias de garotos com a cabeça ao ar provocaram-lhe a curiosidade. As ruas se animavam. Bandos de homens, mulheres, corriam, apressavam o passo. Plácidas travessas de medíocres movimento agitavam-se como em dia de festa. Que era?... Diziam: é grande... é na rua do Senado... na rua do Riachuelo... E ele tinha com grande dificuldade a explicação para aquela estranha excitação de gente de condição mais vária, naquela hora. Que seria? Era um incêndio. Por sobre as casas, viu um penacho de nuvens negras, às vezes, na base, percebia-se uma barra alaranjada de ouro. Tomou um bonde no Campo de Sant'Ana, distinguiu nitidamente o incêndio. Existiam no edifíciovulcão em erupção. No núcleo central, por cima dos telhados,ava-se em novelos negros, leves, a voar, ao vento ligeiro que soprava.

Um enxame de fagulhas subia, brilhantes e vivas, até muito alto; e, no céu pardacento da fumarada negra, brilhavam como estrelas ígneas.

A uma oscilação da chama, o fundo verde do morro se descobria e o casario branco da encosta surgia numa visão de teatro. Um pouco em frente, as barras de um andaime dividiam o campo chamejante em quadrículos e a torre azul de São Gonçalo Garcia erguia-se no seu suporte de pedra. Viam-se-lhe os sinos aureolados de fogo e o cruzeiro desenhava-se no céu cinzento de fumaça. O povo continuava a correr. Havia nas frases, nos gestos, no andar, alegria e curiosidade. Todos corriam...

Onde é? Onde é? No Tribunal... Na Avenida... Na Ordem do Carmo... E corriam mulheres, homens, roçando-se, empurrando-se, mas sempre com ternura em comunhão, quase sempre aos abraços; e, por aquela multidão, ao fogaréu que braseava forte, perpassava um desejo de carícia, de beijos de amor - tal em nós é a força com que a destruição desperta na nossas almas a necessidade da eternidade. Velhos cultos ancestrais do fogo sagrado do lar, do fogo elementar do Céu, da fogueira comum, trabalhavam aquelas almas, más e inocentes, perversas e piedosas, de gente vinda dos mais estranhos climas, das raças mais várias, de pessoas de cultura mais diversa, para contemplar o magnífico espetáculo do fogaréu violento. Da eterna morte vem a eterna vida, e o sacerdócio daquela é o sacerdócio desta... Destruído um milhão, em pouco, dos despojos deste, surgirão os vencedores e os perfeitos...

E o povo na rua, aos "cordões" carnavalescos, cantando, gritando, corriam para o fogaréu e os que lá chegaram em primeiro lugar, espantavam para dentro do prédio incendiado os muares que dele fugiam espavoridos.

De onde em onde, uma máquina dos bombeiros, arrastada por muares, abria, por entre a multidão excitada, um sulco, deixando um rastilho de fogo.